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Înainte
Înainte

Cuprins: I.1, I.2, I.3, I.4, I.5, II.1, II.2, II.3, II.4, II.5


Trabalhei muito, durante toda a semana.

Raimundo veio visitar-me, dizendo que mandara a carta. Fui duas

vezes ao cinema com o Manuel, que nem sempre compreende lá muito bem o que se passa na tela. Preciso de lhe ir explicando o filme. Ontem foi sábado e, como ficara combinado, a Maria veio a minha casa. Desejei-a intensamente, porque trazia um vestido às riscas brancas e encarnadas e sandálias de couro. Adivinhavam-selhe os seios duros e o queimado do sol dava-lhe uma cara de flor. Tomamos um autocarro e fomos para uma praia cercada de rochedos e com canteiros de rosas do lado da terra, a alguns quilômetros de Argel. O sol às quatro horas não estava quente demais, mas a água estava morna, com pequenas ondas longas e preguiçosas. Maria ensinou-me um jogo. Era preciso, nadando, beber à cresta das ondas, acumular toda a espuma na boca e, pondo-nos em seguida de costas, projetá-la para o céu. Isto fazia uma espécie de renda espumosa que desaparecia no ar ou, como uma chuva quente, nos caía na cara. Mas ao fim de algum tempo, tinha a boca a arder devido ao sal. Maria veio então ter comigo e colou-se a mim, na água. Beijamo-nos. A língua dela refrescava-me os beiços e rolamos durante alguns momentos nas vagas.

Quando nos vestimos na praia, Maria olhava -me com

olhos brilhantes. Voltei a beijá-la. A partir daí, não falamos mais. Apertei-a contra mim e só queríamos apanhar depressa um autocarro, ir para minha casa e deitarmo-nos na minha cama. Deixei a janela aberta, e era bom, sentir aquela noite de verão escorregar ao longo dos nossos corpos morenos.

Esta manhã, Maria ficou comigo e combinamos almoçar juntos.

Desci à rua para ir comprar carne. Ao voltar, ouvi uma voz de mulher no quarto de Raimundo. Pouco depois, o velho Salamano ralhou com o cão, ouvimos um barulho de botas e de patas nos degraus de madeira da escada e depois: "Bandido, cão nojento", saíram para a rua. Contei-lhe a história do velho e ela riuse. Vestira um dos meus pijamas e estava de mangas arregaçadas. Quando se riu, voltei a sentir desejo por ela. Instantes depois, perguntou-me se eu a amava. Respondi-Lhe que não queria dizer nada, mas que me parecia que não: Ficou com um ar triste. Mas, ao preparar o almoço, e sem que viesse a propósito, voltou a rir-se de tal forma, que a beijei outra vez. Foi neste momento que rebentou a discussão em casa do Raimundo.

Ouviu-se primeiro uma voz estridente de mulher e depois a

de Raimundo, dizendo: "Enganaste-me, enganaste-me. Agora é que eu te vou ensinar...”

Uns ruídos surdos e a mulher pôs-se a berrar, mas de uma maneira

tão horrível, que o átrio se encheu de gente. A mulher continuava a gritar e Raimundo continuava a bater-lhe. Maria disse-me que era terrível e eu não respondi. Pediu-me para ir chamar um polícia, mas eu respondi-lhe que não gostava dos polícias. Mas o meu vizinho do segundo andar, que é canalizador, encarregou-se de ir buscar um. Este bateu à porta de Raimundo e não se ouviu mais nada. Bateu com mais força e, ao fim de alguns instantes, a mulher chorou e Raimundo abriu. Tinha um cigarro na boca e um ar melífluo. A mulher precipitou-se para a porta e declarou ao polícia que Raimundo lhe tinha batido. "O teu nome", disse o polícia. Raimundo respondeu-lhe. "Tira o cigarro da boca enquanto me estás a falar", disse o polícia. Raimundo hesitou, olhou para mim e ficou com o cigarro na boca. Neste momento, o polícia deu-lhe uma bofetada com toda a força, em plena cara. O cigarro foi cair alguns metros mais adiante. Raimundo mudou de expressão, mas não disse nada, até que perguntou com uma voz humilde se podia ir apanhar o cigarro. O agente declarou que sim e acrescentou: "Mas ficas a saber que um polícia, não é nenhum fantoche". Entretanto a rapariga chorava, repetindo: "Ele bateu-me, é um malandro". "Sr. Guarda, perguntou, Raimundo então, é da lei, chamar malandro a um homem?”

Mas o polícia mandou-Lhe que "calasse o bico".
Raimundo voltou-se para a mulher e disse: "Não perdes

pela demora, pequena, está descansada." O polícia disse-lhe que se calasse, que a mulher tinha que se ir embora e que ele ficasse no quarto até receber convocação do comissariado. Acrescentou que Raimundo devia ter vergonha de estar bêbedo ao ponto de todo ele tremer. Raimundo explicou: "Não estou bêbedo, Sr. guarda. Mas diante de si, não posso deixar de tremer". Fechou a porta e todos se foram embora. Maria e eu acabamos de preparar o nosso almoço. Como ela não estava com fome, comi quase tudo. Saiu à uma hora e ainda dormi um bocado.

