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Capítulo LXI Meios de livrar um jardineiro dos ratos-dos-pomares que lhe comem os pêssegos Não na mesma tarde, como dissera, mas sim no dia seguinte, o conde de Monte-Cristo saiu pela barreira do Inferno, tomou a estrada de Orleães, passou pela aldeia de Linas sem se deter no telégrafo, que precisamente no momento da passagem do conde movia os seus longos braços descarnados, e alcançou a torre de Montlhéry, situada, como todas as pessoas sabem, no ponto mais elevado da planície do mesmo nome. Ao pé da colina o conde apeou e, por um caminho circular, de dezoito polegadas de largura, começou a subir a encosta. Chegado no alto, viu-se detido por uma sebe na qual frutos verdes tinham sucedido às flores cor-de-rosa e brancas. Monte-Cristo procurou a porta do pequeno recinto e não tardou a encontrála. Era uma cancelinha de madeira que girava em gonzos de vime e se fechava com um prego e um cordel. O conde não tardou a descobrir o funcionamento do “mecanismo” e a porta abriu-se. Monte-Cristo encontrou-se então num jardim de vinte pés de comprimento por doze de largura, limitado por um lado pela parte da sebe em que se enquadrava o engenhoso maquinismo que descrevemos sob o nome de porta e pelo outro pela velha torre rodeada de hera, toda salpicada de mostarda-brava e goivos. Ninguém diria, ao vê-la assim engelhada e florida como uma avó a quem os netinhos acabassem de dar os parabéns pelo seu aniversário, que poderia contar muitos dramas terríveis se juntasse uma voz aos ouvidos ameaçadores que um velho provérbio atribui às muralhas. Percorria-se o jardim seguindo por uma alameda coberta de saibro vermelho, ladeada de espessa sebe de luxo de vários tons, que teriam deliciado os olhos de Delacroix, o nosso Ruhens moderno. A alameda tinha a forma de um X e serpenteava continuamente de forma a abrir num jardim de vinte pés um passeio de sessenta. Nunca Flora, a alegre e fresca deusa dos bons jardineiros latinos, fora honrada com um culto tão minucioso e puro como o que lhe prestavam naquele recinto. Com efeito, de vinte roseiras que compunham os canteiros nem uma folha apresentava sinal de mosca, nem uma hastezinha o pequeno cacho de pulgõesverdes que devastam e roem as plantas que vegetam em terreno úmido. No entanto, não era a umidade o que faltava naquele jardim a terra negra como fuligem e a folhagem opaca das árvores bem o denunciavam. Aliás, a umidade artificial substituiria rapidamente a umidade natural, se fosse preciso, graças ao casco cheio de água estagnada que escavava um dos cantos do jardim e no qual estacionavam, numa toalha verde, uma rã e um sapo, que, por incompatibilidade de humor, sem dúvida, se conservavam sempre, de costas um para o outro, nos dois pontos opostos do círculo. Além disso, nem uma erva nas alamedas, nem um rebento parasita nas guarnições dos canteiros. Uma elegante pretensiosa arranjaria e podaria com menos cuidado os gerânios, os cactos e os rododendros da sua jardineira de porcelana do que o dono até então invisível do pequeno recinto. Monte-Cristo parou depois de fechar a porta prendendo o cordel no prego e abarcou num olhar toda a propriedade. “Parece que o homem do telégrafo tem jardineiros contratados ao ano ou então que se dedica apaixonadamente à jardinagem”, disse para consigo. De súbito, esbarrou com qualquer coisa agachada atrás de um carrinho de mão carregado de folhas. Essa qualquer coisa endireitou-se, deixou escapar uma exclamação que denotava a sua surpresa e Monte-Cristo encontrou-se diante de um homenzinho dos seus cinquenta anos que apanhava morangos que colocava em cima de folhas de videira. Ao levantar-se, o pobre homem quase deixou cair morangos, folhas e prato. - Está fazendo a sua colheita, senhor? - perguntou Monte-Cristo, sorrindo. - Perdão, senhor - respondeu o homenzinho, levando a mão ao boné -, não estou lá em cima, é certo, mas acabo de descer neste preciso instante. - Não quero incomoda-lo em nada, meu amigo - tranquilizou-o o conde. - Apanhe os seus morangos à vontade, se ainda não acabou. - Faltam-me dez - disse o homem. - Estão aqui onze e ao todo são vinte e um, mais cinco do que o ano passado. Mas não admira, este ano a Primavera foi quente e os morangos precisam de calor. Aí está porque, em vez dos dezesseis que tive o ano passado, este ano tenho, como vê, onze já colhidos... doze, treze, catorze, quinze, dezesseis, dezessete, dezoito, dezenove... Oh, meu Deus, faltamme dois! E ainda estavam ontem, senhor; estavam, tenho a certeza, porque os contei. Oxalá não tenha sido o filho da Tia Simon que mos roubou; vi-o a rondar por aqui esta manhã... Grande patife, roubar num recinto fechado! Bem se vê que não sabe onde isso pode leválo. - De fato - concordou Monte-Cristo - o caso é grave, mas o senhor terá em conta a juventude do delinquente e a sua gulodice. - Claro - respondeu o jardineiro. - Mas mesmo assim, o caso não deixa de ser muito desagrável. Oh, mais uma vez perdão, senhor? É talvez um chefe que faço esperar assim?... E interrogava com um olhar receoso o conde e a sua sobrecasaca azul. - Tranquilize-se, meu amigo - respondeu o conde com aquele sorriso que tornava à sua vontade tão terrível e tão benevolente, e que desta vez só exprimia benevolência - não sou um chefe vindo para inspecionar, mas sim um simples viajante levado pela curiosidade e que começa até a arrepender-se da sua visita por ver que lhe faz perder o seu tempo. - Oh, o meu tempo não vale muito! - replicou o homenzinho, com um sorriso melancôlico. - No entanto, é o tempo do Governo e não deveria perdê-lo, mas como recebi o sinal de que podia descansar uma hora... - e olhou para o relógio de sol, porque havia de tudo no recinto da torre de Montlhéry, até um relógio de sol - e como vê ainda disponho, de dez minutos... Além disso, os meus morangos estavam maduros, e mais um dia... Acha, senhor, que são os ratos que os comem? - Creio que não - respondeu Monte-Cristo, gravemente. - mas é má vizinhança, essa dos ratos-dos-pomares, sobretudo para nós que não os comemos barrados de mel, como faziam os Romanos. - Ah! Os Romanos comiam-nos? - admirou-se o jardineiro. Comiam os ratos-dos-pomares? - Li-o em Petrônio - respondeu o conde. - Deveras? Não devem saber bem, embora os haja bem gordos. E não admira que sejam gordos, atendendo a que dormem todo o santo dia e só acordam para roer toda a noite. Olhe, o ano passado tinha quatro adamasqueiros; atacaram-me um. E tinha também um pessegueiro, um só, desses que dão pêssegos-carecas, um fruto raro... Pois bem, senhor, devoraram-me metade dele do lado da muralha. Um pessegueiro soberbo e que dava uns pêssegos excelentes. Nunca comi outros melhores. - Comeu-os? - perguntou Monte-Cristo. - Quero dizer, comi a metade que restava, como deve compreender. Eram deliciosos, senhor! Claro, esses cavalheiros não escolhem os piores bocados. São como o filho da Tia Simon, que também não escolheu os piores morangos, isso sim! Mas este ano - continuou o jardineiro - pode estar tranquilo que isso não me acontecerá, nem que eu tenha, quando os frutos estiverem quase maduros, de passar a noite a guardá-los. Monte-Cristo já vira o bastante. Cada homem tem a sua paixão que o rói no fundo do coração, assim como cada fruto tem o seu bicho. A paixão do homem do telégrafo era a pomicultura. Pôs-se a colher as folhas da videira que ocultavam os cachos do sol e conquistou assim o coração do jardineiro. - O senhor veio para ver o telégrafo? - perguntou o homenzinho. - Vim, se isso não é proibido pelos regulamentos. - De modo nenhum - respondeu o jardineiro -, atendendo a que não há nada de perigoso, pois ninguém sabe nem pode saber o que transmitimos. - De fato, disseram-me - prosseguiu o conde - que os senhores repetem sinais que são os primeiros a não compreender. - Claro, senhor, e por mim prefiro que seja assim - respondeu, rindo, o homem do telégrafo. - Porque prefere que seja assim? - Porque assim não tenho responsabilidades. Sou apenas uma máquina, e mais nada, e desde que funcione, é tudo, quanto me exigem. “Demônio!”, disse Monte-Cristo para consigo mesmo. “Terei por acaso deparado com um homem sem ambições? Irra, seria demasiada pouca sorte!” - Senhor - disse o jardineiro, deitando uma olhadela ao relógio de sol -, os dez minutos estão acabando e tenho de regressar ao meu posto. Gostaria de subir comigo? - Acompanho-o. Com efeito, Monte-Cristo entrou na torre, dividida em três andares. O debaixo continha algumas alfaias agrícolas, tais como enxadas, ancinhos e regadores, encostadas à muralha, e mais nada. O segundo era a residência habitual, ou antes, noturna, do funcionário. Continha alguns pobres utensílios domésticos, uma cama, uma mesa, duas cadeiras, uma bilha de barro e algumas ervas secas pendentes do teto, e que o conde identificou como ervilhas-de-cheiro e feijoeiros-escarlates, cujas sementes o homenzinho conservava na sua vagem, tudo etiquetado com um cuidado que faria inveja a um técnico do Jardim Botânico. - É preciso muito tempo para aprender telegrafia, senhor? - indagou Monte- Cristo. - Não, a aprendizagem não é longa, o que é longo é o tempo que se passa como supranumerário. - E quanto ganham? - Mil francos, senhor. - Não é muito... - Pois não, mas temos alojamento, como vê. Monte-Cristo olhou o quarto. - Oxalá que não esteja agarrado a isto - murmurou. Passaram ao terceiro andar: era a sala do telégrafo. Monte-Cristo olhou alternadamente os dois manípulos de ferro com o auxílio dos quais o funcionário fazia trabalhar a máquina. - Isto é muito interessante - disse -, mas com o tempo esta vida não lhe parecerá um bocado insípida? - Sim, ao princípio têm-se torcicolos à força de olhar, mas ao cabo de um ano ou dois acostumamo-nos. Além disso, temos as nossas horas de folga e os nossos dias de descanso. - Dias de descanso? - Sim. - Quais? - Aqueles em que há nevoeiro. - Ah, tem razão! - São os meus dias de festa. Nesses dias desço ao jardim e planto, podo, aparo e dou cabo das lagartas que apanho. Em suma, o tempo passa. - Há quanto tempo está aqui? - Há dez anos, mais cinco de supranumerário, quinze. - Que idade tem? - Cinquenta e cinco anos. - Quanto tempo de serviço lhe falta para ter direito à reforma? - Oh, senhor, vinte e cinco anos! - E de quanto é a pensão? - Cem escudos. - Pobre humanidade! - murmurou Monte-Cristo. - Que diz, senhor?... - perguntou o funcionário. -- Digo que é muito interessante. - O quê? - Tudo o que me mostra... e o senhor não percebe nada, absolutamente nada dos seus sinais? - Absolutamente nada. - Nunca tentou compreendê-los? - Nunca. Para quê? - No entanto, há sinais que lhe são destinados diretamente. - Sem dúvida. - E esses compreende-os? - São sempre os mesmos. - E que dizem? - “Nada de novo”, “Tem uma hora”, ou “Até amanhã“ - Nada mais simples - observou o conde. - Mas repare, não é o seu correspondente que se está a pôr em movimento? - É verdade. Obrigado, senhor. - Que lhe diz ele? É alguma coisa que o senhor compreenda? - É. Pergunta-me se estou pronto. - E que lhe responde? - Respondo-lhe com um sinal que informa ao mesmo tempo o meu correspondente da direita que estou pronto e convida o meu correspondente da esquerda a preparar-se por seu turno. - Muito engenhoso - disse o conde. - Vai ver - prosseguiu o homenzinho com orgulho. - Dentro de cinco minutos começa a transmitir. - Tenho portanto cinco minutos - disse Monte-Cristo. - É mais do que preciso. Meu caro senhor - prosseguiu --, permite-me que lhe faça uma pergunta? - Decerto. - Gosta da jardinagem? - Com paixão. - E seria feliz se em vez de ter um bocado de terreno de vinte pés tivesse um recinto de duas jeiras? - Senhor, faria dele um paraíso terrestre. - Vive mal com os seus mil francos? - Bastante mal. Mas enfim, vivo... - Pois sim, mas tem apenas um jardim miserável. - Lá isso é verdade; o jardim não é grande. - E mesmo assim, tal como é, está minado de ratos que lhe devoram tudo. - Isso é o meu flagelo. - Diga-me uma coisa: se por descuido virasse a cabeça quando o correspondente da direita começasse a transmitir, que aconteceria? - Não o veria. - E que aconteceria? - Não poderia repetir os sinais. - E depois? - Não os tendo repetido por negligência, seria multado. - Em quanto? - Cem francos. - A décima parte do seu vencimento. Bonito! - Ah! - suspirou o funcionário. - Já lhe aconteceu isso? - perguntou Monte-Cristo. - Uma vez, senhor, uma vez, em que me entretive a enxertar uma roseira cor de avelã. - Bem. E agora, se se atrevesse a alterar qualquer coisa ao sinal ou a transmitir outro? - Nesse caso, seria diferente: seria despedido e perderia a minha pensão. - Trezentos francos? - Cem escudos, sim, senhor. Portanto, como deve compreender, nunca farei semelhante coisa. - Nem mesmo por quinze anos dos seus vencimentos? Vejamos, é caso para pensar, hem? - Por quinze mil francos? - Sim. - O senhor me assusta. - Ora! - O senhor quer me tentar? - Exatamente! Quinze mil francos, compreende? - Senhor, deixe me olhar o meu correspondente da direita! - Pelo contrário, não olhe para ele, olhe para isto. - Que é isto? - Como! Não conhece estes papeizinhos? - Notas! - Autênticas. Estão aqui quinze. - Para quem são? - Para si, se quiser. - Para mim?! - gritou o funcionário, sufocado. - Meu Deus, sim, para si e em propriedade plena. - Senhor, o meu correspondente da direita está transmitindo. - Deixe-o transmitir. - O senhor distraiu-me e vou ser multado. - O que lhe custará cem francos. Bem vê que tem todo o interesse em aceitar as minhas quinze notas. - Senhor, o meu correspondente da direita impacienta-se e repete os seus sinais. - Deixe-o repetir e pegue este dinheiro. O conde meteu o maço na mão do funcionário. - Mas isto ainda não é tudo. Os quinze mil francos não lhe dariam para viver. - Continuaria a ter o meu lugar. - Não, perdê-lo-á, porque vai transmitir um sinal diferente do seu correspondente. - Oh, senhor, que pretende de mim? - Uma brincadeira de criança. - Senhor, a não ser que seja obrigado a isso... - Espero obrigá-lo, efetivamente. E Monte-Cristo tirou da algibeira outro maço de notas. - Aqui estão mais dez mil francos - disse. - Com os quinze mil que tem na algibeira, são vinte e cinco mil. Com cinco mil francos comprará uma bonita casinha e duas jeiras de terra; com os restantes vinte mil, arranjará mil francos de rendimento. - Um jardim de duas jeiras? - E mil francos de rendimento. - Meu Deus! Meu Deus! - Tome, vamos! E Monte-Cristo meteu à força os dez mil francos na mão do funcionário. - Que devo lazer? - Nada muito difícil. - Mas mesmo assim... - Repetir estes sinais. Monte-Cristo tirou da algibeira um papel com três sinais traçados e números a indicar a ordem por que deviam ser transmitidos. - Não levará muito tempo, como vê. - Pois não, mas... - Se quer ter pêssegos-carecas tem de merece-los, assim como o resto. O homenzinho decidiu-se. Rubro de excitação e suando por todos os poros, executou um após outro os três sinais dados pelo conde, apesar das horríveis deslocações do correspondente da direita, que, não compreendendo nada daquela troca de sinais, começava a crer que o homem dos pêssegos enlouquecera. Quanto ao correspondente da esquerda, repetiu conscienciosamente os mesmos sinais, que foram recebidos definitivamente no Ministério do Interior. - Pronto, agora está rico - disse Monte-Cristo. - Pois sim - respondeu o funcionário -, mas porque preço! - Escute, meu amigo - perguntou Monte-Cristo --, não quero que tenha remorsos. Acredite, porque lhe juro, que não fez mal a ninguém e serviu os planos de Deus. O funcionário olhava as notas, apalpava-as, contava-as. Tão depressa estava pálido como estava corado. Por fim, precipitou-se para o seu quarto, a fim de beber um copo de água. Mas não teve tempo de chegar à bilha; desmaiou no meio dos feijões secos. Cinco minutos depois da notícia telegráfica chegar ao ministério, Debray mandou atrelar os cavalos ao seu cupé e correu a casa de Danglars. - O seu marido tem cupons do empréstimo espanhol? - perguntou à baronesa. - Creio que sim! Cerca de seis milhões. - Que os venda por qualquer preço. - Porquê? - Porque D. Carlos fugiu de Burges e regressou a Espanha. - Como sabe disso? - Com a breca, como sei as notícias! - perguntou Debray, encolhendo os ombros. A baronesa não esperou que ele repetisse a recomendação: correu ao encontro do marido, o qual correu por sua vez a casa do seu corretor, a quem ordenou que vendesse os cupons por qualquer preço. Quando se soube que o Sr. Danglars vendia, os fundos espanhóis baixaram imediatamente. Danglars perdeu quinhentos mil francos, mas desembaraçou-se de todos os seus cupons. À tarde leu-se no messager: Despacho telegráfico. - O rei D. Carlos escapou à vigilância que se exercia sobre ele em Burges e regressou a Espanha pela fronteira da Catalunha. Barcelona sublevou-se a seu favor. Durante toda a noite só se falou da previsão de Danglars, que vendera os seus cupons, e da sorte do especulador, que perdia apenas quinhentos mil francos com semelhante golpe. Aqueles que tinham conservado os seus cupons ou comprado os de Danglars consideraram-se arruinados e passaram uma má noite. No dia seguinte leu-se no Moniteur: Foi sem qualquer fundamento que o Messager anunciou ontem a fuga de D. Carlos e a revolta de Barcelona. O rei D. Carlos não saiu de Burges e a Península goza da mais profunda tranquilidade. Um sinal telegráfico mal interpretado, devido ao nevoeiro, deu origem a este erro. Os fundos subiram para o dobro do valor a que tinham descido, o que acarretou a Danglars, entre prejuízos e lucros perdidos, um milhão a menos. - Bom - disse Monte-Cristo a Morrel, que se encontrava em sua casa no momento em que foi anunciada a singular reviravolta de bolsa de que Danglars fora vítima --, acabo de fazer por vinte e cinco mil francos uma descoberta por que pagaria cem mil. - Que descobriu? - perguntou Maximilien. - Descobri o meio de livrar um jardineiro dos ratos-dos-pomares que lhe comiam os pêssegos. Capítulo LXII Os fantasmas À primeira vista, e examinada de fora, a casa de Auteuil não tinha nada de esplêndida, nada do que se poderia esperar de uma residência destinada ao magnífico conde de Monte-Cristo. Mas tal simplicidade devia-se à vontade do proprietário, que ordenara taxativamente que nada fosse mudado no exterior. Mas o exterior era o exterior e o interior era o interior, como era fácil de demonstrar. Com efeito, mal se abria a porta, o espetáculo mudava. O Sr. Bertuccio excedera-se a si mesmo no bom gosto das decorações e na rapidez da execução. Assim como outrora o duque de Antin mandara abater numa noite uma alameda de árvores que incomodava a vista de Luís XIV também em três dias o Sr. Bertuccio mandara encher de plantas um pátio inteiramente nu, e belos álamos e sicômoros, trazidos com os seus enormes blocos de raízes, sombreavam a fachada principal da casa, diante da qual em vez de pedras semiocultas pelas ervas, se estendia um tapete de relva cujas placas tinham sido colocadas naquela mesma manhã, tapete vasto ainda perlado da água com que fora regado. Quanto ao resto, as ordens provinham do conde. Ele próprio entregara a Bertuccio uma planta onde estavam indicados o número e a localização das árvores que deviam ser plantadas, bem como a forma e o espaço do relvado que devia suceder à calçada. Vista assim, a casa tornara-se irreconhecível, e o próprio Bertuccio protestava que não a reconhecia, assim metida na sua moldura de vegetação. O intendente não desgostaria, enquanto ali estava, de fazer algumas transformações no jardim, mas o conde proibira-o taxativamente de tocar fosse no que fosse. Bertuccio vingou-se enchendo de flores as antecâmaras, as escadas e as chaminés. O que denotava a extrema habilidade do intendente e a profunda ciência do amo, um para servir e o outro para se fazer servir, era o fato de aquela casa, deserta havia vinte anos, tão sombria e tão triste ainda na véspera, toda impregnada do cheiro a mofo que se poderia chamar odor do tempo, ter adquirido num dia, com o aspecto da vida, os aromas preferidos do proprietário e até o seu grau de luminosidade favorito. Porque o conde, quando chegasse, teria ali, ao alcance da mão, os seus livros e as suas armas, diante dos olhos os seus quadros preferidos e nas antecâmaras o cão de cujas carícias gostava e os pássaros cujo canto apreciava. Porque toda aquela casa, acordada do seu longo sono como o palácio da Bela do Bosque Adormecido, vivia, cantava, expandia-se, semelhante a essas casas que amamos há muito tempo e nas quais, quando por infelicidade as deixamos, fica involuntariamente parte da nossa alma. Os criados iam e vinham contentes naquele belo pátio: uns, já senhores das cozinhas, cirandavam, como se sempre tivessem morado naquela casa, pelas escadas restauradas na véspera; outros enchiam as cocheiras, onde as carruagens, numeradas e arrumadas, pareciam instaladas havia cinquenta anos, e outros ainda percorriam as cavalariças, onde os cavalos, à manjedoura, respondiam relinchando aos moços de estrebaria que lhes talavam com infinitamente mais respeito do que muitos criados falam aos amos. A biblioteca estava disposta em dois corpos, de ambos os lados da parede, e continha cerca de dois mil volumes. Uma seção inteira estava destinada aos romances modernos e o que saíra na véspera já estava arrumado no seu lugar, pavoneando-se na sua encadernação vermelha e ouro. Do outro lado da casa, no mesmo plano da biblioteca, ficava a estufa, guarnecida de plantas raras que vegetavam em grandes jarrões japoneses, e no meio da estufa, maravilha ao mesmo tempo da vista e do olfato, um bilhar que se diria abandonado havia uma hora no máximo pelos jogadores, que tinham deixado as bolas imobilizarem-se no tapete. Apenas um quarto fora respeitado pelo magnífico Bertuccio. Diante desse quarto, situado no canto esquerdo do primeiro andar e ao qual se podia subir pela escada secreta, os criados passavam com curiosidade e Bertuccio com terror. Às cinco horas exatas, acompanhado de Ali, o conde chegou diante da casa de Auteuil. Bertuccio esperava a sua chegada com uma impaciência laivada de inquietação. Esperava alguns cumprimentos, mas também temia uma franzidela de sobrolho. Monte-Cristo apeou no pátio, percorreu toda a casa e deu a volta ao jardim, silencioso e sem exteriorizar o menor sinal de aprovação ou descontentamento. Apenas quando entrou no seu quarto, situado do lado oposto ao quarto fechado, estendeu a mão para a gaveta de um movelzinho de pau-rosa, que já lhe chamara a atenção na sua primeira visita. - Isto só pode servir para guardar luvas - disse. - Com efeito, Excelência - respondeu Bertuccio, encantado. - Se a abrir, encontrará luvas. Nos outros móveis o conde encontrou também o que esperava encontrar: garrafas, charutos, jóias. - Muito bem! - disse novamente. E o Sr. Bertuccio retirou-se encantado, tão grande era o poder e real a influência daquele homem sobre tudo o que o rodeava. Às seis horas exatas ouviu-se tropear um cavalo diante da porta de entrada. Era o nosso capitão de sipaios, que chegava montado em Médeah. Monte-Cristo esperava-o na escadaria, com um sorriso nos lábios. - Tenho certeza de que sou o primeiro a chegar! - gritou-lhe Morrel. - Vim propositadamente mais cedo para o ter um instante só para mim, antes de todas as pessoas. Julie e Emmanuel mandam-lhe milhões de cumprimentos. Ah! Sabe que tudo isto aqui é magnífico? Diga-me uma coisa, conde: os seus criados cuidarão do meu cavalo como deve ser? - Esteja tranquilo, meu caro Maximilien, eles sabem o que fazem. - É que ele precisa de ser esfregado com palha. Se visse o andamento que trouxe! Uma verdadeira tromba! - Acredito. Nem outra coisa era de esperar de um cavalo de cinco mil francos! - perguntou Monte-Cristo, no tom em que um pai falaria a um filho. - Lamenta-os? - perguntou Morrel, com um sorriso franco. - Eu? Deus me defenda! - respondeu o conde. - Não. Só lamentaria que o cavalo não fosse bom. - É tão bom, meu caro conde, que o Sr. de Château-Renaud, o homem mais conhecedor de França, e o Sr. Debray, que monta os árabes do ministério, correm atrás de mim neste momento, um pouco distanciados, como vê, e ainda são seguidos pelos cavalos da baronesa Danglars, que vêm num trote que lhes permite percorrer com facilidade as suas seis léguas por hora. - Seguem-no, então? - perguntou Monte-Cristo. - Olhe, aí os tem! Com efeito, naquele preciso momento um cupe com a parelha toda fumegante e dois cavalos de sela já sem fôlego chegavam diante do portão da casa, que se abriu diante deles. O cupe descreveu imediatamente o seu círculo e foi parar diante da escadaria, seguido dos dois cavaleiros. Num instante, Debray desmontou e chegou à portinhola. Ofereceu a mão à baronesa, que ao descer lhe fez um sinal imperceptível para todos, exceto para Monte-Cristo. Mas o conde não perdia nada, e naquele gesto viu brilhar um bilhetinho branco, tão imperceptível como o sinal, e que passou, com uma facilidade que indicava o hábito de semelhante manobra, da mão da Sra Danglars para a do secretário do ministro. Atrás da mulher desceu o banqueiro, pálido como se saísse do sepulcro em vez de sair do seu cupe. A Sra Danglars lançou à sua volta um olhar rápido e investigador, que Monte-Cristo foi o único a compreender, e no qual abarcou o pátio, o peristilo e a fachada da casa. Depois, reprimindo uma leve emoção, que sem dúvida se lhe refletiria no rosto se fosse permitido ao seu rosto empalidecer, subiu a escadaria ao mesmo tempo que dizia a Morrel: - Se o senhor fosse um dos meus amigos, lhe perguntaria se o seu cavalo está à venda. Morrel esboçou um sorriso, que mais parecia uma careta, e virou-se para Monte-Cristo, como se lhe suplicasse que o tirasse do embaraço em que se encontrava. O conde compreendeu-o. - Minha senhora - respondeu --, porque não me faz antes a mim essa pergunta? - Porque consigo, senhor - declarou a baronesa --, não temos o direito de desejar seja o que for, pois estamos demasiado certas de o obter. Por isso me dirigi ao Sr. Morrel. - Infelizmente - prosseguiu o conde --, sou testemunha de que o Sr. Morrel não pode ceder o seu cavalo, pois deu a sua palavra de honra de que o conservaria. - Como assim? - Apostou que domaria Médeah no espaço de seis meses. Compreende agora, baronesa, que se se desfizesse dele antes do prazo fixado na aposta não só o perderia como ainda diriam que tinha medo? Ora um capitão de sipaios não pode, mesmo para satisfazer um capricho de uma mulher bonita, na minha opnião uma das coisas mais sagradas deste mundo, deixar que se espalhe semelhante boato. - Como vê, minha senhora... - disse Morrel, dirigindo a Monte-Cristo um sorriso de reconhecimento. - De resto, parece-me - interveio Danglars num tom desabrido mal disfarçado por um sorriso forçado - que a senhora já tem, cavalos de sobra. Não estava nos hábitos da Sra Danglars deixar passar semelhantes ataques sem responder, e no entanto, com grande admiração dos mais novos, fingiu não ouvir e não respondeu nada. Monte-Cristo sorriu do seu silêncio, que denotava uma humildade desacostumada, e mostrou à baronesa dois enormes vasos de porcelana da China sobre os quais serpenteavam vegetações marinhas de um tamanho e de um trabalho tais que só à natureza era dado possuir tanta riqueza, tanta seiva e tanta espiritualidade. A baronesa estava maravilhada. - Pois sim, mas em outras mãos lhes plantariam lá dentro um castanheiro das Tulherias! - observou. - Como terá sido possível cozer alguma vez semelhantes enormidades? - Minha senhora, não devemos fazer tal pergunta a nós próprios, fabricantes de estatuetas e de vidro despolido com desenhos transparentes; neste caso, trata-se de uma obra de outros tempos, de uma espécie de criação de gênios da terra e do mar. - Explique-se melhor. De que época são estes vasos? - Não sei. Apenas ouvi dizer que o imperador da China mandou fazer um forno de propósito; que nesse forno, um após outro, se cozeram doze vasos idênticos a estes; que dois se quebraram devido ao calor excessivo do lume, e que os restantes dez foram descidos a trezentas braças no fundo do mar. Mar que, sabendo o que se pretendia dele, lançou sobre os vasos as suas lianas, torceu os seus corais e incrustou as suas conchas. Tudo isto foi cimentado por uma permanência de duzentos anos naquelas profundezas inauditas, porque uma revolução derrubou o imperador que ordenara a experiência e só deixou a ata de que constava o cozimento dos vasos e a sua descida ao fundo do mar. Passados duzentos anos encontrou-se a ata e pensou-se recuperar os vasos. Mergulhadores munidos de máquinas construídas propositadamente partiram à descoberta na baía em que tinham sido lançados; mas dos dez só se encontraram três: os outros tinham sido dispersos e quebrados pelas vagas. Quero muito a estes vasos no fundo dos quais imagino às vezes que monstros informes, assustadores, misteriosos e idênticos àqueles que só os mergulhadores vêem, fixaram com espanto o seu olhar mortiço e frio, e nos quais dormiram cardumes de peixes, que neles se refugiaram para fugir à perseguição dos seus inimigos. Entretanto, Danglars, pouco apreciador de curiosidades, arrancava maquinalmente, uma a uma, as flores de uma magnífica laranjeira. E quando acabou com a laranjeira dirigiu-se para o cacto, mas este, de temperamento menos fácil do que a laranjeira, picou-o afrontosamente. Então, estremeceu e esfregou os olhos como se saísse de um sonho. - Senhor - disse-lhe Monte-Cristo sorrindo --, sei que é apreciador de quadros e que tem alguns magníficos; por isso, não lhe recomendo os meus, embora tenha aqui dois Hobbemas, um Paul Potter, um Mieris, dois gerards Dow, um Rafael, um Van Dyck, um Zurbaran e dois ou três Murillos dignos de lhe serem apresentados. - Aqui está um Hobbema - disse Debray. - Reconheço-o. - Sim, é verdade! - Ofereceram-no ao museu. - Que não tem nenhum, creio? - arriscou Monte-Cristo. - Não, e mesmo assim não o quis comprar. - Porquê? - perguntou Château-Renaud. - Você tem graça! Porque o Governo não é suficientemente rico para isso. - Perdão! - desculpou-se Château-Renaud. - Apesar de ouvir dizer isso todos os dias, há oito anos a esta parte, ainda não consegui me habituar. - Acabará por se habituar - disse Debray. - Não me parece - respondeu Château-Renaud. - O Sr. Major Bartolomeo Cavalcanti! O Sr. Visconde Andrea Cavalcanti! - anunciou Baplistin. De gravata de cetim preto acabada de sair das mãos do fabricante, barba acabada de fazer, bigode grisalho, olhar atrevido e uniforme de major adornado com três placas e cinco cruzes, em suma, numa indumentária impecável de velho soldado, assim apareceu o major Bartolomeo Cavalcanti, o terno pai que conhecemos. Junto dele, de casaca novinha em folha, caminhava de sorriso nos lábios o visconde Andrea Cavalcanti, o filho respeitoso que também já conhecemos. Os três jovens conversavam juntos. Olharam para o pai e para o filho, mas muito naturalmente os seus olhos detiveram-se mais tempo no último, que examinaram com minúcia. - Cavalcanti... - disse Debray. - Um belo nome - acrescentou Morrel. - Que figura! - Sim - disse Château-Renaud --, é verdade, os italianos denominam-se bem, mas vestem-se mal. - Você é difícil de contentar, Château-Renaud - contrapós Debray. -- Aquela casaca é de um excelente alfaiate e novinha em folha. - É precisamente isso que lhe critico aquele cavalheiro tem ar de quem se veste assim hoje pela primeira vez. - Quem são aqueles senhores? - perguntou Danglars ao conde de Monte- Cristo. - Bem ouviu: são os Cavalcanti. - Fico esclarecido quanto ao nome, mas mais nada. - É verdade, o senhor não está ao corrente da nossa nobreza de Itália. Quem diz Cavalcanti diz estirpe de príncipes. - Boa fortuna? - perguntou o banqueiro. - Fabulosa. - Que fazem? - Procuram gastá-la sem o conseguirem. Aliás, têm créditos sobre o senhor, segundo me disseram quando me visitaram anteontem. Convidei-os até em sua intenção. Hei-de apresentar-los. - Mas parece-me que falam muito corretamente o francês - observou Danglars. - O filho foi educado num colégio do Meio-Dia, em Marselha ou nos arredores, creio. Verá pelo seu entusiasmo. - A propósito de quê? - perguntou a baronesa. - Das francesas, minha senhora. está absolutamente decidido a casar em Paris. - Que rica idéia! - exclamou Danglars, com desdém, encolhendo os ombros. A Sra Danglars fitou o marido com uma expressão que em qualquer outro momento pressagiaria tempestade, mas pela segunda vez calou-se. - O barão parece hoje muito sombrio - observou Monte-Cristo à Sra Danglars. - Por acaso terão querido fazê-lo ministro? - Ainda não, que eu saiba. Creio antes que jogou na Bolsa, que perdeu e que não sabe como se justificar. - O Sr. e a Sra de Villefort! - gritou Baptistin. As duas pessoas anunciadas entraram. O Sr. de Villefort, apesar do seu domínio sobre si mesmo, estava visivelmente impressionado. Quando lhe apertou a mão, Monte-Cristo sentiu-a tremer. “Decididamente, não há como as mulheres para saberem dissimular”, disse Monte-Cristo para consigo, vendo a Sra Danglars sorrir ao procurador régio e beijar a mulher deste. Depois dos primeiros cumprimentos, o conde viu Bertuccio, que, ocupado até ali do lado da copa, se esgueirava para uma salinha contígua àquela onde se encontravam. Foi ter com ele. - Que deseja, Sr. Bertuccio? - perguntou-lhe. - V. Exª não me disse quantos convidados eram. - Ah, é verdade! - Quantos talheres? - Conte-os o senhor mesmo. - Todos já chegaram, Excelência? - Já. Bertuccio olhou através da porta entreaberta. Monte-Cristo não o perdia de vista. - Oh, meu Deus! - exclamou o intendente. - Que é? - perguntou o conde. - Aquela mulher!... Aquela mulher!... - Qual? - Aquela de vestido branco e cheia de diamantes! A loura!... - A Sra Danglars? - Não sei como se chama, mas é ela, senhor, é ela! - Ela, quem? - A mulher do jardim! A que estava grávida! A que passeava enquanto esperava! Bertuccio ficou de boca aberta, pálido e com os cabelos em pé. - Enquanto esperava quem? Sem responder, Bertuccio indicou Villefort com o dedo, mais ou menos da mesma maneira que Macbeth indicou Banco. - Oh!... Oh!... - murmurou por fim - vê? - O quê? Quem? - Ele! - Ele?... O Sr. Procurador régio? O Sr. de Villefort? Claro que vejo. - Mas então... não o matei? - Tem cada uma! Começo a convencer-me que enlouqueceu, meu caro Sr. Bertuccio - perguntou o conde. - Não morreu?.. - Não, claro que não morreu, como vê! Em vez de o ferir entre a sexta e a sétima costela esquerda, como fazem os seus compatriotas, o senhor feriu-o mais acima ou mais abaixo, e aquela gente da justiça tem a alma muito agarrada ao corpo, não sabia? A não ser que nada do que me contou fosse verdade, não passasse de um sonho da sua imaginação, de uma alucinação do seu espírito. Provavelmente adormeceu depois de digerir mal a sua vingança; ela pesou-lhe no estômago, o senhor teve um pesadelo e pronto! Vamos, recupere a calma e conte: o Sr. e a Sra de Villefort, dois; o Sr. e a Sra Danglars, quatro; o Sr. de Château- Renaud, o Sr. Debray e o Sr. Morrel, sete; o Sr. Major Bartolomeo Cavalcanti, oito. - Oito! - repeliu Bertuccio. - Espere! Espere! está com muita pressa de ir embora, que diabo! Esquecese de um dos meus convidados. Desvie-se um bocadinho pala a esquerda... olhe... o Sr. Andrea Cavalcanti, aquele jovem de casaca preta que está a admirar a Virgem de Murillo e que se vira agora. Desta vez, Bertuccio começou um grito, que o olhar de Monte-Cristo lhe extinguiu nos lábios. - Benedetto!.. - murmurou baixinho. - Que fatalidade! - Estão a dar seis e meia, Sr. Bertuccio - disse severamente o conde. - está na hora a que dei ordem para se ir para a mesa; bem sabe que não gosto de esperar. E Monte-Cristo voltou à sala, onde o esperavam os seus convidados, enquanto Bertuccio regressava à sala de jantar apoiando-se nas paredes. Cinco minutos mais tarde, as duas portas da sala abriram-se, Bertuccio apareceu, e fazendo, como Vatel em Chantilly, um derradeiro e heróico esforço, anunciou: - Sr. Conde está servido. Monte-Cristo ofereceu o braço à Sra de Villefort. - Sr. de Villefort - disse --, seja o par da Sra Baronesa Danglars, peço-lhe. Villefort obedeceu e entraram na sala de jantar. Capítulo LXIII O jantar Era evidente que ao entrarem na sala de jantar o mesmo sentimento dominava todos os convivas. Perguntavam a si próprios que estranha influência levara todos àquela casa, e no entanto, por mais surpreendidos e até inquietos que alguns estivessem por ali se encontrar, não desejariam de modo algum lá não estar. Contudo, relações de fresca data, bem como a posição excêntrica e isolada e a fortuna desconhecida e quase fabulosa do conde, impunham aos homens o dever de serem circunspectos e às mulheres a regra de não entrarem numa casa onde não havia mulheres para as receber. Mas mesmo assim, homens e mulheres tinham passado por cima, uns da circunspecção e as outras das conveniências. A curiosidade, espicaçando-os com o seu aguilhão irresistível, prevalecera sobre tudo. Até os Cavalcanti, pai e filho, apesar do constrangimento de um e da desenvoltura do outro, pareciam preocupados por se encontrarem reunidos, em casa de um homem cujo objetivo não compreendiam, com outros homens que viam pela primeira vez. A Sra Danglars fizera um movimento ao ver, a convite de Monte-Cristo, o Sr. de Villefort aproximar-se dela para lhe oferecer o braço, e o Sr. de Villefort, sentira a vista turvar-lhe detrás dos óculos de ouro ao sentir o braço da baronesa pousar no seu. Nenhuma destas duas reações escapara ao conde. Aliás, o simples contato estabelecido entre os indivíduos possui já para o observador da cena o maior interesse. O Sr. de Villefort tinha à sua direita a Sra Danglars e à sua esquerda Morrel. O conde estava sentado entre a Sra de Villefort e Danglars. Os outros lugares estavam ocupados por Debray, sentado entre Cavalcanti pai e Cavalcanti filho, e por Château-Renaud. sentado entre a Sra de Villefort e Morrel. A refeição foi magnífica. Monte-Cristo tomara a peito alterar completamente as normas parisienses e dar ainda mais à curiosidade do que ao apetite dos seus convivas o alimento que ela desejava. Ofereceu-lhes um festim oriental, à maneira como poderiam sê-lo os festins das fadas orientais. Todos os frutos que as quatro parles do mundo podem lançar, intactos e saborosos, na cornucópia da abundância da Europa se empilhavam em pirâmides em vasos da China e taças do Japão. As aves raras, com a parte brilhante da sua plumagem, os peixes monstruosos deitados em chapas de prata, todos os vinhos do Arquipélago, da Ásia Menor e do Cabo, encerrados em frascos de formas extravagantes que pareciam aumentar-lhes ainda o sabor, desfilaram como numa dessas revistas que Apício passava com os seus convivas diante dos Parisienses, que compreendiam perfeitamente que se pudessem gastar mil luíses num jantar de dez pessoas desde que, como Cleépatra, se comessem pérolas ou, como Lourenço de Médicis, se bebesse ouro derretido. Monte-Cristo viu a surpresa geral e desatou a rir e a ridicularizar-se em voz alta. - Meus senhores - disse --, decerto concordam com o que lhes vou dizer. Não é verdade que, quando se atinge certo grau de fortuna, não há nada mais necessário do que o supérfluo, da mesma maneira que, como estas senhoras admitirão, atingindo certo grau de exaltação, não há nada mais positivo do que o ideal? Ora, prosseguindo com o raciocínio, que é o maravilhoso? O que não compreendemos. Que é um bem realmente desejável? Um bem que não podemos ter. Por isso, ver coisas que não posso compreender e adquirir coisas impossíveis de possuir, tal é o desejo de toda a minha vida. E satisfaço-o com dois meios: o dinheiro e a vontade. Ponho em satisfazer um capricho, por exemplo, a mesma perseverança que o senhor, meu caro Danglars, emprega para criar uma linha de caminho-de-ferro; o senhor, meu caro Villefort, para que um homem seja condenado a morte; o senhor, meu caro Debray, para pacificar um reino; o senhor, meu caro Château-Renaud, para agradar a uma mulher, e o senhor, meu caro Morrel, para domar um cavalo que ninguém consegue montar. Assim, por exemplo, vejam estes dois peixes, nascidos um a cinquenta léguas de Sampetersburgo e o outro a cinco léguas de Nápoles: não é interessante reuni-los na mesma mesa? - Como se chamam esses dois peixes? - perguntou Danglars. - Aqui está o Sr. de Château-Renaud, que viveu na Rússia, que lhes dirá o nome de um - respondeu Monte-Cristo. - E aqui está o Sr. Major Cavalcanti, que é italiano, que lhes dirá o nome do outro. - Este - disse Château-Renaud -- ‚se me não engano, um esturjão. - Exato. - E aquele - disse Cavalcanti - ‚, se não estou em erro, uma lampréia. - Isso mesmo. Agora, Sr. Danglars, pergunte àqueles dois senhores onde se pescam estes peixes. - Os esturjões - respondeu Château-Renaud - pescam-se exclusivamente no Volga. - E águas que dêem lampréias deste tamanho - disse Cavalcanti - só conheço as do lago Fusaro. - Exato, um veio do Volga e o outro do lago Fusaro. - Impossível! - exclamaram em uníssono todos os convivas. - Ora é isso precisamente que me diverte - perguntou Monte-Cristo. - Sou como Nero: cupitor impossibilium. E também o que os diverte neste momento. Eis, enfim, o que faz com que esta carne, que na realidade talvez não valha mais do que a da perca e a do salmão, lhes vá parecer deliciosa daqui a pouco, só porque no espírito de todos era impossível consegui-la. E no entanto ela aqui está... - Mas como foi possível transportar esses dois peixes para Paris? - Oh, meu Deus, nada mais simples! Os dois peixes foram transportados cada um numa grande barrica, uma revestida de caniços e ervas do rio e a outra de juncos e plantas do lago, ambas embarcadas num furgão feito de propósito. Viveram assim o esturjão doze dias e a lampréia oito. E ambos viviam perfeitamente quando o meu cozinheiro tomou conta deles para fazer morrer um em leite e o outro em vinho. Não acredita, Sr. Danglars? - Duvido, pelo menos - respondeu Danglars, sorrindo forçadamente. - Baptistin! - chamou Monte-Cristo. - Mande trazer o outro esturjão e a outra lampréia, aqueles que vieram nas outras barricas e que ainda estão vivos. Danglars arregalou os olhos de espanto; os restantes convivas bateram palmas. Quatro criados trouxeram duas barricas guarnecidas de plantas marinhas, em cada uma das quais palpitava um peixe idêntico aos que estavam na mesa. - Mas porquê dois de cada espécie? - perguntou Danglars. - Porque um podia morrer - respondeu simplesmente Monte-Cristo. - O senhor é realmente um homem prodigioso - reconheceu Danglars - e os filósofos escusam de dizer o contrário, pois é soberbo ser rico. - E sobretudo ter idéias - acrescentou a Sra Danglars. -Oh, não me atribua a honra desta, minha senhora! É uma honra que pertence aos Romanos. Plínio conta que se mandavam de ôstia para Roma, por meio de mudas de escravos, que os transportavam à cabeça, peixes da espécie do chamado mulus, e que, segundo a descrição que dele existe, é provavelmente a dourada. Era também um luxo conservá-lo vivo e um espetáculo deveras interessante vê-lo morrer, pois ao morrer mudava três ou quatro vezes de cor e, como um arco-íris que se evapora, passava por todos os cambiantes do prisma, depois do que o mandavam para as cozinhas. A sua agonia fazia parte do seu mérito. Se não o vissem vivo, não o queriam morto. - É verdade - confirmou Debray. - Mas também de ôstia a Roma são apenas sete ou oito léguas. - De acordo - concordou Monte-Cristo. - Mas onde estaria o mérito de vivermos mil e oitocentos anos depois de Lúculo se não fizéssemos melhor do que ele? Os dois Cavalcanti arregalavam muito os olhos, mas tinham o bom senso de não dizer nada. - Tudo isso é muito amável - declarou Château-Renaud. - No entanto, o que mais admiro, confesso, é a admirável prontidão com que o senhor é servido. Não é verdade, Sr. Conde, que só comprou esta casa há cinco ou seis dias? - Sim, quando muito - respondeu Monte-Cristo. - Pois bem, estou certo de que em tão pouco tempo sofreu uma transformação completa. Se me não engano, ela tinha outra entrada como esta e o pátio estava calcetado e vazio, enquanto que hoje tem um magnífico relvado orlado de árvores que parecem centenárias. - Que quer, aprecio a verdura e a sombra - respondeu Monte-Cristo. - Com efeito - interveio a Sra de Villefort --, antes se entrava por uma porta que dava para a estrada, e no dia da minha milagrosa salvação foi pela estrada, recordo-me, que o senhor me trouxe para casa. - É verdade, minha senhora - confirmou Monte-Cristo. - Mas depois preferi uma entrada que me permite ver o Bosque de Bolonha através do portão. - Em quatro dias, é um prodígio! - exclamou Morrel. - De fato - disse Château-Renaud --, transformar uma casa velha numa casa nova é coisa miraculosa. Porque ela era muito velha e até muito triste. Recordo-me de ter sido encarregado pela minha mãe de a visitar quando o Sr. de Saint-Méran a pôs à venda, há dois ou três anos. - O Sr. de Saint-Méran? - admirou-se a Sra de Villefort. - Mas esta casa pertencia ao Sr. de Saint-Méran antes de o senhor a comprar? - Parece que sim - respondeu Monte-Cristo. - Parece?... Não sabe a quem a comprou? - Palavra que não. É o meu intendente que se ocupa de todos esses pormenores. - É certo que havia dois anos, pelo menos, que não era habitada - prosseguiu Château-Renaud -, e causava uma grande tristeza vê-la com as persianas fechadas, as portas trancadas‚ o pátio cheio de ervas. Na verdade, se não tivesse pertencido ao sogro de um procurador régio poderia ser tomada por uma dessas casas malditas onde se cometeu qualquer crime. Villefort, que até ali não tocara nos três ou quatro copos de vinhos extraordinários colocados diante de si, pegou num ao acaso e bebeu-o de um só trago. Monte-Cristo deixou passar um instante. Depois, no meio do silêncio que se seguiu às palavras de Château-Renaud, disse: - É estranho, Sr. Barão, mas tive o mesmo pensamento da primeira vez que entrei. A casa pareceu-me tão lúgubre que nunca a teria comprado se o meu intendente a não tivesse adquirido por mim. Provavelmente, o maroto recebeu algumas “luvas" do tabelião... - É provável - balbuciou Villefort, tentando sorrir. - Mas acredite que não meti prego nem estopa nesse suborno. O Sr. de Saint-Méran quis que esta casa, que faz parte do dote da neta, fosse vendida porque, se permanecesse mais três ou quatro anos desabitada, cairia em ruínas. Foi a vez de Morrel empalidecer. - Havia sobretudo um quarto - continuou Monte-Cristo -, oh, meu Deus, um quarto aparentemente muito simples, um quarto como todos os quartos forrado de damasco vermelho, que me pareceu, não sei porquê, deveras dramático! - Dramático?... Dramático porquê? - perguntou Debray. - Não costumam ter a percepção das coisas instintivas? - perguntou Monte- Cristo. - Não é verdade que há lugares onde parece que se respira naturalmente a tristeza? Porquê? Ninguém sabe nada a tal respeito. Mas isso acontece, quer por um encadeamento de recordações, quer por um capricho do pensamento que nos conduz a outros tempos, a outros lugares sem qualquer relação com os tempos e os lugares onde nos encontramos. Tanto assim que aquele quarto me recordava admiravelmente o quarto da marquesa de Ganges ou o de Desdemona. Olhem, uma vez que já acabamos de jantar, quero que o vejam. Depois desceremos para tomar o café no jardim. Depois do jantar, o espetáculo. Monte-Cristo fez um sinal como se consultasse os seus convidados. A Sra de Villefort levantou-se, Monte-Cristo imitou-a e todos lhe seguiram o exemplo. Villefort e a Sra Danglars ficaram um instante como que pregados no seu lugar. Interrogavam-se com a vista, frios, mudos e aterrorizados. - Ouviu? - perguntou a Sra Danglars. - Temos de ir - respondeu Villefort, levantando-se e oferecendo-lhe o braço. Todos já tinham se espalhado pela casa, impelidos pela curiosidade, pois pensavam que a visita não se limitaria ao tal quarto e que ao mesmo tempo percorreriam o resto daquele pardieiro que Monte-Cristo transformara num palácio. Todos correram portanto para as portas abertas. Monte-Cristo esperou pelos dois retardatários. Depois, quando eles também saíram, fechou o cortejo, com um sorriso que, se o pudessem compreender, apavoraria muito mais os convivas do que o quarto onde iam entrar. Começaram, com efeito, por percorrer os aposentos, os quartos mobilados à oriental, com divãs e almofadas a servirem de cama e cachimbos e armas a fazerem as vezes de móveis; as salas com as paredes cobertas dos mais belos quadros dos velhos mestres; os boudoirs revestidos de tecidos da China, de cores caprichosas e desenhos extravagantes, maravilhosos; por fim, chegaram ao famoso quarto. Não tinha nada de especial, exceto a circunstância de, apesar de o dia estar morrendo, se não encontrar iluminado e se apresentar em toda a sua vetustez, quando todos os outros quartos haviam sido arranjados de novo. Estas duas causas bastavam, efetivamente, para lhe dar um aspecto lúgubre. - Oh, é horrível, com efeito! - exclamou a Sra de Villefort. A Sra Danglars procurou balbuciar algumas palavras, que ninguém ouviu. Cruzaram-se várias observações cujo resultado foi concluir-se que na verdade o quarto de damasco vermelho tinha um aspecto sinistro. - Não é verdade? - perguntou Monte-Cristo. - Vejam como a cama está estranhamente colocada e como é sombrio e sangrento o damasco das paredes! E aqueles dois retratos a pastel, que a umidade desbotou, não parecem dizer, com os seus lábios lívidos e os seus olhos esgazeados: “Eu vi!" Villefort perdeu por completo a cor e a Sra Danglars caiu num canapé colocado perto da lareira. - Oh! - exclamou a Sra de Villefort, sorrindo. - Tem a coragem de se sentar nesse canapé, onde talvez o crime foi cometido?... A Sra Danglars levantou-se vivamente. - Mas isto não é tudo... - disse Monte-Cristo. - Que mais temos? - perguntou Debray, a quem a comoção da Sra Danglars não escapara. - Sim, que mais temos ainda? - secundou-o Danglars. - Porque, até agora. confesso que não vi grande coisa. E o senhor, major Cavalcanti? - Oh! - exclamou o interpelado. - Nós temos em Pisa a torre de Ugolino, em Ferrara a prisão de Tasso e em Rimini o quarto de Francisca e Paulo... - Pois sim, mas não têm esta escadinha - atalhou Monte-Cristo, abrindo uma porta disfarçada na parede. - Vejam-na e digam o que lhes parece. -- Que escada-de-caracol mais sinistra! - exclamou Château-Renaud, rindo. - A verdade é que - confessou Debray - não sei se é o vinho de Chio que me põe melancólico, mas não há dúvida de que acho esta casa muito soturna. Quanto a Morrel, desde que ouvira falar do dote de Valentine, ficara triste e não proferira uma palavra. - Imaginem - sugeriu Monte-Cristo - um Otelo ou um abade de Ganges qualquer descendo passo a passo, numa noite escura e tempestuosa, esta escada, com