Pelas três horas bateram à porta e Raimundo entrou.

Deixei-me ficar deitado. Sentou-se na borda da cama. Ficou uns instantes sem falar e eu perguntei-lhe como é que o caso se tinha passado. Contou-me que fizera o que fora planeado, mas que ela Lhe dera uma bofetada e que então começara a baterlhe. Quanto ao resto, eu tinha-o visto com os meus próprios olhos. Disse-Lhe que me parecia que, agora que ela estava castigada, já podia estar contente. Era também a opinião dele, e observou ainda que, por mais que a polícia fizesse, já ninguém Lhe tirava a pancada que recebera. Acrescentou que conhecia os polícias e sabia perfeitamente como se deve lidar com eles. Perguntou-me então se eu julgara que ele ia responder à bofetada do polícia. Respondi-lhe que não julgara absolutamente nada e que, aliás, não gostava dos polícias. Raimundo pareceu ficar muito contente. Perguntou-me se queria sair com ele. Levantei-me e comecei-me a pentear. Disse que era preciso que eu servisse de testemunha. A mim, tanto se me dava, mas não sabia o que havia de dizer. Na opinião de Raimundo, bastava declarar que a mulher o enganara. Aceitei ser testemunha.

Saímos e Raimundo ofereceu-me um copo de aguardente.

Depois quis jogar uma partida de bilhar e ganhou-me por pouco. A seguir, queria ir a um bordel, mas eu disse que não, porque não tinha vontade. Então voltamos lentamente para casa e ele voltou a dizer até que ponto se sentia contente por ter conseguido castigar a amante. Achei-o muito simpático comigo e pensei que era um momento bem agradável.

Distingui ao longe, na soleira da porta, o velho Salamano com um

ar agitado. Quando nos aproximamos, reparei que não estava com o cão. Olhava para todos os lados, dava voltas sobre si mesmo, tentava penetrar com os olhos na escuridão do corredor, resmungava palavras sem nexo e recomeçava a observar a rua com os seus pequenos olhos avermelhados. Quando Raimundo lhe perguntou o que se passava, não respondeu logo a seguir. Ouvi-o vagamente murmurar: "Bandido, cão nojento", e continuou a agitar-se. Perguntei-lhe onde estava o cão. Respondeu - me bruscamente que se fora embora. E depois, de repente, pôs-se a falar muito: "Levei-o como de costume ao Campo das Manobras”. Em volta das barracas da feira, havia muita gente. Parei um bocado para olhar «o Rei da Evasão». E quando me quis ir embora, não o vi. Há muito tempo que lhe queria comprar uma coleira menor. “Mas nunca pensei que esse cão nojento fugisse desta maneira"

Raimundo explicou-lhe então que o cão possivelmente se perdera e

que havia de voltar. Citou-lhe vários exemplos de cães que tinham percorrido dezenas de quilômetros para encontrar os donos. Apesar disso, o velho estava cada vez mais agitado.

"Vão apanhá-lo, com certeza. Ainda, se alguém o recolhesse...

Mas não! Com aquelas feridas, enoja toda a gente. A carroça leva-o, tenho a certeza". Eu disse-lhe então que se dirigisse à Câmara e que lho devolviam, caso pagasse o imposto. Perguntou-me se este imposto era muito caro: Eu não sabia. Neste momento, encolerizouse: "Dar dinheiro por aquele cão nojento?! Ele que rebente para aí!" E pôs-se a insultá-lo. Raimundo riu e entrou em casa. Segui-o, e despedimo-nos à porta dos nossos quartos. Pouco depois ouvi os passos do velho e bateram à porta. Fui abrir e ele ficou uns instantes a olhar para mim. Disse:

- "Desculpe, desculpe". Convidei-o a entrar, mas ele não quis.

Olhava para as pontas dos pés e tremiam-lhe as mãos. Olhando para o lado, perguntou: "Não o vão apanhar, pois não, Sr. Meursault? Vão-mo dar outra vez, não vão? O que vai ser de mim?! O que vai ser de mim?!" Disse-lhe que os cães ficavam durante três dias na câmara à disposição dos donos e que, depois disso, lhes davam o destino que melhor lhes parecia. Olhou para mim sem dizer uma palavra. Depois, disse: "Boas noites". Fechou a porta e ouvi-o andar de um lado para o outro. A cama dele rangeu. E, pelo estranho barulho que me chegava através da parede, compreendi que estava a chorar. Não sei porquê, pensei na minha mãe. Mas no dia seguinte, precisava de me levantar cedo. Não tinha fome e deitei-me sem jantar. Raimundo telefonou-me para o escritório. Disse-me que um amigo dele, a quem falara de mim, me convidava para passar o domingo numa casa que tinha perto de Argel. Respondi que gostaria de ir, mas que já combinara passar o domingo com uma amiga. Raimundo declarou imediatamente que também a convidava. A mulher do amigo ficaria, até, muito contente por não ser a única no meio de um grupo de homens. Quis desligar imediatamente, pois sei que o chefe não gosta que estejamos ao telefone. Mas Raimundo pediu-me para esperar e disse que me poderia ter transmitido o convite à noite, mas me queria avisar de outra coisa. Fora seguido durante todo o dia por um grupo de Árabes entre os quais estava o irmão da sua antiga amante. "Se os vires esta noite perto da nossa casa, avisa-me". Respondi que estava combinado.

Pouco depois o chefe mandou -me chamar e fiquei

aborrecido porque pensei que me ia dizer para telefonar menos e trabalhar mais. Não era nada disso. Declarou que me ia falar num projeto ainda muito vago. Queria apenas saber a minha opinião sobre o assunto. Tencionava instalar um escritório em Paris, para tratar diretamente com as grandes companhias e perguntou-me se eu estava disposto a ir. Poderia assim viver em Paris e viajar durante parte do ano. "Você ainda é novo e creio que essa vida lhe agradaria". Disse que sim, mas que no fundo me era indiferente. Perguntou-me depois se eu não gostava de uma mudança de vida. Respondi que nunca se muda de vida, que em todos os casos, todas as vidas se equivaliam e que a minha, aqui, não me desagradava. Mostrou um ar descontente, disse que eu respondia sempre à margem das questões, e que não tinha ambição, o que para os negócios era desastroso. Voltei para o meu trabalho. Teria preferido não o descontentar, mas não via razão nenhuma para modificar a minha vida. Pensando bem, não era infeliz. Quando era estudante, alimentara muitas ambições desse gênero. Mas quando abandonei os estudos, compreendi muito depressa que essas coisas não tinham verdadeira importância.

Maria veio buscar-me à noite e perguntou-me se eu queria casar

com ela. Respondi que tanto me fazia, mas que se ela de fato queria casar, estava bem. Quis então saber se eu gostava dela. Respondi, como aliás respondera já uma vez, que isso nada queria dizer, mas que julgava não a amar. "Nesse caso, porquê casar comigo?", disse ela. Respondi que isso não tinha importância e que, se ela quisesse, nos podíamos casar. Era ela, aliás, quem o perguntava, e eu contentava-me em dizer que sim. Maria observou então que o casamento era uma coisa muito séria. Respondi: "Não". Maria calouse durante uns instantes e olhou-me em silêncio. Depois, falou. Queria simplesmente saber se, vinda de outra mulher com a qual estivesse relacionado do mesmo modo, eu teria aceito uma proposta semelhante. Respondi: "Possivelmente". Perguntou então de si para si se gostaria de mim, mas, sobre esse ponto, como poderia eu saber alguma coisa? Depois de mais uns instantes de silêncio, murmurou que eu era uma pessoa estranha, que gostava de mim se calhar por isso mesmo, mas que um dia, pelos mesmos motivos, era capaz de passar aos sentimentos contrários. Como eu me calasse, por não ter nada a acrescentar, tomou-me o braço a sorrir e declarou que queria casar comigo. Respondi que sim, logo que ela quisesse. Falei-lhe então na proposta do chefe e Maria disseme que gostaria de conhecer Paris. Contei-lhe que lá vivera durante algum tempo e ela perguntou-me como era a cidade. Respondi: "suja. Há pombas e pátios escuros. As pessoas têm a pele muito branca".

Depois passeamos, escolhendo as grandes ruas. As mulheres eram

bonitas e perguntei a Maria se ela achava o mesmo. Disse que sim, e que me compreendia. Depois calamo-nos. Queria, no entanto, que ela ficasse comigo e disse-lhe que poderíamos jantar juntos no Celeste. Maria replicou que gostaria muito, mas tinha que fazer. Estávamos ao pé da minha casa e eu disse-lhe adeus. Ela olhou para mim: "Não queres saber o que é que tenho que fazer?" Eu queria, mas não me lembrara de lho perguntar e era por isso que estava com um ar de censura. Diante do meu ar embaraçado, voltou então a rir e, para me estender a boca, teve para mim um movimento de todo o corpo.

Jantei no restaurante do Celeste. Começara já a comer, quando

entrou uma mulherzinha esquisita e veio perguntar se podia sentarse à minha mesa. Porque não havia de poder? Fazia gestos bruscos e tinha uns olhos brilhantes, inseridos numa pequena cara de maçã. Tirou o casaco, sentou-se e consultou febrilmente a lista. Chamou o Celeste e pediu imediatamente os pratos que queria, com uma voz ao mesmo tempo precisa e precipitada. Enquanto esperava os acepipes, abriu a carteira, tirou um pequeno quadrado de papel e um lápis, fez a conta ao que tinha que pagar, e depois tirou do porta-moedas, acrescentando-lhe a gorjeta, a quantia exa ta. Colocou-a diante dela. Nesse momento levaram-lhe os acepipes, que engoliu a toda a velocidade. Enquanto esperava o prato seguinte tirou ainda da carteira um lápis azul e uma revista que dava os programas radiofônicos da semana.