qualquer lúgubre fardo que tem pressa de furtar à vista dos homens, senão ao olhar de Deus... A Sra Danglars semidesmaiou nos braços de Villefort, que por sua vez foi obrigado a encostar-se à parede. - Meu Deus, senhora! - gritou Debray. - Que tem? Como está pálida! - O que ela tem é muito simples - interveio a Sra de Villefort. - está morta de medo. É o resultado do Sr. Conde de Monte-Cristo se pôr a contar-nos histórias horríveis, na intenção de nos aterrorizar. - Claro - concordou Villefort. - De fato, conde, o senhor aterroriza as senhoras... - Que tem? - repetiu baixinho Debray à Sra Danglars. - Nada, nada - respondeu ela, fazendo um estorço. - Preciso apenas de ar... - Quer descer ao jardim? - perguntou Debray, oferecendo o braço à Sra Danglars e encaminhando-se para a escada secreta. - Não, não - disse ela. - Prefiro ficar aqui. - Na verdade, minha senhora, esse terror é verdadeiro? - perguntou Monte- Cristo. - Não, senhor - respondeu a Sra Danglars. - Mas o senhor tem uma maneira de supor as coisas que dá à ilusão o aspecto da realidade. - Oh, meu Deus, tem razão! - exclamou Monte-Cristo, sorrindo. - Tudo isto não passa de imaginação... Afinal, por que motivo não havemos antes de imaginar este quarto como um bom e respeitável quarto de mãe de família? E esta cama, com os seus cortinados cor de púrpura, como uma cama visitada pela deusa Lucina? E esta escada misteriosa como a passagem por onde, devagarinho, para não perturbar o sono reparador da parturiente, entra o médico ou a ama, ou o próprio pai, para levar o filho que dorme?... Desta vez, a Sra Danglars, em vez de se tranquilizar com tão suave visão, soltou um gemido e desmaiou por completo. - A Sra Danglars encontra-se mal - balbuciou Villefort. - Talvez seja melhor transportá-la para a sua carruagem. - Oh, meu Deus, e eu que me esqueci do meu frasco! - lamentou-se Monte- Cristo... - Mas eu tenho o meu - disse a Sra de Villefort. E passou a Monte-Cristo um frasco cheio de um licor vermelho idêntico àquele cuja benfazeja influência o conde experimentara em Edouard. - Ah!... - exclamou Monte-Cristo, recebendo-o das mãos da Sra de Villefort. - Sim - murmurou esta --, experimentei de acordo com as suas indicações e... - E conseguiu? - Creio que sim. Tinham transportado a Sra Danglars para o quarto contíguo. Monte-Cristo deitou-lhe nos lábios uma gota do licor vermelho e ela voltou a si. - Oh, que sonho horrível! - exclamou. Villefort apertou-lhe fortemente o pulso para lhe fazer compreender que não sonhara. Procuraram o Sr. Danglars. Mas, pouco propenso às impressões poéticas, descera ao jardim e conversava com o Sr. Cavalcanti pai acerca de um projeto de caminho-de-ferro de Liorne a Florença. Monte-Cristo parecia desesperado. Deu o braço à Sra Danglars e conduziua ao jardim, onde encontraram o Sr. Danglars a tomar o café entre os Srs. Cavalcanti pai e filho. - Na verdade, minha senhora, assustei-a assim tanto? - perguntou Monte- Cristo à Sra Danglars. - Não, senhor. Mas, como sabe, as coisas impressionam-nos conforme a disposição de espírito em que nos encontramos. Villefort esforçou-se por rir. - E então, compreende, basta uma suposição, uma quimera... - No entanto, acreditem ou não, se quiserem, estou convencido de que foi cometido um crime nesta casa -- teimou Monte-Cristo. - Cautela - recordou a Sra de Villefort --, temos aqui o procurador régio... - Bom, já que as coisas estão neste pé, aproveito a oportunidade para fazer a minha declaração - perguntou Monte-Cristo. - A sua declaração? - repetiu Villefort. - Sim, e diante de testemunhas. - Tudo isto é deveras interessante - disse Debray. - E se houve realmente crime, vamos fazer admiravelmente a digestão. - Houve crime - insistiu Monte-Cristo. - Venham por aqui, meus senhores. Venha, Sr. de Villefort. Para que a declaração seja válida, deve ser feita às autoridades competentes. Monte-Cristo pegou no braço de Villefort, ao mesmo tempo que apertava debaixo do seu o da Sra Danglars, e arrastou o procurador régio até ao plátano, onde a sombra era mais espessa. Todos os outros convidados os seguiram. - Veja - disse Monte-Cristo. - Aqui, precisamente aqui - e batia na terra com o pé --, aqui, para rejuvenescer estas árvores, já velhas, mandei cavar a terra e adubá-la. Pois bem, os meus trabalhadores, ao cavarem, desenterraram um cofre, ou antes, as ferragens de um cofre, no meio das quais estava o esqueleto de uma criança recém-nascida. Espero que não tomem isto como fantasmagoria... Monte-Cristo sentiu retesar-se o braço da Sra Danglars e tremer a mão de Villefort. - Uma criança recém-nascida? - repetiu Debray. - Diabo, parece-me que o caso esta ficando sério... - Bom - interveio Château-Renaud --, não me enganava portanto quando afirmava há pouco que as casas tinham uma alma e um rosto como os homens e que na sua fisionomia transparecia um reflexo do seu íntimo. A casa era triste porque tinha remorsos, e tinha remorsos porque ocultava um crime. - Quem diz que é um crime? - contrapós Villefort, tentando um derradeiro esforço. - Como, uma criança enterrada viva num jardim não é um crime? - exclamou Monte-Cristo. - Como designa então essa ação, Sr. Procurador régio? - Mas quem diz que foi enterrada viva? - Para quê enterrá-la aqui se estivesse morta? Este jardim nunca foi um cemitério. - Que fazem aos infanticidas neste país? - perguntou ingenuamente o major Cavalcanti. - Meu Deus, cortam-lhes muito simplesmente o pescoço! - respondeu Danglars. - Ah, cortam-lhes o pescoço!... - repetiu Cavalcanti. - Parece-me... Não é assim, Sr. de Villefort? - perguntou Monte-Cristo. - É, Sr. Conde - respondeu o interpelado num tom que já não tinha nada de humano. Monte-Cristo viu que as duas personagens para as quais preparara aquela cena não podiam suportar mais. E como não queria levá-las demasiado longe, mudou de assunto: - Então o café, meus senhores? Parece-me que o esquecemos! E levou os convidados para a mesa colocada no meio do relvado. - Na verdade, Sr. Conde - disse a Sra Danglars --, tenho vergonha de confessar a minha fraqueza, mas todas essas histórias horríveis me perturbaram. Deixe-me sentar, peço-lhe. E caiu numa cadeira. Monte-Cristo cumprimentou-a e aproximou-se da Sra de Villefort. - Creio que a Sra Danglars ainda precisa do seu frasco... - disse-lhe. Mas antes de a Sra de Villefort se aproximar da amiga, já o procurador régio dissera ao ouvido da Sra Danglars: - Preciso de lhe falar. - Quando? - Amanhã. - Onde? - No meu gabinete... no tribunal, se não se importa. É ainda o lugar mais seguro. - Irei. Neste momento, a Sra de Villefort aproximou-se. - Obrigada, querida amiga - disse a Sra Danglars, procurando sorrir. - Isto não é nada e já me sinto muito melhor. Capítulo LXIV O mendigo A festa ia adiantada. A Sra de Villefort manifestara o desejo de regressar a Paris, o que não se atrevera a fazer a Sra Danglars, apesar do mal-estar evidente que experimentava. A pedido da mulher, o Sr. de Villefort deu portanto o primeiro sinal de partida e ofereceu à Sra Danglars lugar no seu landô, a fim de ela poder ter os cuidados da mulher. Quanto ao Sr. Danglars, absorvido numa conversa industrial das mais interessantes com o Sr. Cavalcanti, não prestava nenhuma atenção ao que se passava. Ao pedir o frasco à Sra de Villefort, Monte-Cristo notara que o Sr. de Villefort se aproximara da Sra Danglars; e guiado pela sua intuição, adivinhara o que ele lhe dissera, embora tivesse falado tão baixo que a própria Sra Danglars mal o ouvira. Deixou, sem se opor a nenhuma combinação, partir Morrel, Debray e Château-Renaud a cavalo, e subir as duas senhoras para o landô do Sr de Villefort. Pela sua parte, Danglars, cada vez mais encantado com Cavalcanti pai, convidou-o a acompanhá-lo no seu cupe. Quanto a Andrea Cavalcanti, dirigiu-se para o seu tílburi, que o esperava diante da porta e cujo grume que exagerava os adornos da moda inglesa, lhe segurava, erguendo-se na ponta das botas, o enorme cavalo cinzento-escuro. Andrea não falara muito durante o jantar, precisamente por ser um rapaz muito inteligente e ter, como era natural, receado dizer alguma tolice no meio daqueles convivas ricos e poderosos, entre os quais os seus olhos dilatados talvez não vissem sem receio um procurador régio. Em seguida fora açambarcado pelo Sr. Danglars, que, depois de uma rápida olhadela ao velho major empertigado e ao filho ainda um bocadinho tímido, juntara a todos estes sintomas a hospitalidade de Monte-Cristo e concluíra que tinha diante de si algum nababo vindo a Paris para aperfeiçoar o filho na vida mundana. Admirara portanto com indizível satisfação o enorme diamante que brilhava no dedo mindinho do major, porque o major, como homem prudente e experimentado, com receio de que acontecesse qualquer acidente às suas notas de banco, as convertera imediatamente num objeto de valor. Mais tarde, depois do jantar, sempre sob pretexto de indústria e viagens, interrogara o pai e o filho acerca da sua maneira de viver. E o pai e o filho, sabedores de que era no banco de Danglars que lhes deviam ser abertos, a um, o seu crédito de quarenta e oito mil francos, uma vez concedidos, e ao outro, o seu crédito anual de cinquenta mil libras, tinham sido encantadores e cheios de afabilidade para com o banqueiro, a cujos criados, se estes se não tivessem esquivado, teriam apertado a mão, de tal forma o seu reconhecimento experimentava necessidade de expansão. Uma coisa sobretudo aumentou a consideração, quase diríamos a veneração de Danglars por Cavalcanti. Este, fiel aos princípios de Horácio: nil admirari, limitara-se, como vimos, a dar provas de saber dizendo em que lago se pescavam as melhores lampréias. Depois comera a sua parte daquela sem dizer uma única palavra. Danglars concluíra daí que semelhantes espécies de sumtuosidades eram familiares ao ilustre descendente dos Cavalcanti, o qual provavelmente se alimentava em Luca com trutas que mandava vir da Suíça e com lagostas que lhe enviavam da Bretanha por processos idênticos àqueles de que o conde se servira para mandar vir lampréias do lago Fusaro, e esturjões do rio Volga. Por isso, acolhera com muita satisfação estas palavras de Cavalcanti. - Amanhã, senhor, terei a honra de o visitar para tratarmos de negócios. - E eu, senhor, me sentirei honrado em recebe-lo - respondera Danglars. Em seguida propusera a Cavalcanti, desde que não lhe custasse muito separar-se do filho, acompanhá-lo ao Hotel dos Princes. Cavalcanti respondeu que o filho estava habituado, havia muito tempo, a levar vida de rapaz independente; que, portanto, tinha os seus cavalos e as suas carruagens, e que, como não tinham vindo juntos, não via dificuldade em que se fossem embora separadamente. O major subira pois para a carruagem de Danglars e o banqueiro sentarase a seu lado, cada vez mais encantado com as idéias de ordem e economia daquele homem, que no entanto dava ao filho cinquenta mil francos por ano, o que supunha a existência de uma fortuna que lhe proporcionava quinhentas ou seiscentas mil libras de rendimento. Quanto a Andrea, começou por se dar ares, ralhando com o grume por, em vez de o ir buscar à escadaria, o esperar à porta de saída, o que o obrigara ao incômodo de percorrer trinta passos para ir ao encontro do seu tílburi. O grume recebeu a descompostura com umildade, pegou com a mão esquerda no freio, para segurar o cavalo impaciente e que batia com as patas, e estendeu com a direita as rédeas a Andrea, que as recebeu e pousou ligeiramente a bota de verniz no estribo. Nesse momento apoiou-se-lhe uma mão no ombro. O rapaz virou-se, pensando que Danglars ou Monte-Cristo se tinham esquecido de lhe dizer alguma coisa e voltavam à carga no momento da partida. Mas, em vez de um ou de outro, viu apenas uma figura estranha, tisnada pelo sol, de barba hirsuta, olhos brilhantes como carbúnculos e sorriso trocista numa boca onde brilhavam, alinhados no seu lugar e sem que lhe faltasse um só, trinta e dois dentes brancos, aguçados e famintos, como os de um lobo ou de um chacal. Cobria-lhe a cabeça, de cabelos grisalhos e sujos de terra, um lenço de quadrados vermelhos e envolvia-lhe o corpo alto, magro e ossudo, cujos ossos, como os de um esqueleto, davam a sensação de tilintar ao andar, um camisolão dos mais sebosos e esburacados que se possa imaginar. Por último, a mão que se apoiou no ombro de Andrea, e que foi a primeira coisa que o rapaz viu, pareceu-lhe de uma dimensão gigantesca. O jovem reconheceu aquelo rosto à claridade da lanterna do tíburi ou ficou apenas impressionado com o aspecto horrível do seu interlocutor? Não o, saberíamos dizer. Mas o tato é que estremeceu e recuou vivamente. - Que quer? - perguntou. - Perdão, nosso burguês! - respondeu o homem, levando a mão ao lenço vermelho. - Incomodo-o, talvez, mas preciso de lhe falar. - Não se mendiga de noite - interveio o grume, esboçando um gesto para desembaraçar o amo do importuno. - Eu não mendigo, meu lindo menino - respondeu o homem desconhecido ao criado, com um sorriso irônico e tão horrível que o rapaz se afastou. - Desejo apenas dizer duas palavras ao seu patrão, que me encarregou de um recado há quinze dias, pouco mais ou menos. - Vejamos, que deseja? Diga depressa, meu amigo - atalhou Andrea em tom bastante decidido para que o criado não notasse a sua atrapalhação. - Desejaria... desejaria... - perguntou baixinho o homem do lenço encarnado - que se dignasse poupar-me o sacrifício de regressar a Paris a pé. Estou muito cansado e, como não jantei tão bem como você, mal me tenho nas pernas. O jovem estremeceu perante esta estranha familiaridade. - Mas enfim, que deseja? - insistiu. - Desejo que me deixes subir para a tua bela carruagem e que me leve ao meu destino. Andrea empalideceu, mas não respondeu. - Meu Deus, sim! - insistiu o homem do lenço encarnado, metendo as mãos nas algibeiras e fitando o rapaz com olhos provocadores. - É uma idéia das minhas, percebe, meu querido Benedetto?... Ao ouvir este nome, o jovem refletiu sem dúvida, pois aproximou-se do groom e disse-lhe: - Este homem foi efetivamente encarregado por mim de um recado de que me vem dar conta. Vai a pé até à barreira e toma lá um cabriolé a fim de não chegares atrasado. O criado afastou-se, surpreendido. - Deixe-me ao menos chegar ao escuro - pediu Andrea. - Oh, quanto a isso, eu mesmo vou levar-te para um excelente lugar! Espere aí - disse o homem do lenço vermelho. E pegando no cavalo pelo freio conduziu o tílburi para um lugar onde era efetivamente impossível a quem quer que fosse ver a honra que lhe concedia Andrea. - Oh, não é pela glória de entrar numa boa carruagem! - declarou. - Não, é apenas porque estou cansado e também um bocadinho porque preciso falar de negócios contigo. - Vamos, suba - disse o rapaz. Que pena não ser de dia, pois proporcionaria um espetá culo curioso ver aquele maltrapilho comodamente sentado nas almofadas de brocado ao lado do jovem e elegante condutor do tílburi. Andrea conduziu o cavalo até à última casa da aldeia sem dizer uma única palavra ao companheiro, que, pelo seu lado, sorria e guardava silêncio, como se estivesse deslumbrado por passear em tão excelente meio de locomoção. Uma vez fora de Auteuil, Andrea olhou à sua volta para se assegurar, sem dúvida, de que ninguém os podia ver nem ouvir, e então deteve o cavalo e cruzou os braços diante do homem do lenço vermelho. - É capaz de me dizer porque veio perturbar a minha tranquilidade? - perguntou. - E você, meu rapaz, porque desconfia de mim? - E em que é que eu desconfiei de você? - Em quê? Ainda pergunta? Nos separamos na Ponte do Varé depois de me dizer que ia viajar pelo Piemonte e pela Toscana, e em vez disso vem para Paris... - Em que é que isso o incomoda? - Em nada. Pelo contrário, espero que me ajude... - Ah, ah! - riu Andrea. - Quer dizer que está com idéias de me explorar não? - Pronto, lá vêm as tiradas bombásticas! - Pois olhe que faria mal, mestre Caderousse, já o previno... - Meu Deus, não se zangue, pequeno! No entanto, deve saber o que é a desgraça... A desgraça torna-nos invejosos. Julgava-te percorrendo o Piemonte e a Toscana, obrigado a fazer de faccino ou cicerone, e lamentava-te do fundo do coração como lamentaria um filho. Bem sabe que sempre te considerei meu filho... - Adiante, adiante! - Tem paciência, com a breca! - Tenho paciência, mas acabe de uma vez. - E te vejo de repente passar a Barreira dos Bons-Homens, com um groom, um tílburi e uma casaca novinha em folha! Demônio, descobriste alguma, mina ou compraste um cargo de corretor? - De forma que, como confessou, tem inveja?... - Não, estou contente, tão contente que quis apresentar-te os meus cumprimentos, pequeno! Mas como não estava vestido decentemente, tomei as minhas precauções para não te comprometer. - Bonitas precauções! - perguntou Andrea. - Dirigiu-se diante do meu criado! - Que queria que fizesse, meu filho? Te abordei quando te pude apanhar. Tem um cavalo muito vivo e um tílburi muito ligeiro. Além disso, é naturalmente escorregadiço como uma enguia. Se não te apanhasse esta noite, correria o risco de nunca mais te pôr a vista em cima. - Bem vê que não me escondo. - É um felizardo! Gostaria muito de poder dizer o mesmo... Pois eu escondo-me. Sem contar que tinha medo que me não reconhecesse. Mas me reconheceu! - acrescentou Caderousse com o seu sorriso. - É muito amável... - Vejamos, que quer de mim? - perguntou Andrea. - Já me não trata por você e isso não está certo, Benedetto... Não se procede assim com um antigo camarada. Acautela-te que ainda acaba por me tornar exigente. Esta ameaça fez desaparecer a cólera do rapaz. O vento da prudência acabava de soprar por cima da sua cabeça. Pôs o cavalo a trote. - É mau para você mesmo, Caderousse - disse --, proceder assim para com um antigo camarada, como dizia há pouco. É marselhês e eu sou... - Agora já sabe o que é? - Não, mas fui criado na Córsega. É velho e teimoso; eu sou novo e casmurro. Entre gente como nós, a ameaça é mau sistema e tudo se deve fazer amigavelmente. Tenho culpa se a sorte, que continua a ser má para você, é pelo contrário boa para mim? - Teve então sorte, hem?... Não se trata de um groom de empréstimo, de um tílburi de empréstimo, nem de uma casaca de empréstimo? Pois tanto melhor! - exclamou Caderousse com os olhos brilhantes de cobiça. - Vê e sabe isso perfeitamente, pois de contrário não me abordaria - observou Andrea, animando-se pouco a pouco. - Se trouxesse um lenço como o teu na cabeça, um camisolão sebento pelos ombros e sapatos roto nos pés, não me reconheceria. - Não há dúvida que me despreza, pequeno, e faz mal. Agora que te encontrei, nada me impede de vestir do bom e do melhor, como qualquer outro, pois sei que tem bom coração. Se possui duas casacas, me dará uma, como eu te dava a minha ração de sopa e feijão quando estava cheio de fome. - É verdade - concordou Andrea. - Tinha aqui um destes apetites! Continua a ser assim comilão? - Continuo - respondeu Andrea, rindo. - Como deve ter jantado em casa desse príncipe de onde vem!... - Não é um príncipe, é apenas um conde. - Um conde, e rico, não? - Sim, mas não se fie nisso. O cavalheiro não tem nada um ar tranquilizador... - Meu Deus, pode ficar sossegado! Não temos projetos acerca do seu conde, pode ficar com ele só para si... Mas - acrescentou Caderousse retomando o mau sorriso que já lhe aflorara aos lábios - é preciso dar qualquer coisa em troca, compreende? - Quanto? - Creio que com cem francos por mês... - Sim? - ...viverei. - Com cem francos? - Mas mal, bem sabes. Mas com... - Com? - ...cento e cinquenta francos serei muito feliz. - Aqui tens duzentos - disse Andrea. E meteu na mão de Caderousse dez luíses de ouro. - Ótimo... - murmurou Caderousse. - Apresente-se ao porteiro todos os primeiros dias do mês e terá outro tanto. - Pronto, lá está outra vez a humilhar-me! - Como assim? - Empurra-me para a criadagem. Isso não. Quero tratar contigo. - Seja. Procura-me todos os primeiros dias do mês e assim que eu receber a minha mesada você receberá a sua. - Muito bem, vejo que me não tinha enganado, que é um excelente rapaz e que é uma bênção quando a sorte bafeja pessoas como você. Vamos, conta-me a sua boa sorte. - Que necessidade tem de saber isso? - perguntou Cavalcanti. - Aí está outra vez a desconfiança! - Não. Encontrei o meu pai... - Um verdadeiro pai? - Com a breca, enquanto pagar... - Acreditará e honrará. É justo. Como se chama o teu pai? - Major Cavalcanti. - E ele está satisfeito contigo? - Até agora parece que sim. - E quem te fez encontrar esse pai? - O conde de Monte-Cristo. - Aquele de casa de quem vens? - Sim. - Bom, já que isso é assim, veja se não me consegue meter em casa dele como avô... - Está bem, lhe falarei de ti. Mas entretanto que vai fazer? - Eu? - Sim, você. - É muito amável em se preocupar com isso - disse Caderousse. - Parece-me que, uma vez que se interessa por mim, também tenho o direito de querer saber alguma coisa de si - perguntou Andrea. - É justo... Vou alugar um quarto numa casa respeitável, vestir umas roupas decentes, barbear-me todos os dias e ler os jornais no café. À noite, irei a qualquer espetáculo com um chefe de claque. Enfim, parecerei um padeiro reformado... E o meu sonho. - Ótimo! Se quiseres pôr esse projeto em execução e ter juízo, correrá tudo às mil maravilhas. - Verá, Sr. Bossuet!... E você, que vai ser? Par de França? - Eh, eh! - riu Andrea. - Quem sabe?... - O Sr. Major Cavalcanti talvez o seja ... mas infelizmente a hereditariedade foi abolida. - Nada de política, Caderousse!... E agora que tem o que queria e chegamos, salta da minha carruagem e desaparece. - Nem por sombras, caro amigo! - Como nem por sombra?... - Pensa um bocadinho, pequeno. Um lenço encarnado na cabeça, quase sem sapatos, nenhum documentos e dez napoleões de ouro na algibeira, sem contar com o que já havia lá e que soma exatamente duzentos francos... Prendiam-me infalivelmente na Barreira! Então seria forçado, para me justificar, a dizer que fora você quem me dera os dez napoleões... Daí, informação, inquérito. Descobrem que deixei Toulon sem pedir licença e reconduzem-me de brigada em brigada até às margens do Mediterrâneo. Volto a ser pura e simplesmente o nº 106 e adeus ao meu sonho de parecer um padeiro reformado! Nem por sombras, meu filho. Prefiro ficar respeitavelmente na capital. Andrea franziu o sobrolho. Era, como ele próprio se gabara, tão casmurro como o filho putativo do Sr. Major Cavalcanti. Deteve-se um instante, deitou uma rápida olhadela à sua volta, e quando o seu olhar acabava de descrever o círculo investigador a sua mão desceu inocentemente à algibeira das calças, onde começou a acariciar o guarda-mato de uma pistola de bolso. Entretanto, porem, Caderousse, que não perdia de vista o companheiro, passava a mão por detrás das costas e abria muito devagarinho uma grande navalha espanhola, que trazia consigo para o que desse e viesse. Como se vê, os dois amigos eram dignos de se compreender e compreenderam-se. A mão de Andrea saiu inofensivamente da algibeira e subiu até ao seu bigode ruivo, que afagou durante algum tempo. - Vai então ser feliz, meu bom Caderousse? - perguntou. - Farei todo o possível para isso - respondeu o estalajadeiro da Ponte do Gard, guardando a navalha na manga. - Vamos então, entremos em Paris. Mas como vai fazer para passar a Barreira sem despertar suspeitas? Parece-me que com esses trapos se arrisca ainda mais de carruagem do que a pé. - Espera, já vai ver... - disse Caderousse. Pegou no chapéu de Andrea e no capote de grande cabeção que o groom exilado do tílburi deixara no seu lugar e po-lo pelas costas, depois do que tomou a atitude impassível de um criado de casa rica cujo amo conduz pessoalmente. - E eu, vou ficar em cabelo? - protestou Andrea. - Ora! Está tanto vento que a brisa pode muito bem ter-te levado o chapéu... - Vamos então e acabemos com isto - resignou-se Andrea. - Que te detém? - perguntou Caderousse. - Não sou eu, espero... - Cale-se! - recomendou Cavalcanti. Atravessaram a Barreira sem contratempos. Na primeira rua transversal, Andrea parou o cavalo e Caderousse apeou. - Eh! - gritou Andrea. - Então e o capote do meu criado e o meu chapéu? - Decerto não quer que corra o risco de me constipar... -perguntou Caderousse. - Mas eu? - Você é novo, ao passo que eu começo a ficar velho. até mais ver, Benedetto! E entrou na ruela, onde desapareceu. - Infelizmente - disse Andrea, soltando um suspiro --, não se pode ser completamente feliz neste mundo! Capítulo LXV Cena conjugal Os três rapazes separaram-se na Praça de Luís XV, isto é, Morrel seguiu pelos bulevares, Château-Renaud meteu pela Ponte da Revolução e Debray pelo cais. Segundo todas as probabilidades, Morrel e Château-Renaud alcançaram os seus lares domésticos, como se diz agora na tribuna da Câmara, nos discursos bem escritos, e no teatro da Rua de Richelieu, nas peças igualmente bem escritas. Mas o mesmo não aconteceu com Debray. Chegado à passagem do Luvre, virou à esquerda, atravessou o Carrossel a galope, meteu pela Rua de Saint- Roch, desembocou pela Rua da Michodiêre e chegou à porta do Sr. Danglars no momento em que o landô do Sr. de Villefort, depois de o deixar a ele e à mulher no Arrabalde de Saint-Honoré, parava para a baronesa se apear em sua casa. Debray, como homem familiar da casa, entrou à frente no pátio, atirou as rédeas para as mãos de um lacaio e dirigiu-se para a portinhola da carruagem a fim de receber a Sra Danglars, à qual ofereceu o braço para a acompanhar aos seus aposentos. Uma vez a porta fechada e a baronesa e Debray no pátio, o rapaz perguntou: - Que tem, Hermine? Por que motivo se sentiu mal ao ouvir aquela história, ou antes, a fábula que o conde contou? - Porque estava horrivelmente deprimida esta noite, meu amigo - respondeu a baronesa. - Não, Hermine - prosseguiu Debray --, não posso acreditar nisso. Pelo contrário, estava com excelente disposição quando chegou a casa do conde. O Sr. Danglars é que estava um pouco aborrecido, isso é verdade, mas bem sei o pouco caso que a senhora faz do seu mau humor. Alguém lhe fez qualquer coisa. Conteme o que foi. Bem sabe que nunca toleraria uma impertinência para consigo. - Engana-se, Lucien, garanto-lhe - perguntou a Sra Danglars. - As coisas são como lhe disse, mais o mau humor em que reparou e de que julgava não valer a pena falar-lhe. Era evidente que a Sra Danglars se encontrava sob a influência de uma dessas crises nervosas de que muitas vezes as próprias mulheres se não dão conta, ou que, como adivinhara Debray, experimentara qualquer comoção oculta que não queria confessar a ninguém. Como homem habituado a reconhecer os flatos como um dos elementos da vida feminina, não insistiu mais e resolveu esperar o momento oportuno, quer para nova interrogação, quer para uma confissão de motu proprio. À porta do seu quarto a baronesa encontrou Mademoiselle Cornélie. Mademoiselle Connélie era a criada de quarto de confiança da baronesa. - Que faz a minha filha? - perguntou a Sra Danglars. - Estudou toda a noite e em seguida foi-se deitar - respondeu Mademoiselle Cornélie. - No entanto, parece-me que ouço o seu piano... - E Mademoiselle Louise de Armilly que toca enquanto a menina está deitada. - Bem, venha despir-me - ordenou a Sra Danglars. Entraram no quarto. Debray estendeu-se num grande canapé e a Sra Danglars dirigiu-se para o seu quarto de vestir com Mademoiselle Cornélie. - Meu caro Sr. Lucien - disse a Sra Danglars através da porta do quarto de vestir --, porque está sempre a queixar-se de que Eugênie não lhe dá a honra de lhe dirigir a palavra? - Minha senhora - respondeu Lucien, brincando com o cãozinho da baronesa, o qual, reconhecendo a sua qualidade de amigo da casa, tinha o hábito de lhe fazer mil carícias --, não sou o único que lhe faço semelhantes recriminações. Creio ter ouvido um dia destes Morcerf queixar-se a si mesma de que não conseguia arrancar uma única palavra à noiva. - É verdade - reconheceu a Sra Danglars. - Mas creio que uma destas manhãs tudo isso mudará e verá entrar Eugênie no seu gabinete. - No meu gabinete? - Quero dizer, no do ministério. - E porquê? - Para lhe pedir um contrato para a Ópera! Na verdade, nunca vi tal entusiasmo pela música. Chega a ser ridículo numa pessoa da sociedade. Debray sorriu. - Bom, desde que apareça com o seu consentimento e do barão, lhe arranjaremos esse contrato e procuraremos que esteja de acordo com o seu mérito, embora sejamos muito pobres para pagar tão grande talento como o dela. - Pode ir, Cornélie, já não preciso de si - disse a Sra Danglars. Cornélie saiu e pouco depois a Sra Danglars saiu também do quarto de vestir num elegante néglige e foi sentar-se ao pé de Lucien. Depois, pensativa, pôs-se a afagar o petit-‚pagneul. Lucien olhou-a um instante em silêncio. - Vejamos, Hermine, responda francamente: que é que a preocupa? - perguntou por fim. - Nada - respondeu a baronesa. E no entanto, como sufocasse, levantou-se, tentou respirar e foi ver-se ao espelho. - Estou medonha, esta noite - declarou. Debray ia a levantar-se, sorrindo, para ir tranquilizar a baronesa a tal respeito, quando a porta se abriu de súbito. O Sr. Danglars entrou. Debray voltou a sentar-se. Ao ouvir o barulho da porta, a Sra Danglars virou-se e olhou o marido com um espanto que nem sequer se incomodou a dissimular. - Boa noite, minha senhora. Boa noite, Sr. Debray. A baronesa julgou, sem dúvida, que aquela visita inesperada significava qualquer coisa como o desejo de reparar as palavras amargas que tinham escapado ao barão durante o dia. Assumiu por isso um ar digno e, virando-se para Lucien, sem responder ao marido, disse-lhe: - Leia-me qualquer coisa, Sr. Debray. Debray, a quem a visita começava por inquietar ligeiramente, tranquilizouse ao ver a calma da baronesa e estendeu a mão para um livro marcado ao meio por uma faca de lâmina de madrepérola incrustada de ouro. - Perdão - disse o banqueiro --, mas se cansaria demasiado ficando acordada até tão tarde. São onze horas e o Sr. Debray mora muito longe. Debray ficou tolhido de surpresa, não porque o tom de Danglars não fosse perfeitamente calmo e delicado mas, enfim, através daquela calma e daquela delicadeza transparecia certa veleidade pouco habitual de contrariar a vontade da mulher naquela noite. A baronesa também ficou admirada e manifestou a sua surpresa com um olhar que sem dúvida daria que pensar ao marido se este não tivesse os olhos fixos num jornal onde procurava o fecho da Bolsa. Devido a isso, esse olhar tão ferino foi lançado em pura perda e falhou completamente o seu efeito. - Sr. Lucien - disse a baronesa --, declaro-lhe que não tenho a mais pequena vontade de dormir, que tenho inúmeras coisas para lhe contar esta noite e que o senhor vai passar a noite a ouvir-me, nem que tenha de dormir de pé. - Às suas ordens, minha senhora - respondeu fleumaticamente Lucien. - Meu caro Sr. Debray - disse por sua vez o banqueiro -- não perca tempo, peço-lhe, a escutar esta noite as loucuras da Sra Danglars, pois as escutará facilmente amanhã. Mas esta noite é minha, reservo-a, e a dedicarei, se se dignar permitir-me, a conversar de graves interesses com a minha mulher. Desta vez o golpe era de tal forma direto e firme que deixou Lucien e a baronesa desorientados. Ambos se interrogaram com a vista, como se procurassem um no outro socorro contra aquela agressão. Mas o poder irresistível do dono da casa triunfou e deu força ao marido. - Que nem sequer lhe passe pela cabeça que o ponho na rua, meu caro Debray - continuou Danglars. - Não, por nada deste mundo. Apenas uma circunstância imprevista me obriga a desejar ter esta mesma noite uma conversa com a baronesa. Isto acontece-me muito raramente e portanto espero que me não guardem rancor. Debray balbuciou algumas palavras, cumprimentou e saiu, chocando com as esquinas, como Natã em :Atalia. - É incrível - disse quando a porta se fechou atrás de si -- como estes maridos que achamos tão ridículos adquirem facilmente vantagem sobre nós! Depois de Lucien sair, Danglars instalou-se no seu lugar no canapé, fechou o livro que ficara aberto e, tomando uma atitude horrivelmente pretensiosa, continuou a brincar com o cão. Mas como o cão, que não tinha por ele a mesma simpatia que por Debray, o quisesse morder, agarrou-o pelo cachaço e atirou-o para cima doutro canapé colocado do lado oposto do quarto. O animal ganiu ao atravessar o espaço; mas chegado ao seu destino aninhou-se atrás de uma almofada e, estupefato com semelhante tratamento a que não estava habituado, ficou mudo e quieto. - Sabe, senhor - disse a baronesa sem pestanejar - que está fazendo progressos? Habitualmente é apenas grosseiro; esta noite é brutal. - É que estou esta noite de mais mau humor do que habitualmente - respondeu Danglars. Hermine olhou o banqueiro com supremo desdém. Regra geral, tais olhares exasperavam o orgulho de Danglars; mas naquela noite pareceu quase não reparar neles. - E que me interessa a mim o seu mau humor? - replicou a baronesa, irritada com a impassibilidade do marido. - Porventura essas coisas dizem-me respeito? Guarde os seus maus humores para si ou descarregue-os nos seus escritórios. Uma vez que tem empregados a quem paga, eles que lhe aturem os maus humores! - De modo nenhum - respondeu Danglars. - Os seus conselhos são insensatos, minha senhora, e por isso não os seguirei. Os meus escritórios são o meu Patolo, como diz, se me não engano, o Sr. Desmoustiers, e não desejo mudar-lhe o curso nem perturbar-lhe a calma. Os meus empregados são pessoas honestas, que ganham a minha fortuna e a quem pago uma taxa infinitamente inferior à que merecem, se os avaliar de acordo com o que me rendem. Portanto, não descarregarei a minha cólera sobre eles; e a descarregarei sobre aqueles que papam os meus jantares, rebentam os meus cavalos e esvaziam o meu cofre. - E quem são essas pessoas que esvaziam o seu cofre? Explique-se mais claramente, senhor, peço-lhe. - Oh, esteja tranquila! Embora fale por enigmas, estou certo de que não precisará de muito tempo para os decifrar - perguntou Danglars. - As pessoas que esvaziam o meu cofre são aquelas que numa hora tiram dele a bagatela de quinhentos mil francos. - Não o compreendo, senhor - disse a baronesa, procurando dissimular simultaneamente a emoção da voz e o rubor do rosto. - Pelo contrário, compreende muito bem - contrapós Danglars. - Mas se a sua má vontade continuar, lhe direi que acabo de perder setecentos mil francos do empréstimo espanhol. - Essa agora! - exclamou a baronesa, troçando. - E é a mim que torna responsável por essa perda? - Porque não? - Tenho por acaso a culpa se o senhor perdeu setecentos mil francos? - Seja como for, eu é que a não tenho. - De uma vez para sempre, senhor - perguntou azedamente a baronesa --, repito-lhe: nunca me fale em dinheiro! É uma linguagem que não aprendi nem em casa de meus pais nem em casa do meu primeiro marido. - Acredito, meu Deus! - volveu-lhe Danglars. Pois se nem um nem outro tinham um centavo! - Mais uma razão para que não tenha aprendido em sua casa o calão bancário com que me matam aqui o bichinho do ouvido de manhã à noite. Esse barulho de moedas que contam e recontam me é odioso, e só o som da sua voz me é ainda mais desagrável. - Na verdade, como tudo isto é estranho! - comentou Danglars. - E eu que julgava que a senhora dedicava o mais vivo interesse às minhas operações! - Eu? Quem lhe meteu na cabeça semelhante tolice? - A senhora mesma. - Ora essa! - Sem dúvida. - Gostaria muito que me dissesse quando isso aconteceu. - Nada mais fácil, meu Deus! Em Fevereiro último, a senhora foi a primeira pessoa a falar-me dos fundos de Haiti. Sonhara que um navio entrava no porto do Havre e que esse navio trazia a notícia de que se ia efetuar um pagamento que se julgava relegado para as lendas gregas. Conheço a lucidez do seu sono, por isso, mandei comprar à socapa todos os cupons que consegui encontrar da dívida do Haiti e ganhei quatrocentos mil francos, cem mil dos quais lhe foram religiosamente entregues. A senhora fez o que quis desse dinheiro e eu nunca lhe pedi contas dele. "Em Março, tratava-se de uma concessão de caminho-de-ferro. Concorriam três empresas que davam iguais garantias. A senhora disse-me que o seu instinto... (Aqui entre nós, embora a senhora se pretenda alheia às especulações, creio, pelo contrário, que possui um instinto desenvolvidíssimo a respeito de certas matérias... ) Pois nesse caso disse-me que o seu instinto lhe segredava que a concessão seria dada à empresa chamada do Meio-Dia. "Inscrevi-me imediatamente para subscrever dois terços das ações dessa sociedade. A concessão foi-lhe efetivamente dada, como a senhora previra; as ações triplicaram de valor e eu embolsei um milhão, do qual lhe entreguei duzentos e cinquenta mil francos para os seus alfinetes. Como empregou esses duzentos e cinquenta mil francos? - Mas onde quer o senhor chegar? -- gritou-lhe a baronesa, trêmula de despeito e impaciência. - Calma, minha senhora. Lá iremos... - Assim espero! - Em Abril, jantou em casa do ministro. Falou-se da Espanha e a senhora ouviu uma conversa secreta. Tratava-se da expulsão de D. Carlos. Comprei fundos espanhóis. A expulsão realizou-se e eu ganhei seiscentos mil francos no dia em que Carlos V transpôs o Bidassoa. Desses seiscentos mil francos a senhora recebeu cinquenta mil escudos. Eram seus, dispôs deles como muito bem entendeu e não lhe peço contas. Mas nem por isso é menos verdade que recebeu este ano quinhentas mil libras. - E depois, senhor? - Ah, sim, e depois! Aí é que precisamente o gato vai aos fios. - Tem cada maneira de se exprimir... na verdade... - Dizem o que quero dizer e isso é tudo o que pretendo. Depois, há três dias... há três dias a senhora falou de política com o Sr. Debray e julgou adivinhar nas suas palavras que D. Carlos regressara a Espanha. Então vendi os meus títulos, a notícia espalhou-se, houve pânico e em vez de vender acabei por dar. No dia seguinte descobre-se que a notícia era falsa e devido a essa falsa notícia perdi setecentos mil francos! - E depois? - E depois?... Se lhe dou um quarto quando ganho, a senhora deve-me um quarto quando perco. Ora, um quarto de setecentos mil francos são cento e setenta e cinco mil francos. - Tudo o que tem estado para aí a dizer é extravagante e não vejo por que motivo mistura o nome do Sr. Debray em toda essa história. - Porque se por acaso não tem os cento e setenta e cinco mil francos que reclamo, terá de pedi-los emprestados aos seus amigos e o Sr. Debray é um dos seus amigos. - Era o que faltava! - gritou a baronesa. - Oh, deixe-se de gestos, de gritos, de drama moderno, minha senhora! Do contrário, me obrigará a dizer-lhe que estou vendo o Sr. Debray rindo junto das quinhentas mil libras que a senhora lhe deu este ano e dizendo para consigo que descobriu finalmente o que nem os mais hábeis jogadores nunca descobriram, ou seja, uma roleta onde se ganha sem entrar no jogo e onde não se perde quando se perde. A baronesa explodiu. - Miserável! Atreve-se a dizer-me que não sabia o que hoje ousa censurarme? - Não lhe digo que sabia nem lhe digo que não sabia; digo-lhe: observe o meu comportamento desde que há quatro anos não é minha mulher e que não sou seu marido e verá se não tem sido sempre consequente consigo mesmo. Algum tempo antes do nosso rompimento, a senhora desejou estudar música com aquele famoso barítono que se estreou com tanto êxito no Teatro Italiano e eu quis estudar dança com aquela bailarina que adquirira tão grande fama em Londres. Isso custou-me, tanto pela sua parte como pela minha, perto de cem mil francos. Não disse nada, porque deve haver harmonia no lar. Cem mil francos para que o homem e a mulher saibam bem a fundo dança e música não é muito caro. Mas a senhora não tardou a aborrecer-se do canto e a vir-lhe à idéia de estudar diplomacia com um secretário de um ministro. Deixei-a estudar... Compreende: que me importava a mim, se a senhora pagava as lições da sua bolsa? Mas hoje verifico que o dinheiro sai da minha e que a sua aprendizagem me pode custar setecentos mil francos por mês... Alto aí, minha senhora, porque as coisas não podem continuar assim! Ou o diplomata passa a dar as lições... de graça, e o tolerarei, ou não põe mais os pés nesta casa. Compreendeu, minha senhora? - Oh, é demais, senhor! - gritou Hermine, sufocada. - O senhor ultrapassa os limites do ignóbil! - Mas - continuou Danglars - verifico com prazer que a senhora não me fica atrás e que obedece voluntariamente àquela disposição do código que diz: “A mulher deve seguir o marido." - Insultos! - Tem razão: fiquemos pelos fatos e raciocinemos friamente. Nunca me meti na sua vida a não ser para seu bem. Faça o mesmo. O meu cofre não lhe diz respeito, não é o que a senhora afirma? Seja. Cuide do seu, mas não encha nem despeje o meu. Aliás, quem sabe se tudo isso não passa de uma pulhice política? Se o ministro, furioso por me ver na oposição e invejoso das simpatias populares que suscito, não está feito com o Sr. Debray para me arruinar? - Acha isso possível? - Mas sem dúvida! Só quem nunca viu isso... uma falsa notícia telegráfica, isto é, o impossível ou quase... Sinais absolutamente diferentes transmitidos pelos dois últimos telégrafos!... Para mim, é esta a realidade. - Senhor - disse mais humildemente a baronesa --, não ignora, parece-me, que esse funcionário foi expulso, que se falou até de lhe levantar um processo, que se deu ordem para o prender e que essa ordem teria sido cumprida se ele se não tivesse subtraído às primeiras buscas por meio de uma fuga que prova a sua loucura ou a sua culpabilidade... Foi um erro. - Sim, que fez rir os tolos, passar uma má noite ao ministro, escrevinhar os Srs. Secretários de Estado, mas que me custou a mim setecentos mil francos. - Mas, senhor - disse de súbito Hermine --, se tudo isso, em seu entender, é culpa do Sr. Debray, por que motivo, em vez de dizer todas essas coisas diretamente ao Sr. Debray, as diz a mim? Porque acusa o homem e censura a mulher? - Conheço porventura o Sr. Debray? - perguntou Danglars. - Interessa-me porventura conhecê-lo? Quero porventura saber se ele dá conselhos? Estou porventura disposto a segui-los? Jogo, porventura? Não, é a senhora que faz tudo isto e não eu! - Mas parece-me, uma vez que o senhor tira proveito disso... Danglars encolheu os ombros. - Loucas criaturas, na verdade, estas mulheres que se julgam gênios só porque levaram a bom termo uma ou duas intrigas sem serem apontadas a dedo por toda Paris! Mas fique ciente que mesmo que tivesse conseguido ocultar os seus desregramentos ao seu marido, o que seria o abc da arte, porque a maior parte do tempo os maridos não querem ver, a senhora não passaria de uma pálida cópia do que faz metade das suas amigas da alta-roda. Mas comigo as coisas não se passam assim Tenho visto e sempre vi. Há dezesseis anos, mais ou menos, talvez me tivesse ocultado um pensamento, mas não um procedimento, uma ação, uma falta. Enquanto pelo seu lado se felicitava pela sua astúcia e julgava firmemente enganar-me, que acontecia? Graças à minha pretensa ignorância, desde o Sr. de Villefort até ao Sr. Debray, não há um dos seus amigos que não tenha tremido diante de mim. Não há um que não me tenha tratado como dono da casa, a minha única pretensão junto de si. Não há um, enfim, que se tenha atrevido a dizer-lhe de mim o que eu próprio lhe digo agora. Permito-lhe que me torne odioso, mas a impedirei de me tornar ridículo, e sobretudo proíbo-a concretamente e acima de tudo de me arruinar. Até ao momento em que o nome de Villefort fora pronunciado, a baronesa conservara-se aparentemente calma. Mas ao ouvir aquele nome, empalidecera e, erguendo-se como se fosse impelida por uma mola, estendera os braços como que para conjurar uma aparição e deu três passos na direção do marido, como se quisesse arrancar-lhe o fim do segredo que ele não conhecia ou que talvez, por meio de qualquer cálculo odioso como eram quase sempre todos os cálculos de Danglars, ele não queria revelar inteiramente. - O Sr. de Villefort? Que significa... que quer dizer? - Quer dizer, minha senhora, que o Sr. de Nargonne, seu primeiro marido, não sendo filósofo nem banqueiro, ou talvez sendo um e outro, e vendo que não tinha nenhum partido a tirar de um procurador régio, morreu de desgosto ou de raiva por a encontrar grávida de seis meses, depois de uma ausência de nove. Sou brutal, e não só o sei como ainda me gabo disso. É um dos meus meios de êxito nas minhas operações comerciais. Por que motivo, em vez de matar se matou a si mesmo? Porque não tinha de salvar o seu dinheirinho. Mas eu devome ao meu dinheiro. O Sr. Debray, meu sócio, fez-me perder setecentos mil francos; pois que suporte a sua parte do prejuízo e continuaremos a negociar. De contrário, que declare falência perante mim por essas cento e setenta e cinco mil libras e faça o que fazem os falidos, desapareça. Meu Deus, é um rapaz encantador, bem sei, quando as suas notícias são exatas; mas quando o não são, há cinquenta no mundo que valem mais do que ele. A Sra Danglars estava aterrada. No entanto, fez um derradeiro esforço para responder ao último ataque. Mas caiu numa poltrona a pensar em Villefort, na cena do jantar e na estranha série de contrariedades que havia alguns dias se abatiam uma a uma sobre a sua casa e transformavam em debates escandalosos a calma forçada do seu lar. Danglars nem sequer a olhou, embora ela fizesse todo o possível para desmaiar. Bateu com a porta do quarto sem acrescentar uma única palavra e regressou ao seu. Assim, quando voltou a si do seu meio desmaio, a Sra Danglars pode acreditar que tivera um mau sonho. Capítulo LXVI Projetos de casamento No dia seguinte ao desta cena, à hora que Debray costumava escolher para, antes de ir para o seu gabinete, fazer uma visitinha à Sra Danglars, o seu cupe não apareceu no pátio. A essa hora, isto é, por volta do meio-dia e meia hora, a Sra Danglars pediu a sua carruagem e saiu. Danglars, colocado atrás de uma cortina, espreitara aquela saída, que esperava, e ordenou que o prevenissem imediatamente quando a senhora voltasse. Mas às duas horas ela ainda não tinha regressado. Às duas horas, Danglars pediu os seus cavalos, dirigiu-se para a Câmara e inscreveu-se para falar contra o orçamento. Do meio-dia às duas horas, Danglars permanecera no seu gabinete lendo a sua correspondência com ar cada vez mais sombrio e a alinhar números sobre números, além de receber, entre outras, a visita do major Cavalcanti, que, sempre lívido, hirto e pontual, se apresentou à hora anunciada na véspera para concluir o seu negócio com o banqueiro. Quando saiu da Câmara, Danglars, que dera sinais evidentes de agitação durante a sessão e que sobretudo fora mais acerbo do que nunca contra o ministério, meteu-se na sua carruagem e ordenou ao cocheiro que o conduzisse à Avenida dos Campos Elísios, nº 30. Monte-Cristo estava em casa; mas como estava com alguém, pedia a Danglars que esperasse um instante na sala. Enquanto o banqueiro esperava, a porta abriu-se e ele viu entrar um homem vestido de abade, que, em vez de esperar como ele, o cumprimentou e, decerto por ser mais familiar do que ele na casa, se dirigiu para o interior desta e desapareceu. Pouco depois, a porta por onde entrara o padre voltou a abrir-se e Monte-Cristo apareceu. - Desculpe, meu caro barão - disse -, mas um dos meus melhores amigos, o abade Busoni, que deve ter visto passar, acaba de chegar a Paris. Havia muito tempo que não nos víamos e não tive coragem de o deixar imediatamente. Espero que, atendendo ao motivo, me desculpe tê-lo feito esperar. - Ora essa, eu é que escolhi mal o momento. Mas o remédio ‚ simples: retiro-me. - De modo nenhum, Pelo contrário, faça favor de se sentar. Mas, meu Deus, que tem o senhor? Tem o ar de estar muito preocupado. Na verdade, assusta-me. Um capitalista preocupado é como os cometas: pressagia sempre alguma grande desgraça no mundo. - Meu caro senhor - respondeu Danglars --, há vários dias que a pouca sorte me persegue e que só recebo más noticias. - Meu Deus, voltou a perder na Bolsa? - perguntou Monte-Cristo. - Não, disso já me ressarci, pelo menos por alguns dias. Trata-se muito simplesmente para mim de uma falência em Trieste. - Sim? E o seu falido será por acaso Jacopo Manfredi? - Exatamente! Imagine um homem que tinha comigo, há não sei quanto tempo, negócios no montante de oitocentos ou novecentos mil francos por ano. Nunca um erro de contas, nunca um atraso. Um figurão que pagava como um príncipe... dos que pagam. Adiantei-lhe um milhão e o diabo do meu Jacopo Manfredi suspende pagamentos! - Deveras? - Uma fatalidade inaudita. Saco sobre ele seiscentas mil libras e o papel vem-me devolvido incobrado, e além disso sou ainda portador de quatrocentos mil francos de letras aceites por ele e pagáveis no fim deste mês no seu correspondente em Paris. Estamos a 30, mandei receber. Pois sim, o correspondente desapareceu! Juntamente com o meu negócio de Espanha, tenho um bonito fim de mês. - Mas foi realmente uma perda o seu negócio de Espanha? - Claro, setecentos mil francos fora do meu cofre, apenas isso! - Como diabo cometeu semelhante asneira, o senhor, um velho especulador? - A culpa foi da minha mulher. Sonhou que D. Carlos regressara a Espanha. Ela acredita nos sonhos. Trata-se de magnetismo, diz ela, e quando sonha uma coisa, essa coisa, ao que afirma, tem infalivelmente de acontecer. Dada a sua convicção, deixo-a jogar. Ela tem o seu pé-de-meia, e o seu corretor. Joga e perde. E certo que se não trata do meu dinheiro e sim do seu, mas mesmo assim o caso interessa-me. Compreende, quando da bolsa da mulher saem setecentos mil francos, o marido acaba sempre por descobrir. Como, não sabia de nada? Pois olhe que o caso deu muito que falar. - Efetivamente ouvi qualquer coisa a esse respeito, mas ignorava os pormenores, pois não há ninguém mais ignorante desses negócios de Bolsa do que eu. - O senhor não joga? - Eu? Como queria que jogasse? Tenho já tanta dificuldade em cuidar dos meus rendimentos que, além do meu intendente, seria obrigado a contratar um escriturário e um caixa. Mas a propósito da Espanha, parece-me que a baronesa não sonhou completamente com a história do regresso de D. Carlos. Os jornais não disseram qualquer coisa a esse respeito? - E o senhor acredita nos jornais? - Absolutamente nada. Mas parece-me que esse honesto Messager era uma exceção à regra e só anunciava as notícias verdadeiras, as notícia telegráficas - Pois isso mesmo é que é inexplicável - perguntou Danglars. - O regresso de D. Carlos era efetivamente uma notícia telegráfica. - De modo que o senhor perdeu este mês um milhão e setecentos mil francos, pouco mais ou menos? - perguntou Monte-Cristo. - Não há pouco mais ou menos, foi exatamente essa