Com o maior cuidado, sublinhou um a um quase todos

os programas. Como a revista tinha umas doze pá ginas, continuou este trabalho metodicamente durante toda a refeição. Já eu acabara de comer, e ainda ela estava a sublinhar, sempre com a mesma aplicação. Depois levantou-se, vestiu o casaco com os mesmos gestos precisos de autômato e saiu. Como não tinha nada que fazer, também saí e segui-a durante uns momentos. Colocou-se à beira do passeio e, com uma segurança e uma rapidez incríveis, seguia o seu caminho sem se desviar e sem olhar para os lados. Acabei por perdê-la de vista e por voltar para trás. Achei que era uma mulher estranha, mas depressa a esqueci.

À porta de casa, encontrei o velho Salamano. Disse-lhe para entrar

e ele informou-me que o cão se perdera, pois não estava na Câmara. Os empregados haviam -lhe dito que fora, talvez, atropelado. Perguntara se não era possível sabê -lo nos comissariados da polícia. Tinham-Lhe respondido que eles não tomavam nota de coisas como essas, pois aconteciam todos os dias. Disse ao velho Salamano que podia arranjar outro cão, mas ele respondeu-me com toda a razão aliás, que estava habituado àquele.

Eu estava estendido na cama e Salamano sentara-se numa cadeira

em frente da mesa. Estava voltado para mim e tinha as mãos em cima dos joelhos. Conservara o velho chapéu na cabeça: Sob o bigode amarelecido, mastigava f rases que depois não acabava. Massava-me um bocado, mas como não tinha nada que fazer e não estava com sono, não me importei. Para dizer alguma coisa, fiz-Lhe perguntas sobre o cão. Disse-me que o arranjara depois da morte da mulher. Casara-se bastante tarde. Na sua mocidade, tivera vontade de entrar para o teatro: na tropa, representara em várias récitas militares. Mas acabara por entrar para os caminhos de ferro e não estava arrependido, pois agora davam-Lhe uma pequena reforma. Não fora feliz com a mulher, mas, por fim, habituara-se a ela. Quando esta morrera, sentira-se muito só: Pedira então a um colega do escritório para lhe dar um cão, e fora-Lhe oferecido este, quase recém-nascido. Tivera que o alimentar a biberão. Mas como o cão vive menos do que o homem, tinham acabado por envelhecer juntos.

"Tinha mau feitio, Disse Salamano. De tempos a

tempos zangávamo-nos. Mas apesar disso, era um bom cão". Disse que o cão devia ser de boa raça, e Salamano ficou com um ar contente. "E para mais, acrescentou, não o conheceu antes da doença. Não havia pêlo mais bonito do que o dele". Todas as noites e todas as manhãs, desde que o cão aparecera com aquela doença de pele, Salamano punha-lhe pomada. Mas na sua opinião, a verdadeira doença que o cão tinha era a velhice, e a velhice não cura.

Nesse momento bocejei, e o velho anunciou que se ia embora.

Disse-lhe que podia ficar e que estava aborrecido com o que Lhe acontecera ao cão: agradeceu-me. Disse-me que a minha mãe gostara muito do cão. Ao falar dela, chamava-a "a sua pobre mãe". Emitiu a suposição que eu devia sentir-me bem infeliz desde que a minha mãe morrera. Não respondi. Disse-me então, muito depressa e com um ar embaraçado, que no bairro me tinham criticado por a ter mandado para o asilo, mas ele conheciame e sabia que eu gostava muito da minha mãe. Respondi, não sei ainda porquê, que ignorava até agora que fosse criticado por causa disso, mas que o asilo se me afigurara uma coisa muito natural, pois não tinha recursos para a manter comigo. "Além disso, acrescentei ainda, há muito tempo que não tínhamos nada que dizer um ao outro e que ela se aborrecia sozinha”.

- "Sim, disse-me ele, e no asilo, ao menos, arranjam-se amigos".

Depois, despediu-se. Queria dormir. A sua vida agora mudara completamente, e não sabia muito bem o que havia de fazer. Pela primeira vez desde que nos conhecíamos, estendeu-me a mão num gesto envergonhado e eu senti-lhe as escamas da pele. Teve um sorriso breve e, antes de sair, disse: "Espero que os cães não ladrem esta noite. Julgo sempre que é o meu". No domingo, custou-me tanto a acordar, que foi preciso a Maria chamar-me e sacudir-me. Não comemos, porque queríamos tomar cedo o banho de mar. Sentia-me completamente vazio e doía-me um pouco a cabeça. O meu cigarro tinha um gosto amargo. Maria fez troça de mim porque dizia que eu estava com uma "cara de enterro". Pusera um vestido branco e soltara os cabelos. Disse-lhe que estava bonita e ela riu de contentamento.

Ao sair, batemos à porta do Raimundo. Respondeu-nos que

já vinha. Na rua, porque estava cansado e também porque não tínhamos aberto as persianas, o dia, já cheio de sol, bateume como uma verdadeira bofetada. Maria saltava de prazer e não parava de repetir que estava ótimo. Senti-me melhor e reparei que estava com fome. Disse-o a Maria, que me mostrou o seu saco de praia, onde pusera os nossos dois fatos de banho e uma toalha. Não havia nada a fazer, senão esperar, e ouvimos Raimundo fechar a porta. Trazia umas calças azuis e uma camisa branca, de mangas curtas. Mas pusera na cabeça um chapéu de palha, de que Maria se riu muito, e sob os pêlos negros, tinha os braços muito brancos. Isto enojava-me um bocadinho. Ao descer, assobiava e tinha um ar muito contente. Disse-me: "Olá, pá", e tratou Maria por "Menina".

Na véspera tínhamos ido ao comissariado e eu testemunhara que a

mulher o "enganara". Saiu-se com um aviso e uma reprimenda. Não verificaram a minha informação. Diante da porta, falamos com Raimundo deste caso, e depois decidimo-nos a tomar o autocarro. A praia não era longe, mas assim iríamos mais depressa. Raimundo achava que o amigo ficaria contente por chegarmos tão cedo. Íamos partir quando Raimundo, de súbito, me fez um sinal para olhar em frente de mim.

Reparei num grupo de Árabes encostados a um quiosque

de tabacos. Olhavam-nos em silêncio, mas à maneira deles, como se fôssemos árvores mortas ou simplesmente pedras. Raimundo disse-me que "o tipo" era o segundo a contar da esquerda, e fez um ar preocupado. Acrescentou que, no entanto, o caso era agora história antiga. Maria não compreendia muito bem, e perguntou-nos o que se passava. Disse-lhe que eram uns Árabes, ressentidos contra Raimundo. Maria quis que nos fôssemos embora imediatamente. Raimundo endireitou-se e riu, dizendo para nos despacharmos.

Fomos para a paragem dos autocarros, que ficava um pouco mais

longe, e Raimundo anunciou que os Árabes não nos haviam seguido. Voltei-me para trás. Continuavam no mesmo lugar e olhavam com a mesma indiferença o sítio que acabávamos de deixar. Tomamos o autocarro. Raimundo, que parecia aliviado, não parava de gracejar em intenção de Maria. Senti que esta lhe agradava, mas vi - que ela não lhe respondia quase nunca. De tempos a tempos, Maria olhava-me e ria.

Descemos numa paragem dos arredores de Argel. A praia

não ficava longe. Mas foi preciso atravessar um pequeno planalto que domina o mar e que desce em seguida para a praia. Estava coberto de pedras amareladas e de abróteas brancas, sob o azul já duro do céu. Maria divertia-se a espalhar as pétalas destas flores, batendo-lhes com o saco de praia. Marchamos entre filas de pequenas vivendas com cercas verdes ou brancas, algumas escondidas, com as suas varandas, entre os tamarizes, e outras, nuas e despojadas, no meio das pedras. Antes de chegar à borda do planalto, podia-se já ver o mar imóvel e, mais longo, um cabo maciço e sonolento na água clara. Subiu até nós, no ar calmo, um ligeiro barulho de motor. E vimos, muito longe, uma pequena canoa que avançava imperceptivelmente no mar brilhante. Maria agarrou em alguns estilhaços de rocha. Da encosta que descia para o mar, vimos que já estavam vários banhistas na praia.

O amigo de Raimundo morava numa casita de madeira, no extremo

da praia. A casa encostava-se à rocha e as traves que a sustinham à frente mergulhavam já na água. Raimundo apresentou-nos. O amigo - chamava-se Masson. Era um tipo alto, entroncado, com ombros largos, e a mulher dele era baixa, gorda e simpática, com um sotaque parisiense. Disse imediatamente para nos pormos à vontade e que tinha para o almoço uns peixes fritos que ele mesmo pescara de manhã. Disse-Lhe que achava a casa muito bonita, e ele informou-me que passava ali o sábado, o domingo, e todos os feriados. "Com a minha mulher, é claro", acrescentou. Justamente, esta e Maria riam-se de qualquer coisa. Pela primeira vez, pensei seriamente que me ia casar.

Masson queria tomar banho, mas a mulher e Raimundo

não queriam ir. Descemos os três e Maria atirou-se logo à água. Masson e eu, esperamos ainda um pouco. Masson falava muito devagar e notei que tinha o costume de completar tudo quanto dizia por um "e direi mesmo mais", mesmo quando, no fundo, nada acrescentava ao sentido da frase. A propósito de Maria, disse: "estupenda e, direi mesmo mais, encantadora". Depois, deixei de prestar atenção a este tique, pois ocupava-me agora em sentir que o sol me sabia bem. A areia começava-me á aquecer, sob os pés: Retardei mais um bocado a vontade que tinha de ir para a água, mas acabei por dizer a Masson: "Vamos?" Mergulhei. Ele, entrou lentamente na água, e só mergulhou quando perdeu o pé. Nadava de bruços, bastante mal, de modo que o deixei para trás para ir ter com Maria. A água estava fria e era bom nadar. Afastei-me com Maria e sentíamonos os dois de acordo nos nossos gestos e no nosso contentamento.