verba. - Demônio, para uma fortuna de terceira ordem, é um rude golpe! - declarou Monte-Cristo, com compaixão. - De terceira ordem? - repetiu Danglars um pouco vexado. - Que diabo entende o senhor por isso? - Sem dúvida - prosseguiu Monte-Cristo. - Divido as fortunas em três categorias: fortuna de primeira ordem, fortuna de segunda ordem e fortuna de terceira ordem. Chamo fortuna de primeira ordem à que se compõe de tesouros ao alcance da mão: terras, minas, títulos sobre Estados como a França, a Àustria e a Inglaterra, contanto que esses tesouros, essas minas e esses títulos atinjam o total de uma centena de milhões. Chamo fortuna de segunda ordem às explorações manufatureiras, às empresas por quotas, aos vice-reinos e aos principados que não excedam um milhão e quinhentos mil trancos de rendimento e ao todo possuam um capital à volta de cinquenta milhões. Finalmente, chamo fortuna de terceira ordem aos capitais que frutificam por meio de juros compostos, cujos ganhos dependem da vontade de outros ou dos caprichos do acaso, que uma falência desmorona, que uma notícia telegráfica abala; às especulações eventuais e, enfim, às operações submetidas aos acasos dessa fatalidade, que poderíamos chamar força menor comparando-a com a força maior, que é a força natural; tudo constituindo um capital fictício ou real dos seus quinze milhões. Não é pouco mais ou menos esta a sua situação, diga? - Pois sim, é! - respondeu Danglars. - O que significa que com seis fins de mês como este - continuou imperturbavelmente Monte-Cristo - uma casa de terceira ordem estaria na agonia. - Oh! - exclamou Danglars, com um sorriso muito pálido. - Onde o senhor vai!... - Digamos sete meses - replicou Monte-Cristo, no mesmo tom. - Já pensou alguma vez que sete vezes um milhão e setecentos mil francos fazem cerca de doze milhões?... Não? Claro, tem razão, pois com semelhantes reflexões nunca ninguém arriscaria os seus capitais, que são para o financeiro o que a pele é para o homem civilizado. Temos as nossas roupas, mais ou menos sumtuosas, que são o nosso crédito. Mas quando o homem morre tem apenas a sua pele, tal como, se renunciasse aos negócios, o senhor só teria a sua fortuna real, cinco ou seis milhões quando muito. "Porque as fortunas de terceira ordem quase só valem a terça ou a quarta parte do que aparentam, tal como a locomotiva de um comboio não passa quase sempre, no meio do fumo que a envolve e a faz parecer maior, de uma máquina mais ou menos forte. Pois bem, dos cinco milhões que constituem o seu ativo real, o senhor acaba de perder à volta de dois, que diminuem em igual quantia a sua fortuna fictícia ou o seu crédito. Quer dizer, meu caro Sr. Danglars! Precisa de dinheiro? Quer que lhe empreste? - O senhor é um mau calculador! - protestou Danglars, chamando em seu auxílio toda a filosofia e toda a dissimulação da aparência. - Neste momento o dinheiro já entrou nos meus cofres graças a outras especulações bem sucedidas. O sangue saído pela sangria voltou a entrar pela nutrição. Perdi uma batalha na Espanha e fui vencido em Trieste, mas a minha frota da índia apresou com certeza alguns galeões e os meus pioneiros do México devem ter descoberto alguma mina. - Ótimo, Ótimo! Mas a cicatriz ficará e ao primeiro prejuízo reabrirá... - Não, porque me baseio em certezas - prosseguiu Danglars, com a loquacidade vulgar do charlatão que procura não deixar o seu crédito por mãos alheias. - Para me derrubar seria preciso que três governos caíssem. - Bom... já se tem visto. - Que a terra não produzisse. - Lembre-se das sete vacas gordas e das sete vacas magras. - Ou que o mar se abrisse, como no tempo do faraó. Mas há vários mares e os navios poderiam transformar-se em caravanas... - Tanto melhor, mil vezes tanto melhor, caro Sr. Danglars - disse Monte- Cristo. - Verifico que me enganei e que o senhor pertence às fortunas de segunda ordem. - Creio poder aspirar a essa honra - perguntou Danglars, com um daqueles sorrisos estereotipados que causavam a Monte-Cristo o eleito de uma dessas luas pastosas com que os maus pintores pintalgam as suas ruínas. - Mas já que estamos falando de negócios - acrescentou, encantado por encontrar pretexto para mudar de conversa - diga-me mais ou menos o que posso fazer pelo Sr. Cavalcanti. - Mas dar-lhe dinheiro, se ele tiver um crédito sobre o senhor e se esse crédito lhe parecer hom. - Excelente! Apresentou-se-me esta manhã com uma ordem de quarenta mil francos, pagável à vista sobre o senhor, assinada por Busoni e endossada a mim por si. Como calcula, entreguei-lhe imediatamente os quarenta mil francos. Monte-Cristo fez um sinal de cabeça que indicava estar plenamente de acordo. - Mas isto não é tudo - continuou Danglars. - Abriu ao filho um crédito sobre mim. - Quanto, se não é indiscrição, dá ele ao rapaz? - Cinco mil francos por mês. - Sessenta mil francos por ano. Já desconfiava disso - disse Monte-Cristo, encolhendo os ombros. - São uns forretas, esses Cavalcanti! Que quer ele que um rapaz faça com cinco mil francos por mês? - Mas se o rapaz necessitar de mais alguns milhares de francos... - Não caia nessa! O pai não os pagara. O senhor não conhece todos os milionários transalpinos; são autênticos sovinas. E por intermédio de quem lhe abriu o crédito? - Por intermédio da Casa Fenzi, uma das melhores de Florença. - Não quero dizer que o seu dinheiro não esteja seguro, nem por sombras; mas, mesmo assim, cinja-se aos termos da carta de crédito. - Devo entender que no meu lugar não confiaria no Cavalcanti? - Eu? Lhe daria dez milhões mediante a sua assinatura. A dele faz parte das fortunas de segunda ordem de que lhe falava há pouco, meu caro Sr. Danglars. - E, no entanto, como é simples! Tomá-lo-ia apenas por um major, se não soubesse mais nada a seu respeito. - E já seria uma grande honra para ele! Porque o senhor tem razão, o homem não tem grande figura. Quando o vi pela primeira vez, pareceu-me um velho tenente que tivesse criado bolor debaixo da sua charlateira. Mas todos os italianos são assim: lembram velhos judeus, quando não deslumbram como magos do Oriente. - O rapaz é melhor - declarou Danglars. - Sim, mas talvez um bocadinho tímido. No entanto, pareceu-me aceitável. Estava preocupado, sabe? - Porquê? - Porque o senhor viu-o em minha casa pouco depois da sua entrada na sociedade, pelo menos segundo me disseram. Viajou com um preceptor severíssimo e nunca viera a Paris. - Todos esses italianos de alta linhagem têm o hábito de casar entre si, não é verdade? - perguntou negligentemente Danglars. - Gostam de juntar as suas fortunas. - Habitualmente procedem assim, é verdade; mas Cavalcanti é um original que não faz nada como os outros. Ninguém me tira da idéia que mandou vir o filho para França a fim de ele arranjar mulher. - Parece-lhe? - Tenho certeza. - Já ouviu falar da sua fortuna? - Não se fala de outra coisa. - Simplesmente, uns atribuem-lhe milhões, ao passo que outros pretendem que não possui centavo. - E qual é a sua opnião? - Não deve confiar demasiado nela; é meramente pessoal. - Mas enfim... - Na minha opnião, todos esses antigos podestades, todos esses velhos condottieri, porque os Cavalcanti comandaram exércitos e governaram províncias; na minha opnião, repito, eles enterraram milhões em recantos que só os seus primogênitos conhecem e dão a conhecer aos seus primogênitos de geração em geração. E a prova é que são todos amarelos e magros como os seus florins do tempo da República, de que conservam um reflexo à força de os olhar. - Perfeito - concordou Danglars. - E isso é tanto mais verdade quanto é certo ninguém conhecer uma polegada de terra a toda essa gente. - Muito pouca, pelo menos. Pela minha parte, só conheço a Cavalcanti o seu palácio de Luca. - Ah, ele tem um palácio! -- exclamou, rindo, Danglars. - já é qualquer coisa. - Pois é, embora o tenha alugado ao ministro das Finanças, enquanto ele mora numa casinha. Oh, mas como já lhe disse, creio que o homenzinho é um avarento! - Então, então, não seja tão severo... - Ouça, eu mal o conheço. Creio tê-lo visto três vezes na minha vida. O que sei a seu respeito é por intermédio do abade Busoni e por ele mesmo. Falava-me esta manhã dos seus projetos acerca do filho e deixava-me entrever que, farto de ver dormir fundos consideráveis na Itália, que é um pais morto, gostaria de encontrar maneira, quer na França, quer na Inglaterra, de fazer frutificar os seus milhões. Mas tome sempre bem nota que, embora tenha a maior confiança no abade Busoni, pessoalmente não garanto nada. - Não importa. Obrigado pelo cliente que me arranjou. Trata-se de um belíssimo nome a inscrever nos meus registros, e o meu tesoureiro, a quem expliquei quem eram os Cavalcanti, ficou todo orgulhoso. A propósito, e isto não passa de um simples pormenor sem importância, quando essa gente casa os filhos dá-lhes dote? - Meu Deus, é conforme! Conheci um príncipe italiano, rico como uma mina de ouro, um dos primeiros nomes da Toscana, que quando os filhos casavam a seu gosto lhes dava milhões, e quando casavam contra sua vontade se limitava a conceder-lhes uma mesada de trinta escudos por mês. Admitamos que Andrea casa de acordo com os desejos do pai; talvez este lhe dê um, dois ou três milhões. E se casasse com a filha de um banqueiro, por exemplo, talvez adquirisse uma quota na casa do sogro do filho... “ Mas suponha também que a nora lhe desagradava: adeus, minhas encomendas, o pai Cavalcanti pegava na chave do cofre, dava-lhe duas voltas na fechadura e mestre Andrea viria-se obrigado a viver como um filho-família parisiense, marcando cartas ou viciando dados. - Esse rapaz encontrará uma princesa bávara ou peruana. Ambicionará uma coroa fechada, um Eldorado atravessado pelo Potosi. - Não, todos os grandes senhores do outro lado dos montes casam frequentemente com simples mortais. São como Júpiter, gostam de cruzar as raças. Mas diga-me, meu caro Sr. Danglars: é por pretender casar Andrea que me faz todas essas perguntas?... - Confesso - respondeu Danglars - que não me parece má especulação. E eu sou um especulador... - Presumo que não seja com Mademoiselle Danglars... -- Decerto não quereria ver o pobre Andrea degolado por Albert... - Albert? - exclamou Danglars, encolhendo os ombros. Bem se preocuparia ele com isso! - Mas, se me não engano, trata-se do noivo da sua filha... - Bom, o Sr. de Morcerf e eu falamos algumas vezes desse casamento; mas a Sra de Morcerf e Albert... - Decerto não me vai dizer que não é um bom partido... - Eh, eh, Mademoiselle Danglars vale bem o Sr. de Morcerf, parece-me! - O dote de Mademoiselle Danglars será excelente, com efeito, não duvido disso, sobretudo se o telégrafo não fizer mais novas loucuras. - Oh, não se trata apenas do dote? Mas diga-me uma coisa... - O quê? - Porque não convidou Morcerf e a família para o seu jantar? - Também o convidei, mas ele objetou-me com uma viagem a Dieppe com a Sra de Morcerf, a quem recomendaram o ar do mar. - Sim, sim - disse Danglars rindo --, deve fazer-lhe bem... - Porque diz isso? - Porque foi o ar que ela respirou na juventude. Monte-Cristo deixou passar o epigrama sem parecer prestar-lhe atenção. - Mas enfim - disse o conde --, se Albert não é tão rico como Mademoiselle Danglars, o senhor não pode negar que possui um belo nome. - De acordo, mas também gosto do meu - perguntou Danglars. - Claro que o seu nome é popular e honrou o título com que se supôs honrá-lo, mas o senhor é um homem suficientemente inteligente para compreender que, de acordo com certos preconceitos excessivamente enraizados para que os extirpem, nobreza de cinco séculos vale mais do que nobreza de vinte anos. - E exatamente por isso - respondeu Danglars com um sorriso que procurou tornar sardônico --, é por isso que preferiria o Sr. Andrea Cavalcanti ao Sr. Albert de Morcerf. - Mas eu supunha que os Morcerfs não ficavam atrás dos Cavalcanti... - observou Monte-Cristo. - Os Morcerfs!... Ouça, meu caro conde - prosseguiu Danglars --, o senhor é um homem de sociedade, não é verdade? - Julgo que sim. - E, além disso, perito em brasões? - Um pouco. - Pois então, veja a cor do meu; é mais firme do que a do brasão de Morcerf. - Porquê? - Porque eu, se não sou barão de nascimento, ao menos chamo-me Danglars. - E depois? - Ao passo que ele não se chama Morcerf. - Como é que não se chama Morcerlf. - Nem por sombras. - Mas porquê?! - A mim, alguém me fez barão e portanto o sou; ele fez-se conde sozinho e portanto não o é. - Impossível. - Escute, meu caro conde - continuou Danglars. - O Sr. de Morcerf é meu amigo, ou antes, meu conhecido há trinta anos. Eu, como o senhor sabe, não ligo importância ao meu brasão, pois nunca esqueci de onde vim. - Prova de uma grande humildade ou de um grande orgulho - comentou Monte-Cristo. - Pois bem, quando eu era praticante de escritório, Morcerf era simples pescador. - E então chamava-se?... - Fernand. - Apenas? - Fernand Mondego. - Tem certeza disso? - Ora essa! Vendeu-me peixe mais do que suficiente para que o conheça. - Então porque lhes dava a sua filha? - Porque Fernand e Danglars não passam de dois novos-ricos, ambos enobrecidos, ambos enriquecidos, que no fundo valem tanto um como outro, exceto no tocante a certas coisas que se disseram dele e que nunca se disseram de mim. - O quê? - Nada. - Ah, sim, compreendo! O que me diz agora refresca-me a memória a propósito do nome de Fernand Mondego. Ouvi pronunciar esse nome na Grécia. - A propósito do caso de Ali-Pax ? - Exatamente. - É aí que reside o mistério - prosseguiu Danglars --, e confesso que daria muito para o descobrir. - Não é difícil, se tem muita vontade disso. - Como? - Sem dúvida tem algum correspondente na Grécia?... - Claro! - Em Janina? - Tenho-os em toda a parte... - Bom, escreva ao seu correspondente em Janina e pergunte-lhe que papel desempenhou na catástrofe de Ali-Tebelin um francês chamado Fernand. - Tem razão! - exclamou Danglars, levantando-se vivamente. - Escreverei hoje mesmo! - Faça-o. - Vou fazê-lo. - E se receber alguma notícia muito escandalosa... - O Informarei. - Me daria muito prazer. Danglars correu para fora da sala e num salto alcançou a sua carruagem. Capítulo LXVII No gabinete do Procurador régio Deixemos o banqueiro retirar-se a todo o galope dos seus cavalos e sigamos a Sra Danglars na sua excursão matinal. Dissemos que ao meio-dia e meia hora a Sra Danglars pedira os seus cavalos e saíra de carruagem. Dirigiu-se para os lados do Arrabalde de Saint-Germain, meteu pela Rua Mazarino e mandou parar na passagem da Ponte Nova. Apeou-se e atravessou a passagem. Estava vestida com muita simplicidade, como convém a uma mulher de bom gosto que sai de manhã. Na Rua de Guénegaud meteu-se num fiacre e mandou seguir para a Rua do Harlay. Assim que se instalou na viatura, tirou da bolsa um véu preto muito espesso, que prendeu ao chapéu de palha. Depois, voltou a pôr o chapéu na cabeça e viu com prazer, olhando-se num espelhinho de algibeira, que só se podia ver de si a pele branca e as pupilas cintilantes dos seus olhos. O fiacre atravessou a Ponte Nova e entrou pela Praça Dauphine no pátio do Harlay. A Sra Danglars pagou a corrida quando o cocheiro lhe abriu a portinhola, e correu para a escada, que subiu ligeiramente, e não tardou a chegar à Sala dos Passos Perdidos. De manhã há muitos julgamentos e ainda mais pessoas afadigadas no palácio da Justiça, e as pessoas atarefadas não olham muito para as mulheres. A Sra Danglars atravessou pois a Sala dos Passos Perdidos sem ser mais notada do que as outras dez mulheres que esperavam os seus advogados. Havia muita gente na antecâmara do Sr. de Villefort, mas a Sra Danglars nem sequer necessitou de pronunciar o seu nome. Assim que apareceu, um continuo levantou-se, foi ao seu encontro, perguntou-lhe se era a pessoa a quem o Sr. Procurador régio concedera audiência e, perante a sua resposta afirmativa, conduziu-a por um corredor reservado ao gabinete do Sr. de Villefort. O magistrado escrevia, sentado na sua plataforma, de costas para a porta. Ouviu esta abrir-se, o continuo dizer “Entre, minha senhora!" e a porta voltara a fechar-se, sem fazer um único gesto; mas logo que ouviu diminuir o ruído dos passos do continuo, que se afastava, virou-se vivamente, foi correr os ferrolhos e os reposteiros e examinar lodos os cantos do gabinete. Depois, quando adquiriu a certeza de que não podia ser visto nem ouvido e, por consequência, ficou tranquilo, disse: - Obrigado, minha senhora; obrigado pela sua pontualidade. E ofereceu-lhe uma cadeira, que a Sra Danglars aceitou, porque o coração pulsava-lhe tão fortemente que ela se sentia prestes a sufocar. - Há quanto tempo - começou o procurador régio, sentando-se por sua vez e fazendo a poltrona descrever um semicírculo a fim de ficar defronte da Sra Danglars --, há quanto tempo, minha senhora, não tinha a felicidade de conversar a sós consigo. E com meu grande pesar, reencontramo-nos para ter uma conversa deveras penosa. - No entanto, senhor, bem vê que acorri ao seu primeiro chamamento, embora certamente esta conversa seja ainda mais penosa para mim do que para si. Villefort sorriu amargamente. - É então verdade - prosseguiu, respondendo muito mais ao seu próprio pensamento do que às palavras da Sra Danglars --, é então verdade que todos os nossos atos deixam vestígios, uns sombrios, outros luminosos, no nosso passado! É então verdade que todos os nossos passos nesta vida se assemelham ao passo do réptil na areia e deixam rasto! Infelizmente, para muitos esse rasto, esse sulco, é o das suas lágrimas! - Senhor, compreende a minha emoção, não é verdade? - perguntou a Sra Danglars - Poupe-me portanto, suplico-lhe. Este gabinete, por onde tantos culpados têm passado, trêmulos e envergonhados; esta cadeira, onde me sento por minha vez também envergonhada e trêmula... Oh, acredite que necessito de toda a minha razão para não ver em mim uma mulher culpada e em si um juiz ameaçador. Villefort abanou a cabeça e suspirou. - E eu - perguntou --, e eu não digo para comigo que o meu lugar não é na poltrona do juiz, mas sim no banco do réu? - O senhor? - disse a Sra Danglars, surpreendida. - Sim, eu. - Creio que da sua parte, senhor, o seu puritanismo exagera a situação - contrapós a Sra Danglars, cujos olhos, tão belos, brilharam fugazmente. - Os sulcos de que acaba de falar foram traçados por todas as juventudes ardentes. No fundo das paixões, para lá do prazer, há sempre um pouco de remorso. É por isso que o Evangelho, esse recurso eterno dos infelizes, nos deu como amparo, a nós, pobres mulheres, a admirável parabola da jovem pecadora e da mulher adúltera. Por isso, confesso-lhe, quando me recordo desses delírios da minha juventude, penso às vezes que Deus nos perdoará, porque se não a desculpa, pelo menos a compensação encontra-se nos meus sofrimentos. Mas o senhor, que tem a temer de tudo isso, se aos homens todos desculpam e o escândalo os nobilita? - Minha senhora - replicou Villefort --, não me conhece. Não sou um hipócrita ou pelo menos não armo em hipócrita sem motivo. Se a minha fronte é severa, isso deve-se às desgraças que a têm assombrado; se o meu coração se petrificou, foi para poder suportar os choques que tem recebido. Não era assim na minha juventude, não era assim na noite de noivado em que estavamos todos sentados à roda de uma mesa na Rua do Cours, em Marselha. Mas depois tudo mudou em mim e à minha volta; a minha vida gastou-se a perseguir coisas difíceis e a quebrar, nas dificuldades, aqueles que voluntária ou involuntariamente, por sua livre vontade ou por acaso, se encontraram colocados no meu caminho para me suscitar essas coisas. É raro que o que desejamos ardentemente não seja defendido com afinco por aqueles de quem o pretendemos obter ou aos quais tentamos arrancá-lo. Assim, a maioria das más ações dos homens vieram ao encontro deles mascaradas especiosamente de necessidade. Depois da má ação cometida num momento de exaltação, de medo e de delírio, chegamos à conclusão de que poderíamos ter passado por ela e evitado-a. Então, o meio que teria sido conveniente empregar, mas que, cegos como estavamos, não vimos surge-nos diante dos olhos fácil e simples, e dizemos para conosco: “Porque não fiz isto em vez de fazer aquilo?" As senhoras, pelo contrário, muito raramente são atormentadas por remorsos, porque também muito raramente a decisão é sua. As suas desgraças são-lhes quase sempre impostas, as suas faltas são quase sempre o crime dos outros. - Em todo o caso - respondeu a Sra Danglars --, admita que, se cometi uma falta, essa falta foi pessoal e por ela fui severamente castigada a noite passada. - Pobre mulher! - murmurou Villefort, apertando-lhe a mão. -- Demasiado severamente para a sua energia, pois por duas vezes esteve quase a sucumbir, e no entanto... - O quê? - Bom, devo dizer-lhe ... Apele para toda a sua coragem, minha senhora, porque ainda não chegou ao fim. - Meu Deus! - exclamou a Sra Danglars, aterrada. - Que mais há ainda? - A senhora só vê o passado, e claro que ele é sombrio. Pois imagine um futuro ainda mais sombrio, um futuro... horrível, certamente... e talvez sangrento! A baronesa conhecia a calma de Villefort. Por isso, ficou tão apavorada com a sua exaltação que abriu a boca para gritar, mas o grito morreu-lhe na garganta. - Como ressuscitou esse passado terrível? - disse Villefort. - Como saiu como um fantasma do fundo da sepultura e do fundo dos nossos corações, onde dormia, para nos fazer empalidecer as faces e corar a fronte? - Infelizmente, sem dúvida, por acaso - declarou Hermine. - Por acaso! - repetiu Villefort. - Não, não, minha senhora, não se trata de obra do acaso! - Claro que trata. Não foi o acaso, fatal é certo, mas de qualquer maneira o acaso, que originou tudo aquilo? Não foi por acaso que o conde de Monte-Cristo comprou aquela casa. Não foi por acaso que mandou cavar a terra? Finalmente não foi por acaso que a infeliz criança foi enterrada debaixo das árvores? Pobre criatura saída de mim, à qual nunca pude dar um beijo, mas a quem tenho dado muitas lágrimas. Ah, todo o meu coração voou ao encontro do conde quando ele falou do querido despojo debaixo das flores! - Não, minha senhora, e é isso que tenho de terrível para lhe dizer - perguntou Villefort com a voz estrangulada --; não, não houve despojo encontrado debaixo das flores; não, não houve criança desenterrada; não, é inútil chorar; não, é inútil gemer, não, o que devemos é tremer! - Que quer dizer, senhor? - perguntou a Sra Danglars, muito agitada. - Quero dizer que o Sr. de Monte-Cristo não pode encontrar, ao cavar ao pé das arvores, nem esqueleto de criança, nem ferragem de cofre, porque debaixo das árvores não havia nem um nem outra. - Não havia nem um nem outra?! - repetiu a Sra Danglars, cravando no procurador régio uns olhos cujas pupilas, horrivelmente dilatadas, indicavam terror. - Não havia nem um nem outra! - repetiu mais uma vez, como uma pessoa que procura fixar pelo som das palavras e pelo ruído da voz as idéias prestes a fugir-lhe. - Não! - insistiu Villefort, deixando cair a fronte nas mãos. - Não, cem vezes não!... - Mas não foi ali que sepultou a pobre criança, senhor? Porque me enganou? Com que fim, diga-me! - Tem razão. Mas ouça-me, minha senhora, ouça-me, e verá que me lamenta, a mim que trouxe durante vinte anos às costas, sem nunca lhe pedir que carregasse com a mais pequena parte, o fardo de dores de que lhe vou falar. - Meu Deus, o senhor assusta-me! Mas não imporia; fale, escuto-o. - Sabe o que se passou naquela noite dolorosa em que a senhora expirava no seu leito, naquele quarto de damasco vermelho, enquanto eu, quase tão arquejante como a senhora, esperava que desse à luz. A criança nasceu, foi-me entregue sem movimentos, sem respiração e sem voz, e julgamo-la morta. A Sra Danglars fez um gesto rápido, como se quisesse saltar da cadeira. Mas Villefort deteve-a juntando as mãos, como que para lhe implorar atenção. - Julgamo-la morta - repetiu. - Meti-a num cofre, que deveria substituir o caixão, desci ao jardim, abri uma cova e enterrei-a precipitadamente. Mal acabara de cobrir a sepultura de terra quando o braço do corso se estendeu para mim. Vi como que uma sombra erguer-se, como que reluzir um relâmpago. Senti uma dor, quis gritar, um arrepio gelado percorreu-me todo o corpo e apertou-me a garganta... Caí moribundo e julguei-me assassinado. Nunca esquecerei a sua coragem sublime quando ao voltar a mim me arrastei, expirando, até ao fundo da escada, onde, expirando também, a senhora veio ao meu encontro. Era necessário ocultar a terrível catástrofe. A senhora teve a coragem de voltar para casa amparada pela sua ama; um duelo foi o pretexto do meu ferimento. Contra toda a expectativa, ninguém revelou o nosso segredo. Transportaram-me para Versalhes; durante três meses estive às portas da morte. Por fim, como parecesse agarrar-me à vida, recomendaram-me o sol e os ares do Meio-Dia. Quatro homens transportaram-me de Paris a Chalon, percorrendo seis léguas por dia. A Sra de Villefort acompanhava a maca na sua carruagem. Em Chalon puseram-me no Sena, depois passei para o Rôdano e, levado apenas pela velocidade da corrente, desci até Arles. Em Arles retomei a maca e continuei o meu caminho para Marselha. A minha convalescença durou seis meses. Nunca mais ouvira falar da senhora e não me atrevia a perguntar o que lhe acontecera. Quando regressei a Paris, soube que, viúva do Sr. Nargonne, casara com o Sr. Danglars. "Em que pensei depois de recuperar os sentidos? Pensava sempre na mesma coisa, sempre naquele cadáver de criança, que todas as noites, nos meus sonhos, saía do seio da terra e pairava por cima da cova, ameaçando-me com a vista e com o gesto. Por isso, assim que regressei a Paris informei-me. A casa não voltara a ser habitada desde que a deixamos, mas acabava de ser alugada por nove anos. Procurei o locatário, fingi ter um grande desejo de não ver passar a mãos estranhas aquela casa que pertencia ao pai e à mãe da minha mulher e ofereci uma indenização pela renúncia ao arrendamento. Pediram-me seis mil francos, mas eu daria dez mil, daria vinte mil. Como trazia o dinheiro comigo, fiz o inquilino assinar imediatamente a rescisão. Depois, logo que me encontrei de posse desse documento tão desejado, parti a galope para Auteuil. Ninguém, desde que eu de lá saíra, entrara naquela casa. " Eram cinco horas da tarde. Subi ao quarto vermelho e esperei pela noite. "Ali, tudo o que dizia a mim próprio havia um ano, na minha agonia contínua, me veio à idéia de forma muito mais ameaçadora do que nunca. "Aquele corso que me declarara a vendetta e me seguira de Nimes a Paris; aquele corso, que se encontrava escondido no jardim e me ferira, vira-me abrir a cova, vira-me enterrar a criança e poderia acabar por descobrir quem era a senhora. Talvez até já a conhecesse... Não a faria pagar um dia o segredo do terrível acontecimento?... Não seria isso para ele uma, agrável vingança, quando soubesse que eu não morrera da sua punhalada? Era portanto urgente que antes de mais nada, e acontecesse o que acontecesse, fizesse desaparecer os vestígios do passado, destruísse todo e qualquer rastro material, embora na minha memória a realidade permanecesse sempre demasiado viva. "Fora para isso que rescindira o arrendamento, fora para isso que viera, era para isso que esperava. " Anoiteceu, mas esperei até que a noite ficasse bem escura. Não tinha luz no quarto, onde as rajadas de vento faziam tremer os reposteiros atrás dos quais julgava sempre ver algum espião emboscado. De vez enquando estremecia e parecia-me ouvir atrás de mim, na cama, os seus gemidos, minha senhora, mas não ousava voltar-me. O meu coração pulsava no meio do silêncio e sentia-o bater tão violentamente que cheguei a pensar que o meu ferimento se reabrisse. Por fim, ouvi extinguirem-se um após outro todos os diversos ruídos do campo. Compreendi que já não tinha nada a temer, que não poderia ser visto nem ouvido, e decidi-me a descer. "Ouça, Hermine, considero-me tão corajoso como qualquer outro homem, mas quando retirei do peito a chavinha da escada, aquela chavinha a que os dois tanto queríamos e que a senhora mandara prender a uma argola de ouro; quando abri a porta e vi através das janelas uma lua pálida lançar sobre os degraus em espiral uma comprida faixa de luz branca semelhante a um fantasma, agarrei-me à parede e estive prestes a gritar. Tinha a sensação de enlouquecer. "Por fim consegui dominar-me e desci a escada degrau a degrau. A única coisa que não conseguira vencer era uma estranha tremura nos joelhos. Agarreime ao corrimão; se o largasse, por um instante que fosse, me precipitaria por ali abaixo. "Cheguei à porta do jardim. Da parte de fora, encostada à parede, estava uma enxada. Munira-me de uma lanterna de furta-fogo. No meio do relvado parei para a acender e depois continuei o meu caminho. "Novembro eslava prestes a terminar, toda a verdura do jardim desaparecera, as árvores não eram mais do que esqueletos de compridos braços descarnados e as tolhas mortas rangiam com o saibro debaixo dos meus pés. "O terror apertava-me tão fortemente o coração que ao aproximar-se do maciço tirei uma pistola da algibeira e destravei-a. Julgava sempre ver aparecer através dos ramos a cara do corso. "iluminei o maciço com a minha lanterna de furta-fogo; estava vazio. Olhei em redor de mim e verifiquei que me encontrava sozinho. Nenhum ruído perturbava o silêncio da noite, exceto o canto de uma coruja, que emitia o seu pio agudo e lúgubre como um chamamento aos fantasmas da noite. "Pendurei a lanterna num ramo em forma de forquilha, em que já reparara um ano antes, no próprio local onde me detivera para abrir a cova. "Durante o Verão, a erva crescera ali bem espessa, e chegado o Outono ninguém houvera na casa para a apanhar. No entanto, um lugar menos guarnecido chamou-me a atenção. Era evidente que fora ali que eu revolvera a terra. Deitei mãos à obra. "Chegara portanto o momento por que esperara mais de um ano! "Como confiava, como trabalhava, como sondava cada tufo de relva, julgando sentir resistência na ponta da enxada! Mas nada. E contudo abri um buraco duas vezes maior do que o primeiro. Julguei ter-me enganado no lugar. Orientei-me, observei as árvores, procurei reconhecer os pormenores que me tinham impressionado. Soprava uma brisa fria e cortante através dos ramos nus e no entanto o suor escorria-me da testa. Lembrei-me de que recebera a punhalada no momento em que calcava a terra para tapar a cova; para isso, apoiava-me numa giesteira. Atrás de mim havia um rochedo artificial destinado a servir de banco aos passeantes. Ao cair, depois de largar a giesteira, a minha mão sentira a frescura da pedra. À minha direita encontrava-se a giesteira e atrás de mim o rochedo. deixei-me cair do mesmo modo, levantei-me e pus-me a aprofundar e alargar a cova. Nada! Sempre nada! O cofre não estava ali. - O cofre não estava ali? - murmurou a Sra Danglars, sufocada de pavor. - Não julgue que me limitei àquela tentativa - continuou Villefort. Não. Revistei todo o maciço. Pensei que o assassino tivesse desenterrado o cofre julgando tratar-se de um tesouro, e que, resolvido a apoderar-se dele, o tivesse levado. Depois, descobrindo o seu erro, abrira por sua vez uma cova, onde o depositara. Nada! Em seguida assaltou-me a idéia de que não tomara tantas precauções e o atirara pura e simplesmente para um canto. Nesta última hipótese, tinha de esperar que amanhecesse para proceder às minhas buscas. Subi ao quarto e esperei. - Oh, meu Deus! - Quando amanheceu, desci de novo. A minha primeira visita foi ao maciço; esperava encontrar nele vestígios que me tivessem escapado na escuridão. Revolvera a terra numa superfície de mais de vinte pés quadrados e numa profundidade de mais de dois pés. Um dia de trabalho mal chegaria a um assalariado para fazer o que eu fizera numa hora. Nada, não vi absolutamente nada. "Então, pus-me a procurar o cofre, partindo da suposição de ter sido atirado para qualquer canto. Sendo assim, devia estar no caminho que levava à portinha de saída. Mas a nova investigação foi tão inútil como a primeira e, de coração opresso, voltei ao maciço, que por si próprio já me não alimentava qualquer esperança. - Oh, era caso para enlouquecer! - exclamou a Sra Danglars. - Por um instante pensei que isso me acontecesse, mas não tive essa sorte. Entretanto, apelando para a minha energia e por consequência para as minhas idéias, perguntei a mim mesmo: “Porque teria o homem levado o cadáver?" - O senhor já o disse: para ter uma prova - lembrou a Sra Danglars. - Não, não, minha senhora, já não podia ser isso. Ninguém guarda um cadáver durante um ano; mostra-o a um magistrado e faz o seu depoimento. Ora nada semelhante acontecera. - Bom, e então?... - perguntou Hermine toda palpitante. - Então, tratava-se de qualquer coisa mais terrível, mais fatal, mais assustadora para nós: a criança estava talvez viva e o assassino salvara-a. A Sra Danglars soltou um grito terrível e agarrou as mãos de Villefort. - O meu filho estava vivo! O senhor enterrou o meu filho vivo! Garantira-me que o meu filho estava morto e enterrou-o... Oh! A Sra Danglars levantara-se e mantinha-se de pé e quase ameaçadora diante do procurador régio, cujos pulsos apertava com as mãos delicadas. - Que queria que lhe dissesse? Disse-lhe isso como lhe poderia dizer outra coisa - perguntou Villefort com uma fixidez de olhar indicadora de que aquele homem tão poderoso estava prestes a atingir os limites do desespero e da loucura. - Ah, meu filho, meu pobre filho! - gritou a baronesa, caindo de novo na cadeira e abafando os soluços com o lenço. Villefort caiu em si e compreendeu que para desviar a tempestade materna que se acumulava sobre a sua cabeça era necessário que a Sra Danglars se recompusesse do terror que ele próprio experimentava. - Como deve compreender, se o caso é assim, estamos perdidos - disse, levantando-se por seu turno e aproximando-se da baronesa para lhe falar em voz mais baixa. - Essa criança vive, alguém sabe que vive, alguém possui o nosso segredo. E uma vez que Monte-Cristo fala diante de nós de uma criança desenterrada de um local onde essa criança já não existia, quem está de posse do segredo é ele. - Deus, Deus justo, Deus vingador! - murmurou a Sra Danglars. Em resposta, Villefort limitou-se a soltar uma espécie de rugido. - Mas e essa criança, essa criança, senhor? - insistiu a mãe, obstinada. - Oh, o que a procurei! - respondeu Villefort, torcendo os braços. - Quantas vezes a chamei nas minhas longas noites sem sono! Quantas vezes desejei possuir uma riqueza real para comprar um milhão de segredos a um milhão de homens e encontrar o meu segredo entre os deles! Enfim, um dia em que pela centésima vez pegava na enxada, perguntei a mim mesmo também pela centésima vez que teria o corso feito da criança. Uma criança estorva um fugitivo... Talvez notasse que ainda estava viva e a tivesse atirado ao rio. - Oh, impossível! - exclamou a Sra Danglars. - Assassina-se um homem por vingança, mas não se afoga a sangue-frio uma criança! - Talvez a tivesse entregado às Crianças Expostas... - acrescentou Villefort. - Oh, sim, sim! - exclamou a baronesa. - O meu filho está aí, senhor! - Corri ao hospício e soube que naquela mesma noite de 20 de Setembro fora depositada uma criança na roda. Tal criança estava envolta em metade de uma toalha de pano fino, intencionalmente rasgada. Essa metade da toalha tinha metade de uma coroa de barão e a leira H. - É isso, é isso! - gritou a Sra Danglars. - Toda a minha roupa está marcada assim! O Sr. de Nargonne era barão e eu chamo-me Hermine. Obrigada, meu Deus! O meu filho não estava morto! - Não, não estava morto! - E o senhor diz-me isso... diz-me isso sem receio de me fazer morrer de alegria! Onde está ele? Onde está o meu filho? Villefort encolheu os ombros. - Como quer que saiba? E julga que se o soubesse a faria passar por todas estas gradações, como o faria um dramaturgo ou um romancista? Não, infelizmente não sei. Quando contava cerca de seis meses, uma mulher foi reclamar a criança com a outra metade da toalha. Essa mulher deu todas as garantias que a lei exigia e por isso a entregaram. - Mas devia ter-se informado acerca dessa mulher, devia tê-la procurado... - E que julga que fiz, minha senhora? Simulei uma instrução criminal e mandei procurá-la pelos mais finos agentes secretos e pelos mais hábeis detetives da Polícia. Encontraram-lhe a pista até Chalon; ai perderam-na. - Perderam-na?... - Sim, perderam-na; perderam-na para sempre. A Sra Danglars escutara o relato soltando de vez em quando um suspiro, deixando correr uma lágrima ou emitindo um grito, conforme as circunstâncias. - É tudo? - perguntou. - O senhor limitou-se a isso? - Oh, não! - protestou Villefort. - Nunca deixei de procurar, de investigar, de me informar. No entanto, há dois ou três anos descansei um pouco. Mas agora vou recomeçar com mais perseverança e encarniçamento do que nunca. E vencerei, pode ter a certeza; porque já não é a consciência que me impele, é o medo. - Mas o conde de Monte-Cristo não sabe de nada - declarou a Sra Danglars. - De contrário, parece-me que não nos procuraria como nos procurou. - Oh, a maldade dos homens é muito grande! - sentenciou Villefort. - Muito maior do que a bondade de Deus. Reparou nos olhos desse homem enquanto nos falava? - Não. - Mas observou-o atentamente algumas vezes? - Sem dúvida. É estranho, mas mais nada. Houve só uma coisa que me impressionou: de toda a requintada refeição que nos serviu não tocou em nada, não se serviu de nenhum prato. - Tem razão, tem razão! - disse Villefort. - Também notei isso. Se soubesse o que sei agora, teria feito o mesmo, não tocaria em nada. Julgaria que nos queria envenenar. - E teria enganado, bem vê. - Sim, sem dúvida. Mas acredite no que lhe digo: esse homem tem outros projetos. Por isso quis vê-la, por isso desejei falar consigo, por isso quis precavêla contra todose, mas sobretudo contra ele. Diga-me - continuou Villefort, cravando ainda mais profundamente do que até ali os olhos na baronesa --, não falou da nossa ligação a ninguém? - Nunca, a ninguém. - Compreende o que quero dizer -- prosseguiu afetuosamente Villefort --, quando digo a ninguém, perdoe-me a insistência, retiro-me a ninguém no mundo, percebe? - Oh, sim, sim, compreendo perfeitamente! -- respondeu a baronesa, corando. - Nunca! Juro-lhe. - Já não tem o hábito de escrever à noite o que se passou durante o dia? Não tem diário? - Não. Infelizmente, a minha vida passa levada pela frivolidade. Eu própria a esqueço. - Não sonha em voz alta, que saiba? - Durmo como uma criança. Não se lembra?... A púrpura subiu ao rosto da baronesa e o medo invadiu o de Villefort. - É verdade - disse ele, tão baixo que mal se ouviu. - E agora? - perguntou a baronesa. - Agora? Já sei o que devo fazer - declarou Villefort. - Dentro de oito dias, saberei quem é o Sr. de Monte-Cristo, de onde vem, para onde vai e por que motivo fala diante de nós de crianças desenterradas no seu jardim. Villefort proferiu estas palavras num tom que faria tremer o conde se as pudesse ouvir. Depois apertou a mão que a baronesa hesitava em estender-lhe e acompanhou-a respeitosamente à porta. A Sra Danglars tomou outro fiacre, que a levou à passagem, do outro lado da qual encontrou a sua carruagem e o seu cocheiro, que, enquanto esperava, dormia calmamente no seu lugar. Capítulo LXVIII Um baile de verão No mesmo dia, mais ou menos à mesma hora em que a Sra Danglars tinha o encontro a que nos referimos no gabinete do Sr. Procurador régio, uma caleça de viagem entrava na Rua do Helder, transpunha a porta nº 27 e parava no pátio. Pouco depois a portinhola abriu-se e a Sra de Morcerf apeou-se apoiada no braço do filho. Assim que Albert acompanhou a mãe aos seus aposentos, pediu um banho e os seus cavalos, entregou-se nas mãos do seu criado de quarto e em seguida fez-se conduzir aos Campos Elísios, a casa do conde de Monte-Cristo. O conde recebeu-o com o seu sorriso habitual. Coisa estranha: nunca ninguém parecia avançar um passo no coração ou no espirito daquele homem. Os que queriam, se assim se pode dizer, forçar a passagem da sua intimidade deparavam com uma parede. Morcerf, que corria para ele de braços abertos, deixou-os cair ao vê-lo, apesar do seu sorriso amistoso, e ousou, quando muito, estender-lhe a mão. Pela sua parte, Monte-Cristo tocou-lhe nela, como fazia sempre, mas sem a apertar. - Pronto, aqui me tem, meu caro conde - disse Albert. - Seja bem-vindo. - Cheguei há uma hora. - De Dieppe? - Do Tréport. - Ah, é verdade! - E a minha primeira visita é para o senhor. - É amável da sua parte - disse Monte-Cristo, como diria qualquer outra coisa. - Então, que notícias me dá? - Notícias?... Pede notícias a mim, um estrangeiro? - Eu explico-me: quando pergunto que notícias, quero dizer se o senhor fez qualquer coisa por mim... - Tinha-me encarregado de alguma incumbência? - perguntou Monte-Cristo, simulando inquietação. - Então, então, não simule indiferença? - exclamou Albert. - Dizem que existem avisos simpáticos que transpõem a distância. Pois bem, no Tréport recebi o meu choque elétrico: o senhor, se não trabalhou para mim, pensou pelo menos em mim. - É possível - admitiu Monte-Cristo. - De fato, pensei em si; mas a corrente magnética de que era o condutor atuava, confesso, independentemente da minha vontade. - Deveras? Conte-me isso. Peço-lhe. - É fácil. O Sr. Danglars jantou em minha casa. - Bem sei, pois foi para fugir à sua presença que partimos, a minha mãe e eu. - Mas jantou com o Sr. Andrea Cavalcanti. - O seu príncipe italiano? - Não exageremos. O Sr. Andrea usa apenas o título de visconde. - Usa, diz o senhor? - Digo: usa. - Não o é, portanto? - Sei lá! Ele usa-o, eu dou-lhe, todos o dão... Não é como se tivesse? - Que homem estranho o senhor me saiu! E depois? - E depois o quê? - Portanto, o Sr. Danglars jantou na sua casa? - Jantou. - Com o seu visconde Andrea Cavalcanti? - Com o visconde Andrea Cavalcanti, o marquês seu pai, a Sra Danglars, o Sr. e a Sra de Villefort, pessoas encantadoras, o Sr. Debray, Maximilien Morrel e ainda... espere... Ah, o Sr. de Château-Renaud! - Falaram de mim? - Nem uma palavra. - Tanto pior. - Porquê? Se o esqueceram, parece-me que, procedendo assim, fizeram apenas o que o senhor desejava... - Meu caro conde, se ninguém falou de mim foi porque pensaram muito na minha pessoa, o que me deixa desesperado. - Que lhe interessa isso, se Mademoiselle Danglars não foi uma das pessoas que pensaram em si em minha casa? Verdade seja que podia pensar em casa dela... - Oh, quanto a isso não, tenho a certeza! Ou se pensasse seria certamente da mesma maneira que penso nela. - Comovente simpatia! - comentou o conde. - Então detestam-se? - Escute - pediu Morcerf. - Se Mademoiselle Danglars fosse mulher que se compadecesse do mártir que não está disposto a sofrer por ela e me quisesse recompensar disso à margem das convenções matrimoniais estabelecidas entre as nossas duas famílias, seria maravilhoso. Em resumo, creio que Mademoiselle Danglars daria uma amante encantadora, mas como esposa, diabo... - É assim que encara o seu futuro? - perguntou Monte-Cristo, rindo. - Meu Deus, é! De forma um pouco brutal, confesso, mas pelo menos verdadeira. Ora, como não é possível transformar este sonho em realidade; como para chegar a determinado fim, é indispensável que Mademoiselle Danglars seja minha mulher, isto é, que viva comigo, que pense junto de mim, que cante ao pé de mim, que escreva versos e música a dez passos de mim, e isso durante toda a minha vida, apavora-me. Uma amante, meu caro conde, deixa-se; mas uma mulher, com a breca, é outra coisa! Conserva-se eternamente, perto ou longe. Ora, é horrível ter de conservar sempre Mademoiselle Danglars, mesmo longe. - O senhor é muito exigente, visconde. - Pois sou, porque muitas vezes penso numa coisa impossível. - Qual? - Encontrar para mim uma mulher como o meu pai encontrou uma para ele. Monte-Cristo empalideceu e fitou Albert, sem deixar de brincar com umas pistolas magníficas cuja fecharia percutia rapidamente. - O seu pai tem sido portanto muito feliz? - perguntou. - Sabe a minha opinião acerca de minha mãe, Sr. Conde: um anjo do Céu. Vejo-a ainda bonita, espiritual, cada vez melhor do que nunca. Venho de Tréport; para qualquer outro filho, meu Deus, acompanhar a mãe seria uma condescendência ou um frete! Pois eu passei quatro dias a conversar com ela, mais satisfeito, mais repousado e confesso-lhe que mais poético até do que se tivesse levado para Tréport a rainha Mab ou Titânia. - Trata-se de uma perfeição invulgar e com isso o senhor dá a todos aqueles que o ouvem enormes desejos de ficar solteiros. - É precisamente por saber que existe no mundo uma mulher perfeita que não tenho pressa de casar com Mademoiselle Danglars. já notou alguma vez como o nosso egoísmo reveste de cores brilhantes tudo o que nos pertence? O diamante que cintilava na montra de Marlé ou Fossin torna-se muito mais belo desde que é o nosso diamante; mas se a evidência nos força a reconhecer que existem diamantes de uma água mais pura e somos obrigados a usar eternamente esse diamante inferior a outro, compreende o sofrimento? - Mundano! - murmurou o conde. - Aí está porque saltarei de alegria no dia em que Mademoiselle Eugênie descubra que não passo de um mísero átomo e que com dificuldade possuo tantas centenas de milhares de francos como ela possui milhões. Monte-Cristo sorriu. - Tinha pensado noutra coisa - continuou Albert. - Franz aprecia as excentricidades e, mal-grado seu, procurei que se apaixonasse por Mademoiselle Danglars. Mas a quatro cartas que lhe escrevi no estilo mais sedutor, Franz respondeu-me imperturbavelmente: “Sou excêntrico, é verdade, mas a minha excentricidade não vai ao ponto de retirar a minha palavra depois de a dar." - Ora aí está o que chamo a dedicação da amizade: dar a outro a mulher que para nós mesmos só queríamos como amante? Albert sorriu. - A propósito - prosseguiu -, o caro Franz vem aí. Mas a notícia pouco lhe interessa, creio. O senhor não gostava dele, pois não? - Eu? - perguntou Monte-Cristo. - Meu caro visconde, onde descobriu que eu não gostava do Sr Franz? Gosto de todas as pessoas. - E eu estou incluído no “todas as pessoas"... Obrigado. - Não confundamos - defendeu-se Monte-Cristo. - Gosto de todas as pessoas da maneira que Deus nos ordena que amemos o próximo, cristãmente; mas só estimo realmente certas pessoas. Voltemos ao Sr. Franz de Epinay. Diz que vem aí? - Exato. Mandado chamar pelo Sr. de Villefort, tão empenhado, ao que parece, em casar Mademoiselle Valentine como o Sr. Danglars em casar Mademoiselle Eugênie. Decididamente, parece tratar-se de um estado dos mais fatigantes ser pai de filhas crescidas. Afigura-se que ficam febris e que o pulso lhes bate à razão de noventa pulsações por minuto enquanto se não vêem livres delas. - Mas o Sr. de Epinay não se parece consigo; aceita a sua cruz com paciência. - Mais do que isso, toma-a a sério. Usa gravatas brancas e fala já da sua família. De resto, tem uma grande consideração pelos Villeforts. - Merecida, não é verdade? - Creio que sim. O Sr. de Villefort sempre foi considerado um homem severo, mas justo. - Até que enfim! - exclamou Monte-Cristo. - Haja ao menos um que o senhor não trate como o pobre Sr. Danglars!... - Talvez isso se deva ao fato de não ser obrigado a casar com a sua filha - respondeu Albert, rindo. - Na verdade, meu caro senhor, acho-o de uma fatuidade revoltante - declarou Monte-Cristo. - Eu? - Sim, o senhor. Mas tome um charuto. - Com muito prazer. E por que motivo sou fátuo? - Porque está para ai a defender-se, a debater-se para não casar com Mademoiselle Danglars. Meu Deus, deixe as coisas correrem e talvez não seja o primeiro a retirar a sua palavra! - Ora, ora! - exclamou Albert, de olhos muito abertos. - Que diabo, Sr. Visconde, no fim de contas decerto ninguém lhe porá a corda ao pescoço! Falemos seriamente - prosseguiu Monte-Cristo mudando de intonação --apetece-lhe romper? - Daria cem mil francos para isso. - Pronto, seja feliz: o Sr. Danglars está disposto a dar o dobro para atingir o mesmo fim. - Isso é verdade, essa sorte? - perguntou Albert, que, no entanto, ao proferir estas palavras, não pode evitar que uma sombra imperceptível lhe passasse pela fronte. - Mas, meu caro conde, o Sr. Danglars tem motivos para isso? - Ora aí está, natureza orgulhosa e egoísta! Até que enfim encontro o homem que quer destruir o amor-próprio de outrem à machadada, mas que protesta quando lhe picam o seu com uma agulha! - Não! Mas é que me parece que o Sr. Danglars... - Deveria estar encantado com o senhor, não é? Pois bem, o Sr. Danglars é um homem de mau gosto, como se sabe, e está ainda mais encantado com outro... - Com quem? - Não sei. Examine, observe, procure ouvir as alusões à passagem dele e tire disso o melhor partido que puder. - Compreendo. Ouça, a minha mãe... Não, estou enganado, não foi a minha mãe! O meu pai teve a idéia de dar um baile... - Um baile nesta altura do ano? - Os bailes de Verão estão na moda. - Se não estivessem, bastaria a condessa querer para estarem. - Talvez. Compreende, são bailes “puro-sangue". Aqueles que ficam em Paris em Julho são verdadeiros parisienses. Quer encarregar-se de um convite para os Srs. Cavalcanti? - Daqui a quantos dias se realiza o seu baile? - No sábado. - Já o Sr. Cavalcanti pai terá partido. - Mas o Sr. Cavalcanti filho fica. Quer se encarregar de levár o Sr. Cavalcanti filho? - Ouça, visconde, eu não o conheço... - Não o conhece? - Não. Vi-o pela primeira vez há três ou quatro dias e não respondo por ele em nada. - Mas o senhor recebe-o bem! - Comigo é outra coisa. Foi-me recomendado por um excelente abade, que no entanto pode muito bem ter sido ele próprio enganado. Convide-o diretamente, se quiser, mas não me peça que lhe apresente. Se mais tarde casasse com Mademoiselle Danglars, o senhor me acusaria de manejos e quereria bater-se comigo. De resto, não sei se eu mesmo irei. - Aonde? - Ao seu baile. - Porque não iria? - Primeiro porque o senhor ainda me não convidou... - Vim aqui de propósito trazer-lhe pessoalmente o seu convite. - Oh, que amabilidade! Mas posso ter qualquer impedimento. - Quando lhe disser uma coisa, creio que será suficiente amável para nos sacrificar todos os impedimentos. - Diga. - A minha mãe pede-lhe que vá. - A Sra Condessa de Morcerf? - perguntou Monte-Cristo, estremecendo. - Ah, conde - disse Albert --, previno-o de que a Sra de Morcerf conversa livremente comigo! E se o senhor não sentiu ainda vibrar em si as fibras simpáticas de que lhe falava há pouco, é porque essas fibras lhe faltam completamente, pois durante quatro dias só falamos do senhor. - De mim? Na verdade, confunde-me! - Privilégio