Ao largo, pusemo-nos a boiar de costas e, na minha cara voltada

para o céu, o sol afastava os últimos véus de água que me escorriam para a boca. Vimos que Masson regressara à praia e se estendera ao sol. De longe, parecia enorme. Maria quis que nadássemos juntos. Coloquei-me por detrás dela, segurando-a pela cintura e ela avançava à força de braços, enquanto eu a ajudava batendo os pés. O pequeno barulho da água batida seguiu-nos ao longo da manhã, até que me senti cansado. Deixei então Maria e voltei para a praia, nadando compassadamente e respirando bem: Uma vez na praia, estendi-me de barriga para baixo ao pé de Masson e descansei a cara na areia. Disse-lhe que "era bom" e ele tinha a mesma opinião. Depois, Maria veio ter conosco, Voltei-me para a ver. Estava viscosa da água salgada e tinha os cabelos caídos para trás. Estendeu-se encostada a mim e os dois calores, o do corpo dela e o do sol, adormeceram-me um pouco.

Maria sacudiu-me e disse-me que Masson já fora para casa e era

preciso ir almoçar. Levantei-me imediatamente porque tinha fome, mas Maria disse-me que não voltara a beijá-la desde manhã. Era verdade, e também eu tinha vontade de a beijar. "Vem para a água", disse-me ela. Corremos e deixamo-nos cair nas primeiras ondas, Fizemos algumas braçadas e ela encostou-se a mim. Senti as pernas dela em volta das minhas e desejei-a.

Quando voltamos, já Masson nos chamava. Disse que estava cheio

de fome e o dono da casa declarou logo à mulher que eu lhe agradava: O pão era bom e devorei a minha porção de peixe. Depois, havia carne e batatas fritas. Comíamos sem falar. Masson bebia muito vinho e servia-me sem parar. Ao café, tinha a cabeça um pouco pesada e fumei muito. Masson, Raimundo e eu encaramos a hipótese de passar o mês de Agosto na praia, dividindo as despesas: Maria perguntou de repente: "Sabem que horas são? São onze e meia". Estávamos todos admirados, mas Masson disse que se tinha comido muito cedo, o que era natural, pois a hora do almoço era a hora em que se tinha fome. Não sei por que motivo Maria se riu tanto com isto. Julgo que bebera demais. Masson perguntou-me então se queria ir dar com ele um passeio pela praia. "A minha mulher dorme sempre a sesta depois de almoço. Eu, não gosto disso. Preciso andar. Digolhe sempre que é melhor para a saúde. Mas no fim de contas, está no seu direito". Maria declarou que ficava, para ajudar a dona da casa a lavar a louça. Esta disse que, para isso, era preciso pôr os homens na rua. Descemos os três.

O sol caía quase a pique sobre a praia e o seu brilho no mar era

insustentável. Já não estava ninguém na praia. Nas casas ao longo do planalto e que olhavam para o mar, ouvia-se o barulho de pratos e de talheres. Mal se respirava, neste calor de pedra que subia do chão. Para principiar, Raimundo e Masson falaram de coisas e pessoas que eu ignorava. Percebi que se conheciam há muito tempo e que, a certa altura, tinham mesmo vivido juntos. Dirigimo-nos para a água e andamos à beira do mar. Às vezes, uma onda mais comprida do que as outras, vinha molhar-nos os sapatos de borracha. Não pensava em nada, porque estava meio adormecido com todo este sol na minha cabeça descoberta.. A certa altura, Raimundo disse a Masson qualquer coisa que não consegui ouvir muito bem. Mas distingui ao mesmo tempo, no fim da praia e muito longe de nós, dois Árabes vestidos de azul, que vinham na nossa direção. Olhei para Raimundo, que me disse: "É ele". Continuamos a andar. Masson perguntou como é que eles nos podiam ter seguido até aqui. Pensei que nos tinham visto tomar o autocarro com um saco de praia, mas não disse nada.

Os Árabes avançavam lentamente e estavam já muito mais perto.

Não modificamos o nosso andamento, mas Raimundo disse: "Se houver pancada, tu, Masson, ficas com o segundo. Eu, encarrego-me do meu tipo. Tu, Meursault, se vier outro Árabe, é para ti". Respondi: "Está bem", e Masson meteu as mãos nas algibeiras. A areia a ferver parecia-me agora vermelha. Avançamos no mesmo passo para os Árabes. A distância entre nós foi diminuindo pouco a pouco: Quando não estávamos senão a alguns passos uns dos outros, os Árabes detiveram-se. Masson e eu começamos a andar mais devagar. Raimundo foi direito ao "seu tipo". Não percebi muito bem o que lhe disse, mas o outro fez menção de lhe dar uma cabeçada. Raimundo deu então o primeiro soco e logo a seguir chamou Masson. Masson dirigiu-se ao que Lhe fora destinado e deu-Lhe dois socos com toda a força. O outro caiu no mar, de barriga para baixo, a cara dentro de água e ficou assim alguns segundos, perto da cabeça dele, rebentavam à superfície bolhas de ar. Durante este tempo, Raimundo continuou a lutar e o outro tinha a cara cheia de sangue. Raimundo voltou-se para mim e disse: "Vais ver o que ele vai apanhar!" Gritei-lhe: "Atenção, o tipo tem uma navalha!" Mas, Raimundo tinha já o braço aberto e um golpe na boca. Masson deu um salto para a frente. Mas o outro Árabe levantara-se e colocara-se atrás do que estava armado. Não ousamos mexer-nos. Os Árabes recuaram lentamente, sem deixar de nos falar e de nos ameaçar com a navalha. Quando viram que a distância era suficiente, fugiam muito depressa, enquanto nós ficávamos ali pregados, ao sol, e Raimundo agarrava no braço a escorrer sangue. Masson disse imediatamente que conhecia um médico que passava os domingos no pequeno planalto. Raimundo quis ir sem demora tratar das feridas. Mas, cada vez que falava, o sangue borbulhavaLhe na boca. Ajudando-o a andar, voltamos para casa o mais depressa possível. Aí, Raimundo disse que afinal as feridas eram superficiais e que podia ir já ao médico. Saiu com Masson e eu fiquei para explicar às mulheres o que se tinha passado. A mulher de Masson chorava e Maria estava muito pálida. Era aborrecido, ter de Lhes explicar. Por fim, calei-me e pus-me a fumar, olhando para a paisagem do mar. Pela uma e meia, Raimundo e Masson voltaram. Raimundo trazia o braço ligado e adesivo no canto da boca. O médico dissera-Lhe que não fora nada de importante, mas estava com um ar sombrio. Masson tentou fazê-lo rir. Mas ele não dizia nada. A certa altura, disse que queria descer à praia, e eu perguntei-lhe onde ia. Respondeu que lhe apetecia apanhar ar. Masson e eu dissemos que o acompanhávamos. Então, encolerizouse e insultou-nos. Masson declarou que não devíamos contrariá-lo. Apesar disso, fui com ele. Andamos muito tempo, ao longo da praia. O sol estava agora esmagador. Estilhaçava-se na praia e no mar. Tive a impressão de que Raimundo sabia onde ia, mas talvez estivesse enganado. Mesmo no fim da praia, chegamos a uma pequena fonte que corria para a areia, em direção ao mar, por detrás de um grande rochedo. Aí, encontramos os dois Árabes. Estavam deitados, com os seus trajes azuis e sujos. Tinham um ar calmo e quase beatífico. A nossa chegada não os incomodou. O que ferira Raimundo, olhava-o sem dizer uma palavra. O outro soprava numa flauta feita à mão e repetia interminavelmente, olhando-nos de viés , as três notas que conseguia obter do instrumento. Durante todo este tempo, havia só o sol e este silêncio, com o leve ruído da nascente e das três notas musicais. Depois Raimundo levou a mão à algibeira de trás das calças, mas o outro não se moveu. Continuavam a fitar-se. Reparei que o que tocava flauta tinha os dedos dos pés muito afastados. Sem tirar os olhos do adversário, Raimundo perguntou-me: "Dou cabo dele?" Pensei que, se dissesse que não, ficaria excitado e dispararia com certeza. Disse unicamente: "O tipo ainda não disse nada. Disparar assim sem mais nem menos, não seria bonito". Ouviu-se ainda o leve ruído da água e da flauta, no coração do silêncio e do calor. Depois, Raimundo disse: "Então vou insultá-lo e quando ele responder ,dou cabo dele". Respondi: "Isso mesmo. Mas se o tipo não puxar da navalha, não podes atirar". Raimundo começou a enervar-se. O outro continuava a tocar e os dois observavam atentamente os gestos de Raimundo. "Não, disse eu a Raimundo. Vai-te a ele, homem a homem e dá -me o revólver. Se o outro intervém ou se puxa a navalha, mato-o". Quando Raimundo me deu o revólver, o sol refletiu-se na arma. Ficamos imóveis, como se tudo se houvesse fechado em nossa volta. Olhávamo-nos sem baixar os olhos e tudo aqui se detinha entre o mar, a areia, o sol, e o duplo silêncio da flauta e da água Pensei neste instante que disparar ou não disparar, era tudo o mesmo. Mas bruscamente, os Árabes começaram a recuar e desapareceram por detrás do rochedo. Raimundo e eu voltamos então para casa. Raimundo parecia estar melhor e falou no autocarro da volta. Acompanhei-o até casa e, enquanto ele subia a escada de madeira, eu fiquei no primeiro degrau, a cabeça cheia de sol, sem coragem para o esforço que era preciso fazer para subir as escadas de madeira e voltar a abordar as mulheres. Mas o calor era tão grande que me era igualmente penoso ficar assim imóvel, sob a chuva de luz que caía do céu. Ficar aqui ou partir, vinha a dar na mesma. Ao fim de alguns instantes, voltei para a praia e comecei a andar.