do seu comportamento. Quando se é um problema vivo... - Ah! Sou portanto também um problema para a sua mãe?... Para ser franco, julgava-a demasiado sensata para se dedicar a semelhantes fantasias! - Problema, meu caro conde, problema para todos, tanto para a minha mãe como para os outros; problema aceito, mas não adivinhado, pois o senhor continua a ser um enigma. Tranquilize-se: a minha mãe apenas se interroga constantemente como é possível que o senhor seja tão novo. Creio que no fundo, enquanto a condessa G... o toma por Lorde Ruthwen, a minha mãe toma-o por Cagliostro ou pelo conde de Saint-Germain. A primeira vez que vir a Sra de Morcerf, confirme-lhe essa opinião. Não lhe será difícil, pois possui a pedra filosofal de um e o espirito do outro. - Agradeço-lhe ter-me prevenido - perguntou o conde, sorrindo. - Procurarei pôr-me em condições de enfrentar todas as hipóteses. - Portanto, irá no sábado? - Se a Sra de Morcerf me pede... - É muito amável. - E o Sr. Danglars? - Oh, já recebeu o triplo convite! O meu pai encarregou-se disso. Procuraremos ter também o grande Aguesseau, ou seja, o Sr. de Villefort, mas duvido. - Nunca se deve duvidar de nada, diz o provérbio. - Dança, caro conde? - Eu? - O senhor, sim. Que haveria de surpreendente se dançasse? - Com efeito, enquanto se não passa dos quarenta... Não, não danço; mas gosto de ver dançar. E a Sra de Morcerf dança? - Também não, nunca. Conversarão. Ela tem tanta vontade de conversar consigo! - Deveras? - Palavra de honra! E declaro-lhe que o senhor é o primeiro homem por quem a minha mãe manifestou tal curiosidade. Albert pegou no chapéu e levantou-se. O conde acompanhou-o até à porta. - Tenho de me penitenciar - disse Monte-Cristo, detendo Albert no alto da escadaria. - De quê? - Fui indiscreto, não lhe devia ter falado do Sr. Danglars. - Pelo contrário, fale-me mais, fale-me muitas vezes, fale-me sempre. Mas da mesma forma... - Bom, tranquiliza-me! A propósito, quando chega o Sr. Epinay? - Daqui a cinco ou seis dias, o mais tardar. - E quando se casa? - Logo após a chegada do Sr. e da Sra de Saint-Méran. - Traga-o quando estiver em Paris. Embora o senhor pretenda que não gosto dele, declaro-lhe que terei prazer em vê-lo. - Muito bem, as suas ordens serão cumpridas, senhor. - Até breve! - Até sábado, pelo menos, claro, não é verdade? - Ora essa! A palavra está dada. O conde seguiu Albert com a vista, acenando-lhe com a mão. Depois dele subir para o seu faeton, virou-se e deparou com Bertuccio atrás de si. - Então? - perguntou. - Foi ao palácio da Justiça - respondeu o intendente. - Esteve lá muito tempo? - Hora e meia. - E depois regressou para casa? - Diretamente. - Muito bem! Agora, meu caro Sr. Bertuccio - acrescentou o conde -, se quer um conselho, vá ver se encontra na Normandia o bocadinho de terra de que lhe falei. Bertuccio inclinou-se, e como os seus desejos estavam perfeitamente de acordo com a ordem recebida, partiu naquela mesma tarde. Capítulo LXIX As informações O Sr. de Villefort cumpriu a palavra que dera à Sra Danglars, e sobretudo a si mesmo, e procurou saber de que forma o Sr. Conde de Monte-Cristo conseguira descobrir a história da casa de Auteuil. Escreveu no mesmo dia a um tal Sr. de Boville, que, depois de ter sido noutros tempos inspetor das prisões, fora colocado num alto posto da Polícia de Segurança. Pediu-lhe que lhe desse as informações que desejava e Boville solicitou-lhe dois dias para saber ao certo junto de quem se poderia informar. Passados esses dois dias, o Sr. de Villefort recebeu a seguinte nota: A pessoa chamada conde de Monte-Cristo é conhecida especialmente de Lorde Wilmore, rico estrangeiro que é visto algumas vezes em Paris, onde se encontra neste momento. É igualmente conhecida do abade Busoni, padre siciliano de grande reputação no Oriente, onde tem feito muito boas obras. O Sr. de Villefort respondeu ordenando que tirassem acerca desses dois estrangeiros as informações mais rápidas e rigorosas. No dia seguinte à tarde as suas ordens estavam cumpridas. Eis as informações que recebeu: O abade, que se encontrava havia apenas um mês em Paris, residia atrás da Igreja de S. Suipício numa casinha composta unicamente de térreo e primeiro andar: quatro divisões, duas em cima e duas em baixo, constituíam toda a habitação, onde morava sozinho. As duas divisões do térreo eram uma sala de jantar com mesa, cadeiras e aparador de nogueira e uma sala forrada de madeira pintada de branco, sem ornamentos, tapetes e relógio de sala. Via-se que pessoalmente o abade se limitava aos objetos estritamente necessários. Verdade seja que o abade ocupava de preferência a sala do primeiro andar. Essa sala, repleta de livros de teologia e pergaminhos, no meio dos quais passava, dizia o seu criado de quarto, meses inteiros, era na realidade menos uma sala do que uma biblioteca. O criado observava os visitantes através de uma espécie de postigo e quando a seu rosto lhe era desconhecida ou não lhe agradava, respondia que o Sr. Abade se não encontrava em Paris, com o que muita gente se contentava, pois sabia-se que o abade viajava frequentemente e ficava às vezes muito tempo ausente. De resto, quer estivesse em casa, quer não estivesse, quer se encontrasse em Paris, quer se encontrasse no Cairo, o abade dava sempre e o postigo servia de roda às esmolas que o criado distribuía incessantemente em nome do seu amo. A outra divisão, situada ao pé da biblioteca, era um quarto de dormir. Uma cama sem cortinados, quatro cadeiras e um canapé de veludo-de-utreque amarelo formavam, com um genuflexório, todo o seu mobiliário. Quanto a Lorde Wilmore, residia da Rua Fontaine-Saint-Georges. Era um desses turistas ingleses que gastam toda a sua fortuna em viagens. Alugara mobilado o apartamento em que morava, no qual passava apenas duas ou três horas por dia e onde raramente dormia. Uma das suas manias era recusar-se terminantemente a falar a língua francesa, que no entanto escrevia, afirmava-se, com muita pureza. No dia seguinte àquele em que estas preciosas informações chegaram às mãos do Sr. Procurador régio, um homem que se apeara de uma carruagem à esquina da Rua Férou foi bater a uma porta pintada de verde-azeitona e perguntou pelo abade Busoni. - O Sr. Abade saiu logo de manhãzinha - respondeu o criado. - Poderia não me contentar com essa resposta - perguntou o visitante --, porque venho da parte de uma pessoa para quem todos sempre estão em casa. Mas queira entregar ao abade Busoni... - Já lhe disse que não está - repetiu o criado. - Então, quando voltar, entregue-lhe este cartão e esta carta. O Sr. Abade estará em casa às oito horas, esta noite? - Com certeza, senhor, a menos que o Sr. Abade trabalhe, porque então é como se tivesse saído. - Voltarei portanto esta noite, à hora indicada - disse o visitante. E retirou-se. Com efeito, à hora indicada o mesmo homem voltou na mesma carruagem, que, desta vez, em lugar de parar à esquina da Rua Férou, se deteve diante da porta verde. Bateu, abriram e entrou. Pelos sinais de respeito de que o criado foi pródigo para com ele, compreendeu que a sua carta produzira o efeito desejado. - O Sr. Abade está em casa? - perguntou? - Está. Trabalha na sua biblioteca, mas vai atender o senhor - respondeu o criado. O desconhecido subiu uma escada bastante íngreme e, diante de uma secretária cujo tampo estava inundado da luz que concentrava um grande quebraluz, enquanto o resto da sala ficava na sombra, viu o abade, em vestes eclesiásticas e com a cabeça coberta por um desses capuzes com que ocultavam o crânio os pretensos sábios da Idade Média. - É ao Sr Busoni que tenho a honra de falar? - perguntou o visitante. - Sim, senhor - respondeu o abade. - E o senhor é a pessoa que o Sr. de Boville, antigo intendente das prisões, me manda da parte do Sr. Prefeito da Polícia? - Exatamente, senhor. - Um dos agentes afetos à Segurança de Paris? - Sim, senhor - respondeu o desconhecido, com uma espécie de hesitação e sobretudo um pouco de rubor. O abade reajustou os grandes óculos, que lhe cobriam não só os olhos, mas também as têmporas, e voltando a sentar-se, fez sinal ao visitante para se sentar igualmente. - Estou às suas ordens, senhor - disse o abade, com um acento italiano dos mais pronunciados. - A missão de que me encarregaram, senhor - começou o visitante, vincando cada uma das palavras, como se tivessem dificuldade em sair -, é uma missão de confiança para quem a desempenha e para a pessoa junto da qual a desempenha. O abade inclinou-se. - Sim-prosseguiu o desconhecido --, a sua probidade, Sr. Abade, é tão conhecida do Sr. Prefeito da Polícia que ele deseja saber do senhor, como magistrado, uma coisa que interessa à segurança pública em nome da qual o venho procurar. Esperamos, portanto, Sr. Abade, que não haja nem laços de amizade nem consideração humana que possam levá-lo a ocultar a verdade à justiça. - Conquanto, senhor, que as coisas que deseja saber não briguem em nada com os escrúpulos da minha consciência. Sou padre, senhor, e os segredos da confissão, por exemplo, devem ficar entre mim e a justiça de Deus, e não entre mim e a justiça humana. - Oh, esteja tranquilo, Sr. Abade! - disse o desconhecido. - Seja em que circunstâncias for, respeitaremos a sua consciência. Ao ouvir estas palavras, o abade carregou do seu lado no quebra-luz, o qual se levantou do lado oposto, de forma que, embora iluminasse em pleno rosto o desconhecido, deixava a cara do abade na sombra. - Perdão, Sr. Abade - disse o enviado do Sr. Prefeito da Polícia --, mas essa luz fere-me horrivelmente a vista. O abade baixou o cartão verde. - Agora, senhor, escuto-o. Fale. - Vou direito ao assunto. Conhece o Sr. Conde de Monte-Cristo? - Refere-se ao Sr. Zaccone, presumo?... - Zaccone! ... Não se chama portanto Monte-Cristo? - Monte-Cristo é o nome de uma terra, ou antes, de um rochedo, e não um nome de família. - Pois seja. Não discutamos as palavras, e visto o Sr. de Monte-Cristo e Sr. Zaccone serem o mesmo homem...disse o abade, com um acento italiano. - Absolutamente o mesmo. - Falemos do Sr. Zaccone. - Pois sim. - Conhece-o? - Perfeitamente. - Quem é? - O filho de um rico armador de Malta. - Sim, bem sei, é o que se diz. Mas, como o senhor compreende, a Polícia não se pode contentar com um diz-se... - No entanto - prosseguiu o abade, com um sorriso afabilíssimo -, quando esse diz-se é a verdade, todas as pesoas devem se contentar com ele e é necessário que a Polícia proceda como todos. - Mas o senhor tem a certeza do que diz? - Como? Se tenho a certeza?! - Note, senhor, que não duvido de forma alguma da sua boa-fé. Limito-me a perguntar: tem a certeza? - Ouça, eu conheci o Sr. Zaccone pai. - Ah, ah! - Sim, e em criança brinquei várias vezes com o filho nos seus estaleiros navais. - No entanto, esse título de conde... - Como sabe, compra-se. - Na Itália? - Em qualquer parte. - Mas as suas riquezas, que são imensas, ao que também se diz... - Oh, quanto a isso, “imensas", é a palavra adequada! - respondeu o abade. - Quanto calcula que possui, o senhor que o conhece? - Oh, tem bem cento e cinquenta a duzentas mil libras de rendimento! - Sim, é razoável - admitiu o visitante. - Mas fala-se de três ou quatro milhões! - Duzentas mil libras de rendimento, senhor, dão precisamente quatro milhões de capital. - Mas fala-se de três ou quatro milhões de rendimento! - Oh, isso não é crível! - E o senhor conhece a sua ilha de Monte-Cristo? - Certamente. Qualquer homem que tenha vindo de Palermo, de Nápoles ou de Roma para França, por mar, a conhece, pois passou por ela e viu-a ao passar. - Trata-se de um lugar encantador, ao que se afirma... - É um rochedo. - Porque terá o conde comprado um rochedo? - Justamente para ser conde. Na Itália, para se ser conde ainda é necessário possuir um condado. - Decerto ouviu falar das aventuras de juventude do Sr. Zaccone. - Do pai? - Não, do filho. - Aí é que começam as minhas incertezas, porque em dada altura perdi o meu jovem companheiro de vista. -- Ele entrou na guerra? - Creio que serviu. - Em que arma? - Na Marinha. - Vejamos, o senhor não é o seu confessor? - Não, senhor. Creio que é luterano. - Como, luterano?! - Digo que creio; não afirmo. De resto, julgava a liberdade de cultos estabelecida na França. - Sem dúvida. Por isso, não é das suas crenças que nos ocupamos neste momento, mas sim dos seus atos. Em nome do Sr. Prefeito da Polícia, convido-o a dizer o que saiba. - Passa por homem muito caritativo. O nosso Santo Padre, o Papa fê-lo cavaleiro de Cristo, honra que quase só concede aos príncipes, pelos serviços eminentes que prestou aos cristãos do Oriente. Além disso, possui cinco ou seis grã-cruzes, concedidas por serviços prestados tanto aos príncipes como aos Estados. - Usa-as? - Não, mas orgulha-se de as possuir. Diz que aprecia mais as recompensas concedidas aos benfeitores da humanidade do que as atribuídas aos destruidores dos homens. - É então um quacre, esse homem? - Exato, é um quacre, mas sem o grande chapéu e o fato castanho, evidentemente. - Tem amigos? - Tem. São seus amigos todos aqueles que o conhecem. - Mas, enfim, também deve ter inimigos. - Só um. - Como se chama? - Lorde Wilmore. - Onde se encontra? - Neste momento, em Paris. - E poderá dar-me informações? - Preciosas. Esteve na Öndia ao mesmo tempo que Zaccone. - Sabe onde mora? - Algures na Chaussée-d'Antin, mas ignoro a rua e o número. - O senhor tem más relações com esse inglês? - Estimo Zaccone e ele detesta-o. Não nos damos bem por isso. - Sr. Abade, acha que o conde de Monte-Cristo esteve alguma vez na França antes da viagem que acaba de fazer a Paris? - Quanto a isso posso responder-lhe concretamente. Não, senhor, nunca esteve, pois dirigiu-se a mim, há seis meses, para obter as informações que desejava. Pela minha parte, como ignorava quando eu próprio regressaria a Paris, recomendei-lhe o Sr. Cavalcanti. - Andrea? - Não. Bartolomeo, o pai. - Muito bem, senhor. Não tenho mais nada a perguntar-lhe, exceto uma coisa, e peço-lhe, em nome da honra, da humanidade e da religião, que me responda francamente. - Diga, senhor. - Sabe com que fim o Sr. Conde de Monte-Cristo comprou uma casa em Auteuil? - Sei, porque ele me disse. - Com que fim, senhor? - Com o de instalar um hospital psiquiátrico no gênero do fundado pelo barão de Pisani, em Palermo. Conhece esse hospital? - De nome, senhor. - É uma instituição magnífica. E dito isto, o abade cumprimentou o desconhecido como um homem que desejasse dar a entender que se não importaria de voltar ao trabalho interrompido. O visitante, quer porque tivesse compreendido o desejo do abade, quer porque não tivesse mais perguntas a fazer, levantou-se por seu turno. O abade acompanhou-o até à porta. - O senhor dá muitas esmolas - disse o visitante --, mas embora se diga que é rico, atrevo-me a oferecer-lhe qualquer coisa para os seus pobres. Importa-se de aceitar a minha oferenda? - Obrigado, senhor, mas há apenas uma coisa de que sou cioso no mundo: é que o bem que faça provenha de mim. - No entanto... - É uma resolução inabalável. Mas procure, senhor, e encontrará. Infelizmente! No caminho de cada homem rico cruzam-se muitas misérias. O abade cumprimentou mais uma vez e abriu a porta. O desconhecido cumprimentou por seu turno e saiu. A carruagem levou-o direito a casa do Sr. de Villefort. Uma hora mais tarde a carruagem tornou a sair e desta vez dirigiu-se para a Rua Fontaine-Saint-Georges. Parou no nº 5. Era ali que morava Lorde Wilmore. O desconhecido escrevera a Lorde Wilmore pedindo-lhe que o recebesse e este marcara o encontro para as dez horas. Por isso, como o enviado do Sr. Prefeito da Polícia chegou às dez horas menos dez minutos, foi-lhe respondido que Lorde Wilmore, que era a exatidão e a pontualidade em pessoa ainda não chegara, mas que chegaria sem dúvida ao bater as dez. O visitante esperou na sala, a qual não tinha nada de notável e era como todas as salas das casas alugadas mobiladas. Uma chaminé com dois vasos de Sevres modernos, um relógio de sala com um Amor retesando o seu arco, um espelho bipartido, de cada lado do espelho uma gravura, representando uma Homero conduzido pelo seu guia, a outra, Belisário pedindo esmola, paredes forradas de papel cinzento de vários tons e um sofá de tecido vermelho estampado a preto, tal era a sala de Lorde Wilmore. Iluminavam-na globos de vidro fosco, que espalhavam apenas uma luz fraca, a qual parecia preparada propositadamente para os olhos cansados do enviado do Sr. Prefeito da Polícia. Ao cabo de dez minutos de espera, o relógio de sala deu as dez horas, e à quinta pancada a porta abriu-se e Lorde Wilmore apareceu. Lorde Wilmore era um homem mais alto do que baixo, de suíças ralas e ruivas, tez branca e cabelo louro-grisalho. Vestia com toda a excentricidade inglesa, isto é, envergava casaca azul com botões dourados e gola alta pespontada, como se usava em 1811, colete de casimira branca e calças de nanquim três polegadas mais curtas do que deviam, mas que presilhas do mesmo tecido passadas por baixo dos pés impediam de lhe subir aos joelhos. As suas primeiras palavras quando entrou foram: - Como sabe, senhor, não falo francês. - Sei, pelo menos, que não gosta de falar na nossa língua - respondeu o enviado do Sr. Prefeito da Polícia. - Mas o senhor pode falar nela - perguntou Lorde Wilmore -, pois se a não falo, compreendo-a. - E eu - replicou o visitante, mudando de idioma - falo o inglês com facilidade suficiente para sustentar uma conversa nessa língua. Não se incomode, pois, senhor. - Hao! - exclamou Lorde Wilmore, com a intonação exclusiva dos mais puros naturais da Grã-Bretanha. O enviado do prefeito da Polícia entregou a Lorde Wilmore a sua carta de apresentação. Este leu-a com uma fleuma muito anglicana e quando terminou a leitura disse, em inglês: - Compreendo. Compreendo perfeitamente. Começaram então as perguntas. Foram pouco mais ou menos as mesmas que tinham sido dirigidas ao abade Busoni. Mas como Lorde Wilmore, na sua qualidade de inimigo do conde de Monte-Cristo, não punha nas suas respostas a mesma reserva que o abade, estas foram muito mais extensas. Contou a juventude de Monte-Cristo, que, segundo ele, entrara aos dez anos ao serviço de um desses pequenos soberanos da índia que guerreiam os Ingleses. Fora lá que ele, Wilmore, o encontrara pela primeira vez e tinham combatido um contra o outro. Nessa guerra, Zaccone fora feito prisioneiro e enviado para Inglaterra num pontão, mas fugira a nado. Tinham começado então as suas viagens, os seus duelos e as suas paixões. Por essa altura, a Grécia revoltara-se e ele servira nas fileiras dos Gregos. Enquanto estava ao seu serviço, descobrira uma mina de prata nas montanhas da Tessália, mas não revelara a ninguém tal descoberta. Depois de Navarino e da consolidação do governo grego, pediu ao rei Otão um alvará para explorar a mina, o qual lhe foi concedido. Dai a sua imensa fortuna, que, segundo Lorde Wilmore, podia ascender a um ou dois milhões de rendimento, fortuna que no entanto poderia exaurir-se de súbito, se a mina se esgotasse. - Mas não sabe porque veio a França? - perguntou o visitante. - Quer especular nos caminhos-de-ferro - respondeu Lorde Wilmore. - Além disso, como é um hábil químico e um físico não menos distinto, descobriu um novo telégrafo cuja aplicação ambiciona. - Quanto gasta pouco mais ou menos por ano? - perguntou o enviado do Sr. Prefeito da Polícia. - Oh, quinhentos ou seiscentos mil francos, no máximo! - respondeu Lorde Wilmore. - É um sovina. Era evidente que o rancor é que fazia falar o inglês, o qual, não sabendo o que censurar ao conde, lhe censurava a avareza. - Sabe alguma coisa a respeito da sua casa de Auteuil? - Claro que sei. - Nesse caso, que sabe? - Quer saber com que fim a comprou? - Quero. - Bom, o conde é um especulador que certamente acabará por se arruinar com experiências e utopias. Pretende que existe em Auteuil, nas imediações da casa que acaba de comprar, uma corrente de água mineral capaz de rivalizar com as águas de Bagneres, de Luchon e de Cauterets. Quer transformar a sua aquisição num bad-haus, como dizem os Alemães. Revolveu duas ou três vezes o jardim à procura do famoso curso de água, e como o não conseguiu descobrir, vai ver que dentro de pouco tempo desata a comprar as casas que rodeiam a dele. Ora, como lhe desejo, espero que graças ao seu caminho-de-ferro, ao seu telégrafo elétrico ou à sua exploração de banhos acabe por se arruinar. Então, estarei aqui para desfrutar a sua ruína, que não pode deixar de acontecer mais dia menos dia. - Mas porque lhe quer assim tão mal? - perguntou o visitante. - Odeio-o - respondeu Lorde Wilmore - porque numa das suas passagens por Inglaterra seduziu a mulher de um dos meus amigos. - Mas se o odeia, porque não procura vingar-se dele? - Já me bati três vezes com o conde - respondeu o inglês. - A primeira vez, à pistola, a segunda, à espada, e a terceira, ao montante. - E qual foi o resultado desses duelos? - Da primeira vez, partiu-me um braço; da segunda vez, traspassou-me um pulmão, e da terceira, fez-me este ferimento. O inglês baixou o colarinho da camisa, que lhe subia até às orelhas, e mostrou-lhe uma cicatriz cuja vermelhidão indicava ser pouco antiga. - De forma que o odeio muito - repetiu o inglês - e que desejo, evidentemente, que morra apenas às minhas mãos. - Mas assim o senhor não leva jeito de vir a matá-lo, parece-me - observou o enviado da Prefeitura. - Hao! - exclamou o inglês. - Vou todos os dias à carreira de tiro e de dois em dois dias Grisier vem a minha casa. Era o que queria saber o visitante, ou antes, era tudo o que parecia saber o inglês. O agente levantou-se portanto e, depois de cumprimentar Lorde Wilmore, que lhe correspondeu com a rigidez e a cortesia inglesas, retirou-se. Pela sua parte, Lorde Wilmore, depois de ouvir fechar a porta da rua, entrou no seu quarto, onde num ápice perdeu os seus cabelos louros, as suas suíças ruivas, o seu falso maxilar e a sua cicatriz, para readquirir os cabelos pretos, a tez mate e os dentes de pérolas do conde de Monte-Cristo. Verdade seja que, pelo seu lado, foi o Sr. de Villefort e não o enviado do Sr. Prefeito da Polícia que entrou em casa do mesmo Sr. de Villefort. O procurador régio ficara um pouco tranquilizado depois das duas visitas, que aliás lhe não tinham revelado nada de tranquilizador, mas que também lhe não haviam dado motivos de inquietação. Daí que, pela primeira vez desde o jantar de Auteuil, dormisse naquela noite um bocadinho mais tranquilo. Capítulo LXX O baile Tinham chegado os mais quentes dias de Julho quando se apresentou por seu turno, na ordem do tempo, o sábado em que se devia realizar o baile do Sr. de Morcerf. Eram dez horas da noite. As grandes árvores do jardim do palácio do conde destacavam-se pelo seu porte num céu onde deslizavam, descobrindo um tapete azul recamado de estrelas douradas, os últimos vapores de uma tempestade que trovejara ameaçadora durante todo o dia. Nas salas do térreo ouvia-se ressoar a música e rodopiar a valsa e o galope, enquanto faixas deslumbrantes de luz passavam delgadas através dos intervalos das persianas. O jardim estava entregue naquele momento a uma dezena de criados, a quem a dona da casa, tranquilizada por o tempo. Acalmar de momento a momento, acabava de ordenar que servissem a ceia. Até ali hesitara-se se se cearia na sala de jantar ou debaixo de uma comprida tenda de lona erguida no relvado. Mas aquele belo céu azul, todo recamado de estrelas, acabava de decidir o processo a favor da tenda e do relvado. Iluminavam-se as alamedas do jardim com lanternas de cor, como é hábito na Itália, e cobria-se de velas e de flores a mesa da ceia, como é uso em todos os países onde se compreende um pouco o luxo da mesa, o mais raro de todos os luxos, quando se pretende torná-lo completo. No momento em que a condessa de Morcerf entrava nos seus salões, depois de dar as suas últimas ordens, os salões começavam a encher-se de convidados, atraídos muito mais pela encantadora hospitalidade da condessa do que pela posição de relevo do conde. Porque se podia ter antecipadamente a certeza de que a festa proporcionaria, graças ao bom gosto de Mercedes, alguns pormenores dignos de ser contados ou copiados, se necessário. A Sra Danglars, a quem os acontecimentos que narramos tinham inspirado profunda inquietação, hesitava em ir a casa da Sra de Morcerf quando de manhã a sua carruagem se cruzara com a de Villefort. Este fizera-lhe um sinal, as duas viaturas tinham-se aproximado e o procurador régio perguntara através das portinholas: - Vai a casa da Sra de Morcerf, não vai? - Faz mal - observou Villefort, com um olhar significativo. - Seria importante que a vissem lá. - Acha? - perguntou a baronesa. - Acho. - Nesse caso, irei. E as duas viaturas tinham retomado a sua direção oposta. A Sra Danglars viera portanto, não só bela pela sua própria beleza, mas também deslumbrante de luxo. Entrava por uma porta no preciso instante em que Mercedes entrava pela outra. A condessa mandou Albert ao encontro da Sra Danglars. Albert obedeceu, apresentou à baronesa, a propósito da sua toilette, os devidos cumprimentos e ofereceu-lhe o braço para a conduzir ao lugar que lhe aprouvesse escolher, Albert olhou à sua volta. - Procura a minha filha? - inquiriu, sorrindo, a baronesa. - Confesso que sim - respondeu Albert. - Seria capaz de cometer a crueldade de não a trazer ? - Tranquilize-se, encontrou Mademoiselle de Villefort e deu-lhe o braço. Olhe, ai vêm atrás de nós, ambas de vestido branco, uma com um ramo de camélias e a outra com um ramo de miosótis. Mas diga-me uma coisa... - Que procura a senhora por sua vez? - perguntou Albert, sorrindo. - Não terão esta noite o conde de Monte-Cristo? - Dezessete! - respondeu Albert. - Que quer dizer? - Quero dizer que as coisas vão bem - esclareceu o visconde, rindo - e que a senhora é a décima sétima pessoa que faz a mesma pergunta. Não há dúvida, o conde está bem lançado!...Tenho de felicitá-lo... - O senhor responde a toda a gente como a mim? - Ah, é verdade, não lhe respondi! Sossegue, minha senhora, teremos o homem da moda, pertencemos ao número dos privilegiados. - Foi ontem à Ópera? - Não. - Ele estava lá. - Deveras? E o excentric man teve alguma nova originalidade? - Pode porventura exibir-se sem isso? Eissler dançava O Diabo Coxo; a princesa grega estava enleada. Depois da cachucha, ele meteu um anel magnífico no pé de um ramo de flores e atirou-o à encantadora bailarina, que no terceiro ato reapareceu em cena, para o distinguir, com o anel no dedo. E a sua princesa grega, também virá? - Não, tem de ter paciência e privar-se dela, mas a sua situação em, casa do conde não está bem definida. - Olhe, deixe-me aqui e vá cumprimentar a Sra de Villefort - disse a baronesa. - Adivinho que está ansiosa por lhe falar. Albert cumprimentou a Sra Danglars e foi ao encontro da Sra de Villefort, que abria a boca à medida que ele se aproximava. - Aposto - disse Albert, interrompendo-a - que sei o que me vai perguntar... - Essa agora! - exclamou a Sra de Villefort. - Se acertar, confessa-o? - Confesso. - Palavra de honra? - Palavra de honra! - Ia perguntar-me se o conde de Monte-Cristo já veio ou ainda vem... - De modo nenhum. Não me ocupo dele neste momento. Ia perguntar-lhe se recebeu notícias do Sr. Franz. - Recebi, ontem. - Que lhe dizia? - Que partia ao mesmo tempo que a sua carta. - Muito bem. E agora, que me diz do conde? - O conde virá, fique tranquila. - Sabe que tem outro nome além do de Monte-Cristo? - Não, não sabia. - Monte-Cristo é o nome de uma ilha e ele tem um nome de família. - Nunca lho ouvi pronunciar. - Então estou mais adiantada do que o senhor. Ele chama-se Zaccone. - É possível. - E é maltês. - Também é possível. - Filho de um armador. - Oh, mas na verdade a senhora devia contar essas coisas ali, em voz alta! Teria o maior êxito. - Serviu na índia, explora uma mina de prata na Tessália e veio a Paris para montar um estabelecimento de águas minerais em Auteuil. - Que grandes notícias! - exclamou Morcerf. - Permite-me que as repita? - Pois sim, mas pouco a pouco, uma a uma, sem dizer que provêm de mim. - Porquê? - Porque é quase um segredo roubado. - A quem? - À Polícia. - Então essas notícias espalhavam-se... - Ontem à noite, em casa do prefeito. Paris impressionou-se, como sabe, perante aquele luxo inusitado e a Polícia tirou informações. - Muito bem. Só faltava prender o conde como vagabundo a pretexto de ser demasiado rico. - Era o que poderia muito bem acontecer-lhe se as informações não fossem tão favoráveis. - Pobre conde! Desconfia do perigo que correu? - Não creio. - Então será uma obra de caridade avisá-lo. Não deixarei de o fazer quando ele chegar. Neste momento um bonito rapaz de olhos vivos, cabelo preto e bigode brilhante veio cumprimentar respeitosamente a Sra de Villefort. Albert estendeu lhe a mão. - Minha senhora - disse Albert --, tenho a honra de lhe apresentar o Sr. Maximilien Morrel, capitão de sipaios, um dos nossos bons e sobretudo dos nossos bravos oficiais. - Já tive o prazer de encontrar este senhor em Auteuil, em casa do Sr. Conde de Monte-Cristo - respondeu a Sra de Villefort, virando-se com acentuada frieza. Esta resposta, e sobretudo o tom em que foi dada, apertou o coração do pobre Morrel. Mas estava-lhe reservada uma compensação: ao voltar-se, descobriu à porta uma bela figura branca cujos olhos azuis, dilatados e sem expressão aparente, se cravavam nele, enquanto o ramo de miosótis lhe subia lentamente aos lábios. Este cumprimento foi tão bem compreendido que Morrel, com a mesma expressão no olhar, aproximou por sua vez o lenço da boca. E as duas estátuas vivas, cujo coração pulsava rapidamente sob o mármore aparente do rosto, separadas uma da outra por toda a largura da sala, esqueceram-se por um instante, ou antes, por um instante esqueceram toda a gente naquela muda contemplação. E poderiam ter ficado muito mais tempo assim absortas uma na outra, sem que ninguém notasse o seu alheamento de tudo e de todos, se o conde de Monte-Cristo não acabasse de entrar. O conde, quer por prestigio fitício, quer por prestigio natural, atraia a atenção em toda a parte onde se apresentava. Não era a sua casaca preta, de corte impecável, é certo, mas simples e sem condecorações; não era o seu colete branco sem qualquer bordadura; não eram as suas calças, que se ajustavam a um pé da forma mais delicada, que atraiam a atenção: eram a sua tez mate, o seu cabelo preto, ondulado, era o seu rosto calmo e puro, era o seu olhar profundo e melancólico, era finalmente a sua boca desenhada com uma delicadeza maravilhosa, e que adquiria facilmente a expressão de um alto desdém, que levavam todos os olhos a fixarem-se nele. Poderia haver homens mais belos, mas não os havia, sem dúvida, mais significativos, passe a expressão. Tudo no conde queria dizer qualquer coisa e tinha o seu valor; porque o hábito do pensamento útil dera às suas feições, à expressão do seu rosto e ao mais insignificante dos seus gestos uma flexibilidade e uma firmeza incomparáveis. No entanto, a nossa sociedade parisiense é tão estranha que ele talvez não tivesse despertado a atenção por tudo isso se debaixo de tudo isso não houvesse uma história misteriosa dourada por uma imensa fortuna. Como quer que fosse, adiantou-se sob o peso dos olhares e, trocando pelo caminho breves cumprimentos, até à Sra de Morcerf, que de pé diante da chaminé guarnecida de flores o vira aparecer num espelho colocado defronte da porta e se preparava para o receber. Virou-se portanto para ele com um sorriso grave precisamente no momento em que Monte-Cristo se inclinava diante dela. A condessa supôs, sem dúvida, que o conde lhe dirigiria a palavra, e pela sua parte ele também imaginou, sem dúvida, que ela lhe falaria; mas ambos ficaram mudos, de tal forma uma banalidade lhes pareceu, decerto, indigna deles. E após uma troca de cumprimentos, Monte-Cristo dirigiu-se para Albert, que vinha ao seu encontro de mão aberta. - Viu a minha mãe? - perguntou Albert. - Acabo de ter a honra de a cumprimentar - respondeu conde -, mas ainda não vi o seu pai. - Olhe, conversa de política ali, naquele grupinho de grandes celebridades. - Na verdade aqueles cavalheiros são celebridades? - admirou-se Monte- Cristo. - Nunca o suporia! E de que gênero? Há celebridades de toda a espécie, como sabe. - Em primeiro lugar, um sábio, aquele cavalheiro alto e magro: descobriu na campina de Roma uma espécie de lagarto que tem mais uma vértebra do que os outros e essa descoberta valeu-lhe fazer parte do Instituto. A coisa foi durante muito tempo contestada, mas enfim o cavalheiro alto e magro levou a melhor. A vértebra causara grande alvoroço no mundo científico. O cavalheiro alto e magro, que era apenas cavaleiro da Legião de Honra, foi nomeado oficial. - Até que enfim! - exclamou Monte-Cristo. - Aí está uma condecoração que me parece sensatamente dada. Então, se encontrar segunda vértebra, o farão comendador? - É provável - respondeu Morcerf. - E aquele que teve a singular idéia de vestir uma casaca azul bordada de verde quem é? - Não foi ele que teve a idéia de se meter naquela casaca, foi a República, a qual, como sabe, era um tanto artista. Por isso, desejando dar um uniforme aos academicos, pediu a David que lhe desenhasse uma casaca. - Tem razão - concordou Monte-Cristo. - Portanto aquele senhor é um academico? - Há oito dias que faz parte da douta assembléia. - E qual é o seu mérito, a sua especialidade? - A sua especialidade? Parece-me que espeta alfinetes na cabeça de coelhos, que obriga as galinhas a comer garança e que extrai com barbas de baleia a espinal-medula aos cães. - E é da Academia das Ciências por isso? - Não, da Academia Francesa. - Mas que tem a Academia Francesa a ver com essas coisas? - Vou dizer-lhe. Parece... - Que as suas experiências fizeram, decerto, a ciência dar um grande passo? - Não, mas que escreve num excelente estilo. - O que deve lisonjear enormemente o amor-próprio dos coelhos em que espeta alfinetes na cabeça, as galinhas cujos ossos tinge de vermelho e os cães a que extrai a espinal-medula - comentou Monte-Cristo. Albert desatou a rir. - E aquele? - perguntou o conde. - Qual? - O terceiro. - Ah! O de casaca azul-clara? - Sim. - É um colega do conde que acaba de se opor energicamente a que a Câmara dos Pares tenha um uniforme. Por causa disso obteve um grande êxito na tribuna. Andava de candeias às avessas com as gazetas liberais, mas a sua nobre oposição aos desejos da corte acaba de o reconciliar com elas. Fala-se em nomeá-lo embaixador. - E quais são os seus títulos para o pariato? - Escreveu duas ou três operas cômicas, intentou quatro ou cinco ações contra o Siecle e votou cinco ou seis anos pelo ministério. - Bravo, visconde! - exclamou Monte-Cristo, rindo. - O senhor é um cicerone notável. Agora, importa-se de me fazer um favor? - Qual? - Não me apresente a esses cavalheiros e se eles pedirem para me serem apresentados, previna-me. Neste momento o conde sentiu que lhe pousavam uma mão no braço. Virou-se. Era Danglars. - Ah! E o senhor, barão? - Porque me chama barão? - perguntou Danglars. - Bem sabe que não ligo importância ao meu título. Não sou como o senhor, visconde; o senhor liga mesmo importância ao seu, não é verdade? - Certamente - respondeu Albert --, pois se não fosse visconde não seria mais nada, ao passo que o senhor pode sacrificar o seu título de barão porque ainda lhe fica o de milionário. - O que me parece o mais belo título que se possa desejar na monarquia de Julho - salientou Danglars. - Infelizmente - atalhou Monte-Cristo --, não se é milionário vitalício como se é barão, par de França ou acadêmico; assim o provam os milionários Franck & Poulmann, de Frankfurt, que acabam de abrir falência. - Sim? - murmurou Danglars, empalidecendo. - Palavra. Recebi a notícia esta tarde, por um correio. Tinha qualquer coisa como um milhão na casa deles, mas, avisado a tempo, exigi o seu reembolso há coisa de um mês, pouco mais ou menos. - Ah, meu Deus, sacaram sobre mim duzentos mil francos! - exclamou Danglars. - Então está avisado - a sua assinatura vale cinco por cento. - Pois sim, mas o seu aviso vem demasiado tarde - perguntou Danglars. - já honrei a assinatura deles. - Bom, são mais duzentos mil francos que se foram juntar... - começou Monte-Cristo. - Cale-se! - atalhou Danglars. - Não fale dessas coisas... Depois, aproximando-se de Monte-Cristo: - Sobretudo diante do Sr. Cavalcanti filho - acrescentou o banqueiro, que, ao pronunciar estas palavras, se virou sorrindo para o lado do jovem italiano. Morcerf deixara o conde para ir falar à mãe. Danglars deixou-o para cumprimentar Cavalcanti filho. Monte-Cristo encontrou-se por um instante sozinho. Entretanto, o calor começava a tornar-se excessivo. Os criados circulavam pelos salões com bandejas carregadas de fruta e gelados. Monte-Cristo enxugou com o lenço o rosto perlado de suor. Mas recuou quando a bandeja passou diante dele e não tirou nada para se refrescar. A Sra de Morcerf não tirava os olhos de Monte-Cristo. Viu passar a bandeja sem que ele lhe tocasse e notou também a forma como se afastou dela. - Albert, reparaste numa coisa? - Qual, minha mãe? - Que o conde nunca aceitou jantar em casa do Sr. de Morcerf. - Pois sim, mas aceitou almoçar em minha casa, e foi até por intermédio desse almoço que entrou na sociedade. - Em sua casa não é em casa do conde - murmurou Mercedes. - Além disso, desde que chegou que o observo. - E então? - E então? Ainda não tomou nada. - O conde é muito sóbrio. Mercedes sorriu tristemente. - Aproxime-se dele - pediu, e à primeira bandeja que passar, insiste. - Porquê, minha mãe? - Faça-me esse favor, Albert - insistiu Mercedes. Albert beijou a mão da mãe e foi postar-se junto do conde. Passou outra bandeja, carregada como as precedentes. A condessa viu Albert insistir com o conde, tirar mesmo um gelado e oferecer-lhe, mas ele recusar obstinadamente. Albert voltou para junto da mãe. A condessa estava muito pálida. - Como viu, recusou. - É verdade, mas em que é que isso a pode preocupar? - Como sabes, Albert, as mulheres têm manias singulares. Teria visto com prazer o conde tomar qualquer coisa em minha casa, nem que fosse um bago de romã. Mas talvez não se adapte aos costumes franceses, talvez prefira outras coisas... - Meu Deus, não! Na Itália vi-o tomar de tudo. Sem dúvida está maldisposto esta noite. - Acha que tendo residido sempre em climas quentes, será menos sensível ao calor do que as outras pessoas? - perguntou a condessa. - Não creio, pois queixava-se de que asfixiava e perguntava por que motivo, visto já se terem aberto as janelas, não se abriam também as persianas. - Com efeito - disse Mercedes --, é um meio de me assegurar se a sua abstinência é alguma atitude preconcebida... E saiu do salão. Pouco depois, as persianas abriram-se e todos puderam ver, através dos jasmins e das clematites que guarneciam as janelas, todo o jardim iluminado com lanternas e a ceia servida debaixo da tenda. Dançarinos e dançarinas, jogadores e conversadores soltaram um grito de alegria. Todos aqueles pulmões ávidos aspiravam com delícia o ar que entrava a jorros. Ao mesmo tempo, Mercedes reapareceu, mais pálida do que saíra, mas com a serenidade de rosto que era notável nela em determinadas circunstâncias. Foi direita ao grupo de que o marido era o centro e disse-lhe: - Não retenha estes cavalheiros aqui, Sr. Conde. Se não jogam, decerto preferirão tomar ar no jardim a abafar aqui dentro. - Mas, minha senhora - interveio um velho general muito galante, que cantara Partamos para a Síria! em 1809 --, não iremos sozinhos para o jardim... - Seja, estou pronta a dar o exemplo - respondeu Mercedes. E virando-se para Monte-Cristo: - Sr. Conde, quer dar-me a honra de me oferecer o seu braço? O conde quase cambaleou ao ouvir estas simples palavras. Em seguida fitou um momento Mercedes. Esse momento teve a rapidez do relâmpago e no entanto pareceu à condessa ter durado um século, tantos pensamentos pusera Monte-Cristo nesse único olhar. Ofereceu o braço à condessa. Esta apoiou-se nele ou, para melhor dizer, aflorou-o com a sua mãozinha, e ambos desceram uma das escadas adornadas de rododendros e camélias. Atrás deles, e pela outra escada, correram para o jardim, soltando ruidosas exclamações de prazer, cerca de vinte convidados. capítulo LXXI O pão e o sal A Sra de Morcerf entrou debaixo da abóbada de folhagem com o companheiro. A abóbada era formada pelas árvores de uma alameda de tílias que conduzia a uma estufa. - Fazia demasiado calor no salão, não é verdade, Sr. Conde? - É, sim, minha senhora, e a sua idéia de mandar abrir as portas e as persianas foi uma excelente idéia. Quando acabou de proferir estas palavras, o conde notou que a mão de Mercedes tremia. - Mas a senhora, com esse vestido leve e sem mais nada a agasalhar-lhe o pescoço do que essa echarpe de gaze, não irá talvez ter frio? - perguntou. - Sabe aonde o levo? - inquiriu a condessa, sem responder à pergunta de Monte-Cristo. - Não, minha senhora - respondeu ele. - Mas, como vê, não oponho resistência. - À estufa que vê ali, ao fundo desta alameda. O conde olhou Mercedes como se a quisesse interrogar, mas ela continuou o seu caminho sem nada dizer e pela sua parte Monte-Cristo também se manteve calado. Chegaram à estufa, cheia de frutos magníficos, que desde o principio de Julho ali amadureciam debaixo de uma temperatura sempre regulada de forma a substituir o calor do sol, tantas vezes ausente entre nós. A condessa largou o braço de Monte-Cristo e foi colher a uma cepa um cacho de uvas moscatéis. - Tome, Sr. Conde - ofereceu com um sorriso tão triste que se lhe viram as lágrimas surgir à beira dos olhos. - Tome. As nossas uvas da França não são comparáveis, bem sei, às uvas da Sicília e de Chipre, mas o senhor será indulgente com o nosso pobre sol do Norte. O conde inclinou-se e deu um passo atrás. - Recusa o que lhe ofereço? - perguntou Mercedes, com voz trêmula. - Minha senhora - respondeu Monte-Cristo --, peço-lhe muito humildemente que me desculpe, mas nunca como uvas moscatéis. Mercedes deixou cair o cacho, suspirando. Um pêssego magnifico pendia de uma espaldeira vizinha, aquecido, como a vide, pelo calor artificial da estufa. Mercedes aproximou-se do fruto aveludado e colheu-o. - Tome então este pêssego - ofereceu. Mas o conde fez o mesmo gesto de recusa. - Oh, também?! - exclamou ela em tom tão magoado que se adivinhava conter um soluço. - Na verdade, estou com pouca sorte. A esta cena seguiu-se um longo silêncio. O pêssego, como o cacho de uvas, jazia no saibro. - Sr. Conde - prosseguiu finalmente Mercedes, pousando em Monte-Cristo um olhar suplicante --, há um comovente costume árabe que torna amigos eternos aqueles que partilham o pão e o sal debaixo do mesmo teto... - Conheço-o, minha senhora - respondeu o conde. - Mas estamos na França e não na Arábia, e na França não existe nem amizade eterna nem partilha do sal e do pão. - Mas, enfim - disse a condessa, palpitante, sem tirar os olhos de Monte- Cristo, cujo braço apertava convulsivamente com ambas as mãos --, nós somos amigos, não é verdade? O sangue afluiu ao coração do conde, que se tornou pálido como um morto, e depois subiu-lhe do coração à garganta e invadiu-lhe as faces, e os seus olhos vogaram no nada durante alguns segundos, como os de um homem fascinado. - Claro que somos amigos, minha senhora - replicou. - Aliás, porque não seriamos? Este tom estava tão longe do que desejaria a Sra de Morcerf que ela se virou para deixar escapar um suspiro, que mais parecia um gemido. - Obrigada - disse, e recomeçou a andar. Deram assim a volta ao jardim sem pronunciarem uma só palavra. - Senhor - disse de súbito a condessa, depois de dez minutos de passeio silencioso --, é verdade que tem visto muito, viajado muito e sofrido muito? - Sim, minha senhora, é verdade que tenho sofrido muito - respondeu Monte-Cristo. - Mas agora é feliz? - Sem dúvida, pois ninguém me ouve queixar - respondeu o conde. - E a sua felicidade presente adoça-lhe a alma? - A minha felicidade presente iguala a minha miséria passada. - Não casou? - perguntou a condessa. - Eu, casar? - respondeu Monte-Cristo, estremecendo. - Quem lhe disse isso? - Ninguém me disse, mas têm-no visto acompanhar várias vezes à Ópera uma jovem muito bonita. - É uma escrava que comprei em Constantinopla, minha senhora, a filha de um príncipe de quem fiz minha filha e que não tem outra afeição no mundo. - Portanto vive só? - Sim, vivo só. - Não tem irmã... filho... pai?... - Não tenho ninguém - Como pode viver assim, sem nada que o prenda à vida? - A culpa não é minha, senhora. Em Malta amei uma moça e ia casar com ela quando veio a guerra e me levou para longe dela como um turbilhão. Julgava que me amasse o suficiente para me esperar, para permanecer até fiel à minha sepultura, mas quando regressei estava casada. É a história de todo o homem que passou a idade dos vinte anos. Eu tinha talvez o coração mais fraco do que os outros e por isso sofri mais do que eles sofreriam no meu lugar, foi só isso. A condessa parou um momento, como se necessitasse desse alto para respirar. - Sim, e esse amor ficou-lhe no coração... - disse. - Só se ama uma vez... E alguma vez tornou a ver essa mulher? - Nunca. - Nunca? - Nunca mais voltei ao pais onde ela vivia. - A Malta? - Sim, a Malta. - Ela era então de Malta? - Creio que sim. - E perdoou-lhe o que ela o fez sofrer? - A ela, sim. - Mas só a ela. Continua a odiar aqueles que o separaram dela? A condessa colocou-se diante de Monte-Cristo. Tinha ainda na mão um bocadinho do cacho de uvas perfumado. - Tome - pediu. - Nunca como uvas moscatéis, minha senhora - respondeu Monte-Cristo como se fosse a primeira vez que tocavam em tal assunto. A condessa atirou o cacho para o maciço mais próximo com um gesto de desespero. - Inflexível! - murmurou. Monte-Cristo ficou tão impassível como se a censura lhe não fosse dirigida. Albert apareceu neste momento. - Oh, minha mãe, que grande desgraça! - exclamou. - Que foi? Que aconteceu? - perguntou a condessa, endireitando-se, como se depois do sonho acabasse de ser trazida à realidade. - Uma desgraça, você disse? Com efeito, devem aproximar-se desgraças... - O Sr. de Villefort está aqui . - E então? - Vem buscar a mulher e a filha. - Porquê? - Porque a Sra Marquesa de Saint-Méran, chegou a Paris com a notícia de que o Sr. de Saint-Méran morreu depois de sair de Marselha, na primeira muda de cavalos. A Sra de Villefort estava tão alegre que não era capaz de compreender nem de acreditar em semelhante desgraça. Mas Mademoiselle Valentine, mal ouviu as primeiras palavras, apesar das precauções que o pai tomou, adivinhou tudo. O golpe fulminou-a como um raio e caiu sem sentidos. - Que é o Sr. de Saint-Méran a Mademoiselle de Villefort? - perguntou o conde. - Avô materno. Vinha para apressar o casamento de Franz com a neta. - Ah, sim?! - Lá tem o Franz de esperar mais um tempo! Porque não seria o Sr. de Saint-Méran também avô de Mademoiselle Danglars?... - Albert! Albert! - interveio a Sra de Morcerf em tom de meiga censura. - Que está para dizer? Olhe, Sr. Conde, diga-lhe o senhor, por quem ele tem tão grande consideração, que não deve falar assim. A condessa deu alguns passos em frente. Monte-Cristo olhou-a tão estranhamente e com uma expressão ao mesmo tempo tão pensativa e tão cheia de afetuosa admiração que ela voltou atrás. Então, pegou-lhe na mão, ao mesmo tempo que apertava a do filho e juntava ambas, e perguntou: - Somos amigos, não somos? - Ser seu amigo, minha senhora, é pretensão que não tenho; mas de qualquer forma sou um seu respeitoso servidor. A condessa retirou-se com inexprimível aperto no coração, e antes de dar dez passos o conde viu-a levar o lenço aos olhos. - Acaso não estão de acordo, minha mãe e o senhor? - perguntou Albert, surpreendido. - Pelo contrário - respondeu o conde. - Acaba de me dizer diante do senhor que somos amigos. Regressaram, ao salão que acabavam de deixar Valentine e o Sr. e a Sra de Villefort. Capítulo LXXII A Sra de Saint-Méran Uma cena lúgubre acabava, com efeito, de se passar em casa do Sr. de Villefort. Depois da saída das duas senhoras para o baile, aonde todas as instancias da Sra de Villefort não tinham conseguido resolver o marido a acompanhá-las, o procurador régio metera-se, como era seu hábito, no seu gabinete com uma pilha de processos que assustaria qualquer outro, mas que nos seus bons tempos mal chegaria para satisfazer o seu insaciável apetite de trabalhador. Desta vez, porém, os processos não passavam de mero pró-forma. Villefort não se isolava para trabalhar, mas sim para pensar. Uma vez dada ordem para só o incomodarem em caso de importância e fechada a porta, sentou-se na sua poltrona e pôs-se a rever mentalmente mais uma vez o que havia sete a oito dias fazia transbordar a taça dos seus desgostos e das suas amargas recordações. Então, em vez de “atacar" os processos empilhados diante de si, abriu uma gaveta da mesa, fez funcionar um mecanismo secreto e tirou o maço dos seus apontamentos pessoais, manuscritos preciosos, em que classificara e etiquetara. por meio de código só dele conhecido os nomes de todos aqueles que na sua carreira política, nos seus negócios de dinheiro, na sua ação judicial ou nos seus amores misteriosos se tinham tornado seus inimigos. Atualmente o número destes era tão formidável que começara a tremer. E no entanto todos esses nomes, por mais poderosos que fossem, tinham-no feito muitas vezes sorrir, como sorri o viajante que do ponto mais alto da montanha olha a seus pés os picos agudos, os caminhos impraticáveis e os bordos dos precipícios junto dos quais teve, para chegar, de rastejar durante tanto tempo e tão penosamente. Depois de repassar todos esses nomes na memória, de os reler, de os estudar e de os confrontar com as suas listas, abanou a cabeça. - Não - murmurou --, nenhum destes inimigos esperaria paciente e laboriosamente até hoje para me vir esmagar agora com aquele segredo. às vezes, como diz Hamlet, a voz das coisas mais profundamente enterradas sai da terra e, como as chamas do fôsforo, corre loucamente pelo ar. Trata-se porem de chamas que brilham um momento para enganar. A história terá sido contada pelo corso a algum padre, que por sua vez a terá recontado, o Sr. de Monte-Cristo soube-a, e para se esclarecer... "Mas esclarecer-se com que fim? - prosseguia Villefort passado um instante de reflexão. - Que interesse teria o Sr. de Monte-Cristo ou o Sr. Zaccone, filho de um armador de Malta, explorador de uma mina de prata na Tessália, vindo pela primeira vez a França, em esclarecer um caso sombrio, misterioso e inútil como aquele? No meio das informações incoerentes que me foram dadas pelo abade Busoni e por Lorde Wilmore, por um amigo e por um inimigo, apenas uma coisa é clara, precisa e patente a meus olhos: em tempo algum, em qualquer caso, em nenhuma circunstância pode ter havido o mais pequeno contato entre mim e ele. Mas Villefort dizia a si próprio estas palavras sem ele mesmo acreditar no que dizia. Para si, o mais terrível não era ainda a revelação, porque podia negar ou até desmentir. Pouco se incomodava com o "mane, thecel, phares" que aparecia de súbito na parede, em letras de sangue. O que lhe interessava era saber a que corpo pertencia a mão que as traçara. No momento em que procurava tranquilizar a si mesmo e, em vez do futuro político que nos seus sonhos ambiciosos entrevira algumas vezes, se preparava para aceitar, no receio de acordar aquele inimigo adormecido havia tanto tempo, um futuro confinado às alegrias do lar, ouviu-se no pátio o ruído de uma carruagem. Em seguida soaram na escada os passos de uma pessoa idosa, acompanhados de soluços e ais, como costumam fazer os criados quando querem mostrar que participam na dor dos amos. Apressou-se a correr o ferrolho do seu gabinete e pouco depois, sem ser anunciada, entrou uma senhora de idade, de xaile no braço e chapéu na mão. Os cabelos brancos coroavam uma testa mate como o marfim amarelecido e os seus olhos, nos cantos dos quais a idade cavara rugas profundas, quase desapareciam sob o inchaço das lágrimas. - Oh, senhor! Oh, senhor, que desgraça! Também vou morrer! Oh, sim, tenho a certeza, também vou morrer! - exclamava. E caindo na poltrona mais perto da porta, rompeu em soluços. Os criados, de pé no limiar e sem se atreverem a ir mais longe, olhavam o velho servidor de Noirtier, que, tendo ouvido aquele barulho no quarto do amo, acorrera também e se conservava atrás dos outros. Villefort levantou-se e correu para a sogra, pois era ela. - Meu Deus, senhora, que aconteceu? Que a perturba assim? E o Sr. de Saint-Méran não a acompanha? - perguntou. - O Sr. de Saint-Méran morreu - respondeu a velha marquesa, sem preâmbulo, sem expressão e com uma espécie de espanto. Villefort recuou um passo e bateu com as mãos uma na outra. - Morto!... - balbuciou. - Morto, assim.. subitamente? - Há oito dias - continuou a Sra de Saint-Méran -, metemo-nos na carruagem depois do jantar. O Sr. de Saint-Méran havia uns dias que não se sentia bem; no entanto, a idéia de tornar a ver a nossa querida Valentine encorajava-o e, apesar dos seus sofrimentos, insistira em partir. Aconteceu porém que a seis léguas de Marselha foi dominado, depois de tomar as suas pastilhas habituais por um sono tão profundo que não me pareceu natural. Mesmo assim, hesitava em acordá-lo quando tive a impressão de que o rosto se purpureava e as veias das têmporas lhe latejavam mais violentamente do que de costume. No entanto, como anoitecera e não notei mais nada, deixei-o dormir. De repente, soltou um grito abafado e dilacerante como o de um homem que sofre a sonhar, e, num movimento brusco, inclinou a cabeça para trás. Chamei o criado de quarto, mandei parar o postilhão e chamei o Sr. de Saint-Méran, a quem dei a respirar o meu frasco de sais, mas tudo acabara: estava morto e foi ao lado de um cadáver que cheguei a Aix. Villefort permanecia estupefato, de boca aberta. - Claro que chamou o médico?... - Imediatamente. Mas, como já lhe disse, era demasiado tarde. - Sem dúvida. Mas conseguiu ao menos descobrir de que doença morrera o pobre marquês? - Meu Deus, senhor, claro que conseguiu! Ele disse-mo: parece que foi uma apoplexia fulminante. - E que fez então a senhora? - O Sr. de Saint-Méran sempre dissera que se morresse longe de Paris queria que o seu corpo fosse sepultado no jazigo de família. Mandei-o meter num caixão de chumbo e precedo-o de alguns dias. - Oh, meu Deus, pobre mãe! - exclamou Villefort. - Tantas canseiras depois de semelhante golpe e na sua idade! - Deus deu-me forças até ao fim. De resto, o querido marquês teria com certeza feito por mim o que fiz por ele. É certo que desde que me separei dele parece-me que enlouqueci. Não consigo chorar. Verdade seja que se diz que na minha idade já não há lágrimas; no entanto, parece-me que quando se sofre tanto se deveria poder chorar. Onde está Valentine, senhor? Foi por ela que viemos; quero ver Valentine. Villefort pensou que seria horrível responder que Valentine estava num baile. Por isso, limitou-se a dizer à marquesa que a neta saíra com a madrasta, mas que ia mandar preveni-la. - Imediatamente, senhor; imediatamente, suplico-lhe - pediu a velha senhora. Villefort tomou o braço da Sra de Saint-Méran e acompanhou-a ao seu quarto. - Descanse, minha mãe - recomendou. Ao ouvir esta última palavra, a marquesa levantou a cabeça, e ao ver aquele homem, que lhe recordava a filha tão chorada, mas que ressuscitava para ela em Valentine, sentiu-se comovida. Aquele nome de mãe fê-la romper em lágrimas e cair de joelhos junto de uma poltrona, onde escondeu a cabeça venerável. Villefort recomendou-a aos cuidados das mulheres, enquanto o velho Barrois subia muito transtornado ao quarto do amo. Porque nada aterroriza tanto os velhos do que quando a morte se afasta por instantes do seu lado para ir atingir outro velho. Depois, enquanto a Sra de Saint-Méran, sempre ajoelhada, rezava fervorosamente, Villefort mandou chamar uma carruagem de praça e foi ele mesmo buscar a casa da Sra de Morcerf a mulher e a filha. Estava tão pálido quando apareceu à porta do salão que Valentine correu para ele gritando: - Oh, meu pai, aconteceu alguma desgraça?!... - A tua avó acaba de chegar, Valentine - respondeu o Sr. de Villefort. - E o avô? - perguntou a jovem, muito trêmula. O Sr. de Villefort não respondeu, limitou-se a oferecer o braço à filha. Era tempo: Valentine teve uma vertigem e cambaleou; a Sra de Villefort apressou-se a ampará-la e a ajudar o marido a levá-la para a carruagem, ao mesmo tempo que dizia: - Que coisa estranha! Quem podia esperar semelhante desgraça? Oh, não há dúvida que é muito estranho! E toda aquela família desolada se retirou assim, lançando a sua tristeza, como um véu negro, sobre o resto da festa. À chegada, Valentine encontrou Barrois à sua espera ao fundo da escada. - O Sr. Noirtier deseja vê-la esta noite - disse-lhe ele baixinho. - Diga-lhe que irei quando sair do quarto da minha avó - respondeu Valentine. Na delicadeza da sua alma, a jovem compreendera que quem mais necessitava dela naquele momento era a Sra de Saint-Méran. Valentine encontrou a avó na cama. Carícias mudas, dolorosas expansões do coração, suspiros entrecortados, lágrimas escaldantes, eis os únicos pormenores reproduzíveis daquele encontro a que assistiu, pelo braço do marido, a Sra de Villefort, cheia de respeito, pelo menos aparente, para com a pobre viúva. Passado um instante, inclinou-se ao ouvido do marido e disse-lhe: - Com sua licença, acho melhor retirar-me, pois a minha presença parece afligir ainda mais a sua sogra. A Sra de Saint-Méran ouviu-a e disse ao ouvido de Valentine: - Sim, sim, que vá embora. Mas você fica, você fica. A Sra de Villefort saiu e Valentine ficou sozinha junto do leito da avó, porque o procurador régio, consternado com aquela morte imprevista, seguira a mulher. Entretanto, Barrois subira pela primeira vez para junto do velho Noirtier, mas este, que ouvira todo o barulho que se fazia na casa, mandara, como dissemos o velho criado informar-se do que se passava. No regresso, aqueles olhos tão vivos, e sobretudo tão inteligentes, interrogaram o mensageiro. - Valha-nos Deus, senhor! - disse Barrois. - Aconteceu uma grande desgraça: a Sra de Saint-Méran. está aqui e o marido morreu. O Sr. de Saint-Méran e Noirtier nunca tinham estado ligados por uma amizade muito profunda, no entanto, sabe-se o efeito que produz sempre num velho o anúncio da morte a outro velho. Noirtier deixou cair a cabeça para o peito, como um homem acabrunhado ou como um homem que pensa, e depois fechou um só olho. - Mademoiselle Valentine? - perguntou Barrois. Noirtier fez sinal que sim. - Está no baile, como o senhor muito bem sabe, pois veio aqui despedir-se em traje de cerimônia. Noirtier voltou a fechar o olho esquerdo. - Sim, quer vê-la? O velho fez sinal de que era isso que desejava. - Decerto vão mandar buscá-la na casa da Sra de Morcerf. A esperarei no seu regresso e lhe pedirei que suba ao quarto do senhor. É isto? - É - respondeu o paralítico. Barrois esperou portanto o regresso de Valentine e, como vimos, expôs-lhe o desejo do avô. Em consequência desse desejo, Valentine subiu ao quarto de Noirtier quando saiu do da Sra de Saint-Méran, a qual, apesar de muito agitada, acabara por sucumbir à fadiga e dormia um sono febril. Tinham-lhe posto ao alcance da mão uma mesinha com uma garrafa de laranjada, sua bebida habitual, e um copo. Como dissemos, a jovem deixou a marquesa para subir ao quarto de Noirtier. Valentine beijou o velho, que a olhou tão ternamente que a jovem sentiu brotarem-lhe de novo dos olhos lágrimas cuja fonte julgava esgotada. O velho insistia com o olhar. - Sim, sim, quer dizer que continuo a ter um avô, não é? - traduziu Valentine. O velho fez sinal de que efetivamente era isso que o seu olhar queria dizer. - De contrário, que seria de mim, meu Deus? Era uma hora da madrugada. Barrois, que também tinha vontade de se deitar observou que depois de uma noite tão dolorosa todos precisavam de repouso. O velho não quis dizer que para si o repouso era ver a neta e mandou embora Valentine, a quem efetivamente a dor e a fadiga davam um ar abatido. No dia seguinte, quando entrou no quarto da avô, Valentine encontrou-a na cama. A febre não descera; pelo contrário, um fogo sombrio brilhava nos olhos da velha marquesa, que parecia dominada por violenta irritação nervosa. - Oh, meu Deus, está pior avozinha?! - exclamou Valentine ao ver todos aqueles sintomas de agitação. - Não, minha filha, não - respondeu a Sra de Saint-Méran. - Mas esperava com impaciência que chegasses para mandar chamar o teu pai. - O meu pai? - perguntou Valentine, inquieta. - Sim, quero falar com ele. Valentine não ousou opor-se ao desejo da avó, cuja finalidade ignorava, aliás, e pouco depois Villefort entrou. - Senhor - disse a Sra de Saint-Méran sem empregar qualquer circunlóquio, como se receasse que o tempo lhe faltasse -, vamos ao assunto: não me escreveu acerca do casamento desta criança? - Escrevi, sim, minha senhora - respondeu Villefort. - Trata-se até de mais do que de um projeto, trata-se de uma convenção. - O seu futuro genro chama-se Franz de Epinay? - Chama, sim, minha senhora. - E é filho do general de Epinay, que era dos nossos e foi assassinado poucos dias antes de o usurpador regressar da ilha de Elba? - Exatamente. - Essa aliança com a neta de um jacobino não lhe repugna? - As nossas dissensões sociais acabaram-se, felizmente, minha mãe - perguntou Villefort. O Sr. de Epinay era quase uma criança quando o pai morreu; conhecia muito mal o Sr. Noirtier e vê-lo-á, senão com prazer, pelo menos com indiferença. - É um partido vantajoso? - Sob todos os aspectos. - O rapaz... - Goza da consideração geral. - E é decente? - É um dos homens mais distintos que conheço. Valentine permaneceu calada durante toda esta conversa. - Pois bem, senhor - disse a Sra de Saint-Méran. após alguns segundos de reflexão --, é melhor despachar-se porque me resta pouco tempo de vida. - A senhora?! A avozinha ?! - exclamaram o Sr. de Villefort e Valentine. - Sei o que digo - prosseguiu a marquesa. - Portanto, despachem-se, para que, já que não tem mãe, ela tenha ao menos a avó para lhe abençoar o casamento. Sou a única pessoa que lhe resta do lado da minha pobre Renée, que o senhor esqueceu tão depressa... - Minha senhora, esquece-se de que era preciso dar uma mãe a esta pobre criança, que já a não tinha! - protestou Villefort. - Uma madrasta nunca é uma mãe, senhor! Mas não é disso que se trata agora, trata-se de Valentine. Deixemos os mortos sossegados. Tudo isto era dito com tal volubilidade e tal tom que havia qualquer coisa neste diálogo que se assemelhava a um princípio de delírio. - Será feita a sua vontade, minha senhora - disse Villefort --, e com tanto mais prazer quanto é certo a sua vontade estará de acordo com a minha. Assim que o Sr. de Epinay chegar a Paris... - Minha boa avozinha - interveio Valentine --, as conveniências, o luto tão recente... Desejaria fazer um casamento sob tão tristes auspícios? - Minha filha - interrompeu-a vivamente a avó -, deixemo-nos dessas razões vulgares que impedem os espíritos fracos de construir solidamente o futuro. Também casei no leito de morte da minha mãe e não fui decerto infeliz por isso. - Outra vez essa idéia de morte, senhora! - ralhou Villefort. - Outra vez! Sempre!... Repito-lhe que vou morrer, ouviu? Pois antes de morrer quero ver o seu futuro genro; quero ordenar-lhe que faça a minha neta feliz; quero ler-lhe nos olhos se tenciona obedecer-me; quero conhecê-lo, enfim! - exclamou a avó com uma expressão aterradora. - E isto para o vir procurar do fundo da minha sepultura se não se portar como deve ser, se não for como tem de ser! - Minha senhora - perguntou Villefort --, deve afastar de si essas idéias exaltadas, que raiam quase a loucura. Os mortos, uma vez deitados no seu túmulo, aí dormem eternamente. - Sim, sim, minha boa avozinha, sossega! - secundou-o Valentine. - E eu, senhor, digo-lhe que as coisas não se passam nada assim, como julga. Esta noite dormi um sono terrível; de certo modo, via-me a mim própria a dormir, como se a minha alma já pairasse sobre o meu corpo. Os meus olhos, que me esforçava por abrir, fechavam-se, mal-grado meu. E no entanto sei muito bem que isto lhes parece impossível, sobretudo ao senhor... Pois bem, de olhos fechados vi, exatamente no lugar onde o senhor está, vinda desse canto onde há uma porta que dá para o quarto de vestir da Sra de Villefort, vi entrar sem ruído uma forma branca... Valentine soltou um grito. - Era a febre que a agitava, minha senhora - disse Villefort. - Duvide se quiser, mas tenho a certeza do que digo: vi uma forma branca. E como se Deus receasse que recusasse o testemunho de um só dos meus sentidos, ouvi mexer no meu copo... olhe, olhe, neste mesmo que está aqui, em cima da mesa! - Oh, avozinha, era um sonho!... - Era tão pouco um sonho que estendi a mão para a campainha e, quando fiz este gesto, a sombra desapareceu. A criada de quarto entrou então com uma luz. Os fantasmas só se mostram àqueles que os devem ver: era a alma do meu marido. Pois bem, se a alma do meu marido volta para me chamar, porque não há-de a minha alma voltar para defender a minha neta? O parentesco é ainda mais direto, parece-me. - Então, minha senhora, não dê largas a essas idéias lúgubres - aconselhou Villefort, agitado, a seu pesar, até ao mais íntimo de si mesmo. - Viverá conosco, viverá durante muito tempo feliz, amada, respeitada, e a faremos esquecer... - Nunca, nunca, nunca! - ripostou a marquesa. - Quando regressa o Sr. de Epinay? - Esperamo-lo de um momento para o outro. - Está bem. Assim que ele chegar, avisem-me. Despachemo-nos, despachemo-nos! Depois, quero também falar com um tabelião, para me assegurar de que todos os nossos bens revertem a favor de Valentine. - Então, avó, quer que eu morra também? - murmurou Valentine, pousando os lábios na testa escaldante da marquesa. - Meu Deus, está com febre! Não é um tabelião que se deve mandar chamar, é um médico! - Um médico? - repetiu a doente, encolhendo os ombros. - Não me dói nada: só tenho sede. - Que quer beber, avozinha? - Como sempre, bem sabes, a minha laranjada. O copo está em cima da mesa. Valentine. Valentine deitou a laranjada da garrafa no copo e pegou-lhe com certo terror para o dar à avó, visto ser o mesmo copo que, segundo ela, fora tocado pela sombra. A marquesa despejou o copo de um só golo. Depois, virou-se na almofada e insistiu: - O tabelião, o tabelião!... O Sr. de Villefort saiu. Valentine sentou-se ao pé da cama da avó. A pobre criança parecia ela própria muito necessitada do médico que recomendara à avó. Um rubor idêntico a uma chama queimava-lhe as faces, tinha a respiração opressa e arquejante e o pulso batia-lhe como se tivesse febre. É que ela pensava, a pobre criança, no desespero de Maximilien quando soubesse que a Sra de Saint-Méran, em vez de ser uma aliada, procedia, sem o saber, como se fosse uma inimiga. Por mais de uma vez Valentine pensara em dizer tudo à avó, e não teria hesitado um só instante se Maximilien Morrel se chamasse Albert de Morcerf ou Raoul de Château-Renaud. Mas Morrel era de origem plebéia e Valentine sabia o desprezo que a orgulhosa marquesa de Saint-Méran nutria por todos aqueles que não fossem da sua linhagem O seu segredo fora portanto, em todos os momentos em que estivera prestes a ser revelado, contido no seu coração pela triste certeza de que o confiaria inutilmente e de que, uma vez esse segredo conhecido do pai e da madrasta, tudo estaria perdido. Passaram-se assim cerca de duas horas. A Sra de Saint-Méran dormia um sono febril e agitado. Anunciaram o tabelião. Embora o anúncio tivesse sido feito muito baixo, a Sra de Saint-Méran soergueu-se na almofada. - O tabelião?... Que venha, que venha! - ordenou. O tabelião estava à porta e entrou. - Sai, Valentine, deixa-me sozinha com este senhor - disse a Sra de Saint- Méran. - Mas, avó... - Vai, vai. A jovem inclinou a cabeça diante da avó e saiu com o lenço nos olhos. Encontrou à porta um criado que lhe disse que o médico esperava na sala. Valentine desceu rapidamente. o médico era um amigo da família e ao mesmo tempo um dos homens mais competentes da época. Gostava muito de Valentine, que vira nascer. Tinha uma filha pouco mais ou menos da idade de Mademoiselle de Villefort, mas nascida de mãe tuberculosa. O médico vivia pois num temor permanente em relação à filha. - Oh, meu caro Sr. de Avrigny, não imagina com que impaciência o esperávamos! - exclamou Valentine. - Mas antes de mais nada como estão Madeleine e Antoinette? Madeleine era a filha do Sr. de Avrigny e Antoinette, sua sobrinha. O Sr. de Avrigny sorriu tristemente. - Antoinette está ótima e Madeleine assim-assim - respondeu. - Mandoume chamar, querida filha? Mas nem o seu pai nem a Sra de Villefort estão doentes... Quanto a nós, embora seja visível que não conseguimos livrar-nos dos nossos nervos, não vejo que tenha necessidade de mim, a não ser para lhe recomendar que não dê demasiadas largas à sua imaginação... Valentine corou. O Sr. de Avrigny possuía a ciência da adivinhação quase até ao prodígio, pois era um desses médicos que tratam sempre o físico através do moral. - Não é para mim, é para a minha pobre avó - esclareceu a jovem. - já sabe a desgraça que nos aconteceu, não sabe? - Não sei nada - respondeu o Sr. de Avrigny. - O meu avô morreu - informou Valentine, contendo os soluços. - O Sr. de Saint-Méran? - Sim. - Subitamente? - De um ataque de apoplexia fulminante. - De uma apoplexia? - repetiu o médico. - Sim. De forma que a minha pobre avó se aferrou à idéia de que o marido, de quem nunca se separou, a chama e de que se lhe deve ir juntar... Oh, Sr. de Avrigny, recomendo-lhe muito a minha pobre avó! - Onde está ela? - No seu quarto com o tabelião. - E o Sr. Noirtier? - Sempre na mesma: uma lucidez de espírito perfeita, mas a mesma imobilidade, o mesmo mutismo. - E o mesmo amor por si, não é verdade, minha querida filha? - É - respondeu Valentine, suspirando. - Ama-me de fato muito. - Quem não a amaria? Valentine sorriu tristemente. - E que sente a sua avó? - Uma excitação nervosa singular, um sono agitado e estranho. Esta manhã pretendia que enquanto dormia a alma lhe pairava por cima do corpo, que via a dormir. Delírio, claro. Afirma ter visto um fantasma entrar-lhe no quarto e ter ouvido o barulho que fazia o pretenso fantasma a mexer-lhe no copo. - É singular, não sabia que a Sra de Saint-Méran, fosse sujeita a alucinações... - disse o médico. - Foi a primeira vez que a vi assim - respondeu Valentine e esta manhã até me assustou muito; julguei que tivesse enlouquecido. No entanto, mesmo o meu pai, Sr. de Avrigny (o meu pai, que o senhor conhece bem como um espírito ponderado), até o meu próprio pai me pareceu impressionadíssimo. - Havemos de ver isso - declarou o Sr. Avrigny. - O que me diz parece-me estranho... O tabelião descia. Vieram prevenir Valentine de que a avó estava sozinha. - Suba - disse ela ao médico. - E a menina? - Oh, eu não me atrevo! Ela tinha-me proibido de mandar chamá-lo... Depois como o senhor diz, eu própria estou agitada, febril, mal disposta... Vou dar uma volta pelo jardim para me recompor. O médico apertou a mão a Valentine e enquanto ele subia ao quarto da marquesa, a jovem descia a escadaria da entrada. Desnecessário indicar que parte do jardim constituía o passeio favorito de Valentine. Depois de dar duas ou três voltas na parte que rodeava a casa e de colher uma rosa para pôr na cintura ou no cabelo, embrenhava-se na alameda sombria que levava ao banco e do banco ao portão. Desta vez, como de resto era seu hábito, Valentine deu duas ou três voltas no meio das suas flores, mas sem colher nenhuma. O luto do seu coração, que ainda não tivera tempo de se estender à sua pessoa, repudiava aquele simples ornamento. Depois dirigiu-se para a sua alameda. à medida que avançava parecia-lhe ouvir uma voz pronunciar o seu nome. Parou surpreendida. Então, a voz chegou-lhe mais distinta aos ouvidos e reconheceu a voz de Maximilien. Capítulo LXXIII A promessa Era efetivamente Morrel, que desde a véspera não sossegava. Com o instinto peculiar aos apaixonados e às mães, adivinhara que depois do regresso da Sra de Saint-Méran e da morte do marquês se passaria qualquer coisa em casa de Villefort que interessaria ao seu amor por Valentine. Como vamos ver, os seus pressentimentos tinham-se concretizado e já não era uma simples inquietação que o trazia, sobressaltado e trêmulo, ao portão dos castanheiros. Mas Valentine não estava prevenida de que Morrel a esperava, pois habitualmente ele não vinha àquela hora, e foi por mero acaso ou, se se preferir, por feliz coincidência que a jovem desceu ao jardim. Quando apareceu, Morrel chamou-a e ela correu para o portão. - O senhor a esta hora? - admirou-se. - Sim, pobre amiga - respondeu Morrel. - Venho buscar e trazer más notícias. - Nesse caso, estamos na casa da desgraça - observou Valentine. - Fale, Maximilien. Mas na verdade a soma de sofrimentos é já mais do que suficiente. - Querida Valentine - começou Morrel, procurando conter a sua própria emoção para falar convenientemente --, ouça-me com atenção, suplico-lhe, porque tudo o que lhe vou dizer é solene. Quando conta casar? - Escute - disse por sua vez Valentine. - Não quero esconder-lhe nada, Maximilien. Esta manhã falou-se do meu casamento, e a minha avó, com quem contava como um apoio que me não faltaria, não só se declarou a favor do casamento, como ainda o deseja a tal ponto que só o fato de o Sr. de Epinay estar ausente o atrasa. Mas no dia seguinte ao da sua chegada o contrato será assinado. Um doloroso suspiro saiu do peito do rapaz, que olhou longa e tristemente a jovem. - Meu Deus - perguntou em voz baixa --, é horrível ouvir dizer tranquilamente à mulher que se ama: “O momento do seu suplício está marcado; terá lugar dentro de poucas horas. Mas não importa, tem de ser assim e pela minha parte não lhe levantarei nenhuma oposição." Pois bem, uma vez que, segundo diz, só se espera a chegada do Sr. de Epinay para assinar o contrato e a Valentine será dele no dia seguinte ao da chegada, será já amanhã que pertencerá ao Sr. de Epinay, pois ele chegou a Paris esta manhã. Valentine soltou um grito. - Encontrava-me em casa de Monte-Cristo há uma hora - disse Morrel. - Conversávamos, ele a respeito do luto desta casa e eu acerca do luto de Valentine, quando de súbito rodou uma carruagem no pátio. Ouça: até ali não acreditava em pressentimentos, Valentine; mas agora sou forçado a acreditar. O ruído daquela carruagem arrepiou-me; pouco depois ouvi passos na escada. Os passos sonoros do comendador não apavoraram mais D. João do que me apavoraram aqueles passos. Por fim, a porta abriu-se. Albert de Morcerf entrou à frente e eu ia a duvidar de mim mesmo, ia crer que me enganara, quando atrás dele apareceu outro rapaz e o conde gritou: “Ah, o Sr. Barão Franz de Epinay!" Para me conter, apelei para tudo o que possuo de energia e coragem no coração. Talvez tenha empalidecido, talvez tenha tremido; mas sem dúvida nenhuma fiquei de sorriso nos lábios. No entanto, passados cinco minutos sai sem ter ouvido uma palavra do que se disse durante esses cinco minutos. Estava aniquilado. - Pobre Maximilien! - murmurou Valentine. - Aqui tem, Valentine. Agora responda-me como a um homem a quem a sua resposta dará a morte ou a vida: que conta fazer? Valentine baixou a cabeça; estava acabrunhada. - Ouça - disse Morrel --, não é a primeira vez que pensa na situação em que nos encontramos. É uma situação grave, penosa, suprema. Não creio que seja este o momento para nos entregarmos a uma dor estéril; isso é bom para aqueles que sentem prazer em sofrer e beber as suas lágrimas resignadamente. Há pessoas assim e Deus lhes terá sem dúvida em conta no Céu a sua resignação na terra. Mas todo aquele que sinta vontade de lutar não perde um tempo precioso e retribui imediatamente ao destino o golpe que dele recebeu. Está disposta a lutar contra a adversidade, Valentine? Responda, pois é isso que lhe venho pedir. Valentine estremeceu e cravou em Morrel uns grandes olhos assustados. A idéia de resistir ao pai, à avó, a toda a família, enfim, nem sequer lhe ocorrera. - Que me diz, Maximilien? - perguntou Valentine. - A que chama luta? Oh, isso é um sacrilégio! O quê, eu lutar contra a ordem de meu pai, contra a vontade de minha avó moribunda?! É impossível! Morrel fez um movimento. - O senhor é um coração demasiado nobre para me não compreender, e compreende-me muito bem, querido Maximilien, pois vejo-o calado. Lutar, eu? Deus me livre! Não, não. Guardo toda a minha energia para lutar contra mim mesma e beber as minhas lágrimas, como o senhor diz. Quanto a afligir meu pai, quanto a perturbar os últimos momentos da minha avó, nunca! - Tem toda a razão - respondeu fleumaticamente Morrel. -- Como o senhor me diz isso, meu Deus! - exclamou Valentine, magoada. - Digo-lhe isto como um homem que a admira, menina - acrescentou Maximilien. - Menina! - exclamou Valentine. - Menina! Oh, o egoísta, não vê o meu desespero e finge não me compreender! - Engana-se. Pelo contrário, compreendo-a perfeitamente. Não quer contrariar o Sr. de Villefort nem quer desobedecer à marquesa e amanhã assinará o contrato que a ligará ao seu marido. - Mas, meu Deus, posso porventura fazer outra coisa? - Não apele para mim, menina, pois sou um mau juiz nessa causa e o meu egoísmo me cegarà - respondeu Morrel, cuja voz abafada e os punhos cerrados denotavam exasperação crescente. - Que me proporia, Morrel, se me encontrasse disposta a aceitar a sua proposta? Vamos, responda. Não basta dizer que faço mal, é preciso dar um conselho. - Diz-me isso seriamente, Valentine? Quer de fato que a aconselhe? Responda. - Decerto, querido Maximilien, porque se o conselho for bom, o seguirei. Bem sabe que tenho em alta conta a sua opnião. - Valentine - disse Morrel, acabando de afastar uma tábua solta --, dê-me a sua mão como prova de que me perdoa a minha irritação. Como vê, estou com a cabeça num caos e há uma hora que as idéias mais disparatadas me atravessam o espírito. Oh, no caso de recusar o meu conselho!... - Venha esse conselho. - Aqui o tem, Valentine. A jovem ergueu os olhos ao céu e soltou um suspiro. - Sou livre - prosseguiu Maximilien - e suficientemente rico para nós dois. Juro-lhe que será minha mulher antes de os meus lábios lhe pousarem na testa. - O senhor me assusta - disse a jovem. - Venha comigo - continuou Morrel. - A levarei para casa da minha irmã, que é digna de ser sua irmã. Embarcaremos para Argel, para Inglaterra ou para a América, se não preferir que nos retiremos para qualquer província e aí esperaremos, para regressar a Paris, que os nossos amigos vençam a resistência da sua família. Valentine abanou a cabeça. - Já o esperava, Maximilien - disse. - É um conselho de insensato e eu seria ainda mais insensata do que o senhor se o não detivesse imediatamente com esta simples palavra: impossível, Morrel, impossível. - Seguirá portanto o seu destino tal como o acaso o traçar e sem sequer tentar combatê-lo? - perguntou Morrel, contristado. - Seguirei. Nem que tenha de morrer por isso! - Está bem, Valentine - admitiu Maximilien. - Repito-lhe mais uma vez que tem razão. De tato, eu é que sou um louco, enquanto a Valentine me prova que a paixão cega os espíritos mais justos. Obrigado, portanto, a si que raciocina sem paixão. Pronto, o caso está arrumado: amanhã será irrevogavelmente prometida ao Sr. Franz de Epinay, não por via dessa formalidade teatral inventada para desenlace das comédias, e que se chama a assinatura do contrato, mas sim por sua própria vontade. - Mais uma vez me desespera, Maximilien! - perguntou Valentine. - Mais uma vez revolve o punhal na chaga? Diga-me, que faria se a sua irmã escutasse um conselho como o que acaba de me dar? - Menina - respondeu Morrel, com um sorriso amargo. - Sou um egoísta, como disse, e na minha qualidade de egoísta não penso no que fariam os outros na minha posição, mas sim no que conto fazer eu. Penso que a conheço há um ano e que, desde o dia em que a conheci, depositei todas as minhas oportunidades de felicidade no seu amor; que chegou um dia em que me disse que me amava; que nesse dia colocaria todas as minhas esperanças de futuro na sua posse. Era a minha vida. Agora não penso em mais nada; digo apenas para comigo que a sorte mudou, que esperava ganhar o Céu e o perdi. Isto acontece todos os dias, quando um jogador perde não só o que tem, mas também o que não tem. Morrel pronunciou estas palavras com uma calma perfeita. Valentine fitou-o um instante com os seus grandes olhos perscrutadores, procurando não deixar que os de Morrel penetrassem até à agitação que lhe turbilhonava já no fundo do coração. - Mas enfim, que vai fazer? - perguntou Valentine. - Vou ter a honra de lhe dizer adeus, menina, tomando como testemunha Deus, que escuta as minhas palavras e lê no fundo do meu coração, de que lhe desejo uma vida bastante calma, bastante feliz e bastante cheia para que nela não haja lugar para a minha recordação. - Oh! - murmurou Valentine. - Adeus, Valentine, adeus! - disse Morrel, inclinando-se. - Aonde vai? - gritou ela, estendendo a mão através das grades e agarrando Maximilien pela sobrecasaca, pois compreendia pela sua agitação interior que a calma do seu apaixonado não podia ser verdadeira. - Aonde vai? - Vou providenciar para não trazer nova perturbação à sua família e dar um exemplo que poderão seguir todos os homens honestos e dedicados que se encontrarem na minha situação. - Antes de me deixar, diga-me o que vai fazer, Maximilien. O jovem sorriu tristemente. - Oh, fale, fale, suplico-lhe! - pediu Valentine. - A sua resolução mudou, Valentine? - Não pode mudar, infeliz! Sabe isso muito bem! - gritou a jovem. - Então, adeus, Valentine! Valentine abanou o portão com uma força de que ninguém a julgaria capaz. E como Morrel se afastasse, passou as mãos através das grades e juntou-as, torcendo os braços. - Que vai fazer? Quero saber! - gritou. - Aonde vai? - Oh, esteja tranquila! - respondeu Maximilien, parando a três passos do portão. - Não tenho intenção de tomar outro homem responsável pelos rigores que o destino me reserva. Outro a ameaçaria, de ir procurar o Sr. Franz, de o provocar e de se bater com ele, mas tudo isso seria insensato. Qual é o papel do Sr. Franz no meio de tudo isto? Viu-me esta manhã pela primeira vez e já esqueceu que me viu. Nem sequer sabia da minha existência aquando das convenções estabelecidas entre as suas duas famílias, em que ficou decidido que seriam um para o outro. Não tenho portanto nada a ver com o Sr. Franz e juro-lhe que o não irei desafiar nem acusar de nada. - Em quem se vingar então? Em mim? - Em si, Valentine? Oh, não, Deus me defenda! A mulher é sagrada, e a mulher que se ama é santa. - Em si mesmo, então, desgraçado, em si mesmo? - Não sou eu o culpado? - observou Morrel. - Maximilien - disse Valentine --, Maximilien, venha cá, ordeno-lho! Maximilien aproximou-se com o seu sorriso meigo, e se não fosse a sua palidez, se poderia julgá-lo no seu estado normal. - Ouça, minha querida, minha adorada Valentine - disse na sua voz melodiosa e grave --, as pessoas como nós, que nunca tiveram um pensamento de que tivessem de corar diante de ninguém, perante os seus pais e perante Deus, as pessoas como nós podem ler no coração um do outro como num livro aberto. Nunca armei em romântico, não sou um herói melancólico, nem tomo atitudes de Manfredo nem de Antony. Mas sem palavras, sem protestos, sem juramentos, dei-lhe a minha vida. Falta-me e tem motivo para proceder assim, já lho disse e repito-lho. Mas enfim, perco-a e a minha vida está perdida. A partir do momento em que se afastar de mim, Valentine, ficarei sozinho no mundo. A minha irmã é feliz com o marido, um marido que para mim não passa de um cunhado, isto é, de um homem ligado a mim apenas pelas convenções sociais. Ninguém necessita portanto de mim neste mundo, a minha existência é inútil. Eis o que farei: esperarei até ao último segundo que esteja casada, pois não quero perder a sombra de uma dessas probabilidades inesperadas que às vezes nos reserva o acaso, porque, enfim, daqui até lá o Sr. Franz de Epinay pode morrer, no momento em que se aproximarem um raio pode cair sobre o altar... Tudo parece crível ao condenado à morte e para ele os milagres entram na classe do possível desde que se trate da salvação da sua vida. Esperarei pois, repito, até ao derradeiro momento, e quando a minha infelicidade for certa, irremediável, sem esperança, escreverei uma carta confidencial ao meu cunhado e outra ao prefeito da Polícia para o pôr ao corrente das minhas intenções, e num recanto de qualquer bosque, à beira de qualquer fosso, na margem de qualquer rio, farei saltar os miolos, tão certo como eu ser filho do homem mais honesto que alguma vez viveu na França. Um tremor convulso agitou os membros de Valentine. Largou o portão, que segurava com ambas as mãos, os braços caíram-lhe ao longo do corpo e duas grossas lágrimas rolaram-lhe pelas faces. O rapaz ficou diante dela, sombrio e resoluto. - Oh, por piedade, por piedade! - exclamou Valentine. - Viverá, não é verdade? - Palavra de honra que não - respondeu Maximilien. - Mas que lhe interessa isso? Cumprirá o seu dever e ficará com a consciência tranquila. Valentine caiu de joelhos e comprimiu o coração, que parecia querer rebentar-lhe. - Maximilien - disse --, Maximilien, meu amigo, meu irmão na Terra, meu verdadeiro esposo no Céu, suplico-te que faças, como eu, que vivas com o sofrimento. Talvez um dia nos juntemos... - Adeus, Valentine! - repetiu Morrel. - Meu Deus - disse Valentine, erguendo as mãos ao céu com uma expressão sublime -, bem vê que fiz tudo o que podia para me conservar filha submissa: pedi, supliquei, implorei, mas ele não ouviu nem os meus pedidos, nem as minhas súplicas, nem as minhas lágrimas. Pois bem - continuou, enxugando as lágrimas e recuperando a sua firmeza --, não quero morrer de remorsos, prefiro morrer de vergonha. Viverá, Maximilien, e não serei de ninguém a não ser de si. A que horas? Em que momento? Imediatamente? Fale, ordene, estou pronta. Morrel, que dera de novo alguns passos para se afastar, voltou para trás e, pálido de alegria, com o coração dilatado, estendeu através das grades as mãos a Valentine. - Valentine - disse --, querida amiga, não me fale assim ou então terei de me deixar morrer. Por que motivo a deveria à violência, se me ama como a amo? Quer obrigar-me a viver apenas por humanidade? Nesse caso, prefiro morrer. - Na verdade - murmurou Valentine --, quem é que me ama no mundo? Ele. Quem me tem confortado em todos os meus sofrimentos? Ele. Em quem deposito as minhas esperanças, em quem se fixa o meu olhar transviado, em que descansa o meu coração ensanguentado? Nele, nele, sempre nele. Pois bem, tem também razão, Maximilien: te seguirei, deixarei a casa paterna, tudo. Oh, como sou ingrata! - exclamou Valentine, soluçando. - Tudo... até do meu avô me esquecia! - Não - atalhou Maximilien --, não o deixarás. Disse-me que o Sr. Noirtier pareceu manifestar simpatia por mim. Pois antes de fugir conte-lhe tudo, fará do seu consentimento um escudo perante Deus. Depois, assim que casarmos, irá viver conosco. Em vez de um neto terá dois. Disseste-me como te falava e como lhe respondias, depressa aprenderei essa linguagem comovente de sinais, Valentine. Oh, juro-te que em vez do desespero que nos espera é a felicidade que te prometo! - Repara, Maximilien, repara como é grande a tua influência sobre mim... Quase me faz acreditar no que me diz, e no entanto o que me diz é insensato, pois o meu pai me amaldiçoará. Conheço-lhe o coração inflexível e sei que nunca me perdoará. Por isso, escute-me, Maximilien: se por artifício, por súplica ou por acidente, sei lá... Se, enfim, por qualquer meio conseguir adiar o casamento, esperará por mim? - Esperarei, juro-o, desde que me jures também que esse horrível casamento não se realizará e que, ainda que te arrastem perante o magistrado, perante o padre, dirá não. - Juro, Maximilien, pelo que tenho de mais sagrado no mundo, pela memória da minha mãe! - Esperemos então - disse Morrel. - Sim, esperemos - repetiu Valentine, que respirou ao ouvir esta palavra. - há tantas coisas que podem salvar infelizes como nós. - Confio em ti, Valentine - acrescentou Morrel. - Tudo o que fizer estará bem feito. No entanto, se não fizerem caso das suas súplicas, se o teu pai e a Sra de Saint-Méran exigirem que o Sr. Franz de Epinay seja chamado amanhã para assinar o contrato... - Nesse caso, tem a minha palavra, Morrel. - Em vez de assinar... - Virei ter contigo e fugiremos. Mas entretanto não tentemos Deus, Morrel; não nos vejamos. E um milagre que ainda não nos tenham surpreendido, uma graça da Providência. Se nos surpreendessem, se soubessem como nos encontramos, estaria tudo perdido. - Tem razão, Valentine. Mas como saber... - Pelo tabelião, o Sr. Deschamps. - Conheço-o. - E por mim mesma. Te escreverei, acredite. Meu Deus, este casamento Maximilien, me é tão odioso como a você! - Ainda bem, ainda bem! Obrigado, minha Valentine. Adorada - disse Morrel. - está tudo combinado, então: assim que souber a hora, correrei aqui, transporá este muro nos meus braços, o que não será difícil, uma carruagem te esperará a porta da cerca, subirá para ela comigo e te levarei para casa da minha irmã. Lá, incógnitos, se quiser, ou abertamente, se o desejar, teremos a consciência da nossa força e da nossa vontade e não nos deixaremos degolar como o cordeiro que só se defende com os seus balidos. - Seja - concordou Valentine. - Por minha vez, digo-te: Maximilien, o que fizer estará bem feito. - Oh!... - Então, está contente com a tua mulher? - perguntou tristemente a jovem. - Minha Valentine adorada, é bem pouco dizer que sim. - Diz sempre. Valentine aproximara-se, ou antes, aproximara os lábios da grade, e as suas palavras deslizavam, com o seu hálito perfumado, até aos lábios de Morrel, que colava a boca do outro lado do frio e inexorável tapume. - Adeus! - despediu-se Valentine, arrancando-se àquele enleio. - Adeus! - Me escreverá? - Sim. - Obrigado, querida mulher! Adeus. Ouviu-se o ruído de um beijo inocente e perdido e Valentine fugiu por baixo das tílias. Morrel escutou os últimos ruídos do seu vestido ao roçar na vegetação e dos seus pés a fazerem ranger o saibro, ergueu os olhos ao céu com um sorriso inefável para agradecer a Deus permitir-lhe ser amado assim, e desapareceu por seu turno. O rapaz regressou a casa e esperou durante todo o resto da noite e durante todo o dia seguinte sem receber nada. Por fim, dois dias depois, por volta das dez horas da manhã, quando se preparava para ir procurar o Sr. Deschamps, o tabelião, recebeu pelo correio um bilhetinho que reconheceu ser de Valentine, embora nunca lhe tivesse visto a letra. Era concebido nestes termos: Lágrimas, suplicas, rogos, nada conseguiram. Ontem, estive durante duas horas na Igreja de S. Filipe do Roule, e durante essas duas horas pedi a Deus do fundo da alma. Mas Deus mostra-se insensível como os homens e a assinatura do contrato está marcada para esta noite às nove horas. Só tenho uma palavra, tal como só tenho um coração, Morrel; e essa palavra dei-ta. Quanto ao coração, é teu! Portanto esta noite, às nove horas menos um quarto, te espero no portão. Tua mulher, Valentine de Villefort. P.S. - A minha pobre avó vai de mal a pior. Ontem, a sua exaltação transformou-se em delírio; hoje, o seu delírio é quase loucura. Me amará muito, não é verdade, Morrel, para me esquecer de que a deixarei neste estado? Creio que escondem ao avô Noirtier que a assinatura do contrato está marcada para esta noite. Morrel não se contentou com as informações que lhe dava Valentine. Foi a casa do tabelião, que lhe confirmou a notícia de que a assinatura do contrato estava marcada para as nove horas da noite. Em seguida passou por casa de Monte-Cristo e foi lá que soube o resto: Franz viera anunciar a cerimônia; pela sua parte, a Sra de Villefort escrevera ao conde pedindo-lhe desculpa por o não convidá-lo, mas a morte do Sr. de Saint- Méran e o estado em que se encontrava a viúva lançavam sobre a reunião um véu de tristeza, que não queria nublasse a fronte do conde, a quem desejava as maiores felicidades. Na véspera, Franz fora apresentado à Sra de Saint-Méran, que deixara o leito para essa apresentação e para ele voltara imediatamente. Como é fácil de compreender, Morrel encontrava-se num estado de agitação que não podia escapar a um olhar tão penetrante como era o do conde. Por isso, Monte-Cristo foi para com ele mais afetuoso do que nunca; tão afetuoso que por duas ou três vezes Maximilien esteve prestes a contar-lhe tudo. Recordou-se, porém, da promessa formal feita a Valentine e o seu segredo permaneceu-lhe no fundo do coração. O jovem releu vinte vezes durante o dia a carta de Valentine. Era a primeira vez que ela lhe escrevia e logo naquelas circunstâncias. Todas as vezes que relia a carta, Maximilien renovava a si mesmo o juramento de tornar Valentine feliz. Com efeito, que autoridade não tem a moça que toma uma resolução tão corajosa! Que dedicação não merece da parte daquele a quem tudo sacrifica! Como deve ser realmente para o seu apaixonado o primeiro e mais digno objeto do seu culto! É simultaneamente rainha e mulher e um coração não basta para lhe agradecer e para a amar. Morrel pensava com inexprimível agitação no momento em que Valentine chegaria e diria: “Aqui estou, Maximilien, sou tua!" Organizara pormenorizadamente a fuga: escondera duas escadas na luzerna do cercado; esperava-os um cabriolé, que o próprio Maximilien conduziria; nada de criados, nada de luzes; só virada a esquina da primeira rua acenderiam as lanternas, a fim de evitarem, por um excesso de precauções, cair nas mãos da Polícia. De vez em quando todo o corpo de Morrel era percorrido por arrepios. Pensava no momento em que, do alto do muro, protegeria a descida de Valentine e em que sentiria trêmula e abandonada nos seus braços aquela a quem nunca apertara mais do que a mão e beijara a ponta dos dedos. Mas quando chegou a tarde, quando Morrel sentiu aproximar-se a hora, experimentou a necessidade de estar só. O sangue fervia-lhe, as simples perguntas ou até apenas a voz de um amigo o teriam irritado. Fechou-se no seu quarto e tentou ler; mas o seu olhar deslizou pelas páginas sem nada compreender do que nelas estava escrito, e acabou por largar o livro para voltar a desenhar pela segunda vez o seu plano, as suas escadas e o seu terreno. Por fim a hora aproximou-se. Nunca um homem deveras apaixonado deixou os relógios marcarem tranquilamente o tempo. Morrel atormentou de tal forma os seus que eles acabaram por marcar oito e meia às seis horas. Disse então para consigo que era tempo de ir, que nove horas era efetivamente a hora da assinatura do contrato, mas que segundo todas as probabilidades, Valentine não esperaria por essa assinatura inútil, e depois de tudo isto Morrel cometeu a proeza de partir da Rua Meslay às oito e meia no seu relógio de sala e entrar no cercado quando davam oito horas em S. Filipe do Rouie! Cavalo e cabriolé foram escondidos atrás de um casebre em ruínas, em que Morrel costumava abrigar-se. Pouco a pouco anoiteceu e as folhagens do jardim transformaram-se em frondosos tufos de um negro opaco. Morrel saiu então do casebre e foi espreitar, com o coração palpitante, pelo buraco do portão. Não havia ainda ninguém. Soaram oito e meia. Passou mais meia hora. Morrel passeava de um lado para o outro, e a intervalos cada vez mais curtos espreitava pelas tábuas. O jardim escurecia de momento a momento, mas nas trevas em vão se procuraria o vestido branco de Valentine e no silêncio inutilmente se tentaria distinguir o ruído dos seus passos. A casa, que se divisava através da folhagem, permanecia às escuras e não apresentava nenhuma das características de uma casa que se abre para um acontecimento tão importante como é a assinatura de um contrato de casamento. Morrel consultou o seu relógio, que marcava nove horas e três quartos; mas quase imediatamente a mesma voz do relógio já ouvida duas ou três vezes rectificou o erro do relógio de bolso batendo nove e meia. Passava já meia hora da que a própria Valentine marcara: ela dissera nove horas, para menos, que não para mais. Aquele foi o momento mais terrível para o coração do rapaz, no qual cada segundo caía como um martelo de chumbo. O mais tênue ruído da folhagem, o mais pequeno sopro do vento faziam-no apurar o ouvido e cobriam-lhe a testa de suor. Então, muito trêmulo, prendia a escada e, para não perder tempo, punha o pé no primeiro degrau. No meio destas alternâncias de dúvida e esperança, destas dilatações e destes apertos de coração, soaram dez horas na igreja. - Oh! - murmurou Maximilien, com terror. - É impossível que a assinatura de um contrato dure tanto tempo, a menos que se verifiquem acontecimentos imprevistos. Já avaliei todas as hipóteses e calculei o tempo que duram todas as formalidades, e não há dúvida que aconteceu qualquer coisa. E então, ora passeava agitado diante do portão, ora ia apoiar a testa escaldante no ferro gelado. Teria Valentine desmaiado depois do contrato ou fora detida na fuga? Estas eram as duas únicas hipóteses em que o jovem se podia deter, ambas desesperantes. A idéia a que se agarrou foi a de que, em plena fuga, as forças tinham faltado a Valentine e esta caíra sem sentidos no meio de alguma alameda. - Oh, sendo assim - gritou, correndo para o cimo da escada -, a perderei e por minha culpa! O demônio que lhe segredara este pensamento já não o deixou e passou a sussurrar-lho ao ouvido com aquela persistência que faz com que certas dúvidas, ao cabo de um instante, pela força do raciocínio, se transformem em convições. Os seus olhos, que procuravam devassar a escuridão crescente, julgavam distinguir na alameda sombria um corpo caído. Morrel arriscou-se a chamar e pareceu-lhe que o vento lhe trazia um gemido inarticulado. Por fim, deram dez e meia. Era-lhe impossível conter-se mais tempo; todas as hipóteses eram admissíveis. As têmporas de Maximilien latejavam com força e passavam-lhe nuvens diante dos olhos. Encavalitou-se no muro e saltou para o outro lado. Estava na casa de Villefort, onde acabava de entrar por escalamento. Lembrou-se das consequências que lhe poderia acarretar semelhante procedimento, mas não viera até ali para recuar. Num instante encontrou-se na extremidade do maciço. Do ponto onde estava via-se a casa. Então, Morrel assegurou-se de uma coisa de que já suspeitara ao tentar ver através das árvores: em lugar das luzes que pensava ver brilhar em cada janela, como é natural nos dias de cerimônia, só viu a massa cinzenta do edifício, velada ainda por uma grande cortina de sombra projetada por uma nuvem imensa que tapava a Lua. De vez em quando, como que transviada, passava a correr uma luz diante de três janelas do primeiro andar. Essas três janelas eram as dos aposentos da Sra de Saint-Méran. Outra luz permanecia imóvel atrás dos cortinados vermelhos do quarto da Sra de Villefort. Morrel adivinhou tudo isto. Tantas vezes, para acompanhar Valentine em pensamento a qualquer hora do dia, esboçara a planta da casa, que a conhecia sem a ter visto. O rapaz ficou ainda mais assustado com aquela escuridão e aquele silêncio do que ficara com a ausência de Valentine. Desorientado, louco de dor, decidido a arriscar tudo para tornar a ver Valentine e assegurar-se da desgraça que pressentia, fosse qual fosse, Morrel alcançou a orla do maciço e preparava-se para atravessar o mais rapidamente possível o jardim, em campo aberto, quando um som de vozes ainda bastante afastado, mas que o vento lhe trazia, chegou até si. Ao ouvir tal barulho, recuou um passo; já meio saído da folhagem, embrenhou-se nela completamente e ficou imóvel e calado, mergulhado na obscuridade. A sua resolução estava tomada: se fosse Valentine, sozinha, a avisaria com uma palavra à sua passagem; se Valentine estivesse acompanhada, pelo menos a veria e se asseguraria de que não lhe acontecera nenhum mal; se fossem estranhos, apanharia algumas palavras do seu diálogo, que talvez lhe permitissem compreender aquele mistério, até ali incompreensível. A Lua saiu então da nuvem que a ocultava e Morrel viu aparecer Villefort à porta da entrada principal, acompanhado de um homem vestido de preto. Desceram os degraus e dirigiram-se para o maciço. Ainda não tinham dado quatro passos quando Morrel reconheceu o Dr. de Avrigny no homem vestido de preto. Ao ver que vinham na sua direção, o jovem recuou maquinalmente diante deles, até encontrar o tronco de um sicômoro que formava o centro do maciço; ai foi obrigado a parar. Em breve o saibro deixou de ranger sob os passos dos dois passeantes. - Ah, caro doutor, decididamente, o Céu declara-se contra a minha casa! - disse o procurador régio. - Que morte horrível! Que golpe inesperado! Não tente confortar-me; infelizmente, a chaga é demasiado viva e profunda! Morte, morte! Um suor frio gelou a fronte do rapaz e o fez bater os dentes. Quem teria morrido naquela casa que o próprio Villefort dizia amaldiçoada? - Meu caro Sr. de Villefort - respondeu o médico, num tom que redobrou o terror do rapaz --, não o trouxe aqui para o confortar, muito pelo contrário. - Que quer dizer? - perguntou o