Era o mesmo brilho avermelhado. Na areia, o mar ofegava com a

respiração rápida e abafada das pequenas ondas que se sucediam umas às outras. Dirigia-me lentamente para os rochedos e sentia que a testa me inchava, sob o peso do sol. Todo este calor se apoiava contra mim, opondo-se ao meu avanço. E cada vez que sentia o sopro quente deste calor enorme na minha cara, cerrava os dentes, apertava os punhos nas algibeiras das calças, retesava-me todo para triunfar do sol e da embriagues opaca que caía sobre mim. A cada espada de luz surgida da areia, de uma concha esbranquiçada ou de um vidro partido, os queixos crispavam-se-me. Andei assim durante muito tempo. Distinguia, de longe, a pequena massa sombria do rochedo, rodeado de uma auréola formada pela luz e pela poeira do mar. Pensava na nascente fresca que havia por detrás do rochedo. Desejava reencontrar o murmúrio da água que dela brotava, desejava fugir ao sol, ao esforço, às lágrimas da mulher, desejava enfim, reencontrar a sombra e o repouso. Mas quando cheguei mais perto, vi que o Árabe de Raimundo voltara ali. Estava só. Descansava de costas, as mãos debaixo da nuca, a cabeça nas sombras do rochedo e o resto do corpo ao sol. O seu trajo azul fumegava de calor. Fiquei um pouco admirado. Para mim, era história antiga, e viera para aqui sem pensar no caso. Logo que me viu, levantou-se e meteu a mão na algibeira. Eu, muito naturalmente, agarrei no revólver de Raimundo, dentro do casaco. Então, o Árabe deixou-se cair outra vez para trás, mas sem tirar a mão da algibeira. Eu estava bastante longe dele, a uns dez metros de distância. Adivinhava-Lhe por instantes o olhar, entre as pálpebras semicerradas. Mas a maioria das vezes, a imagem dele dançava diante dos meus olhos, na atmosfera inflamada. O barulho das vagas era ainda mais preguiçoso do que ao meio-dia. Eram o mesmo sol e a mesma luz, que se prolongavam até este momento. Há já duas horas que o dia deitara a sua âncora neste oceano de metal fervente. No horizonte, passou um pequeno vapor. Adivinhei-lhe a mancha negra com o canto do olho, pois não cessava de fitar o Árabe.

Pensei que me bastava voltar para trás e tudo ficaria resolvido. Mas

atrás de mim, comprimia-se uma imensa praia vibrante de sol. Dei alguns passos para a nascente. O Árabe não se moveu. Apesar disso, estava ainda bastante longe. Parecia sorrir, talvez por causa das sombras que se lhe projetavam na cara. Esperei. A ardência do sol queimava-me as faces e senti o suor amontoar-se-me nas sobrancelhas. Era o mesmo sol do dia em que a minha mãe fora a enterrar e, como então, doía-me a testa, sobretudo a testa e todas as suas veias batiam ao mesmo tempo debaixo da pele. Por causa desta queimadura que já não podia suportar mais, fiz um movimento para a frente. Sabia que era estúpido, que não me iria desembaraçar do sol, simplesmente por dar um passo em frente. Mas dei um passo, um só passo em frente. E desta vez, sem se levantar, o Árabe tirou a navalha da algibeira e mostrou-ma ao sol. A luz refletiu-se no aço e era como uma longa lâmina faiscante que me atingisse a testa. No mesmo momento, o suor amontoado nas sobrancelhas correu-me de súbito pelas pálpebras abaixo e cobriu-as com um véu morno e espesso. Os meus olhos ficaram cegos, por detrás desta cortina de lágrimas e de sal. Sentia apenas as pancadas do sol na testa e, indistintamente, a espada de fogo brotou da navalha, sempre diante de mim. Esta espada a arder corroía-me as pestanas e penetrava-me nos olhos doridos. Foi então que tudo vacilou. O mar enviou-me um sopro espesso e fervente. Pareceu-me que o céu se abria em toda a sua extensão, deixando tombar uma chuva de fogo. Todo o meu ser se retesou e crispei a mão que segurava o revólver. O gatilho cedeu, toquei na superfície lisa da coronha e foi aí, com um barulho ao mesmo tempo seco e ensurdecedor, que tudo principiou. Sacudi o suor e o sol. Compreendi que destruíra o equilíbrio do dia, o silêncio excepcional de uma praia onde havia sido feliz. Voltei então a disparar mais quatro vezes contra um corpo inerte onde as balas se enterravam sem se dar por isso. E era como se batesse quatro breves pancadas à porta da desgraça.


Înainte
Înainte

Cuprins: I.1, I.2, I.3, I.4, I.5, II.1, II.2, II.3, II.4, II.5

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