procurador régio, assustado. - Quero dizer que atrás da desgraça que acaba de lhe acontecer existe outra talvez ainda maior. - Oh, meu Deus! - murmurou Villefort, juntando as mãos. - Que mais me vai dizer? - Estamos bem sós, meu amigo? - Sim, estamos absolutamente sós... Mas que significam todas essas precauções? - Significam que tenho uma confidência terrível a fazer-lhe - respondeu o médico. - Sentemo-nos. Villefort mais se deixou cair do que se sentou no banco. O médico ficou de pé diante dele, com uma das mãos pousada no ombro do magistrado. Morrel, gelado de terror, tinha uma das mãos na testa e com a outra comprimia o coração, cujas pulsações receava se ouvissem. “Morte, morte!", repetia em pensamento com a voz do coração. E ele próprio se sentia morrer. - Fale, doutor, escuto-o - disse Villefort. - Fira, estou preparado para tudo. - A Sra de Saint-Méran era de fato muito idosa, sem dúvida, mas gozava de excelente saúde. Morrel respirou pela primeira vez nos últimos dez minutos. - O desgosto matou-a - disse Villefort. - Sim, o desgosto, doutor! há quarenta anos que estava habituada a viver com o marquês... - Não foi o desgosto, meu caro Villefort - perguntou o médico. - O desgosto pode matar, embora os casos sejam raros, mas não mata num dia, mas não mata numa hora, mas não mata em dez minutos. Villefort não respondeu nada; apenas levantou a cabeça, que até ali conservara baixa, e fitou o médico com olhos esgazeados. - Assistiu à agonia? - perguntou o Sr. de Avrigny. - Assisti - respondeu o procurador régio. - O senhor disse-me em voz baixa para não me afastar. - Notou os sintomas do mal a que a Sra de Saint-Méran sucumbiu? - Certamente. A Sra de Saint-Méran teve três ataques sucessivos com poucos minutos de intervalo uns dos outros e de cada vez mais próximos e mais graves. Quando o senhor chegou, havia já alguns minutos que a Sra de Saint- Méran estava arquejante; teve então uma crise, que tomei por um simples ataque de nervos; mas só me comecei a assustar realmente quando a vi soerguer-se na cama, com os membros e o pescoço estendidos. Então, pela suo rosto, doutor, compreendi que o caso era mais grave do que supunha. Passada a crise, procurei os seus olhos, mas já os não encontrei, doutor. O senhor segurava-lhe no pulso e contava as pulsações, e a segunda crise surgiu antes de o meu amigo se virar para mim. Essa segunda crise foi mais terrível do que a primeira. Verificaram-se os mesmos movimentos nervosos e a boca contraiu-se e tornou-se roxa. À terceira, expirou. Já depois do fim da primeira eu tinha reconhecido o tétano, e o senhor confirmou-me tal opnião. - Sim, diante de toda as pessoas - salientou o médico. - Mas agora estamos sós. - Que me vai dizer, meu Deus? - Que os sintomas do tétano e do envenenamento por produtos vegetais são absolutamente os mesmos. O Sr. de Villefort levantou-se. Em seguida, depois de um instante de imobilidade e silêncio, voltou a deixar-se cair no banco. - Meu Deus, doutor, pensou bem no que acaba de me dizer? Morrel não sabia se sonhava ou se estava acordado. - Ouça - disse o médico - conheço a importância da minha declaração e o cargo do homem a quem a faço. - É ao magistrado ou ao amigo que fala? - perguntou Villefort. - Ao amigo, apenas ao amigo, neste momento. As semelhanças entre os sintomas do tétano e os sintomas do envenenamento por substancias vegetais são de tal modo grandes que se tivesse de assinar o que lhe digo declaro-lhe que hesitaria. Por isso, repito-lhe, não é ao magistrado que me dirijo, é ao amigo. Pois bem, ao amigo digo: durante os três quartos de hora que durou, estudei a agonia, as convulsões e a morte da Sra de Saint-Méran, e é minha convicção que não só a Sra de Saint-Méran morreu envenenada, como ainda direi... sim, direi que conheço o veneno que a matou. - Senhor, senhor! - Tudo se conjuga, repare: sonolência interrompida por crises nervosas, sobreexcitação do cérebro, torpor dos centros... A Sra de Saint-Méran. sucumbiu a uma dose violenta de brucina ou estricnina, que por acaso, sem dúvida, que por erro, talvez, lhe administraram. Villefort pegou na mão do médico. - Oh, é impossível! - exclamou. - Sonho, meu Deus! Sonho! É horrível ouvir dizer semelhantes coisas por um homem como o senhor! Em nome do Céu, suplico-lhe, caro doutor, que me diga que pode estar enganado! - Sem dúvida que posso, mas... - Mas?... - Mas não creio. - Doutor, tenha compaixão de mim. Há alguns dias acontecem-me tantas coisas inauditas que creio na possibilidade de enlouquecer. - Mais alguém além de mim viu a Sra de Saint-Méran? - Ninguém. - Mandaram aviar à farmácia alguma receita que me não tenham mostrado? - Nenhuma. - A Sra de Saint-Méran tinha inimigos? - Nunca os conheci. - Alguém tinha interesse na sua morte? - Não, meu Deus, não! A minha filha é a sua única herdeira. Valentine sozinha... Oh, se semelhante pensamento me assaltasse me apunhalaria para castigar o meu coração por ter sido capaz de abrigar um só instante tal pensamento! - Deus não permita, caro amigo - perguntou o Sr. de Avrigny --, que não tenha de acusar alguém! Refiro-me apenas a um acidente, compreende? A um erro. Mas acidente ou erro, o fato aí está a falar em voz baixa à minha consciência e a exigir que a minha consciência lhe fale em voz alta. Informe-se. - Com quem? Como? De quê? - Vejamos: Barrois, o criado velho, não teria se enganado e dado à Sra de Saint-Méran alguma poção preparada para o seu amo? - Para o meu pai? - Sim. - Mas como poderia uma poção preparada para o Sr. Noirtier envenenar a Sra de Saint-Méran? : , - Nada mais simples: como sabe, em certas doenças os venenos atuam como um remédio. A paralisia é uma dessas doenças. Há cerca de três meses, depois de ter empregado tudo para restituir o movimento e a palavra ao Sr. Noirtier, decidi tentar um último meio; há três meses, repito, que o trato com brucina. Assim, na última poção que lhe receitei entravam seis centigramas de brucina; seis centigramas sem ação sobre os órgãos paralisados do Sr. Noirtier, e aos quais aliás ele se acostumou por meio de doses sucessivas, seis centigramas bastam para matar qualquer outra pessoa que não seja ele. - Meu caro doutor, não há nenhuma comunicação entre os aposentos do Sr. Noirtier e os da Sra de Saint-Méran, e nunca Barrois entraria no quarto da minha sogra. Enfim, doutor, permita-me que lhe diga que, embora o considere o homem mais competente e sobretudo mais consciencioso do mundo, embora em todas as circunstâncias a sua palavra seja para mim, uma luz que me guia, à semelhança da luz do Sol, pois bem, doutor, pois bem... apesar dessa convicção, necessito de me apoiar neste axioma: errare humanum est. - Escute, Villefort - replicou o médico --, existe algum colega meu em quem tenha tanta confiança como em mim? -Porque pergunta isso? Aonde quer chegar? - Chame-o, e lhe direi o que vi, o que notei, e faremos a autópsia. - E encontrarão vestígios do veneno? - Não, do veneno, não; não disse isso. Mas verificaremos a irritação do sistema nervoso, reconheceremos a asfixia patente, incontestável, e lhe diremos: “Caro Villefort, se foi por negligência que o caso aconteceu, vigie os seus criados; se foi por ódio, vigie os seus inimigos." - Oh, meu Deus, que está propondo, Avrigny?! - respondeu Villefort, abatido. - A partir do momento em que haja outro, além do senhor, metido no segredo, me imporá proceder a um inquérito, e um inquérito em minha casa é impossível! No entanto - prosseguiu o procurador régio, contendo-se e olhando o médico com inquietação --, no entanto, se quer, se o exige absolutamente, eu o farei. Com efeito, talvez deva dar seguimento ao caso... O meu cargo impõe-me. Mas, doutor, semelhante idéia aflige-me e entristece-me antecipadamente, como vê: introduzir na minha casa tanto escândalo depois de tanta dor... Oh, a minha mulher e a minha filha morreriam! E eu, eu, doutor, o senhor bem sabe que um homem não chega aonde eu cheguei, um homem não é procurador régio durante vinte e cinco anos sem ter arranjado bom número de inimigos. Os meus são numerosos. Este caso, uma vez divulgado, será para eles um triunfo que os fará pular de alegria e a mim me cobrir de vergonha. Doutor, desculpe-me estas idéias mundanas. Se o senhor fosse um padre, não ousaria dizer-lhe isto; mas o senhor é um homem e conhece os outros homens. Doutor, doutor, o senhor não me disse nada, não é verdade? - Meu caro Sr. de Villefort - respondeu o médico, abalado --, o meu primeiro dever é a humanidade. Teria salvado a Sra de Saint-Méran se a ciência a pudesse salvar, mas ela está morta e eu devo-me aos vivos. Sepultemos no mais profundo dos nossos corações esse terrível segredo. Se os olhos de alguém se abrirem a tal respeito, permitirei que se impute à minha ignorância o silêncio que guardarei. Entretanto, senhor, continue a procurar, procure ativamente, pois talvez as coisas não fiquem por ai... E quando descobrir o culpado, se o descobrir, serei eu que lhe direi: “O senhor é um magistrado, faça o que quiser." - Oh, obrigado, obrigado, doutor! - exclamou Villefort, com indizível alegria. - Nunca tive melhor amigo do que o senhor. E como se temesse que o Sr. de Avrigny voltasse com a palavra atrás, levantou-se e arrastou o médico para os lados da casa. Afastaram-se. Morrel, como se tivesse necessidade de respirar, deitou a cabeça tora do arvoredo e a Lua iluminou-lhe o rosto tão pálido que o poderiam tomar por um fantasma. - Deus protege-me de uma evidente mas terrível forma - murmurou. - Mas Valentine, Valentine, pobre amiga, resistirá ela a tanto sofrimento? A medida que proferia estas palavras, olhava alternadamente as janelas dos cortinados vermelhos e as três janelas de cortinados brancos. A luz desaparecera quase completamente da janela dos cortinados vermelhos. Sem dúvida a Sra de Villefort acabava de apagar o candeeiro e a lamparina mal se refletia nos vidros. Na extremidade do edifício, pelo contrário, viu abrir uma das três janelas de cortinados brancos. Uma vela colocada na chaminé projectou no exterior alguns raios da sua luz pálida e uma sombra veio por instantes à varanda. Morrel estremeceu; parecia-lhe ter ouvido um soluço. Não era de admirar que aquela alma, habitualmente tão corajosa e tão forte, mas agora perturbada e exaltada pelas duas mais fortes paixões humanas, o amor e o medo, tivesse enfraquecido ao ponto de sofrer alucinações supersticiosas. Embora fosse impossível, oculto como estava, que o olhar de Valentine o distinguisse, julgou ser chamado pela sombra da janela; o seu espírito perturbado dizia-lho e o seu coração ardente repetia-lho. Este duplo erro transformou-se numa realidade irresistível e, por um desses incompreensíveis impulsos da juventude, Morrel saltou para fora do seu esconderijo e em duas passadas, com risco de ser visto, de assustar Valentine e de esta dar o alarme por meio de algum grito involuntário, transpôs o jardim, que o luar tornava amplo e branco como um lago, e, depois de alcançar o renque de laranjeiras que se estendia diante da casa, atingiu os degraus da escadaria, que subiu rapidamente, e empurrou a porta, que se abriu sem resistência diante dele. Valentine não o vira. Os seus olhos erguidos para o céu seguiam uma nuvem prateada que deslizava no azul e cuja forma era a de um fantasma a subir ao céu. O seu espírito exaltado segredava-lhe que era a alma da avó. Entretanto, Morrel atravessara a antecâmara e encontrara o corrimão da escada. A passadeira que cobria os degraus abafava-lhe os passos. Aliás, Morrel chegara a tal ponto de exaltação que nem a presença do próprio Villefort o teria assustado. Se Villefort lhe aparecesse, a sua resolução estava tomada: se aproximaria dele, lhe confessaria tudo e lhe pediria desculpa e que aprovasse aquele amor que o ligava à filha e a filha a ele. Morrel estava louco. Por sorte, não encontrou ninguém. E foi então que o conhecimento que adquirira através de Valentine da planta interior da casa lhe serviu. Chegou sem novidade ao cimo da escada, e como, uma vez lá, procurasse orientar-se, um soluço que reconheceu indicou-lhe o caminho que devia seguir. Virou-se. Uma porta entreaberta deixava chegar até ele o reflexo de uma luz e o som da voz que gemia. Empurrou essa porta e entrou. Ao fundo de uma alcova, debaixo do lençol branco que lhe cobria a cabeça e lhe desenhava a forma, jazia a morta, mais assustadora ainda aos olhos de Morrel depois da revelação do segredo de que o acaso o tornara possuidor. Ao lado da cama, de joelhos, com a cabeça escondida nas almofadas de uma grande poltrona, Valentine, trêmula e agitada pelos soluços, estendia por cima da cabeça, que se não via, as mãos juntas e hirtas. Deixara a janela, que ficara aberta, e rezava em voz alta num tom que comoveria o coração mais insensível. As palavras safam-lhe dos lábios, rápidas, incoerentes, ininteligíveis, de tal forma a dor lhe apertava a garganta com os seus tentáculos ardentes. O luar, insinuando-se através da abertura das persianas, tornava mais pálida a luz da vela e cobria de tons fúnebres aquele quadro desolador. Morrel não pode resistir àquele espetáculo. Não era de uma devoção exemplar nem era fácil de impressionar, mas Valentine a sofrer, a chorar, a torcer os braços na sua presença, era mais do que podia suportar em silêncio. Soltou um suspiro, murmurou um nome e a cabeça imersa em lágrimas e contrastante com o veludo da poltrona, uma cabeça de Madalena, de Correggio, ergueu-se e ficou virada para ele. Valentine viu-o e não demonstrou qualquer surpresa. Não existem emoções intermédias num coração ocupado por um desespero supremo. Morrel estendeu a mão à amiga. Como única desculpa de não ter ido ao seu encontro, Valentine indicou-lhe o cadáver jacente sob o lençol fúnebre e recomeçou a soluçar. Nem um nem outro ousava falar naquele quarto. Ambos hesitavam em quebrar aquele silêncio que parecia imposto pela Morte, de pé em qualquer canto e com o dedo nos lábios. Por fim, Valentine foi a primeira a aventurar-se. - Amigo, como está aqui? - perguntou. - Diria “seja bem-vindo", se não fosse a Morte quem lhe abriu a porta desta casa. - Valentine - disse Morrel com voz trêmula e de mãos juntas --, esperei-a desde as oito e meia. Como a não visse vir, inquietei-me, saltei o muro e penetrei no jardim. Então, vozes que falavam do fatal acidente... - Que vozes? - perguntou Valentine. Morrel estremeceu, pois toda a conversa do médico e do Sr. de Villefort lhe acudiu ao espírito, e através do lençol julgava ver os braços contorcidos, o pescoço rígido e os lábios roxos da morta. - Vozes dos seus criados revelaram-me tudo. - Mas vir aqui equivale a perder-nos, meu amigo - observou Valentine, sem terror e sem cólera. - Perdoe-me - respondeu Morrel, no mesmo tom. - Vou-me retirar. - Não - perguntou Valentine. - O encontrariam. Fique. - Mas se vem alguém? A jovem abanou a cabeça. - Não virá ninguém, esteja descansado - disse. - está ali a nossa proteção. E indicou o cadáver moldado pelo lençol. - Mas que foi leito do Sr. de Epinay? Diga-me, suplico-lhe - pediu Morrel. - O Sr. Franz chegou para assinar o contrato no momento em que a minha boa avó exalava o último suspiro. - Graças a Deus! - exclamou Morrel, com uma sensação de alegria egoísta, pois pensava para consigo mesmo que aquela morte retardaria indefinidamente o casamento de Valentine. - Mas o que redobra a minha dor - continuou a jovem, como se tal sensação devesse receber imediatamente castigo - é que a pobre e querida avó ordenou, ao morrer, que se efetuasse o casamento o mais cedo possível. Também ela, meu Deus! Julgando proteger-me, também ela agia contra mim. - Escute! -- sussurrou Morrel. Os dois jovens ficaram silenciosos. Ouviu-se abrir uma porta e passos fazerem estalar o parqué do corredor e os degraus da escada. - É o meu pai que sai do seu gabinete - disse Valentine. - E acompanha o médico - acrescentou Morrel. - Como sabe que é o médico? - perguntou Valentine, surpreendida. - Presumo - respondeu Morrel. Valentine olhou o rapaz. Entretanto, ouviu-se fechar a porta da rua. O Sr. de Villefort foi ainda dar outra volta à chave da do jardim e em seguida voltou a subir a escada. Chegado à antecâmara, parou um instante, como se hesitasse se devia entrar no seu quarto ou no quarto da Sra de Saint-Méran. Morrel correu para trás de um reposteiro. Valentine não fez um gesto; diria que uma dor suprema a colocava acima dos temores vulgares. O Sr. de Villefort entrou no seu quarto. - Agora - disse Valentine - o senhor não pode sair nem pela porta do jardim, nem pela da rua. Morrel olhou a jovem atônito. - Agora - continuou ela - só há uma saída possível e segura: a dos aposentos do meu avô. Levantou-se. - Venha - disse. - Aonde? - perguntou Maximilien. - Aos aposentos do meu avô. - Eu, aos aposentos do Sr. Noirtier?! - Sim. - Já pensou no que vai fazer, Valentine? - Já e há muito tempo. Só tenho esse amigo no mundo e ambos precisamos dele... Venha. - Cautela, Valentine - aconselhou Morrel, hesitando em fazer o que a jovem lhe ordenava. - Cautela! A venda caiu-me dos olhos e vindo aqui pratiquei um ato de demência. Está bem certa do que vai fazer, querida amiga? - Estou - respondeu Valentine - e só tenho um escrúpulo no mundo: deixar sós os restos mortais da minha pobre avó, que me encarreguei de velar. - Valentine, a morte é sagrada por si mesma - observou Morrel. - Pois é - concordou a jovem. - De resto, a ausência será curta. Venha. Valentine atravessou o corredor e desceu uma escadinha que levava aos aposentos de Noirtier. Morrel seguiu-a em bicos de pés. Chegados ao patamar dos aposentos, encontraram o velho criado. - Barrois, feche a porta e não deixe entrar ninguém - ordenou-lhe Valentine. Foi a primeira a entrar Noirtier, ainda na sua poltrona, atento ao mais pequeno ruído, informado pelo seu velho criado de tudo o que se passava, olhava ansiosamente para a entrada do quarto. Viu Valentine e os seus olhos brilharam. Havia no andar e na atitude da jovem algo de grave e solene que impressionou o velho. Por isso, de brilhantes que estavam os seus olhos, tornaram-se interrogadores. - Querido avô - disse ela em tom breve -- escuta-me bem. Sabes que a avozinha Saint-Méran morreu há uma hora e que, excetuando você, agora não tenho mais ninguém que me ame no mundo? Uma expressão de infinita ternura passou pelos olhos do velho. - Portanto, só a você, não é verdade, posso confiar os meus desgostos e as minhas esperanças? O paralítico fez sinal que sim Valentine tomou Maximilien pela mão. - Então, olha bem para este senhor. O velho pousou os olhos perscrutadores e levemente atônitos em Morrel. - É o senhor Maximilien Morrel - continuou Valentine --, o filho daquele honesto comerciante de Marselha de quem sem dúvida ouviste falar... - Sim - indicou o velho. - É um nome irrepreensível, que Maximilien está em vias de tornar glorioso, porque aos trinta anos é capitão de sipaios e oficial da Legião de Honra. O velho fez sinal de que se lembrava dele. - Pois bem, avozinho - disse Valentine, ajoelhando diante do velho e indicando Maximilien com a mão --, amo-o e só serei dele! Se me obrigarem a casar com outro, me deixarei morrer ou me matarei. Os olhos do paralítico exprimiam um mundo de pensamentos tumultuosos. - Você gosta do Sr. Maximilien Morrel,. não é verdade, avozinho? - perguntou a jovem. - Gosto - indicou o velho, imóvel. - E pode proteger-nos, visto sermos também seus filhos, da vontade do meu pai? Noirtier pousou o seu olhar inteligente em Morrel, como que para lhe dizer: “é conforme..." Maximilien compreendeu. - Valentine - disse --, tem um dever sagrado a cumprir no quarto da sua avó; quer dar-me a honra de permitir que converse um instante com o Sr. Noirtier? - Sim, sim, é isso - indicou o olhar do velho. Depois fitou Valentine com inquietação. - Como conseguirá compreender-te, não é o que queres dizer, querido avô? - É. - Oh, esteja descansado! Temos falado tantas vezes de ti que ele sabe bem como te falo. Depois, virando-se para Maximilien com um sorriso adorável, apesar de velado por profunda tristeza, disse: - Ele sabe tudo o que eu sei. Valentine levantou-se, aproximou uma cadeira para Morrel recomendou a Barrois que não deixasse entrar ninguém e, depois de beijar ternamente o avô e de se despedir tristemente de Morrel, saiu. Então Morrel, para provar a Noirtier que tinha a confiança de Valentine e conhecia todos os seus segredos, pegou no dicionário, na pena e no papel e colocou tudo em cima de uma mesa onde havia um candeeiro. - Mas primeiro - disse - permita-me, senhor, que lhe diga quem sou, como amo Mademoiselle Valentine e quais são as minhas intenções a seu respeito. - Escuto-o - deu a entender Noirtier. Constituía um espetáculo deveras impressionante ver como aquele velho, aparentemente um fardo inútil, se tornara o único protetor, o único apoio, o único juiz de dois apaixonados jovens, belos, fortes e no começo da vida. O seu rosto, de uma nobreza e de uma austeridade notáveis, impunha-se a Morrel, que começou a falar com voz incerta. Contou então como conhecera e amara Valentine, e como Valentine, no seu isolamento e na sua infelicidade, acolhera a oferta da sua dedicação. Revelou-lhe quais eram o seu nascimento, a sua posição e a sua fortuna, e por mais de uma vez, quando interrogou com a vista o paralítico, ele lhe respondeu também com a vista: - Está bem, continue. - Agora - disse Morrel quando concluiu a primeira parte da sua narrativa --, agora que já lhe revelei, senhor, o meu amor e as minhas esperanças, devo revelar-lhe também os nossos projetos? - Deve - respondeu o velho. - Muito bem. Eis o que tínhamos resolvido. E contou tudo a Noirtier: como um cabriolé os esperava no cercado, como contava raptar Valentine, levá-la para casa da irmã e casar com ela e como, depois, estavam dispostos a esperar, numa respeitosa expectativa, o perdão do Sr. de Villefort. - Não - disse o Sr. Noirtier. - Não? - repetiu Morrel. - Não é assim que devemos proceder? - Não. - Quer dizer que este projeto não tem o seu assentimento? - Não. - Nesse caso, há outro meio - respondeu Morrel. O olhar interrogador do velho perguntou: - Qual? - Irei - continuou Maximilien --, irei procurar o Sr. Franz de Epinay (ainda bem que lhe posso dizer isto na ausência de Mademoiselle de Villefort) e me comportarei com ele de maneira a obrigá-lo a ser um homem galante... O olhar de Noirtier continuou a interrogar. - Que farei? - Sim. - Isto: irei procurá-lo, como lhe dizia, lhe revelarei os laços que me ligam a Mademoiselle de Villefort, e se ele for um homem delicado provará a sua delicadeza renunciando espontaneamente à mão da sua noiva. A partir desse momento, lhe serei dedicado até à morte. Mas se recusar, quer por interesse, quer por um orgulho ridículo o levar a persistir, depois de lhe provar que com a sua atitude coagiria uma mulher que me pertence, que Valentine me ama e não pode amar outro além de mim, me baterei com ele dando-lhe todas as vantagens, e o matarei ou ele me matará. Se o matar, não casará com Valentine; se me matar, estou certo de que Valentine não casará com ele. Noirtier observava com indizível prazer aquela nobre e sincera fisionomia em que se espelhavam todos os sentimentos que a boca exprimia, acrescentandolhos, através da expressão de um belo rosto, tudo o que a cor acrescenta a um desenho vigoroso e real. No entanto, quando Morrel acabou de falar, Noirtier fechou os olhos diversas vezes, o que era, como se sabe, a sua maneira de dizer não. - Não? - repetiu Morrel. - Portanto, o senhor desaprova o segundo projeto, como já desaprovou o primeiro? - Sim, desaprovo-o - respondeu o velho. - Que fazer então, senhor? - perguntou Morrel. - As últimas palavras da Sra de Saint-Méran foram que o casamento da neta se não fizesse esperar. Deverei deixar que os acontecimentos se consumam? Noirtier ficou imóvel. - Sim, compreendo - disse Morrel. - Devo esperar. - Sim. - Mas qualquer atraso nos perderá senhor - observou o rapaz. - Sozinha, Valentine não tem força e a coagirão como a uma criança. Entrado aqui milagrosamente para saber o que se passava e não menos milagrosamente na sua presença, não posso razoavelmente esperar que a sorte me continue a bafejar. Acredite, só é possível optar por um ou por outro dos dois partidos que lhe indiquei, desculpe esta vaidade à minha juventude, para chegarmos a uma solução. Diga-me qual dos dois prefere. Autoriza Mademoiselle Valentine a confiar-se à minha honra? - Não. - Prefere que vá procurar o Sr. de Epinay? - Não. - Mas, meu Deus, de quem nos virá o socorro que esperamos, do Céu? O velho sorriu com os olhos, como tinha o hábito de sorrir quando lhe falavam do Céu. Ficara sempre um bocadinho de ateísmo nas idéias do velho jacobino. - Do acaso? - insistiu Morrel. - Não. - Do senhor? - Sim. - Do senhor?... - Sim - repetiu o velho. - Compreende bem o que lhe peço, senhor? Desculpe a minha insistência, porque a minha vida está na sua resposta: a nossa salvação virá do senhor? - Sim. - Tem certeza? - Tenho. - Assume essa responsabilidade? - Assumo. E havia no olhar que fazia esta afirmação tal firmeza que não era possível duvidar quer da sua vontade, quer da sua força. - Oh, obrigado, senhor, obrigado cem vezes! Mas como, a não ser que um milagre do Senhor lhe restitua a palavra, o gesto, o movimento, como poderá, preso a essa poltrona, mudo e imóvel, como poderá opor-se ao casamento? Um sorriso iluminou o rosto do velho, sorriso estranho como o daqueles olhos numa fisionomia imóvel. - Portanto, devo esperar? - perguntou o rapaz. - Deve. - Mas o contrato? Reapareceu o mesmo sorriso. - Quer dizer que não ser assinado? - Quero - respondeu Noirtier. - Assim, o contrato não será mesmo assinado! - exclamou Morrel. - Oh, desculpe, senhor! Quando nos anunciam uma grande felicidade, é legítimo duvidar. O contrato não será assinado?... - Não - respondeu o paralítico. Apesar desta segurança, Morrel hesitava em acreditar. Aquela promessa de um velho impotente era tão estranha que em vez de provir de uma força de vontade podia emanar de um enfraquecimento de órgãos. Não é natural que o insensato que ignora a sua loucura pretenda realizar coisas superiores às suas forças? O fraco fala dos pesos que levanta, o tímido, dos gigantes que enfrenta, o pobre dos tesouros que maneja, o mais humilde camponês, no cúmulo do seu orgulho, julga-se Júpiter. Quer porque Noirtier tivesse adivinhado a indecisão do rapaz, quer porque não confiasse completamente na docilidade que mostrara, olhou-o fixamente. - Que deseja, senhor? - perguntou Morrel. - Que lhe renove a minha promessa de nada fazer? O olhar de Noirtier permaneceu fixo e firme, como se quisesse dizer que lhe não bastava uma promessa. Depois passou do rosto para a mão. - Quer que jure, senhor? - perguntou Maximilien. - Quero - respondeu o paralítico com a mesma solenidade. - Quero. Morrel compreendeu que o velho atribuía grande importância ao juramento. Estendeu a mão. - Juro-lhe pela minha honra - disse - esperar o que decidir para agir contra o Sr. de Epinay. - Bem - disseram os olhos do velho. - Agora, senhor, quer que me retire? - perguntou Morrel. - Quero. - Sem tornar a ver Mademoiselle Valentine? - Sim. Morrel fez sinal de que estava pronto a obedecer. - Agora - prosseguiu - permite-me, senhor, que o seu neto o beije como beijou há pouco a sua neta? Não havia motivo para se enganar com a expressão dos olhos de Noirtier. O rapaz pousou os lábios na testa do velho, no mesmo lugar onde Valentine pousara os dela. Depois, cumprimentou segunda vez o velho e saiu. Encontrou no patamar o velho criado. Prevenido por Valentine, este esperava Morrel e guiou-o através dos meandros de um corredor escuro que levava a uma portinha que dava para o jardim. Chegado aí, Morrel alcançou o portão através da alameda de bordos e chegou num instante ao alto do muro. Depois, pela escada, apenas num segundo, alcançou o campo de luzerna onde o cabriolé o esperava. Subiu para a carruagem e, cansado de tantas emoções, mas com o coração mais liberto, chegou por volta da meia-noite à Rua Meslay, atirou-se para cima da cama e dormiu como se estivesse mergulhado em profunda embriaguez. capítulo LXXIV O jazigo da família Villefort Dois dias mais tarde, por volta das dez horas da manhã, encontrava-se reunida uma multidão considerável à porta do Sr. de Villefort, para ver passar uma longa fila de carros fúnebres e carruagens particulares ao longo do Arrabalde de Saint-Honoré e da Rua da Pépiniere. Entre essas carruagens havia uma de forma singular e que parecia ter feito longa viagem. Era uma espécie de furgão pintado de preto e fora dos primeiros a comparecer ao fúnebre encontro. Os curiosos tinham-se informado e haviam sabido que, devido a uma coincidência estranha, aquele carro encerrava o corpo do Sr. Marquês de Saint-Méran e que, portanto, aqueles que tinham vindo para acompanhar um só cadáver acompanhariam dois. Preveniram-se imediatamente as autoridades e conseguiu-se que os dois funerais se realizassem ao mesmo tempo. Uma segunda viatura adornada com a mesma pompa funerária da primeira foi trazida para diante da porta do Sr. de Villefort e a urna transportada no furgão de posta transferida para a carruagem fúnebre. Os dois corpos deviam ser inumados no Cemitério do Pére-Lachaise, onde havia muito tempo o Sr. de Villefort mandara erguer o jazigo destinado a sepultar toda a sua família. No jazigo fora já depositado o corpo da pobre Renée, a quem o pai e mãe se vinham juntar depois de dez anos de separação. Paris, sempre curioso, sempre comovido com as pompas fúnebres, viu passar em religioso silêncio o cortejo esplêndido que acompanhava à sua última morada dois dos mais célebres nomes da velha aristocracia, pelo seu espírito tradicional, pela firmeza das suas convicções e pela dedicação obstinada aos príncipes. Beauchamp, Albert e Château-Renaud, que seguiam na mesma carruagem, trocavam impressões acerca daquela morte quase súbita. - Vi a Sra de Saint-Méran ainda o ano passado, em Marselha, no meu regresso da Argélia - dizia Château-Renaud. - Parecia uma mulher destinada a viver cem anos, graças à sua perteita saúde, ao seu espírito sempre atento e à sua atividade sempre prodigiosa. Que idade tinha ela? - Sessenta e seis - respondeu Albert. - Pelo menos foi o que Franz me disse. Mas não foi a idade que a matou, foi o desgosto que lhe causou a morte do marquês. Parece que depois dessa morte, que a abalou violentamente, ela nunca mais recuperou por completo a razão. - Mas enfim, de que morreu? - perguntou Beauchamp. - De uma congestão cerebral, parece, ou de uma apoplexia fulminante. Não é a mesma coisa? - Mais ou menos. - De apoplexia? - repetiu Beauchamp. - É difícil de acreditar. A Sra de Saint- Méran, que também vi uma vez ou duas na minha vida, era baixinha, frágil e de constituição muito mais nervosa do que sanguínea. São raras as apoplexias produzidas pelo desgosto em corpos de constituição idêntica ao da Sra de Saint- Méran. - Em todo o caso - observou Albert --, qualquer que tenha sido a doença ou o médico que a matou, aí estão o Sr. de Villefort, ou Mademoiselle Valentine, ou ainda o nosso amigo Franz, de posse de uma magnífica herança: oitenta mil libras de rendimento, parece-me. - Herança que quase duplicar por morte do velho jacobino Noirtier. - Aí está um avô resistente - observou Beauchamp. - Tenacem propositi virum. Apostou com a morte, creio, que enterraria todos os seus herdeiros. E o conseguirá , estou certo. É bem o velho convencional de 93 que dizia a Napoleão em 1814: “Declinais porque o vosso império é um jovem caule cansado pelo seu crescimento. Tomais a República como tutor, regressemos com uma boa constituição aos campos de batalha e prometo-vos quinhentos mil soldados, outro Marengo e segundo Austerlitz. As idéias não morrem, sire, dormitam às vezes, mas acordam mais fortes do que antes de adormecer." - Parece que para ele os homens são como as idéias - disse Albert. - Apenas uma coisa me preocupa: saber como Franz de Epinay se entenderá com o avô da sua futura mulher, visto o velho não poder passar sem ela. Mas onde está Franz? - Na primeira carruagem, com o Sr. de Villefort, que o considera já como se fosse da família. Em todas as carruagens que acompanhavam o funeral a conversa era pouco mais ou menos a mesma. As pessoas admiravam-se com aquelas duas mortes tão próximas e tão rápidas, mas nenhuma suspeitava do terrível segredo que no seu passeio noturno o Sr. de Avrigny revelara ao Sr. de Villefort. Ao fim de cerca de uma hora de marcha, o préstito chegou à porta do cemitério. O tempo estava calmo, mas sombrio, portanto muito de harmonia com a fúnebre cerimônia que estava se realizando. Entre os grupos que se dirigiram para o jazigo de família, Château-Renaud reconheceu Morrel, que viera sozinho e de cabriolé. Caminhava isolado, muito pálido e silencioso, pelo carreiro orlado de teixos. -- Você aqui? - perguntou Château-Renaud, passando o braço pelo do jovem capitão. - Quer dizer que conhece o Sr. de Villefort? Como isso é possível se nunca o vi na casa dele? - Não conheço, o Sr. de Villefort - respondeu Morrel. - Quem eu conhecia era a Sra de Saint-Méran. Neste momento, Albert juntou-se-lhes com Franz. - O lugar é mal escolhido para uma apresentação - disse Albert. - Mas não importa, não somos supersticiosos. Sr. Morrel, permita que lhe apresente o Sr. Franz de Epinay, um excelente companheiro de viagem, com o qual percorri a Itália. Meu caro Franz, o Sr. Maximilien Morrel, um excelente amigo que adquiri na sua ausência e cujo nome me ouvirá citar todas as vezes que falar de coração, de espírito e de amabilidade. Morrel teve um momento de indecisão e perguntou a si mesmo se não seria uma condenável hipocrisia saudar quase amigavelmente o homem que combatia em segredo. Mas o seu juramento e a gravidade das circunstâncias vieram-lhe à memória. Esforçou-se por não deixar transparecer nada no rosto, conteve-se e cumprimentou Franz. - Mademoiselle de Villefort está muito triste, não é verdade? - perguntou Debray a Franz. - Oh, de uma tristeza inexplicável, senhor! - respondeu Franz. - Esta manhã estava tão desfigurada que mal a reconheci. Estas palavras aparentemente tão simples feriram o coração de Morrel. Aquele homem vira Valentine e falara-lhe... Foi então que o jovem e impetuoso oficial necessitou de toda a sua energia para resistir ao desejo de violar o seu juramento. Pegou no braço de Château- Renaud e arrastou-o rapidamente para o jazigo, diante do qual os empregados da agência funer ria acabavam de depositar as duas urnas. - Magnífica habitação - comentou Beauchamp, admirando o mausoléu. - palácio de Verão e palácio de Inverno. Nele residirá um dia, meu caro Epinay, porque em breve também será da família. Eu, na minha qualidade de filósofo prefiro uma casinha de campo, um chalé à sombra das árvores, e menos pedras trabalhadas sobre o meu pobre corpo. Quando morrer, direi aos que me rodearem o que Voltaire escrevia a Piron: E o rus e tudo estará acabado... Vamos, caramba! Franz, coragem, a sua mulher herda. - Na verdade, Beauchamp, você é insuportável - perguntou Franz. - A política habituou-o a rir de tudo e os homens que a dirigem têm o hábito de não acreditar em nada. Mas enfim, Beauchamp, quando tenha a honra de se encontrar entre homens vulgares e a sorte de se afastar por instantes da política, procure trazer consigo o coração em vez de o deixar no bengaleiro da Câmara dos Deputados ou da Câmara dos Pares. - Mas, meu Deus, que é a vida? - perguntou Beauchamp. - Uma paragem na antecâmara da morte. - Não estou gostando nada da conversa de Beauchamp - disse Albert. E recuou quatro passos com Franz, deixando Beauchamp continuar as suas dissertações filosóficas com Debray. O jazigo da família Villefort formava um quadrado de pedra branca de cerca de vinte pés de altura. Uma separação interior dividia em dois compartimentos a família Saint-Méran e a família Villefort, e cada compartimento tinha a sua porta de entrada. Não se via, como nos outros jazigos, essas ignóbeis prateleiras sobrepostas, em que uma distribuição econômica encerra os mortos com uma inscrição que mais parece uma etiqueta. Tudo o que de início se via através da porta de bronze era uma antecâmara severa e escura, separada por uma parede do túmulo propriamente dito. Era no meio dessa parede que se abriam as duas portas de que falamos há pouco e que comunicavam com as sepulturas Villefort e Saint-Méran. Ali podia-se dar livre curso à dor sem que os passeantes despreocupados, que fazem de uma visita ao Pere-Lachaise um passeio ao campo ou um encontro amoroso, perturbassem com os seus cantos, os seus gritos ou as suas correrias a muda contemplação ou a prece banhada de lágrimas do visitante do jazigo. As duas urnas entraram no jazigo da direita, o da família Saint-Méran, e foram colocadas em cima de cavaletes já preparados antecipadamente e que só esperavam o seu depósito mortal. Villefort, Franz e mais alguns parentes próximos penetraram sozinhos no santuário. Como as cerimônias religiosas tinham sido efetuadas à porta e não havia discursos a pronunciar, os acompanhantes retiraram-se imediatamente. ChâteauRenaud, Albert e Morrel foram por um lado e Debray e Beauchamp por outro. Franz ficou sozinho com o Sr. de Villefort à porta do cemitério. Morrel deteve-se sob qualquer pretexto. Viu sair Franz e o Sr. de Villefort numa carruagem e teve um mau presságio daquela conversa íntima. Por fim, regressou a Paris na mesma carruagem em que vinham Château-Renaud e Albert, mas não ouviu nem uma palavra do que disseram os dois rapazes. Com efeito, no momento em que Franz se ia separar do Sr. de Villefort, este perguntara-lhe: - Sr. Barão, quando o tornarei a ver? - Quando quiser, senhor - respondera Franz. - O mais cedo possível. - Estou às suas ordens, senhor. Quer que regressemos juntos? - Se isso lhe não causa nenhum transtorno... - Nenhum. Foi assim que o futuro sogro e o futuro genro subiram para a mesma carruagem e que Morrel, ao vê-los passar, concebeu com razão graves preocupações. Villefort, e Franz regressaram ao Arrabalde de Saint-Honoré. Sem ver ninguém, nem falar à mulher e à filha, o procurador régio levou o jovem para o seu gabinete, indicou-lhe uma cadeira e disse-lhe: - Senhor de Epinay, devo recordar-lhe, e o momento não é talvez tão mal escolhido como se poderá crer à primeira vista, porque a obediência aos mortos é a primeira oferenda que se deve depositar sobre o caixão, devo portanto lembrarlhe o desejo manifestado anteontem pela Sra de Saint-Méran no seu leito de morte, isto é, que o casamento de Valentine não fosse adiado. Como sabe, os assuntos da defunta estão perfeitamente em ordem e o seu testamento assegura a Valentine toda a fortuna dos Saint-Mérans. O tabelião mostrou-me ontem as minutas que permitem redigir definitivamente o contrato de casamento. Pode procurar o tabelião e pedir-lhe da minha parte que lhe mostre as minutas. O tabelião é o Sr. Deschamps, Praça Beauvau é Arrabalde de Saint-Honoré. - Senhor - respondeu Epinay --, este talvez não seja o momento indicado para Mademoiselle Valentine, mergulhada como está na sua dor, pensar num marido. Na verdade, recearia... - Valentine - interrompeu-o o Sr. de Villefort - não terá mais vivo desejo do que cumprir as últimas vontades da avó. Portanto, os obstáculos não virão desse lado, garanto-lhe. - Nesse caso, senhor - respondeu Franz --, como também não virão do meu, pode fazer o que entender. Dei a minha palavra e a cumprirei não só com prazer, mas também com felicidade. - Nesse caso, nada nos detém - disse Villefort. - O contrato deveria ter sido assinado há três dias e portanto encontraremos tudo preparado. Podemos assinálo hoje mesmo. - E o luto? - lembrou Franz, hesitante. - Sossegue, senhor - prosseguiu Villefort. - Não é hábito em minha casa descuidar das conveniências. Mademoiselle de Villefort poderá retirar-se durante os três meses da praxe para a sua propriedade de Saint-Méran. Digo a sua propriedade, porque lhe pertence. Aí, dentro de oito dias, se achar bem, sem barulho, sem dar nas vistas, sem fausto, se celebrará o casamento naquela propriedade. Concluído o casamento, o senhor poder regressar a Paris, enquanto a sua mulher passará o tempo de luto com a madrasta. - Como lhe aprouver, senhor - disse Franz. - Então, queira ter o incômodo de esperar cerca de meia hora - prosseguiu Villefort. - Valentine vai descer à sala. Mandarei buscar o Sr. Deschamps, leremos e assinaremos o contrato imediatamente e ainda esta tarde a Sra de Villefort, acompanhará Valentine à sua propriedade, onde daqui a oito dias iremos ter com elas. - Tenho apenas um pedido a fazer-lhe, senhor - disse Franz. - Qual? - Desejo que Albert de Morcerf e Raoul de Château-Renaud estejam presentes a essa assinatura. Como sabe, são minhas testemunhas. - Meia hora basta para os avisar. Quer ir buscá-los pessoalmente ou deseja mandar chamá-los? - Prefiro ir, senhor. - Esperarei portanto dentro de meia hora, barão, e dentro de meia hora também Valentine estará pronta. Franz cumprimentou o Sr. de Villefort a saiu. Assim que a porta da rua se fechou atrás do jovem, Villefort mandou prevenir Valentine de que deveria descer à sala dentro de meia hora, altura em que se esperava a chegada do tabelião e das testemunhas do Sr. de Epinay. Esta notícia inesperada produziu grande sensação na casa. A Sra de Villefort, nem queria acreditar e Valentine ficou como que fulminada. Olhou à sua volta, como se procurasse a quem pedir socorro. Quis descer aos aposentos do avô, mas encontrou na escada o Sr. de Villefort, que a agarrou por um braço e a levou para a sala. Na antecâmara, Valentine encontrou Barrois e deitou ao velho criado um olhar desesperado. Pouco depois de Valentine entrou na sala a Sra de Villefort com o pequeno Edouard. Era visível que a jovem senhora tivera o seu quinhão nos desgostos da família; estava pálida e parecia horrivelmente fatigada. Sentou-se, pegou Edouard no colo e de vez em quando apertava-o ao peito, com gestos quase convulsos, aquela criança em que toda a sua vida parecia concentrada. Não tardou a ouvir-se o ruído de duas carruagens que entravam no pátio. Uma era a do tabelião e a outra a de Franz e dos seus amigos. Num instante, todos se reuniram na sala. Valentine estava tão pálida que se viam as veias azuladas das têmporas desenharem-se à roda dos olhos e correrem-lhe ao longo das faces. Franz não conseguia disfarçar uma emoção bastante viva. Château-Renaud e Albert entreolharam-se surpreendidos: a cerimônia que pouco antes terminara não lhes parecera menos triste do que a que ia começar. A. Sra de Villefort colocara-se na sombra, atrás do reposteiro de veludo, e como estava constantemente inclinada para o filho, era difícil ler no seu rosto o que lhe ia na alma. O Sr. de Villefort estava, como sempre, impassível. Depois de ter, com o método peculiar dos funcionários da justiça, alinhado os papéis em cima da mesa, tomado lugar na sua poltrona e tirado os óculos, o tabelião virou-se para Franz. - É o Sr. Franz de Quesnel, barão de Epinay? - perguntou, embora o soubesse perfeitamente. - Sim, senhor - respondeu Franz. O tabelião inclinou-se. - Devo portanto preveni-lo, senhor, da parte do Sr. de Villefort, que o seu casamento com Mademoiselle de Villefort modificou as disposições do Sr. de Noirtier para com a neta e que ele alienou inteiramente a fortuna que lhe devia transmitir. Apressamo-nos a acrescentar - continuou o tabelião - que, como o testador não tinha o direito de alienar senão uma parte da sua fortuna e a alienou toda, o testamento não resistirá à sua contestação e será declarado nulo e sem nenhum efeito. - É verdade - declarou Villefort. - No entanto, desde já o previno o Sr. de Epinay que enquanto eu for vivo nunca o testamento do meu pai será contestado, pois a minha posição proíbe-me até a sombra de um escândalo. - Senhor - disse Franz --, penaliza-me que se tenha suscitado semelhante questão na presença de Mademoiselle Valentine. Nunca me informei do montante da sua fortuna, que, por mais reduzida que seja, será sempre mais considerável do que a minha. O que a minha família procurou na aliança com o Sr. de Villefort foi a consideração; o que eu procuro é a felicidade. Valentine fez um imperceptível sinal de agradecimento, enquanto duas lágrimas silenciosas lhe corriam ao longo das faces. - De resto, senhor - acrescentou Villefort, dirigindo-se ao seu futuro genro --, excetuando a perda de parte das suas esperanças, esse testamento inesperado não tem nada que pessoalmente o possa melindrar; ele explica-se pela fraqueza de espírito do Sr. Noirtier. O que desagrada a meu pai, não é que Mademoiselle de Villefort se torne baronesa de Epinay, é que Valentine se case. Uma união com qualquer outro lhe causaria o mesmo desgosto. A velhice é egoísta, senhor, e Mademoiselle de Villefort fazia ao Sr. de Noirtier uma assídua companhia que lhe não poderá fazer a Sra Baronesa de Epinay. O triste estado em que se encontra meu pai contribui para que raramente lhe falemos de assuntos sérios, que a fraqueza do seu espírito lhe não permitiria acompanhar, e estou absolutamente convencido de que neste momento, embora conservando a lembrança de que a neta se casa, o Sr. Noirtier até já esqueceu o nome daquele que vai ser seu neto. Mal o Sr. de Villefort acabara de proferir estas palavras, às quais Franz respondia com uma inclinação, a porta da sala abriu-se e apareceu Barrois. - Senhores - disse uma voz estranhamente firme, para um criado que se dirige a seus amos numa circunstância tão solene -, senhores, o Sr. Noirtier de Villefort deseja falar imediatamente com o Sr. Franz de Quesnel, barão de Epinay. Também ele, como o tabelião, e a fim de não poder haver erro de pessoa, dava todos os títulos ao noivo. Villefort estremeceu, a Sra de Villefort deixou escorregar o filho do colo e Valentine ergueu-se, pálida e muda como uma estátua. Albert e Château-Renaud trocaram segundo olhar, mais atônito ainda do que o primeiro. O tabelião olhou para Villefort. - É impossível - disse o procurador régio. - De resto, o Sr. de Epinay não pode sair da sala neste momento. - É precisamente neste momento - perguntou Barrois com a mesma firmeza - que o Sr. Noirtier, meu amo, deseja falar de assuntos importantes com o Sr. Franz de Epinay. - Então o avô Noirtier já fala? - perguntou Edouard, com a sua impertinência habitual. Mas esta gracinha nem sequer fez sorrir a Sra de Villefort, de tal modo os espíritos se encontravam preocupados, de tal modo a situação parecia solene. - Diga ao Sr. Noirtier - respondeu Villefort - que o seu pedido não pode ser satisfeito. - Então, o Sr. Noirtier previne V. Ex ,as de que se vai fazer transportar ele próprio para a sala - replicou Barrois. O espanto atingiu o cúmulo. Uma espécie de sorriso desenhou-se no rosto da Sra de Villefort, e Valentine, como que a seu pesar, levantou os olhos para o teto a fim de agradecer ao Céu. - Valentine - disse o Sr. de Villefort --, vá num instante saber, peço-lhe, que novo capricho é esse do seu avô. Valentine deu vivamente alguns passos para sair, mas o Sr. de Villefort mudou de idéia. - Espere, acompanho-a. - Perdão, senhor - interveio Franz --, mas parece-me, uma vez que foi a mim que o Sr. Noirtier mandou chamar, que é sobretudo a mim que compete satisfazer os seus desejos. Aliás, terei muito prazer em lhe apresentar os meus respeitos, visto não ter tido ainda ensejo de solicitar essa honra. - Meu Deus, não vale a pena incomodar-se! - insistiu Villefort, visivelmente inquieto. - Desculpe, senhor - perguntou Franz, no tom de um homem que tomou a sua resolução -, mas não desejo perder a oportunidade de provar ao Sr. Noirtier como faria mal em conceber contra mim repugnâncias que estou decidido a vencer, sejam quais forem, com a minha profunda dedicação. E sem se deixar reter mais tempo por Villefort, Franz levantou-se por seu turno e seguiu Valentine, que já descia a escada com a alegria de um náufrago que se agarra a uma rocha. O Sr. de Villefort seguiu-os. Château-Renaud e Morcerf trocaram terceiro olhar, ainda mais atônito do que os dois primeiros. Capítulo LXXV A ata da sessão Noirtier esperava, vestido de preto e instalado na sua poltrona. Quando as três pessoas cuja chegada esperava entraram, olhou para a porta, que o seu criado de quarto fechou imediatamente. - Preste atenção - disse Villefort em voz baixa a Valentine, que não conseguia conter a sua alegria. - Se o Sr. Noirtier nos quiser comunicar coisas que impeçam o seu casamento, proíbo-a de o compreender. Valentine corou, mas não respondeu. Villefort aproximou-se de Noirtier. - Aqui tem o Sr. Franz de Epinay - disse-lhe. - Mandou-o chamar e ele satisfaz os seus desejos. Claro que desejamos este encontro há muito tempo o ficaria encantado se ele lhe provasse até que ponto a sua oposição ao casamento de Valentine era infundada. Noirtier respondeu apenas com um olhar que fez correr um arrepio nas veias de Villefort. O velho fez com os olhos sinal a Valentine para se aproximar. Num momento, graças aos meios de que a jovem costumava servir-se nas suas conversas com o avô, ela encontrou a palavra chave. Então, consultou o olhar do paralítico, que se fixou na gaveta de um movelzinho colocado entre duas janelas. Valentine abriu a gaveta e encontrou efetivamente uma chave. De posse dessa chave e depois de o velho lhe fazer sinal de que era de fato aquilo que pretendia, os olhos do paralítico dirigiram-se para uma velha mesa esquecida havia muitos anos e que só continha, ao que se julgava, papéis inúteis. - Quer que eu abra as gavetas? - Quero. - As dos lados? - Não. - A do meio? - Sim Valentine abriu-a e tirou um maço de papéis. - É isto que deseja, avô? - Não. Ela tirou sucessivamente todos os outros papéis, até não ficar absolutamente mais nada na gaveta. - Mas a gaveta está vazia, agora - disse Valentine. Os olhos de Noirtier estavam fixos no dicionário. - Sim, avô, compreendo-o - declarou a jovem. E repetiu, uma após outra, cada letra do alfabeto. No S, Noirtier deteve-a. Ela abriu o dicionário e folheou-o até à palavra segredo. - Ah, existe um segredo! - exclamou Valentine. - Existe - respondeu Noirtier. - E quem conhece esse segredo? Noirtier olhou a porta por onde saía o criado. - Barrois? - perguntou ela. - Sim - respondeu Noirtier. - Quer que o chame? - Quero. Valentine foi à porta e chamou Barrois. Entretanto o suor da impaciência perlava a testa de Villefort e Franz estava estupefato de surpresa. O velho criado entrou. - Barrois - disse Valentine --, o meu avô mandou-me tirar uma chave daquele console, abrir esta mesa e puxar esta gaveta. Mas agora há um segredo na gaveta e parece que você o conhece. Abra-a. Barrois olhou para o velho. - Obedece - disse o olhar inteligente de Noirtier. Barrois obedeceu. Abriu-se um fundo duplo e apareceu um maço de papéis atados com uma fita preta. - É isto que deseja, senhor? - perguntou Barrois. - É - respondeu Noirtier. - A quem devo entregar estes papéis? Ao Sr. de Villefort? - Não. - A Mademoiselle Valentine? - Não. - Ao Sr. Franz de Epinay? - Sim Franz, atônito, deu um passo em frente. - A mim, senhor? - perguntou. - Sim. Franz recebeu os papéis das mãos de Barrois, olhou para a capa e leu: “Para ser depositado, depois da minha morte, à guarda do meu amigo general Durand, que, por sua vez, ao morrer, legará este maço de papéis a seu filho, com a recomendação de o conservar como um documento da mais alta importância." - Bom, senhor, que deseja que faça destes papéis? - perguntou Franz. - Que os conserve, selados como estão, sem dúvida - sugeriu o procurador régio. - Não, não! - respondeu vivamente Noirtier. - Deseja talvez que este senhor os leia? - perguntou Valentine. - Sim - respondeu o velho. - Como viu, Sr. Barão, o meu avô pede-lhe que leia esses papéis - disse Valentine. - Então, sentemo-nos - disse Villefort, com impaciência --, porque isso demorará algum tempo. - Sentem-se - disse o olhar do velho. Villefort sentou-se, mas Valentine ficou de pé ao lado do avô, encostada à sua poltrona, e Franz, de pé diante dele. Segurava o misterioso documento na mão. - Leia - disseram os olhos do velho. Franz abriu o maço e fez-se um grande silêncio no quarto. No meio desse silêncio, leu: “Extrato da ata de uma sessão do clube bonapartista da Rua Saint- Jacques, efetuada em 5 de Fevereiro de 1815." Franz deteve-se. - 5 de Fevereiro de 1815! Foi o dia em que assassinaram o meu pai! Valentine e Villefort permaneceram calados. Apenas o olhar do velho disse claramente: - Continue. - Mas foi ao sair desse clube que o meu pai desapareceu! - insistiu Franz. O olhar de Noirtier continuou a dizer: - Leia. Franz prosseguiu: - "Os abaixo assinados, Louis-Jacques Beaurepaire, tenente-coronel de artilharia; Etienne Duchampy, general de brigada, e Claude Lecharpal, diretor das Águas e Florestas, "Declaram que em 4 de Fevereiro de 1815 chegou da ilha de Elba uma carta que recomendava à benevolência e à confiança dos membros do clube bonapartista o general Flavien de Quesnel que, tendo servido o imperador desde 1804 até 1815, deveria ser dedicadíssimo à dinastia napoleônica, apesar do título de barão que Luís XVIII acabava de atribuir à sua propriedade de Epinay. "Nesta conformidade, dirigiu-se ao general de Quesnel um bilhete pedindolhe que assistisse à sessão do dia seguinte, 5. O bilhete não indicava nem a rua nem o número da casa onde se devia efetuar a reunião. Também não tinha nenhuma assinatura, mas anunciava ao general que se estivesse pronto o iriam buscar às nove horas da noite. "As sessões realizavam-se das nove à meia-noite. "Às nove horas o presidente do clube apresentou-se em casa do general. O general estava pronto. O presidente disse-lhe que uma das condições da sua admissão era que ignorasse eternamente o local da reunião e que deixasse vendarem-lhe os olhos, depois de jurar não levantar de modo algum a venda. "O general de Quesnel aceitou a condição e prometeu pela sua honra não procurar ver aonde o conduziriam. "O general mandara preparar a sua carruagem; mas o presidente disse-lhe que era impossível utilizarem-na, pois assim não valeria a pena vendar os olhos do amo se o cocheiro ficasse com os seus abertos e identificasse por onde passariam. " - Como proceder então? - perguntou o general. "- Tenho a minha carruagem - respondeu o presidente. "- Está assim tão seguro do seu cocheiro que lhe confia um segredo que considera imprudente revelar ao meu? "- O nosso cocheiro é um membro do clube - respondeu o presidente. - Seremos conduzidos por um conselheiro de Estado. "- Então, corremos outro risco: o de nos virarmos - observou o general, rindo. "Registramos este gracejo como prova de que o general não foi de forma alguma obrigado a assistir à sessão, à qual compareceu de sua livre vontade. "Uma vez instalados na carruagem, o presidente recordou ao general a promessa que fizera de deixar vendar os olhos. O general não levantou qualquer oposição a tal formalidade. Um lenço de pescoço preparado para o efeito na carruagem fez as vezes de venda. "Durante o caminho, o presidente julgou notar que o general procurava ver por baixo da venda e recordou-lhe o seu juramento. "- Tem razão - disse o general. "A viatura parou diante de uma passagem da Rua Saint-Jacques. O general apeou-se apoiado no braço do presidente, cuja dignidade ignorava e que tomava por um simples membro do clube. Atravessaram a passagem, subiram um andar e entraram na sala das deliberações. "A sessão já começara. Os membros do clube, prevenidos da espécie de apresentação que se deveria efetuar naquela noite, tinham comparecido na sua totalidade. Chegado ao meio da sala, o general foi convidado a tirar a venda. Acedeu imediatamente ao convite e pareceu ficar muito impressionado por encontrar tão grande número de caras conhecidas numa sociedade de que até ali nem sequer suspeitara a existência. "Interrogaram-no acerca dos seus sentimentos, mas limitou-se a responder que as cartas da ilha de Elba lhe deviam ser dadas a conhecer..." Franz interrompeu-se. - O meu pai era monárquico. Não havia necessidade de o interrogarem acerca dos seus pensamentos; eram conhecidos. - E daí vinha a minha ligação com o seu pai, meu caro Sr. Franz - declarou Villefort. - As pessoas ligam-se facilmente quando partilham as mesmas opiniões. - Leia - continuou a dizer o olhar do velho. Franz prosseguiu: - “O presidente tomou então a palavra para convidar o general a exprimirse mais explicitamente, mas o Sr. de Quesnel respondeu que desejava antes de mais nada saber o que pretendiam dele. "Foi então dado conhecimento ao general da carta da ilha de Elba que o recomendava ao clube como um homem com cujo concurso se podia contar. Um parágrafo inteiro expunha o provável regresso da ilha de Elba e prometia nova carta e mais amplos pormenores à chegada do Pharaon, navio pertencente ao armador Morrel, de Marselha, e cujo comandante era inteiramente dedicado ao imperador. "Durante toda esta leitura, o general, com o qual se julgara poder contar como um irmão, deu pelo contrário visíveis sinais de descontentamento e repugnância. "Terminada a leitura, permaneceu silencioso e de sobrolho franzido. "- Então, que diz a esta carta, Sr. General? - perguntou o presidente. "- Digo que ainda há tão pouco tempo se prestou juramento ao rei Luís XVIII, que não justifica violá-lo já em benefício do ex-imperador. "Desta vez a resposta era tão clara que ninguém se podia enganar a respeito dos seus sentimentos. "- General - disse o presidente -, para nós não existe o rei Luís XVIII, tal como não existe ex-imperador. Para nós só existe Sua Majestade o imperador e rei, afastado há dez meses da França, seu Estado, pela violência e pela traição. "- Perdão, senhores - perguntou o general. - É possível que para vós não exista o rei Luís XVIII, mas existe para mim. Foi ele quem me fez barão e marechal-de-campo e nunca esquecerei que é ao seu auspicioso regresso a França que devo ambos os títulos. "- Senhor, tome cautela com o que diz - recomendou-lhe o presidente, em tom muito sério e levantando-se. - As suas palavras demonstram-nos claramente que se enganaram a seu respeito na ilha de Elba e que nos enganaram. A comunicação que lhe fizemos baseou-se na confiança depositada no senhor e, por consequência, num sentimento que o honrava. Verificamos agora que estavamos enganados. Um título e um posto ligaram-no ao novo governo que queremos derrubar. Não o obrigaremos a prestar-nos o seu concurso; não recrutaremos ninguém contra a sua consciência e a sua vontade; mas o obrigaremos a proceder como um homem digno, mesmo no caso de não estar disposto a isso. "- Acham que é ser um homem digno conhecer esta conspiração e não a revelar? Chamo a isso ser cúmplice dos senhores. Como vêem, sou ainda mais franco do que os presentes..." - Ah, meu pai, compreendo agora porque te assassinaram! - exclamou Franz. Valentine não se pode impedir de lançar uma olhadela a Franz. O rapaz estava realmente belo no seu entusiasmo filial. Villefort passeava de um lado para o outro atrás dele. Noirtier acompanhava com a vista a expressão de cada um e conservava a sua atitude digna e severa. Franz voltou ao manuscrito e continuou: - “Senhor - disse o presidente --, pediram-lhe que comparecesse nesta assembleia, onde ninguém o trouxe à força. Propuseram-lhe vendar-lhe os olhos e o senhor aceitou. Quando acedeu a ambas as coisas, sabia perfeitamente que não nos dedicavamos a consolidar o trono de Luís XVIII, pois de contrário não poríamos tanto cuidado em nos escondermos da Polícia. Agora, como deve compreender, seria demasiado cômodo colocar uma máscara para surpreender segredos alheios e em seguida não ter mais do que tirar essa máscara para perder aqueles que confiaram no senhor. Não, não! Antes de mais nada, vai dizernos francamente se é pelo rei de acaso que reina neste momento ou por S. M. o imperador. " - Sou mon rquico - perguntou o general. - Prestei juramento a Luís XVIII e mantenho esse juramento. "Estas palavras foram seguidas de um murmúrio geral e pode ver-se, pelos olhares de numerosos membros do clube, que estavam dispostos a fazer o Sr. de Epinay arrepender-se das suas palavras imprudentes. "O presidente levantou-se de novo e impôs silêncio. "- Senhor - disse-lhe --, é um homem suficientemente responsável e sensato para compreender as consequências da situação em que nos encontramos uns perante os outros, e a sua própria franqueza nos dita as condições que nos resta apresentar-lhe. O senhor vai portanto jurar pela sua honra nada revelar do que ouviu. "O general levou a mão à espada e gritou: "- Se quer falar de honra, comece por não menosprezar as suas leis nem impor nada pela violência! "- E o senhor - continuou o presidente, com uma calma talvez mais terrível do que a cólera do general - não toque na sua espada; é um conselho que lhe dou. "O general viu à sua volta olhares que denotavam um princípio de inquietação. No entanto, nem mesmo assim cedeu. Pelo contrário, apelando para toda a sua energia, exclamou: "- Não jurarei! "- Então, senhor, morrerá - respondeu tranquilamente o presidente. "O Sr. de Epinay empalideceu profundamente. Olhou segunda vez à sua volta. Vários membros do clube cochichavam e procuravam armas debaixo das capas. "- General - disse o presidente -, esteja tranquilo. Encontra-se entre pessoas honradas, que procurarão por todos os meios convencê-lo antes de recorrerem contra o senhor a medidas extremas. Mas também, como o senhor mesmo disse, está entre conspiradores, conhece o nosso segredo e tem de guardá-lo. "A estas palavras seguiu-se um silêncio cheio de significado. E como o general não respondesse nada, o presidente ordenou aos porteiros: "- Fechem as portas! "O mesmo silêncio mortal sucedeu a estas palavras. "Então o general adiantou-se e disse, fazendo um violento esforço sobre si mesmo: "- Tenho um filho e devo pensar nele quando me encontro no meio de assassinos. "- General - disse com nobreza o presidente da assembleia -, um só homem tem sempre o direito de insultar cinquenta: é o privilégio da fraqueza. Simplesmente, faz mal em usar esse direito. Creia no que lhe digo, general: jure e não nos insulte. "O general, mais uma vez dominado pela superioridade do presidente da assembléia, hesitou um instante; mas por fim aproximou-se da mesa do presidente e perguntou: "- Qual é a fórmula? "- Esta: "Juro pela minha honra jamais revelar a quem quer que seja no mundo o que vi e ouvi em 5 de Fevereiro de 1815, entre as nove e as dez horas da noite, e declaro merecer a morte se violar o meu juramento." "O general pareceu experimentar um frêmito nervoso, que o impediu de responder durante alguns segundos. Por fim, contendo uma repugnância evidente, proferiu o juramento exigido, mas em voz tão baixa que mal se ouviu. Por isso, vários membros exigiram que o repetisse em voz mais alta e distinta, o que foi feito. "- Agora desejo retirar-me - disse o general. - Estou finalmente livre? "O presidente levantou-se, designou três membros da assembléia para o acompanharem e subiu para a carruagem com o general, depois de lhe vendar os olhos. O cocheiro que os trouxera fazia parte do número desses três membros. "Os outros membros do clube separaram-se em silêncio. "- Aonde quer que o reconduzamos? - perguntou o presidente. "- A qualquer parte onde possa ficar livre da presença dos senhores - respondeu o Sr. de Epinay "- Senhor - disse então o presidente --, tome cautela: já não está na assembléia, tem apenas consigo homens isolados. Não os insulte, se não quer ter de assumir a responsabilidade do insulto. "Mas em vez de compreender esta linguagem, o Sr. de Epinay respondeu: "- O senhor é sempre tão valente na sua carruagem como no seu clube, pela simples razão de que quatro homens são sempre mais fortes do que um só. "O presidente mandou parar a carruagem. "Estavam precisamente à entrada do Cais dos Olmos, onde fica a escada que desce para o rio. "- Porque mandou parar aqui? - perguntou o Sr. de Epinay. "- Porque - respondeu o presidente - o senhor insultou um homem e esse homem não quer dar nem mais um passo sem lhe pedir lealmente uma reparação. "- Mais uma maneira de assassinar - perguntou o general, encolhendo os ombros. "- Deixemo-nos de palavreado, senhor - respondeu o presidente --, se não quer que o considere como um dos homens a que se referia há pouco, isto é, como um covarde que toma a sua fraqueza como escudo. está só e um só lhe responderá; tem uma espada ao lado e eu tenho outra nesta bengala; não tem testemunha, um destes senhores será a sua. Agora, se quiser, pode tirar a venda. "O general arrancou imediatamente o lenço que lhe cobria os olhos. "- até que enfim vou saber com quem estou metido! - exclamou. "Abriu-se a carruagem; os quatro homens apearam-se..." Franz interrompeu-se mais uma vez e enxugou o suor que lhe escorria da testa. Havia algo assustador em ver o filho, trêmulo e pálido, ler em voz alta os pormenores, até ali ignorados, da morte do pai. Valentine juntara as mãos como se rezasse. Noirtier olhava para Villefort com uma expressão quase sublime de desprezo e orgulho. Franz continuou: “ Estava-se, como dissemos, em 5 de Fevereiro. Havia três dias que nevava e a temperatura rondava os cinco ou seis graus. A escada encontrava-se coberta de gelo. O general era corpulento e alto e o presidente ofereceu-lhe o lado do corrimão para descer. " As duas testemunhas seguiam atrás. " A noite estava escura e o terreno, da escada ao rio, encontrava-se úmido de neve e geada. Via-se a água correr, negra e profunda, arrastando alguns pedaços de gelo. " Uma das testemunhas foi buscar uma lanterna a um barco de carvão, à luz da qual examinaram as armas. " A espada do presidente, que era apenas, como ele dissera, uma espada que trazia na bengala, era mais curta do que a do seu adversário e não tinha guarda. " O general propôs que se tirasse à sorte as duas espadas, mas o presidente respondeu que fora ele quem o desafiara e que ao desafiá-lo pretendera que cada um se servisse das suas armas. " As testemunhas tentaram insistir; o presidente impôs-lhes silêncio. " Pousaram a lanterna no chão; os dois adversários observaram-se de ambos os lados; o combate começou. " A luz transformava as duas espadas em relâmpagos. Quanto aos homens, mal se viam, de tal forma a escuridão era densa. " O general passava por ser uma das melhores lâminas do Exército. Mas atacou tão vivamente logo aos primeiros botes que escorregou, e escorregando caiu. " As testemunhas julgaram-no morto; mas o seu adversário, que sabia não lhe ter tocado, estendeu-lhe a mão para o ajudar a levantar-se. Esta circunstância, em vez de o acalmar, irritou o general, que se precipitou sobre o adversário. " Mas este não recuou um passo e recebeu-o na ponta da espada. Três vezes o general recuou, depois de se empenhar demasiado a fundo, e três vezes voltou à carga. " À terceira vez voltou a cair. " Julgaram que tivesse escorregado, como da primeira vez. No entanto, ao verem que se não levantava, as testemunhas aproximaram-se e tentaram po-lo de pé. Mas aquela que o segurava pela cintura sentiu na mão um calor úmido. Era sangue. " O general, que se encontrava quase desmaiado, recuperou os sentidos. "- Ah, mandaram-me algum espadachim, algum mestre-de-armas de regimento! - exclamou. " Sem responder, o presidente aproximou-se da testemunha que segurava na lanterna, arregaçou a manga e mostrou o braço perfurado em dois pontos pela espada do seu adversário. Em seguida, abriu a sobrecasaca, desabotoou o colete e mostrou o quadril dilacerado por terceiro ferimento. " Contudo, nem sequer soltara um suspiro. " O general de Epinay entrou em agonia e expirou passados cinco minutos..." Franz leu as últimas palavras com voz tão estrangulada que mal se puderam ouvir. Depois de as ler, deteve-se e passou a mão pelos olhos, como que para afastar uma nuvem. Mas, após um instante de silêncio, continuou: - “ O presidente voltou a subir a escada depois de meter a espada na bengala. Um rego de sangue assinalava a sua passagem na neve. "Ainda não chegara ao alto da escada quando ouviu um barulho abafado na água; era o corpo do general, que as testemunhas acabavam de lançar ao rio depois de verificarem a morte. “ O general sucumbiu portanto num duelo leal e não numa emboscada, como se poderia dizer. " E como prova assinamos a presente, para estabelecer a verdade dos fatos, com receio de que algum dia qualquer dos intervenientes nesta cena terrível possa ser acusado de assassínio com premeditação ou de infração às leis da honra. assinado: BEAUREGARD, DUCHAMPY e LECHARPAL." Quando Franz terminou a leitura, tão terrível para um filho, Valentine, pálida de emoção, enxugou uma lágrima e Villefort, trêmulo e encolhido a um canto, procurou conjurar a tempestade por meio de olhares suplicantes dirigidos ao velho implacável. Entretanto, Epinay dirigiu-se nestes termos a Noirtier. - Senhor, uma vez que conhece esta terrível história em todos os seus pormenores, visto a ter feito atestar por testemunhas fidedignas, e porque, finalmente, parece interessar-se por mim, embora o seu interesse só se tenha até agora revelado através da dor, não me recuse uma última satisfação, diga-me o nome do presidente do clube, para que eu conheça enfim aquele que matou o meu pobre pai. Villefort procurou, como que alucinado, o puxador da porta. Valentine, que adivinhara antes de qualquer outra pessoa a resposta do velho e que muitas vezes notara no antebraço do avô as cicatrizes de duas espadeiradas, recuou um passo. - Em nome do Céu, menina - pediu Franz, dirigindo-se à noiva -, junte-se a mim, para que eu saiba o nome do homem que me fez ôrfão aos dois anos! Valentine ficou imóvel e muda. - Ouça, senhor - interveio Villefort --, acredite no que lhe digo e não prolongue mais esta cena horrível. Aliás, os nomes foram ocultados de propósito. Nem mesmo o meu pai sabe quem era esse presidente, e ainda que o soubesse não o poderia revelar: os nomes próprios não se encontram no dicionário. - Que pouca sorte a minha! - exclamou Franz. - A única esperança que me amparou durante toda a leitura e me deu forças para ir até ao fim era saber ao menos o nome daquele que matou o meu pai! Senhor, senhor - suplicou, virandose para Noirtier --, em nome do Céu, faça o que lhe seja possível... veja se consegue, suplico-lhe, indicar-me, dar-me a entender... - Sim - respondeu Noirtier. - Menina, menina! - exclamou Franz. - O seu avô fez sinal de que podia indicar... esse homem... Ajude-me... compreende-o...dê-me a sua ajuda! Noirtier olhou o dicionário. Franz pegou-lhe a tremer nervosamente e pronunciou sucessivamente as letras do alfabeto até ao E. Ao ouvir esta letra, o velho fez sinal que sim. - E! - repetiu Franz. O dedo do jovem percorreu as palavras; mas a todas Noirtier respondia com um sinal negativo. Valentine ocultava o rosto entre as mãos. Por fim, Franz chegou à palavra EU. - Sim - indicou o velho. - O senhor?! - exclamou Franz, cujos cabelos se puseram em pé. - O Sr. Noirtier?... Foi o senhor que matou o meu pai? - Sim - respondeu Noirtier, cravando no rapaz um olhar majestoso. Franz caiu sem forças numa poltrona. Villefort abriu a porta e fugiu, pois ocorrera-lhe a idéia de sufocar a pouca existência que ainda restava no coração do terrível velho. Capítulo LXXVI Os progressos de Cavalcanti filho Entretanto, o Sr. Cavalcanti pai partira para retomar o serviço, não no exército de S. M. o imperador da Àustria, mas sim na roleta das termas de Luca, de que era um dos mais assíduos cortesãos. Desnecessário dizer que embolsara com a mais escrupulosa exatidão, ate ao último soldo, a importância que lhe fora concedida para a viagem e como recompensa pela forma majestosa e solene como desempenhara o seu papel de pai. O Sr. Andrea herdara, à sua partida, todos os documentos que provavam ter a honra de ser filho do marquês Bartolomeo e da marquesa Leanora Corsinari. Encontrava-se pois quase admitido na sociedade parisiense, tão pronta a receber os estrangeiros e a tratá-los não de acordo com o que são, mas sim de acordo com o que pretendem ser. De resto, que se pede a um rapaz em Paris? Que fale assim-assim a sua língua, que se vista convenientemente, que seja bom jogador e que pague em ouro. É claro que se é menos exigente com um estrangeiro do que com um parisiense. Andrea adquirira portanto em quinze dias uma excelente posição. Tratavam-no por “Sr. Conde", dizia-se que tinha cinquenta mil libras de rendimento e falava-se dos tesouros imensos do senhor seu pai, enterrados, dizia-se, nas pedreiras de Saravezza. Um perito diante do qual se mencionava esta última circunstância como um fato, declarou ter visto tais pedreiras, o que deu um grande peso a asserções que até então tinham pairado em estado de dúvida e que a partir dai adquiriram a consistência da realidade. As coisas encontravam-se neste pé no circulo da sociedade parisiense onde introduzimos os nossos leitores quando Monte-Cristo veio uma tarde visitar o Sr. Danglars. Este safra, mas propuseram ao conde ser recebido pela baronesa, que estava visível, o que ele aceitou. Não era nunca sem uma espécie de estremecimento nervoso que depois do jantar de Auteuil e dos acontecimentos subsequentes a Sra Danglars ouvia pronunciar o nome de Monte-Cristo. Se a presença do conde se não seguia ao anúncio do seu nome, a sensação dolorosa tornava-se mais intensa; mas se, pelo contrário, o conde aparecia, a sua fisionomia franca, os seus olhos brilhantes, a sua amabilidade e até a sua galanteria bastavam, no tocante à Sra Danglars, para expulsar rapidamente até à última impressão de receio. Parecia impossível à baronesa que um homem tão encantador à superfície pudesse alimentar maus desígnios contra ela. Aliás, os corações mais corrompidos só podem acreditar no mal desde que baseado em qualquer interesse; o mal inútil. e sem causa repugna como uma anomalia. Quando Monte-Cristo entrou no boudoir onde já uma vez introduzimos os nossos leitores e a baronesa seguia com olhar bastante inquieto os desenhos que a filha lhe passava depois de os ver com o Sr. Cavalcanti filho, a sua presença produziu o efeito habitual e foi sorrindo que, depois de se sentir um bocadinho perturbada ao ouvir o nome do visitante, a baronesa recebeu o conde. Este, pela sua parte, abarcou toda a cena num olhar. Junto da baronesa, e quase deitada num canapé, encontrava-se Eugênie. Cavalcanti estava de pé. Vestido de preto como um herói de Goethe, de sapatos de verniz e meias de seda branca bordadas, passava uma das mãos, suficientemente branca e razoavelmente tratada, pelos cabelos louros, no meio dos quais cintilava um diamante que, apesar dos conselhos de Monte-Cristo, o vaidoso jovem não resistira ao desejo de usar no dedo mendinho. O gesto era acompanhado de olhares assassinos lançados a Mademoiselle Danglars e de suspiros enviados na mesma direção dos olhares. Mademoiselle Danglars continuava a ser a mesma, isto é, bela, fria e trocista. Nenhum daqueles olhares nem nenhum daqueles suspiros de Andrea lhe escapavam. Mas diria-se que deslizavam pela couraça de Minerva, couraça que alguns filósofos pretendem cobrir por vezes o peito de Safo. Eugênie cumprimentou friamente o conde e aproveitou as dificuldades iniciais da conversa para se retirar para a sua sala de estudos, onde não tardaram a ouvir-se duas vozes risonhas e barulhentas de mistura com os primeiros acordes de um piano. Monte-Cristo ficou assim sabendo que Mademoiselle Danglars acabava de preferir à sua e à de Cavalcanti a companhia de Mademoiselle Louise de Armilly, sua professora de canto. Foi sobretudo então que, enquanto conversava com a Sr. Danglars e embora parecesse absorvido pelo encanto da conversa, o conde notou a solicitude do Sr. Andrea Cavalcanti e a sua maneira de ir escutar a música à porta, que não ousava transpor, e de manifestar a sua admiração. O banqueiro não tardou a regressar. O seu primeiro olhar foi para Monte-Cristo, é certo, mas o segundo foi para Andrea. Quanto à mulher, cumprimentou-a como certos maridos cumprimentam a esposa, isto é, de uma maneira de que os solteiros só poderão fazer idéia quando for publicado o código minucioso da conjugalidade. - Então aquelas meninas não o convidaram para tocar com elas? - perguntou Danglars a Andrea. - Infelizmente, não, senhor - respondeu Andrea, com um suspiro ainda mais profundo do que os outros. Danglars dirigiu-se imediatamente para a porta de comunicação e abriu-a. Viram-se então as duas moças sentadas no mesmo banco e diante do mesmo piano. Acompanhavam-se cada uma com uma das mãos, exercício a que se tinham habituado por brincadeira e se haviam tornado de uma perícia notável. Mademoiselle de Armilly, que formava com Eugênie, graças à moldura da porta, um desses quadros vivos muito em uso na Alemanha, era de uma beleza deveras notável, ou antes, de uma gentileza requintada. Era uma mulherzinha franzina e loura como uma fada, de comprido cabelo encaracolado que lhe caía sobre o pescoço um bocadinho alto, como Perugino retratava às vezes as suas virgens, e olhos velados pela fadiga. Dizia-se que tinha o peito fraco e que, como a Antônia do Violino de Cremona, morreria um dia a cantar. Monte-Cristo deitou àquele gineceu um olhar rápido e curioso. Era a primeira vez que via Mademoiselle de Armilly, de quem tantas vezes ouvira falar naquela casa. - Então estamos excluídos da função? - perguntou o banqueiro à filha. Em seguida levou o rapaz para a salinha e, quer por acaso, quer de propósito, a porta foi empurrada atrás de Andrea de maneira que do lugar onde se encontravam sentados Monte-Cristo e a baronesa não pudessem ver nada. Mas como o banqueiro acompanhara Andrea, a Sra Danglars nem sequer pareceu notar semelhante pormenor. Pouco depois o conde ouviu a voz de Andrea soar aos acordes do piano acompanhando uma canção corsa. Enquanto o conde escutava sorrindo a canção, que lhe fazia esquecer Andrea e recordar Benedetto, a Sra Danglars gabava a Monte-Cristo a força de alma do marido, que ainda naquela manhã perdera numa falência milanesa, trezentos ou quatrocentos mil francos. E, com eleito, o elogio era merecido. Porque se o conde não tivesse sabido do caso pela baronesa ou talvez por um dos meios que tinha de saber tudo, o rosto do barão nada lhe teria revelado a tal respeito. “Bom, começa a esconder o que perde. Há um mês, gabava-se ... ", pensou Monte-Cristo. Depois, em voz alta: - Mas, minha senhor, o Sr. Danglars conhece tão bem a Bolsa que recuperar sempre lá o que perder em outro lugar. - Vejo que labora no erro comum - perguntou a Sra Danglars. - E qual é esse erro? - perguntou Monte-Cristo. - O de que o Sr. Danglars joga, quando, pelo contrário, nunca joga. - Tem razão, minha senhora. Recordo-me de o Sr. Debray me haver dito... A propósito, que é feito do Sr. Debray? Há três ou quatro dias que o não vejo. - Nem eu - respondeu a Sra Danglars, com uma presença de espírito admirável. - Mas o senhor começou uma frase que ficou inacabada. - Qual? - Afirmava que o Sr. Debray lhe dissera... - Ah, é verdade? O Sr. Debray disse-me que era a senhora que sacrificava ao demônio do jogo. - Tive esse gosto durante algum tempo, confesso, mas não o tenho mais - declarou a Sra Danglars. - Pois faz mal, minha senhora. Meu Deus, as oportunidades da fortuna são tão precárias que se eu fosse mulher - e o acaso me tivesse tornado esposa de um banqueiro, por mais confiança que depositasse na sorte do meu marido (porque em especulação, como sabe, é tudo sorte e azar), repito; por mais confiança que depositasse na sorte do meu marido, começaria sempre por me garantir uma fortuna independente, ainda que para adquirir essa fortuna tivesse de confiar os meus interesses a mãos que lhe fossem desconhecidas. A Sra Danglars corou, a seu pesar. - Olhe - prosseguiu Monte-Cristo, como se não tivesse visto nada -, fala-se de um bom golpe dado ontem com títulos de Nápoles. - Não tenho - respondeu vivamente a baronesa --, nem nunca os tive. Mas parece-me que já falamos o suficiente de Bolsa, Sr. Conde. Parecemos dois corretores... Falemos um pouco dos pobres Villeforts, tão perseguido neste momento pela fatalidade. - Que lhes aconteceu? - perguntou Monte-Cristo com perfeita ingenuidade. - Então não sabe? Depois de perderem o Sr. de Saint-Méran, três ou quatro dias depois da sua partida, acabam de perder a marquesa, três ou quatro dias depois da sua chegada. - Ah, é verdade, soube disso! - declarou Monte-Cristo. - Mas como diz Clódio a Hamlet, trata-se de uma lei da natureza: os seus pais morreram antes deles e eles choraram-nos; eles morrerão antes dos seus filhos e os seus filhos os chorarão. - Mas isso não é tudo. - Como não é tudo? - Não. Como sabe, iam casar a filha... - Com o Sr. Franz de Epinay... Desfizeram o casamento? - Ontem de manhã, ao que parece, Franz restituiu-lhes a sua palavra. - Deveras?... E conhecem-se as causas desse rompimento? - Não. - Que notícias me dá, meu Deus! A Sra e o Sr. de Villefort como aceitaram todas essas desgraças? - Como sempre, com filosofia. Neste momento, Danglars voltou a entrar, sozinho. - Então deixou o Sr. Cavalcanti com a sua filha? - observou a baronesa. - E Mademoiselle de Armilly não é ninguém? - replicou o banqueiro. Depois, virando-se para Monte-Cristo: - Encantador rapaz, não é verdade? Refiro-me ao príncipe Cavalcanti... Mas ele é mesmo príncipe? - Não garanto - respondeu Monte-Cristo. - Apresentaram-me o pai como marquês; logo, ele seria conde. Mas creio que ele mesmo não tem grandes pretensões a esse título. - Porquê? - perguntou o banqueiro. - Se é príncipe, faz mal em não o dizer. A cada um o que lhe pertence. Não gosto que as pessoas reneguem a sua origem. - Mas o senhor é um democrata! - exclamou Monte-Cristo, sorrindo. - Veja ao que se expõe - observou a baronesa ao marido. Se o Sr. de Morcerf entrasse por acaso e encontrasse o Sr. Cavalcanti numa sala onde ele, noivo de Eugénie, nunca teve permissão de entrar... - Faz bem em dizer por acaso - replicou o banqueiro --, porque na verdade diria-se, tão raramente o vemos, que é de fato por acaso que ele aqui vem. - Enfim, se viesse e encontrasse esse rapaz com a nossa filha poderia não gostar. - Ele? Meu Deus, como está enganada! O Sr. Albert não nos dá a honra de ter ciúmes da sua noiva; não a ama o bastante para isso. De resto, que me importa que goste ou não goste? - No entanto, no ponto em que estamos ... - Sim, no ponto em que estamos. Quer saber no ponto em que estamos? No baile da mãe, ele dançou uma única vez com a minha filha, o Sr. Cavalcanti dançou três vezes com ela e ele nem sequer deu por isso. - O Sr. Visconde Albert de Morcerf! - anunciou um criado A baronesa levantou-se vivamente. Ia a dirigir-se para a sala de estudos, a fim de prevenir a filha, quando Danglars a deteve por um braço. - Deixe - disse-lhe. Ela olhou-o atônita. Monte-Cristo fingiu não ter visto nada. Albert entrou. Vinha elegante e alegre. Cumprimentou a baronesa à vontade, Danglars com familiaridade e Monte-Cristo com amizade. Depois, virando-se para a baronesa, perguntou: - Permite-me minha senhora, que lhe peça o favor de me dizer como está Mademoiselle Danglars? - Está ótima, senhor - respondeu vivamente Danglars. - Neste momento toca um pouco de música na sua salinha com o Sr. Cavalcanti. Albert conservou o seu ar calmo e indiferente. Talvez experimentasse algum despeito íntimo, mas sentia o olhar de Monte-Cristo fixo nele. - O Sr. Cavalcanti tem uma belíssima voz de tenor - disse - e Mademoiselle Eugênie é um magnífico soprano, sem contar que toca piano como Thalberg. Deve ser um agrável concerto. - De fato, harmonizam-se admiravelmente - acrescentou Danglars. Albert pareceu não notar a grosseira ambiguidade da frase, tão grosseira que a Sra Danglars corou. - Eu também sou músico - continuou o rapaz. - Pelo menos é o que dizem os meus professores... Pois, coisa estranha, até agora nunca consegui harmonizar a minha voz com qualquer outra, e com a voz dos sopranos ainda menos do que com as outras. Danglars esboçou um sorriso que significava: “Pois sim, mas acusaste o toque!" - Por isso - replicou, esperando sem dúvida chegar ao fim que pretendia --, o príncipe e a minha filha causaram ontem a admiração geral. Não esteve ontem no baile, Sr. de Morcerf? - Qual príncipe? - perguntou Albert. - O príncipe Cavalcanti - respondeu Danglars, que continuava a obstinar-se a dar este titulo ao rapaz. - Perdão, ignorava que fosse príncipe! - perguntou Albert. - Com que então o príncipe Cavalcanti cantou ontem com Mademoiselle Eugênie?... Na verdade, deve ter sido maravilhoso e lamento muito profundamente não ter ouvido. Mas não pude corresponder ao seu convite, tive de acompanhar a Sra de Morcerf a casa da baronesa de Château-Renaud, onde cantavam os alemães. E após um silêncio, como se nada se tivesse passado, insistiu: - Me será permitido apresentar os meus cumprimentos a Mademoiselle Danglars? - Oh, espere, espere, suplico-lhe! - interveio o banqueiro, detendo o jovem. - Ouça esta maravilhosa cavatina... Tá, tá, tá, ti,ti, ti!... Maravilhoso! está quase a terminar... é só um segundo. Perfeito! Bravo! Bravo! Brava! E o banqueiro desatou a aplaudir com frenesi. - Efetivamente - disse Albert --, é delicioso, e deve ser impossível alguém compreender melhor a música do seu país do que o príncipe Cavalcanti. Disse príncipe, não é verdade? Aliás, se não for príncipe, o farão príncipe; na Itália é fácil. Mas para voltarmos aos nossos adoráveis cantores, deveria proporcionarnos um prazer, Sr. Danglars: sem os prevenir de que está aqui um estranho, deveria pedir a Mademoiselle Danglars e ao Sr. Cavalcanti que cantassem outro trecho. É tão delicioso ouvir música um pouco afastado, na penumbra, sem ser visto, sem ver e, portanto, sem incomodar os músicos... e podermos nos entregar assim a todo o instinto do seu gênio ou a lodo o ímpeto do seu coração. Desta vez a fleuma do rapaz desarmou Danglars. Chamou Monte-Cristo à parte e perguntou-lhe: - Que me diz do nosso apaixonado? - Demônio, parece-me frio isso é incontestável... Mas que lhe quer fazer? O senhor está comprometido... - Claro que estou comprometido, mas prefiro dar a minha filha a um homem que a ame do que a um homem que a não ame. Veja-o: frio como mármore e orgulhoso como o pai. Se fosse rico, ainda vá; se tivesse a fortuna dos Cavalcanti, passaríamos por cima disso, mas assim... Ainda não consultei a minha filha, mas se ela tivesse bom gosto... - Não sei se será a minha amizade por ele que me cega - disse Monte- Cristo --, mas garanto-lhe que o Sr. de Morcerf é um jovem encantador, que fará a sua filha feliz e que mais tarde ou mais cedo será alguém. Porque, enfim, a posição do pai é excelente... - Hum! -- resmungou Danglars. - Porquê essa dúvida? - Há sempre o passado... aquele passado obscuro. - Mas o filho não tem nada a ver com o passado do pai. - Pois não, pois não! - Vamos, não perca a cabeça. Há um mês, achava este casamento excelente... Compreende, a minha situação é desagrável: foi em minha casa que o senhor viu o jovem Cavalcanti, que eu nem sequer conhecia, repito-lhe. - Conheço-o e isso me basta - perguntou Danglars. - Conhece-o? Quer dizer que tirou informações dele? - perguntou Monte- Cristo. - Acha necessário? Não se vê jogo à primeira vista com quem estamos tratando? Em primeiro lugar, é rico... - Não garanto. - Então porque responde por ele? - Cinquenta mil libras, uma miséria!... - Tem uma excelente educação. - Hum!... - resmungou por sua vez Monte-Cristo. - É músico. - Todos os italianos o são. - Olhe, conde, o senhor não é justo com esse rapaz. - Bom... confesso que veio com desgosto, sabendo dos seus compromissos com os Morcerfs, o rapaz vir assim meter-se de permeio e abusar da sua sorte. Danglars desatou a rir. - Oh, o senhor é puritano! - exclamou. - Mas estas coisas fazem-se todos os dias no mundo. - No entanto, não pode romper assim, meu caro Sr. Danglars. Os Morcerfs contam com esse casamento. - Contam?... - Positivamente. - Então, que se expliquem. O senhor deveria dizer umas palavrinhas a esse respeito ao pai, meu caro conde, visto ser tão bem recebido lá em casa. - Eu? Onde diabo viu o senhor isso? - No baile que eles deram, se me não engano... Então a condessa, a orgulhosa Mercedes, a desdenhosa catalã, que quase desdenha abrir a boca para dirigir a palavra aos seus mais velhos conhecimentos, não lhe deu o braço e saiu consigo para o jardim, não meteu pelas alamedas mais isoladas e não reapareceu passada apenas cerca de meia hora?... - Ah, barão, barão!... - interveio Albert. - O senhor impede-nos de ouvir. Num melômano como o senhor, que barbaridade! - Está bem, está bem, senhor trocista - perguntou Danglars. Depois, voltando-se para Monte-Cristo: - Encarrega-se de falar ao pai? - De boa vontade, se assim o deseja. -Mas que desta vez as coisas sejam feitas de maneira explícita e definitiva. Sobretudo que me peça a minha filha, que marque uma data, que declare as suas condições monetárias, enfim, que nos entendamos ou desentendamos. Mas, compreende, nada de mais adiamentos. - Pronto, falarei com ele. - Não lhe digo que espero com prazer que seja bem sucedido; mas enfim, espero-o. Um banqueiro, como sabe, deve ser escravo da sua palavra. E Danglars soltou um daqueles suspiros que soltava meia hora antes o jovem Cavalcanti. - Bravi! Bravo! Brava.! -- gritou Morcerf, parodiando o banqueiro aplaudindo o fim do trecho. Danglars começava a olhar Albert de esguelha quando lhe vieram dizer umas palavras em voz baixa. - Volto já - disse o banqueiro a Monte-Cristo: - Espere por mim. Talvez tenha alguma coisa a dizer-lhe daqui a pouco. E saiu. A baronesa aproveitou a ausência do marido para empurrar a porta da sala de estudos da filha, e todos viram endireitar-se, como que impelido por uma mola, o Sr. Andrea Cavalcanti, que estava sentado ao piano com Mademoiselle Eugênie. Albert cumprimentou sorrindo Mademoiselle Danglars, que, sem parecer de modo algum perturbada, lhe correspondeu com um cumprimento tão frio como de costume. Cavalcanti pareceu evidentemente embaraçado; cumprimentou Morcerf, que lhe retribuiu, o cumprimento com o ar mais impertinente do mundo. Depois, Albert começou a desfazer-se em elogios à voz de Mademoiselle Danglars e a lamentar que, atendendo ao que acabava de ouvir, lhe não tivesse sido possível assistir à festa da véspera... Cavalcanti, deixado entregue a si mesmo, afastou-se com Monte-Cristo. - Bom - disse a Sra Danglars basta de música e de cumprimentos; venham tomar chá. - Vem, Louise - disse Mademoiselle Danglars à amiga. Passaram à sala contígua, onde efetivamente o chá estava preparado. No momento em que começavam a deixar, à moda inglesa, as colheres nas xícaras, a porta abriu-se e Danglars reapareceu visivelmente muito agitado. Monte-Cristo, sobretudo, notou essa agitação e interrogou o banqueiro com a vista. - Acabo de receber o meu correio da Grécia... - disse Danglars. - Ah, ah! - exclamou o conde. - Foi por isso que vieram chamá-lo? - Foi. - Como está o rei Otão? - perguntou Albert no tom mais jovial que se possa imaginar. Danglars olhou-o de esguelha, sem lhe responder, e Monte-Cristo virou-se para esconder a expressão de piedade que acabava de lhe surgir no rosto e que se desvaneceu quase imediatamente. - Saímos juntos, não é verdade? - perguntou Albert ao conde. - Sim, se quiser - respondeu este. Albert não compreendeu o olhar que o banqueiro lhe deitou. Por isso, virando-se para Monte-Cristo, que compreendera perfeitamente, observou: - Viu como ele me olhou? - Vi - respondeu o conde. - Mas nota alguma coisa de especial no seu olhar? - Creio bem que sim. Que quer ele dizer com as suas notícias da Grécia? - Como quer que saiba? - Porque, segundo presumo, o senhor tem entendimentos no país. Monte-Cristo sorriu como sorriem sempre as pessoas quando querem dispensar-se de responder. - Olhe - disse Albert --, aí vem ele ter consigo. Enquanto felicito Mademoiselle Danglars pelo seu camafeu, o pai terá tempo de falar com o senhor... - Se vai felicitá-la, felicite-a ao menos pela sua voz - aconselhou Monte- Cristo. - Não, isso seria o que faria qualquer pessoa. - Meu caro visconde - disse Monte-Cristo --, o senhor tem a fatuidade da impertinência. Albert aproximou-se de Eugênie com o sorriso nos lábios. Entretanto, Danglars inclinou-se ao ouvido do conde. - O senhor deu-me um excelente conselho - cochichou. Existe uma história horrível relacionada com estes dois nomes: Fernand e Janina. - Ah, sim?!... - Sim. Depois lhe conto. Agora leve daqui o rapaz. Ficaria muito embaraçado se tivesse de falar neste momento com ele. - É o que vou fazer: levá-lo comigo. Ainda é preciso mandar-lhe o pai? - Agora, mais do que nunca. - Está bem. O conde fez um sinal a Albert. Ambos cumprimentaram as senhoras e saíram. Albert, com um ar perfeitamente indiferente para com o desdem de Mademoiselle Danglars; Monte- Cristo, reiterando à Sra Danglars os seus conselhos a respeito da prudência que deve ter a mulher de um banqueiro quanto a assegurar o seu futuro. O Sr. Cavalcanti ficou senhor do campo de batalha. Capítulo LXXVII Haydée Ainda mal os cavalos do conde tinham virado a esquina do bulevar e Albert se virava para Monte-Cristo e desatava a rir, mas de forma tão ruidosa que não podia deixar de ser um pouco forçada. - Bom, pergunto-lhe como o rei Carlos IX perguntava a Catarina de Médicis depois da S. Bartolomeu como acha que desempenhei o meu pequeno papel? - A que propósito? - perguntou Monte-Cristo. - Mas a propósito da instalação do meu rival em casa do Sr. Danglars. - Qual rival? - Homessa, qual rival?! O seu protegido, o Sr. Andrea Cavalcanti! - Oh, deixemo-nos de gracejos, visconde! Não protejo de modo algum o Sr. Andrea, pelo menos junto do Sr. Danglars. - O censuraria por isso se o rapaz necessitasse de proteção. Mas, felizmente para mim, pode passar sem ela. - Como, parece-lhe que ele faz a sua corte?... - Respondo-lhe: pelo menos deita olhos e modula sons de apaixonado; aspira à mão da orgulhosa Eugênie. Olhe, fiz um verso! Palavra de honra que não foi de propósito. Mas não interessa, repito-o: aspira à mão da orgulhosa Eugênie. - Que importa, se só pensam no senhor? - Não me diga isso, meu caro conde; atacam-me dos dois lados. - Como, dos dois lados? - Sem dúvida: Mademoiselle Eugênie mal me respondeu e Mademoiselle de Armilly, sua confidente, não me disse absolutamente nada. - Pois sim, mas o pai adora-o - observou Monte-Cristo. - Ele? Mas pelo contrário, cravou-me mil punhais no coração. Punhais que recolhem no punho, é certo, punhais de tragédia, mas que ele julgava realmente a sério. - O ciúme indica afeição. - Pois sim, mas não estou com ciúmes. - Ele está. - De quem? De Debray? - Não, do senhor. - De mim? Aposto que dentro de oito dias me fecha a porta na cara. - Engana-se, meu caro visconde. - Uma prova. - A quer? - Quero. - Estou encarregado de pedir ao Sr. Conde de Morcerf que faça uma diligência definitiva junto do barão. - Por quem? - Pelo próprio barão. - Oh! - exclamou Albert com toda a indolência de que era capaz. - Mas o senhor não fará isso, não é verdade, meu caro conde? - Engana-se, Albert, o farei porque o prometi. - Pronto - perguntou Albert com um suspiro -, parece que o senhor está absolutamente decidido a casar-me. - Estou decidido a estar de bem com todas as pessoas. Mas a propósito de Debray: nunca mais o vi na casa da baronesa. - Estão de relações cortadas. - Com a senhora? - Não, com o senhor. - Descobriu-se então alguma coisa? - Ah, que boa piada! - Acha que ele desconfiava? - inquiriu Monte-Cristo, com encantadora ingenuidade. - Ora essa!... De onde veio o senhor, meu caro conde? - Do Congo, se quiser. - Ainda não é suficientemente longe. - Quer dizer que não conheço os maridos parisienses? - Meu caro conde, os maridos são os mesmos em toda a parte. A partir do momento em que tenha estudado o indivíduo em qualquer país, conhece a espécie. - Mas então por que motivo se zangaram Danglars e Debray? Pareciam entender-se tão bem... - observou Monte-Cristo, com novo assomo de ingenuidade. - Ora aí está! Nesse caso entramos nos mistérios de Ìsis, e eu não sou iniciado. Quando o Sr. Cavalcanti filho for da família, pergunte-lhe isso. A carruagem parou. - Pronto, chegamos - disse Monte-Cristo. - São apenas dez e meia, suba. - De boa vontade. - A minha carruagem o levará. - Não, obrigado. O meu cupe deve ter-nos seguido. - De fato, vem aí - confirmou Monte-Cristo, apeando-se. Entraram ambos na casa. A sala estava iluminada e para lá se dirigiram. - Faça-nos chá, Baptistin - ordenou Monte-Cristo. Baptistin saiu sem abrir a boca. Passados dois segundos reapareceu com uma bandeja completamente servida e que, como as colações das mágicas, parecia saída do chão. - Na verdade - disse Morcerf --, o que admiro no senhor, meu caro conde, não é a sua riqueza; talvez haja pessoas mais ricas do que o senhor. Nem o seu espírito; Beaumarchais não tinha mais, mas tinha tanto. É a sua maneira de ser servido, sem que lhe respondam uma palavra, num minuto, num segundo, como se o adivinhassem, a forma como pede o que deseja e como o que deseja está sempre pronto. - O que diz é um pouco verdade. Conhecem os meus hábitos. Por exemplo, vai ver: não deseja fazer qualquer coisa enquanto bebe o seu chá? - Bom, apetece-me fumar... Monte-Cristo aproximou-se da campainha e tocou uma vez. Passado um segundo, abriu-se uma porta particular e apareceu Ali com dois chíbuques cheios de excelente tabaco turco. - É maravilhoso - confessou Morcerf. - Mas não, é tudo simples - perguntou Monte-Cristo. - Ali sabe que habitualmente, quando tomo chá ou café e fumo. Sabe que pedi chá, sabe que vim consigo, ouve-me chamá-lo, supõe por que motivo, e como é de um país onde a hospitalidade se exerce com o cachimbo, principalmente, em vez de um chíbuque trouxe dois. - Claro que se trata de uma explicação como qualquer outra; mas nem por isso é menos verdade que como o senhor não existe outro... Oh, mas que estou ouvindo?! E Morcerf inclinou-se para a porta, pela qual entravam efetivamente sons correspondentes aos de uma guitarra. - Palavra, meu caro visconde, que está votado à música esta noite; só escapou ao piano de Mademoiselle Danglars para cair na gusla de Haydée. - Haydée! Que nome adorável! Há portanto mulheres que se chamam realmente Haydée sem ser nos poemas de Lorde Byron? - Com certeza. Haydée é um nome muito raro na França, mas bastante comum na Albânia e no Epiro. É como se dissesse, por exemplo, castidade, pudor, inocência. Trata-se de uma espécie de nome de batismo, como dizem os seus Parisienses. - Oh, como é encantador! - exclamou Albert, como se esperasse ver as nossas francesas chamarem-se Mademoiselle Bondade, Mademoiselle Silêncio, Mademoiselle Caridade Cristã! - Imagine se Mademoiselle Danglars, em vez de se chamar Claire-Marie-Eugênie, como se chama, se chamasse Mademoiselle Castidade Pudor Inocência Danglars - apre! -, o efeito que isso não faria numa publicação de banhos! - Louco! - perguntou o conde. - Não graceje tão alto que Haydée poderá ouvi-lo. - E se zangaria? - Não - respondeu o conde, com o seu ar altivo. - É boa pessoa? - perguntou Albert. - Não se trata de bondade, mas sim de dever: uma escrava não se zanga com o seu senhor. - Vamos, não graceje o senhor agora! Porventura ainda há escravos? - Sem dúvida, uma vez que Haydée é a minha. - Com efeito, o senhor não faz nada nem é em nada como os outros. Escrava do Sr. Conde de Monte-Cristo! É uma posição na França. Da forma como o senhor espalha o dinheiro, é um lugar que deve valer cem mil escudos por ano. - Cem mil escudos! A pobre criança já possuiu mais do que isso. Veio de um mundo em que os tesouros são tantos que ao pé deles os das Mil e Uma Noites são bem pouca coisa. - É portanto realmente uma princesa? - Sem dúvida nenhuma, e até uma das maiores do seu país. - Já tinha imaginado. Mas como se tornou uma grande princesa escrava? - Como se tornou Dinis, o Tirano, professor primário? Acasos da guerra, meu caro visconde, caprichos da sorte. - E o seu nome é segredo? - É, para todas as outras pessoas. Mas para o senhor, caro visconde, que é um dos meus amigos e que se calará... Não é verdade que me promete calar-se? - Oh, palavra de honra! - Conhece a história do pax de Janina? - De Ali-Tebelin? Sem dúvida, pois foi ao seu serviço que o meu pai fez fortuna. - É verdade, tinha-me esquecido. - Bom, que era Haydée a Ali-tebelin? - Sua filha, muito simplesmente. - Como, filha de Ali-Pax ?! - E da bela Vasiliki. - E é sua escrava? - Oh, meu Deus, é! - Como é possível? - Ora essa, comprei-a ao passar um dia pelo Mercado de Constantinopla. - Esplêndido! Consigo, meu caro conde, não se vive, sonha-se. Agora ouça: é muito indiscreto o que vou lhe pedir... - Peça. - Mas uma vez que sai com ela, que a leva à Ópera... - E depois? - Posso arriscar-me a pedir-lhe isto? - O senhor pode arriscar-se a pedir-me tudo. - Nesse caso, meu caro conde, apresente-me à sua princesa. - Com muito prazer. Mas com duas condições. - Aceito-as antecipadamente. - A primeira é que não revelará a ninguém essa apresentação. - Muito bem! - Morcerf estendeu a mão. - Juro-o! - A segunda é que não lhe dirá que o seu pai serviu o dela. - Juro-o também. - Ótimo, visconde. Não se esquecerá desses dois juramentos? - Oh! - exclamou Albert. - Muito bem. Sei que é um homem de honra. O conde tocou de novo a campainha. Ali apareceu. - Previna Haydée - disse-lhe Monte-Cristo - de que vou tomar o café com ela e de-lhe a entender que peço licença para lhe apresentar um dos meus amigos. Ali inclinou-se e saiu. - Portanto, está combinado, nada de perguntas diretas caro visconde. Se desejar saber alguma coisa, pergunte-a a mim e eu perguntarei a ela. - Está combinado. Ali reapareceu pela terceira vez e manteve o reposteiro levantado para indicar ao amo e a Albert que podiam passar. - Entremos - disse Monte-Cristo. Albert passou a mão pelo cabelo e cofiou o bigode. O conde pegou o chapéu, calçou as luvas e precedeu Albert nos aposentos que Ali guardava como uma sentinela avançada e que defendiam como um posto as três criadas de quarto francesas, comandadas por Myrtho. Haydée esperava na primeira divisão, que era a sala, com os olhos muito abertos de surpresa. Porque era a primeira vez que outro homem além de Monte- Cristo penetrava nos seus aposentos. A jovem estava sentada num sofá, a um canto, com as pernas cruzadas debaixo do corpo, e fizera por assim dizer um ninho nos estofos de seda listrados e bordados, os mais ricos do Oriente. Junto dela encontrava-se o instrumento cujos sons a tinham denunciado. Eslava encantadora assim. Ao ver Monte-Cristo, levantou-se com o duplo sorriso de filha e amante que só ela possuía. Monte-Cristo aproximou-se e estendeu-lhe a mão, que ela, como de costume, beijou. Albert ficara ao pé da porta, dominado por aquela beleza estranha que via pela primeira vez e de que se não podia fazer qualquer idéia na França. - Quem me traz? - perguntou em romaico a jovem a Monte-Cristo. - Um irmão, um amigo, um simples conhecido ou um inimigo? - Um amigo - respondeu Monte-Cristo na mesma língua. - O seu nome? - O visconde Albert, o mesmo que tirei das mãos dos bandidos em Roma. - Em que língua quer que lhe fale? Monte-Cristo virou-se para Albert e perguntou-lhe: - Conhece o grego moderno? - Ai de mim, nem mesmo o grego antigo, meu caro conde! - respondeu Albert. - Nunca Homero e Platão tiveram mais fraco e, ouso até dizer, mais desdenhoso estudante. - Então - disse Haydée, provando com as suas próprias palavras que entendera a pergunta de Monte-Cristo e a resposta de Albert -, falarei em francês ou em italiano, se o meu senhor desejar que fale. Monte-Cristo refletiu um instante. - Falará em italiano - disse. Depois, virando-se para Albert: - É pena que não entenda o grego moderno ou o grego antigo, pois Haydée fala ambos admiravelmente. A pobre pequena vai ser obrigada a falar-lhe em italiano, o que talvez lhe dê uma falsa idéia a seu respeito. Em seguida fez um sinal de Haydée. - Seja bem-vindo, amigo, que vem com o meu senhor e amo - disse a jovem em excelente toscano, com a suave pronúncia romana que torna a língua de Dante tão sonora como a língua de Homero. - Ali, café e cachimbos! E Haydée fez com a mão sinal a Albert para se aproximar, enquanto Alia se retirava para cumprir as ordens da sua jovem ama. Monte-Cristo indicou a Albert dois bancos articulados e cada um foi buscar o seu, que trouxe para junto de uma espécie de mesinha cujo centro era ocupado por um narguilé e na qual se viam com profusão flores naturais, desenhos e álbuns de música. Ali regressou com o café e os chíbuques. Quanto ao Sr. Baptistin, aquela parte da casa estava-lhe vedada. Albert recusou o cachimbo que lhe apresentava o núbio. - Oh, aceite, aceite! - disse Monte-Cristo. - Haydée é quase tão civilizada como uma parisiense. O havano lhe é desagrável porque não aprecia os maus cheiros. Mas o tabaco do Oriente é um perfume, como sabe. Ali saiu. As xícaras de café estavam preparadas. Apenas se juntara, para Albert, um açucareiro. Monte-Cristo e Haydée tomavam a bebida árabe à moda dos árabes, isto é, sem açúcar. Haydée estendeu a mão e pegou com a ponta dos deditos rosados e afilados a xícara de porcelana do Japão, que levou aos lábios com o prazer ingênuo de uma criança que bebe ou come uma coisa de que gosta. Ao mesmo tempo, entraram duas mulheres com mais duas bandejas carregadas de gelados e sorvetes, que depositaram em cima de duas mesinhas destinadas a esse fim. - Meu caro anfitrião, e vós, signora - disse Albert em italiano --, desculpem a minha estupefação. Estou completamente aturdido, como é natural. Eis-me no Oriente, no verdadeiro Oriente, infelizmente não tal como o vi, mas sim tal como o sonhei em Paris. Ainda há pouco tinha a sensação de ouvir passar o ônibus e tocar as campainhas dos vendedores de limonadas... Oh, signora, que pena eu não falar grego! A sua conversação, juntamente com este ambiente feérico, me proporcionaria uma noite de que nunca mais me esqueceria. - Falo bastante bem o italiano para falar consigo, senhor - respondeu tranquilamente Haydée. - E farei o possível, se gosta do Oriente, para que o reencontre aqui. - De que posso falar? - perguntou baixinho Albert a Monte-Cristo. - De tudo o que quiser. Do seu país, da sua juventude, das suas recordações. Depois, se preferir, de Roma, de Nápoles ou de Florença. - Oh, não valeria a pena estar diante de uma grega para lhe falar de tudo o que falaria a uma parisiense! - protestou Albert. - Deixe-me falar-lhe do Oriente. - De fato, meu caro Albert, é a conversação que mais lhe agrada. Albert virou-se para Haydée. - Com que idade, signora, deixou a Grécia? - perguntou. - Aos cinco anos - respondeu Haydée. - E ainda se lembra da sua pátria? - Quando fecho os olhos, revejo tudo o que vi. Há dois olhares: o olhar do corpo e o olhar da alma. O olhar do corpo pode às vezes esquecer, mas o da alma lembra-se sempre. - E qual é o tempo mais distante de que se recorda? - Mal andava. A minha mãe, que se chamava Vasiliki (Vasiliki quer dizer real) - acrescentou a jovem, erguendo a cabeça. - A minha mãe pegava-me na mão e, ambas cobertas com um véu, depois de metermos na bolsa todo o ouro que possuíamos, íamos pedir esmola para os prisioneiros dizendo: “Quem dá aos pobres, empresta a Deus." Depois, quando tínhamos a bolsa cheia, regressavamos ao palácio e, sem dizer nada ao meu pai, mandavamos todo o dinheiro que nos tinham dado, tomando-nos por pobres mulheres, ao superior do convento, que o distribuía entre os prisioneiros. - E nessa época que idade tinha? - Três anos - respondeu Haydée. - Então, lembra-se de tudo o que se passou à sua volta a partir dos três anos? - De tudo. - Conde - disse baixinho Morcerf a Monte-Cristo --, devia permitir à signora que nos contasse um pouco da sua história. Proibiu-me de lhe falar do meu pai, mas talvez ela me fale dele, e não imagina quão feliz seria ouvindo sair o seu nome de tão bonita boca. Monte-Cristo virou-se para Haydée, e com um franzir de sobrolho indicativo de que devia conceder a maior atenção à recomendação que lhe ia fazer, disselhe em grego: - Conte-nos o destino do teu pai, mas não digas o nome do traidor nem fales da traição. Haydée soltou um longo suspiro e uma nuvem escura passou-lhe pela fronte tão pura. - Que lhe disse? - perguntou Morcerf em voz baixa. - Repeti-lhe que o senhor é um amigo e que não tem de se coibir na sua presença. - Portanto - disse Albert --, esse remoto peditório para os prisioneiros é a sua primeira recordação. Qual é a outra? - A outra? Vejo-me à sombra dos sicômoros, junto de um lago de que distingo ainda, através da folhagem, o espelho trêmulo. O meu pai estava sentado em coxins ao pé do mais velho e frondoso, e eu, fraca criança, enquanto a minha mãe estava deitada aos pés do marido, brincava com a barba branca do meu progenitor, que lhe descia até ao peito. E com o canjar de punho de diamantes que trazia à cintura. Depois, de vez em quando, aproximava-se dele um albanês que lhe dizia algumas palavras a que eu não prestava atenção e às quais ele respondia no mesmo tom de voz: “matem!", ou: “perdoem!" - É estranho - observou Albert - ouvir sair tais coisas da boca de uma jovem, sem ser num teatro. Ao mesmo tempo, dizia para consigo: “Isto não é ficção." E em seguida perguntou: - Comparados com esse ambiente tão poético e com esse passado maravilhoso, como acha a França? - Creio que é um belo país - respondeu Haydée. - Mas eu vejo a França tal como é, porque a vejo com olhos de mulher, ao passo que me parece, pelo contrário, que o meu país, que só vi com olhos de criança, está sempre envolto numa neblina luminosa ou sombria, conforme os meus olhos a vêem como uma doce pátria ou como um lugar de amargos sofrimentos. - Tão jovem já signora - disse Albert, cedendo, mal-grado seu, ao poder da banalidade -, como pode ter sofrido? Haydée olhou para Monte-Cristo, que, fazendo um sinal imperceptível, murmurou: - Conta. - Nada compõe o fundo da alma como as primeiras recordações, e, excetuando as duas que acabo de lhe referir, todas as recordações da minha juventude são tristes. - Fale, fale, signora - pediu Albert --, pois juro-lhe que a escuto com inexprimível prazer. Haydée sorriu tristemente. - Quer então que passe às minhas outras recordações?... - perguntou. - Suplico-lhe - respondeu Albert. - Pois bem, tinha quatro anos quando, uma noite, fui acordada por minha mãe. Estavamos no palácio de Janina. Ela pegou-me dos coxins onde eu dormia e quando abri os olhos vi os seus cheios de grossas lágrimas. "Levou-me sem dizer nada. "Ao vê-la chorar, eu ia chorar também. "- Silêncio, filha! - disse-me ela. "Muitas vezes, apesar das consolações ou das ameaças maternas, eu, caprichosa como todas as crianças, continuava a chorar. Mas desta vez havia na voz da minha pobre mãe tal intonação de terror que me calei imediatamente. "Ela levava-me rapidamente. "Vi então que descíamos uma escada larga. Diante de nós, todas as criadas da minha mãe, com cofres, saquinhos, objetos de adorno, jóias e bolsas de ouro desciam a mesma escada, ou antes, precipitavam-se por ela. "Atrás das mulheres vinha uma guarda de vinte homens armados de compridas espingardas e pistolas e envergando aquele traje que os senhores conhecem na França desde que a Grécia voltou a ser uma nação. "Havia algo de sinistro, acredite - acrescentou Haydée, abanando a cabeça e empalidecendo só de rememorar tais acontecimentos --, naquela longa fila de escravas e mulheres meio entorpecidas pelo sono, ou pelo menos assim me parecia, pois talvez julgasse os outros adormecidos por estar mal acordada. "Na escada corriam sombras gigantescas, que os archotes de abeto faziam tremer nas abôbadas. "- Despachem-se! - gritou uma voz ao fundo da galeria. "Aquela voz fez curvar todas as pessoas, tal como o vento ao passar pela planície faz curvar um campo de espigas. “A mim fez-me estremecer. "Aquela voz era a do meu pai. "Vinha atrás, envergando os seus esplêndidos trajes e empunhando uma carabina que o vosso imperador lhe oferecera; e, ajudado pelo seu favorito Selim, levava-nos adiante de si como um pastor leva um rebanho tresmalhado. "O meu pai - disse Haydée, erguendo a cabeça - era um homem ilustre que a Europa conheceu sob o nome de Ali-Tebelin, pax de Janina, e diante do qual a Turquia tremeu. Sem saber porquê, Albert estremeceu ao ouvir estas palavras, proferidas com indefinível acento de altivez e dignidade. Pareceu-lhe que algo sombrio e assustador brilhava nos olhos da jovem quando, qual pitonisa que evoca um fantasma, recordou a figura sangrenta, cuja morte terrível tornou gigantesca aos olhos da Europa contemporânea. - Em breve - continuou Haydée - a corrida se deteve. Estavamos ao fundo da escada e à beira de um lago. A minha mãe apertava-me ao peito ofegante, e vi, dois passos atrás, meu pai, que deitava para todos os lados olhares inquietos. "Diante de nós estendiam-se quatro degraus de mármore, e ao fundo do último degrau balançava uma barca. "De onde estavamos via-se no meio do lago uma massa escura; era o quiosque para onde íamos. "O quiosque parecia-me encontrar-se a uma distância considerável, talvez devido à obscuridade. "Nos metemo-nos na barca. Lembro-me de que os remos não faziam nenhum ruído ao tocar na água. Inclinei-me para os ver: estavam envoltos nas faixas dos nossos palicários. "Na barca, além dos remadores, só seguiam mulheres, meu pai, minha mãe, Selim e eu. "Os palicários tinham ficado à beira do lago, ajoelhados no último degrau e utilizando os outros três como parapeito para o caso de serem atacados. "A nossa barca voava como o vento. "- Porque vai a barca tão depressa? - perguntei à minha mãe. "- Quieta, minha filha - respondeu-me ela. - É porque fugimos. "Não compreendi. Porque fugia o meu pai, o homem todo-poderoso diante do qual habitualmente fugiam os outros e que tomara como divisa: Odeiam-me, portanto temem-me? "Com efeito, era uma fuga o que o meu pai empreendia através do lago. Disse-me depois que a guarnição do castelo de Janina, cansada de um longo período de serviço... Aqui, Haydée pousou o seu olhar expressivo em Monte-Cristo, que não tirava os olhos dela. Em seguida continuou lentamente, como quem inventa ou suprime. - Dizia, signora - interveio Albert, que prestava a maior atenção à narrativa - -, que a guarnição de Janina, cansada de um longo período de serviço... - Se entendera com o serasqueiro Kurchid, enviado pelo sultão para se apoderar do meu pai. Fora então que o meu pai resolvera retirar-se, depois de enviar ao sultão um oficial francês em quem depositava toda a confiança, para o retiro que ele próprio preparara havia muito tempo e a que chamava kataplrygion, ou seja, o seu refúgio." - E lembra-se do nome desse oficial, signora? - perguntou Albert. Monte-Cristo trocou com a jovem um olhar rápido como um relâmpago, mas que passou despercebido a Morcerf. - Não, não me recordo - respondeu ela. - Mas talvez tarde me recorde e então lhe direi. Albert ia pronunciar o nome do pai, quando Monte-Cristo levantou devagar o dedo em sinal de silêncio. O jovem lembrou-se do seu juramento e calou-se. - Era para o quiosque que vogavamos. "Um térreo ornado de arabescos e com os terraços ao nível da água, e um primeiro andar que dava para o lago, era tudo o que o palácio oferecia de visível à vista. "Mas por baixo do térreo e prolongando-se pela ilha ficava um subterrâneo, uma grande caverna para onde nos levavam, minha mãe, eu e as nossas criadas, e se amontoavam sessenta mil bolsas e duzentos barris. Nas bolsas havia vinte e cinco milhões em ouro e nos barris trinta mil libras de pólvora. "Selim, o favorito do meu pai de quem já lhe falei, velava dia e noite junto dos barris, tendo na mão uma lança na ponta da qual ardia uma mecha. Tinha ordem de fazer ir tudo pelo ar, quiosque, guardas, pax , mulheres e ouro, ao primeiro sinal do meu pai. "Recordo-me de que as nossas escravas, conhecedoras daquela temível vizinhança, passavam os dias e as noites rezando, chorando e gemendo. "Quanto a mim, não me sai da retina o jovem soldado pálido e de olhos negros, e quando o anjo da morte descer até mim, estou certa de que reconhecerei Selim. "É-me impossível dizer quanto tempo ficamos assim. Nessa época, ainda ignorava o que era o tempo. às vezes, mas raramente, meu pai mandava-nos chamar, a minha mãe e a mim, ao terraço do palácio. Eram as minhas horas de recreio, à margem daquelas em que só via no subterrâneo sombras gemebundas e a lança acesa de Selim. Sentado diante de uma grande abertura, meu pai observava com olhar sombrio as profundezas do horizonte, e especialmente cada ponto negro que aparecia no lago, enquanto a minha mãe, semideitada junto dele, apoiava a cabeça no seu ombro e eu brincava a seus pés, admirando com os exageros da infância, que aumentam ainda mais os objetos, as escarpas do Pindo, que se erguiam no horizonte, os palácios de Janina, que safam brancos e angulosos das águas do lago, e os imensos tufos de verdura escura, presos como líquenes às rochas da montanha, que de longe pareciam musgos, mas de perto eram abetos gigantescos e mirtos infindáveis. "Uma manhã, meu pai mandou-nos chamar. O encontramos bastante calmo, mas mais pálido do que de costume. "- Tem paciência, Vasiliki, hoje tudo ficará resolvido. Hoje chega o irmão do sultão e a minha sorte será decidida. Se o perdão for completo, regressaremos triunfantes a Janina; se as notícias forem más, fugiremos esta noite. "- E se não nos deixam fugir? - perguntou a minha mãe. "- Oh, fique tranquila - respondeu Ali, sorrindo. - Selim e a sua lança acesa se encarregarão deles, gostariam de me ver morto, mas com a condição de não morrerem comigo. "A minha mãe respondeu apenas com suspiros às suas palavras de conforto, que não partiam do coração do meu pai. "Ela preparou-lhe a água gelada que ele bebia a cada instante, pois desde que se retirara para o quiosque era devorado por uma febre ardente; perfumou-lhe a barba branca e acendeu-lhe o chíbuque, cujo fumo volatilizando-se no ar ele seguia às vezes durante horas inteiras, distraidamente, com os olhos. "De súbito, fez um gesto tão brusco que me assustou. "Depois, sem desviar os olhos do ponto de que fixava com atenção, pediu o óculo. "A minha mãe passou-lhe, mais branca do que o estuque a que se encostava. "Vi a mão do meu pai tremer. "- Uma barca!... Duas!... Três!... - murmurou o meu pai. - Quatro!... "E levantou-se, pegou nas suas armas e deitou, lembro-me perfeitamente, pólvora na caçoleta das pistolas. "- Vasiliki - disse a minha mãe, tremendo visivelmente -, chegou o instante que vai decidir de nós. Dentro de meia hora saberemos a resposta do Sublime Imperador. Retire-se para o subterrâneo com Haydée. "- Não te quero deixar - perguntou Vasiliki. - Se morrer, meu senhor, quero morrer contigo. "- Vai para junto de Selim! - gritou o meu pai. "- Adeus, senhor - murmurou minha mãe, obedecendo, dobrada em duas, como se esperasse a aproximação da morte. "- Levem Vasiliki - ordenou meu pai aos seus palicários. "Mas eu, de quem se esqueciam, corri para ele e estendi-lhe as mãos. Ele viu-me, inclinou-se para mim e beijou-me na testa. "Oh, esse beijo foi o último e ainda o sinto na testa! "Quando descemos distinguimos através das latadas do terraço as barcas que iam aumentando de tamanho no lago e que, semelhantes pouco antes a pontos negros, pareciam agora aves rasando a superfície das ondas. "Entretanto, no quiosque, vinte palicários, sentados aos pés de meu pai e escondidos pelos madeiramentos, espiavam com olhos raiados de sangue a chegada dos barcos e tinham junto de si grandes espingardas incrustadas de madrepérola e prata; no parque encontravam-se espalhados numerosos cartuchos. Meu pai consultava o relógio e passeava angustiado. "Foi isso que mais me impressionou quando deixei meu pai depois de me dar o último beijo que recebi dele. "Atravessamos, minha mãe e eu, o subterrâneo. Selim continuava no seu posto. Sorriu-nos tristemente. Fomos buscar almofadas ao outro lado da caverna e viemos sentar-nos junto de Selim. Nos grandes perigos, procuram-se os corações dedicados e, apesar de muito criança, sentia instintivamente que uma grande desgraça pairava sobre a nossa cabeça. Albert ouvira muitas vezes contar, não pelo pai, que nunca falava disso, mas sim por estranhos, os últimos momentos do vizir de Janina. Também lera diversas narrativas da sua morte. Mas aquela história, tornada viva na pessoa e pela voz da jovem, aquele tom expressivo e aquela lamentável elegia, penetravam-no simultaneamente de um encanto e de um horror inexprimíveis. Quanto a Haydée, toda entregue a tão terríveis recordações, calara-se por instantes. A sua cabeça, como uma flor que se verga em dia de tempestade, estava inclinada sobre uma das mãos, e os seus olhos, vagamente perdidos, pareciam ver ainda no horizonte o Pindo verdejante e as águas azuis do lago de Janina, espelho m gico que reflectia o quadro sombrio que ela esboçava. Monte-Cristo olhava-a com indefinível expressão de interesse e piedade. - Continua, minha filha - disse o conde em língua romaica. Haydée ergueu a cabeça como se as palavras sonoras que Monte-Cristo acabara de pronunciar a tivessem arrancado a um sonho e prosseguiu: - Eram quatro da tarde. Mas embora o dia estivesse límpido e brilhante lá fora, nós estavamos mergulhados na sombra do subterrâneo. "Uma única claridade brilhava na caverna, semelhante a uma estrela tremeluzente no fundo de um céu negro: a mecha de Selim. A minha mãe, que era cristã, rezava. "Selim repetia de vez em quando estas palavras consagradas: "Deus é grande!" "No entanto, a minha mãe ainda tinha alguma esperança. Ao descer julgara reconhecer o francês que fora enviado a Constantinopla e no qual o meu pai depositava toda a confiança, pois sabia que os soldados do sultão francês eram geralmente nobres e generosos. Minha mãe deu alguns passos para a escada e escutou. "- Aproximam-se - disse ela. - Oxalá tragam a paz e a vida. "- Que receias, Vasiliki? - perguntou-lhe Selim, na sua voz tão suave e ao mesmo tempo tão orgulhosa. - Se não trouxerem a paz, lhes daremos a morte. "E espevitou a chama da lança com um gesto que o assemelhava ao Dionisos da antiga Creta. "Mas eu, que era tão criança e tão ingênua, tinha medo daquela coragem que me parecia feroz e insensata, e horrorizava-me a morte terrível que pairava no ar e na chama. "A minha mãe experimentava as mesmas impressões, porque sentia-a tremer. "- Meu Deus! Meu Deus, mãezinha! - gritava. - Vamos morrer? "E perante os meus gritos, os choros e as preces das escravas redobravam. "- Criança - respondeu-me Vasiliki --, Deus te defenda de vir a desejar a morte que hoje teme! "Depois, baixinho: "- Selim, qual é a ordem do senhor? - perguntou. "- Se me enviar o seu punhal, será sinal de que o sultão recusa perdoar-lhe e pego o fogo; se me mandar o seu anel, é porque o sultão lhe perdoa e deixo a pólvora. "- Amigo - prosseguiu a minha mãe--, quando a ordem do senhor chegar, se for o punhal que enviar, em vez de nos matares a ambas dessa maneira que nos horroriza, te estenderemos o pescoço e nos matará com o punhal. "- Sim, Vasiliki - respondeu tranquilamente Selim. "De súbito, ouvimos como que grandes gritos. Escutamos: eram gritos de alegria. Ouvia-se o nome do francês que fora enviado a Constantinopla repetido pelos nossos palicários. Era evidente que trazia a resposta do Sublime Imperador e que essa resposta era favorável. - E não se lembra do nome desse francês? - perguntou Morcerf, pronto a ajudar a memória da narradora. Monte-Cristo fez-lhe um sinal. - Não, não me lembro - respondeu Haydée, que prosseguiu: - O barulho aumentava. ouviam-se passos cada vez mais próximos. Desciam os degraus do subterrâneo. "Selim preparou a lança. "Não tardou a aparecer uma sombra no crepúsculo azulado formado pelos raios do Sol que penetravam até à entrada do subterrâneo. "- Quem é você? - gritou Selim. - Mas seja quem for, não dê mais um passo. "- Glória ao Sultão! - gritou o homem. - Foi concedido perdão completo ao vizir Ali. E não só tem a vida salva, como ainda lhe restituem a sua fortuna e os seus bens. " A minha mãe soltou um grito de alegria e apertou-me ao coração. "- Pare! - gritou-lhe Selim, vendo que ela corria já para a saída. - Bem sabe que me falta o anel. "- Tem razão - concordou minha mãe, e ao mesmo tempo que cala de joelhos erguia-me para o céu, como se não lhe bastasse pedir a Deus por mim e quisesse ainda aproximar-me dele. E Haydée deteve-se pela segunda vez, dominada por tal emoção que o suor lhe escorria da testa pálida e a voz estrangulada parecia não conseguir sairlhe da garganta ressequida. Monte-Cristo deitou um pouco de água gelada num copo e ofereceu-lho, ao mesmo tempo que dizia com uma doçura em que se notavam laivos de ordem: - Coragem, minha filha! Haydée limpou os olhos e a testa e continuou: - Entretanto, os nossos olhos, habituados ao escuro, tinham reconhecido o enviado do pax : era um amigo. "Selim reconhecera-o, mas o corajoso rapaz só sabia uma coisa: obedecer! "- Em nome de quem vem? - perguntou. "- Venho em nome do nosso amo, Ali-Tebelin. "- Se vens em nome de Ali, sabe o que me deve entregar? "- Sei e te trago o seu anel - respondeu o enviado. "Ao mesmo tempo, ergueu a mão acima da cabeça. Mas estava demasiado longe e não havia luz suficiente para que Selim pudesse, de onde estavamos, distinguir e reconhecer o objeto que lhe apresentavam. "- Não vejo o que tem na mão - disse Selim. "- Aproxime-se ou me aproximarei eu - sugeriu o mensageiro. "- Nem um nem outro - respondeu o jovem soldado. - Põe aí onde está e debaixo desse raio de luz o objeto que me mostra e retire-se até eu o ver. "- Seja - disse o mensageiro. "E retirou-se, depois de colocar o sinal de reconhecimento no lugar indicado. "O nosso coração palpitava. Porque o objeto nos parecia ser efetivamente um anel. Mas seria o anel do meu pai? "Selim, empunhando sempre a mecha acesa, aproximou-se da abertura, inclinou-se radiante sob os raios de luz e apanhou o sinal. "- O anel do senhor - disse, beijando-o. - Muito bem. "E deitando a mecha ao chão, calcou-a e apagou-a. "O mensageiro soltou um grito de alegria e bateu as mãos. A este sinal, quatro soldados do serasqueiro Kurchid acorreram e Selim caiu atingido por cinco punhaladas. Cada um dera a sua. "E depois, ébrios do crime que tinham cometido, embora pálidos de medo, percorreram o subterrâneo, procurando por toda a parte se havia fogo e rebolando-se sobre os sacos de ouro. "Entretanto, a minha mãe tomou-me nos braços e, ágil, metendo por sinuosidades só nossas conhecidas, chegou a uma escada oculta do quiosque, no qual reinava um tumulto medonho. "As salas de baixo estavam inteiramente ocupadas pelos tchodoares de Kurchid, isto é, pelos nossos inimigos. "No momento em que a minha mãe ia empurrar a portinha, ouvimos soar, terrível e ameaçadora, a voz do pax . "A minha mãe colou um olho às fendas das tábuas; uma abertura ficou, por acaso diante de mim e olhei. "- Que quer? - perguntava o meu pai a uns homens que tinham um papel com caracteres dourados na mão. "- O que queremos - respondeu um deles -- é comunicare a vontade de Sua Alteza. Vê este firmão? "- Vejo - respondeu o meu pai. "- Então, leia-o. Pede a tua cabeça. "Meu pai soltou uma gargalhada, mais assustadora do que se fosse uma ameaça. Ainda se não calara quando dois tiros partiram das suas mãos e mataram dois homens. "Os palicários, que estavam deitados à volta do meu pai, de cara para o chão, levantaram-se então e fizeram fogo. A sala encheu-se de barulho, chamas e fumo. "No mesmo instante o fogo começou do outro lado e as balas vieram perfurar as tábuas à nossa volta. "Oh, como era belo, como era grande, o vizir Ali-Tebelin, meu pai, no meio das balas, de cimitarra em punho e o rosto negro de pólvora! Como os seus inimigos fugiam! "- Selim! Selim! Guarda do fogo, cumpre o teu dever! - gritava. "- Selim morreu! - respondeu uma voz que parecia sair das profundezas do quiosque. - E você, meu senhor Ali, está perdido! "Ao mesmo tempo, ouviu-se uma detonação abafada e o pavimento voou em pedaços a toda a volta do meu pai. " Os tchodoares disparavam através do parque. Três ou quatro palicários caíram, atingidos de baixo para cima, com ferimentos por todo o corpo. "O meu pai rugiu, meteu os dedos nos buracos das balas e arrancou uma tábua inteira. "Mas ao mesmo tempo, por essa abertura soaram vinte tiros e as chamas, como se saíssem da cratera de um vulcão, alcançaram as tapeçarias, que devoraram. "No meio de todo aquele tumulto horrível, no meio daqueles gritos terríveis, dois tiros mais distintos do que os outros e dois gritos mais dilacerantes do que quaisquer outros gelaram-me de terror. As duas explosões tinham atingido mortalmente o meu pai e fora ele que soltara os dois gritos. "No entanto, tinha ficado de pé, agarrado a uma janela. Minha mãe sacudia a porta para ir morrer com ele, mas a porta estava fechada por dentro. "À volta dele, os palicários contorciam-se nas convulsões da agonia; dois ou três, que não estavam feridos ou o estavam apenas ligeiramente, atiraram-se das janelas. Ao mesmo tempo, todo o pavimento estalou, quebrado por baixo. Meu pai caiu sobre um joelho. Imediatamente se estenderam vinte braços armados de sabres, pistolas e punhais, e vinte golpes atingiram simultaneamente um só homem. Meu pai desapareceu num turbilhão de fogo ateado por aqueles demônios rugidores, como se o Inferno se lhe tivesse aberto debaixo dos pés. “Senti-me cair no chão; era a minha mãe que perdia os sentidos. Haydée deixou cair os braços, soltou um gemido e olhou o conde, como se lhe perguntasse se estava satisfeito com a sua obediência. O conde levantou-se, aproximou-se dela, pegou-lhe na mão e disse-lhe em romaico: - Descansa, querida filha, e ganha coragem pensando que há um Deus que castiga os traidores. - Uma história espantosa, conde - disse Albert, muito preocupado com a palidez de Haydée. - já estou arrependido de ter sido tão cruelmente indiscreto. - Isto não é nada - respondeu Monte-Cristo. Depois, pôs a mão na cabeça da jovem e acrescentou: - Haydée é uma mulher corajosa e encontra por vezes alívio falando dos seus sofrimentos. - Porque, meu senhor - disse vivamente a jovem -, porque os meus sofrimentos me recordam os teus benefícios. Albert olhou-a com curiosidade, porque ela ainda não contara o que mais desejava saber, isto é, como se tornara escrava do conde. Haydée viu expresso o mesmo desejo, tanto nos olhos do conde como nos de Albert. E continuou: - Quando a minha mãe recuperou os sentidos, estavamos diante do serasqueiro. “- Mata-me - disse ela --, mas poupa a honra da viúva de Ali. "- Não é a mim que te deve dirigir - perguntou Kurchid. "- Então a quem? "- Ao teu novo senhor. "- Quem é? "- Ei-lo. “E Kurchid indicou-nos um daqueles que mais tinham contribuído para a morte do meu pai - acrescentou a jovem, com uma cólera sombria. - Tornaram-se então propriedade desse homem? - perguntou Albert. - Não - respondeu Haydée. - Não ousou conservar-nos e vendeu-nos a negociantes de escravos que iam para Constantinopla. Atravessamos a Grécia e chegamos quase moribundas à porta imperial, cheia de curiosos, que se afastavam para nos deixar passar. De súbito, a minha mãe seguiu com a vista a direção dos seus olhares, soltou um grito e caiu, ao mesmo tempo que me mostrava uma cabeça por cima da porta. Por baixo da cabeça encontravam-se escritas estas palavras: “Esta é a cabeça de Ali-Tebelin, pax de Janina." "Tentei, chorando, levantar minha mãe; estava morta! "Levaram-me para o bazar. Um rico armênio comprou-me, mandou-me educar, deu-me professores, e quando fiz treze anos vendeu-me ao sultão Mahmud. - A quem - interveio Monte-Cristo a resgatei; como já lhe disse, Albert, em troca da esmeralda idêntica àquela onde guardo as minhas pastilhas de haxixe. - Oh, você é bom, você é grande, meu senhor! - exclamou Haydée, beijando a mão de Monte-Cristo. - E sou muito feliz por lhe pertencer! Albert ficara aturdido com o que acabava de ouvir. - Acabe a sua xícara de café - disse-lhe o conde. - A história terminou. capítulo LXXVIII Escrevem-nos de Janina Franz saíra do quarto de Noirtier tão cambaleante e desorientado que a própria Valentine tivera compaixão dele. Villefort, que apenas articulara algumas palavras sem sentido e se metera no seu gabinete, recebeu duas horas mais tarde a seguinte carta: “Depois do revelado esta manhã, o Sr. Noirtier de Villefort não acha possível uma aliança entre a sua família e a do Sr. Franz de Epinay. O Sr. Franz de Epinay, pela sua parte, considera horrível que o Sr. Villefort, que parecia conhecer os acontecimentos revelados esta manhã, o não tenha prevenido a tal respeito." Quem visse naquele momento o magistrado vergado ao golpe que o atingira não acreditaria que o previsse. Com efeito, nunca lhe passaria pela cabeça que o pai levasse a franqueza, ou antes a rudeza, ao ponto de contar semelhante história. Verdade seja que o Sr. Noirtier, que não ligava grande importância à opinião do filho, nunca se preocupara em esclarecer o caso aos olhos de Villefort, e que este sempre acreditara que o general de Quesnel ou o barão de Epinay, como se lhe quisesse chama, tratando-o pelo nome com que nascera ou por aquele que lhe tinham dado, fora assassinado e não morto lealmente em duelo. Esta carta, tão dura da parte de um rapaz até ali tão respeitoso, era mortal para o orgulho de um homem como Villefort. Mal acabara de entrar no gabinete, apareceu a mulher, A saída de Franz, chamado pelo Sr. Noirtier, surpreendera de tal modo todas as pessoas que a posição da Sra de Villefort, que ficara sozinha com o tabelião e as testemunhas, se tornara de momento a momento mais embaraçosa. Então, a Sra de Villefort tomara a decisão de sair, anunciando que ia saber o que se passava. O Sr. de Villefort limitou-se a dizer-lhe que depois de uma explicação entre ele, o Sr. Noirtier e o Sr. de Epinay o casamento de Valentine com Franz fora desfeito. Era difícil dar semelhante notícia àqueles que esperavam. Por isso, a Sra de Villefort, limitou-se a dizer, quando regressou, que o Sr. Noirtier tivera, no inicio da conferência, uma espécie de ataque de apoplexia, pelo que naturalmente o contrato era adiado por alguns dias. Esta notícia, apesar de falsa, vinha tão singularmente na sequência de duas desgraças do mesmo gênero que os presentes se entreolharam atônitos e se retiraram sem dizer palavra. Entretanto, Valentine, feliz e assustada ao mesmo tempo, depois de beijar e agradecer ao pobre velho, que acabava de quebrar assim, de um só golpe, uma união que ela via já como indissolúvel, pedira licença para se retirar para o seu quarto, a fim de se recompor, e Noirtier dera-lhe, de olhar brilhante, a licença solicitada. Mas em vez de subir ao seu quarto, Valentine, logo que saiu, meteu pelo corredor, transpôs a portinha e correu para o jardim. No meio de todos os acontecimentos que acabavam de se amontoar uns sobre os outros, um terror surdo oprimira-lhe constantemente o coração. Esperava de um momento para o outro ver aparecer Morrel, pálido e ameaçador como o laird de Ravenswood no contrato de Lucie de Lammermoor. Com efeito, era tempo de se dirigir ao portão. Maximilien, que desconfiara do que se iria passar ao ver Franz deixar o cemitério com o Sr. de Villefort, seguira-o. Em seguida, depois de o ver entrar, vira-o sair novamente e regressar com Albert e Chateau-Rcnaud. Para ele, não havia portanto mais dúvidas. Correra então para o seu cercado, pronto para o que desse e viesse, e certo de que no primeiro momento de liberdade que conseguisse, Valentine correria ao seu encontro. Não se enganara; com efeito, de olho colado às tábuas, viu aparecer a jovem, que, sem tomar nenhuma das precauções habituais, corria para o portão. Ao primeiro olhar que lhe deitou, Maximilien ficou tranquilo, e à primeira palavra que ela pronunciou. saltou de alegria. - Salvos! - disse Valentine. - Salvos! - repetiu Morrel, sem poder acreditar em semelhante felicidade. - Mas salvos por quem? - Pelo meu avô. Oh, ame-o muito, Morrel! Morrel jurou amar o velho com toda a sua alma, juramento que lhe não custava nada fazer, pois naquele momento não se limitava a amá-lo como um amigo ou como um pai, adorava-o como um deus. - Mas como foi isso? - perguntou Morrel. - Que meio estranho empregou ele? Valentine abria já a boca para contar tudo, mas pensou que havia no fundo de tudo aquilo um segredo terrível que não pertencia exclusivamente ao avô. - Mais tarde lhe contarei tudo - respondeu. - Mas quando? - Quando for sua mulher. Era colocar a conversa num pé em que Morrel era capaz de entender tudo. Por isso, entendeu mesmo que se devia contentar com o que sabia, e que era bastante para um dia. No entanto, só consentiu em se retirar depois de ter a promessa de que veria Valentine no dia seguinte à noite. Valentine prometeu o que Morrel quis. A seus olhos tudo mudara, e claro que lhe era agora menos difícil acreditar que casaria com Maximilien do que convencer-se uma hora antes que não casaria com Franz. Entretanto, a Sra de Villefort subira aos aposentos de Noirtier. Noirtier olhou-a com o ar sombrio e severo com que costumava recebê-la. - Senhor - começou ela -, escuso de lhe dizer que o casamento de Valentine foi desfeito, pois foi aqui que o rompimento se verificou. Noirtier permaneceu impassível. - Mas - continuou a Sra de Villefort - o que o senhor não sabe é que sempre me opus a esse casamento, que se efetuava mal-grado meu. Noirtier fitou a nora como homem que espera uma explicação. - Ora, agora que o casamento, acerca do qual eu conhecia a sua repugnância, está desfeito, venho fazer junto do senhor uma diligência que nem o Sr. de Villefort nem Valentine podem fazer. Os olhos de Noirtier perguntaram qual era essa diligência. - Venho pedir-lhe, senhor - continuou a Sra de Villefort -, como a única pessoa que tem esse direito, pois sou a única que não ganharei nada com isso venho pedir-lhe, repito, que restitua, não direi as suas boas graça, porque ela sempre as teve, mas sim a sua fortuna à sua neta. Os olhos de Noirtier ficaram um instante indecisos; procurava evidentemente os motivos de tal diligência e não os conseguia encontrar. - Posso esperar, senhor, que as suas intenções estejam de harmonia com o pedido que acabo de lhe fazer? - perguntou a Sra de Villefort. - Pode - respondeu Noirtier. - Nesse caso, senhor, retiro-me ao mesmo tempo reconhecida e feliz - declarou a Sr a de Villefort E retirou-se depois de cumprimentar Noirtier. Com efeito, no dia seguinte Noirtier mandou chamar o tabelião. O primeiro testamento foi rasgado e fez-se outro novo em que ele deixava toda a sua fortuna a Valentine, com a condição de a não separarem dele. Algumas pessoas calcularam então que Mademoiselle de Villefort, herdeira do marquês e da marquesa de Saint-Méran e reentrada nas boas graças do avô, teria um dia muito perto de trezentas mil libras de rendimento Enquanto o casamento se rompia em casa dos Villeforts, o Sr. Conde de Morcerf recebia a visita de Monte-Cristo, e, para mostrar a Danglars a sua prontidão, envergava o seu grande uniforme de tenente-general, que adornara com todas as suas condecorações, e pedia os seus melhores cavalos. Assim vestido, dirigiu-se para a Rua da Chaussée-d'Antin e mandou-se anunciar a Danglars, que elaborava o seu balancete de fim de mês. Havia algum tempo que aquele não era o momento mais indicado para apanhar o banqueiro de bom humor. Por isso, ao ver o aspecto do seu velho amigo, Danglars tomou o seu ar majestoso e instalou-se sem cerimônia na sua poltrona. Morcerf, habitualmente tão empertigado, tomara, pelo contrário, um ar risonho e afável; e como estava quase certo de que a sua proposta ia receber um bom acolhimento, pôs de lado a diplomacia e foi direito ao assunto: - Barão, aqui estou - disse. - há muito tempo que giramos à volta das nossas palavras de outrora. Morcerf esperava, após estas palavras, ver abrir-se o rosto do banqueiro, cujo ar carrancudo atribuía ao silêncio que mantivera até ali; mas, pelo contrário, o rosto do banqueiro tornou-se, o que era quase incrível, ainda mais impassível e frio. Por isso, Morcerf parara no meio da frase. - Quais palavras, Sr. Conde? - perguntou o banqueiro, como se procurasse em vão no seu espírito a explicação do que o general queria dizer. - Oh, é formalista, meu caro senhor, e lembra-me que o cerimonial deve obedecer a todos os ritos! - perguntou o conde. - Muito bem! Perdoe-me, mas como só tenho um filho e é a primeira vez que penso em casá-lo, estou ainda aprendendo. Vamos, desculpe-me. E Morcerf, com um sorriso forçado, levantou-se, fez uma profunda reverência a Danglars e disse-lhe: - Sr. Barão, tenho a honra de lhe pedir a mão de Mademoiselle Eugênie Danglars, sua filha, para o meu filho, o visconde Albert de Morcerf. Mas Danglars, em vez de acolher estas palavras com a satisfação que Morcerf devia esperar dele, franziu o sobrolho e, sem convidar o conde, que estava de pé, a sentar-se, perguntou: - Sr. Conde, preciso refletir antes de lhe responder. - De refletir! - exclamou Morcerf, cada vez mais atônito. - Não teve tempo de refletir desde que há perto de oito anos falamos deste casamento pela primeira vez? - Sr. conde - disse Danglars --, todos os dias acontecem coisas que levam a que as reflexões que se julgavam feitas tenham de ser revistas. - Como? - perguntou Morcerf. - Cada vez o compreendo menos, barão! - Quero dizer, senhor, que há quinze dias, novas circunstâncias... - Um momento - atalhou Morcerf. - Estamos ou não estamos a desempenhar uma comédia? - Ora essa, uma comédia?... - Sim, expliquemo-nos categoricamente. - Não quero outra coisa. - Falou com o Sr. de Monte-Cristo! - Falo com ele muitas vezes - respondeu Danglars, sacudindo as pregas do peitilho. - É um dos meus amigos. - Pois numa das últimas vezes que falou com ele disse-lhe que eu parecia esquecido, irresoluto, a respeito do casamento. - É verdade. - Por isso aqui estou. Não sou nem esquecido nem irresoluto, como vê, pois venho convidá-lo a cumprir a sua promessa. Danglars não respondeu. - Mudou assim tão depressa de opinião ou provocou o meu pedido apenas para ter o prazer de me humilhar? - quis saber Morcerf. Danglars compreendeu que, se continuasse a conversa naquele tom, o caso poderia tomar mau aspecto para si. - Sr. Conde - disse --, tem razão em estar surpreendido com a minha reserva. Compreendo isso e creia que sou o primeiro a lamentá-lo. Mas a minha atitude ‚me é imposta por circunstâncias imperiosas. - Isso são desculpas de mau pagador, meu caro senhor, com que talvez se contentasse qualquer pobre-diabo. Mas o conde de Morcerf não é um pobrediabo. E quando um homem como ele vem procurar outro homem e lembrar-lhe a palavra dada, e esse homem falta à sua palavra, tem o direito de exigir que lhe dêem ao menos uma boa razão. Danglars era covarde, mas não o queria parecer, e sentiu-se picado pelo tom que Morcerf acabava de tomar. - Também não é a boa razão que me falta - replicou. - Que pretende dizer? - Que tenho essa boa razão, mas que é difícil de dá-la. - Vê no entanto - perguntou Morcerf - que não posso contentar-me com as suas reticências. Em todo o caso, uma coisa me parece clara: que recusa a minha aliança. - Não, senhor - contrapós Danglars. -- suspendo apenas a minha resolução. - Suponho, porém, que não tem a pretensão de crer que me submeto aos seus caprichos a ponto de esperar tranquila e humildemente que me volte a conceder as suas boas graças?... - Nesse caso, Sr. Conde, se não pode esperar, consideremos os nossos projetos anulados. O conde mordeu os lábios até sangrarem para não explodir como o seu temperamento orgulhoso e irritável lhe aconselhava. No entanto, compreendendo que em semelhantes circunstâncias o ridículo estaria do seu lado, começara já a dirigir-se para a polia da sala, quando, reconsiderando, voltou atrás. Acabava de lhe passar uma nuvem pela testa, onde ficara, em vez do orgulho ferido, vestígios de uma vaga inquietação. - Vejamos, meu caro Danglars: conhecemo-nos há muitos anos e portanto devemos ter alguma consideração um pelo outro. O senhor deve-me uma explicação, e o mínimo que posso desejar é saber a que infeliz acontecimento deve o meu filho a perda das suas boas intenções a seu respeito. - Não e nada que se relacione pessoalmente com o visconde, é tudo o que lhe posso dizer, senhor - respondeu Danglars, que reassumia o seu ar impertinente à medida que via Morcerf amansar. - Então relaciona-se pessoalmente com quem? - perguntou Morcerf com voz alterada, ao mesmo tempo que a testa se lhe cobria de palidez. Danglars, a quem nenhum destes sintomas escapava, pousou nele um olhar mais firme do que de costume. - Agradeça-me não me explicar mais - disse. Uma tremura nervosa, proveniente sem dúvida de uma cólera contida agitava Morcerf: - Tenho o direito... - começou, fazendo um violento esforço sobre si mesmo. - Tenciono exigir-lhe que se explique. Tem alguma coisa contra a Sra de Morcerf? É a minha fortuna que é insuficiente? São as minhas opiniões, que, por serem contrárias às suas... - De modo nenhum, senhor - respondeu Danglars. - E se se tratasse disso, seria imperdoável da minha parte, uma vez que me comprometi sabendo todas essas coisas. Não, não procure mais. Sinto-me sinceramente envergonhado de levá-lo a fazer esse exame de consciência. Fiquemos por aqui, que é o melhor, acredite. Aceitemos o meio termo do adiamento, que não é nem um rompimento nem um compromisso. Nada nos apressa, meu Deus! A minha filha tem dezessete anos e o seu filho vinte e um. Enquanto esperamos, o tempo passará e comporá os acontecimentos. As coisas que parecem escuras na véspera são por vezes claríssimas no dia seguinte e num dia desfazem-se as mais cruéis calúnias: - Calúnias, disse o senhor?! - gritou Morcerf, tornando-se lívido. - Caluniamme? A mim?! - Sr. Conde, deixemo-nos de explicações, peço-lhe. - Quer dizer, senhor, que deverei suportar tranquilamente essa recusa? - Penosa sobretudo para mim, senhor. Sim, mais penosa para mim do que para si. porque considerava uma honra a nossa aliança, e um casamento desfeito prejudica sempre mais a noiva do que o noivo. - Está bem, senhor, não falemos mais a tal respeito - concordou Morcerf. E, amarrotando as luvas com raiva, saiu do aposento. Danglars notou que nem uma só vez Morcerf ousara perguntar se era por causa dele, Morcerf; que Danglars retirava a sua palavra. À noite, teve uma longa conferência com vários amigos, e o Sr. Cavalcanti, que se mantivera constantemente na sala das senhoras, foi o último a sair de casa do banqueiro. No dia seguinte, ao acordar, Danglars pediu os jornais, que lhe trouxeram imediatamente. Pôs de lado três ou quatro e pegou no Impartial. Era aquele em que Beauchamp ocupava o cargo de redator principal. Quebrou rapidamente a cinta, abriu-o com uma precipitação nervosa, passou desdenhosamente pelo premier Paris e, chegado aos faits divers, detevese com o seu sorriso maldoso numa notícia breve que começava assim: “Escrevem-nos de Janina... " - Pronto - disse depois de ler --, aqui está um artigozinho sobre o coronel Fernand, que, segundo todas as probabilidades, me dispensará de dar explicações ao Sr. Conde de Morcerf. Na mesma altura, isto é, cerca das nove horas da manhã, Albert de Morcerf; vestido de preto, metodicamente abotoado e com o passo agitado e a palavra breve, apresentava-se na casa dos Campos Elísios. - O Sr. Conde saiu há pouco mais ou menos meia hora - informou-o o porteiro. - Levou Baptistin? - perguntou Morcerf. - Não, Sr. Visconde. - Chame Baptistin, quero falar com ele. O próprio porteiro foi chamar o criado de quarto, com o qual regressou pouco depois. - Meu amigo - disse Albert --, peço-lhe desculpa da minha indiscrição, mas queria perguntar-lhe pessoalmente: o seu amo saiu de fato? - Saiu, sim, senhor - respondeu Baptistin. - Mesmo para mim? - Sei quanto o meu amo sente prazer em receber V. Exª , e de modo algum o incluiria numa medida geral. - Ainda bem, porque preciso lhe falar de um caso grave. Acha que se demorará? - Não, porque pediu o almoço para as dez horas. - Bom, vou dar uma volta pelos Campos Elísios e às dez estarei aqui. Se o Sr. Conde regressar antes de mim, diga-lhe que lhe peço para me esperar. - Não me esquecerei, senhor, pode estar certo. Albert deixou à porta do conde o cabriolé de praça em que viera e foi passear a pé. Ao passar diante da Alameda das Viúvas julgou reconhecer os cavalos do conde estacionados à porta da carreira de tiro de Gosset. Aproximou-se e, depois de reconhecer os cavalos, reconheceu o cocheiro. - O Sr. Conde está na carreira de tiro? - perguntou Morcerf. - Está sim, senhor - respondeu o cocheiro. Com efeito, vários tiros regulares tinham soado desde que Morcerf se encontrava nas imediações. Entrou. O servente encontrava-se no jardim. - Desculpe, mas o Sr. Visconde poderia esperar um instante? - Porquê, Philippe? - perguntou Albert, que, como frequentador habitual, estranhava aquele obstáculo, que não compreendia. Porque a pessoa que treina neste momento pratica sozinha e nunca atira diante de ninguém. - Nem mesmo diante de você, Philippe? - Como vê, senhor, estou à porta do meu cubículo. - E quem lhe carrega as pistolas? - O criado. - Um núbio? - Um grego. - É isso. - Conhece esse senhor? - Venho procurá-lo, é meu amigo. - Oh, então é outra coisa! Vou preveni-lo. E Philippe, impelido pela sua própria curiosidade, entrou na barraca de madeira. Um segundo depois, Monte-Cristo apareceu no limiar. - Desculpe persegui-lo até aqui, meu caro conde - disse Albert --, mas começo por lhe dizer que a culpa não é do seu pessoal e que sou o único indiscreto. Apresentei-me em sua casa; disseram-me que tinha saído, mas que regressaria às dez horas para almoçar. Resolvi vir passear, à espera das dez, e ao passar por aqui vi os seus cavalos e a sua carruagem. - O que acaba de me dizer me da a esperança de que venha pedir-me para almoçar... - Não, obrigado. Não se trata do almoço, neste momento. Talvez tomemos o almoço mais tarde, mas em má companhia, com a breca! - Que diabo está dizendo? - Meu caro, me bato hoje. - O senhor? E porquê? - Porque sim! - Está bem, mas por que motivo? As pessoas batem-se por mil e uma coisas, como sabe. - Por uma questão de honra. - Ah, então o caso é sério! - Tão sério que lhe venho pedir que me faça um favor. - Qual? - O de ser minha testemunha. - Então o caso é mais do que sério, é grave. Mas não falemos disso aqui e regressemos a minha casa. Ali, de-me água. O conde arregaçou as mangas e passou ao vestibulozinho que precede as linhas de tiro e onde os atiradores têm o hábito de lavar as mãos. - Entre, Sr. Visconde, se quer ver uma coisa engraçada - disse Philippe em voz baixa. Morcerf entrou. Em vez de alvos, encontravam-se coladas na placa cartas de jogar. De longe, Morcerf julgou tratar-se de um naipe completo; havia desde o Ás até ao dez. - Ah, ah!... - exclamou Albert. - Estava jogando ao piquet? - Não - respondeu o conde --, estava fazendo um baralho de cartas. - Como?... - Sim. As que vê são ases e duques; as minhas balas é que fizeram os ternos, as quinas, os setes, os oitos, os noves e os dez. Albert aproximou-se. Com efeito, as balas tinham, em linhas perfeitamente exatas e a distâncias perfeitamente iguais, substituído os sinais ausentes e perfurado o cartão nos lugares onde deveriam ser pintados. Ao dirigir-se para a placa, Morcerf apanhou ainda duas ou três andorinhas que tinham cometido a imprudência de passar ao alcance da pistola do conde e que este abatera. - Diabo!... - exclamou Morcerf. - Que quer, meu caro visconde - disse Monte-Cristo, limpando as mãos na toalha trazida por Ali -, tenho de ocupar os meus momentos de ociosidade... Mas venha, estou à sua espera. Subiram ambos para o cupe de Monte-Cristo, que, poucos instantes depois, os depositou à porta do nº 30. Monte-Cristo levou Morcerf para o seu gabinete e indicou-lhe uma cadeira. Sentaram-se ambos. - Agora, conversemos tranquilamente - disse o conde. - Como vê, estou perfeitamente calmo. - Com quem se quer bater? - Com Beauchamp. - Um dos seus amigos! - É sempre com amigos que nos batemos. - Pelo menos deve haver uma razão. - Tenho uma. - Que lhe fez ele? - Um jornal de ontem à tarde... Mas tome, leia - e Albert estendeu a Monte- Cristo um jornal em que o conde leu o seguinte: “Escrevem-nos de Janina: "Um fato até agora ignorado, ou pelo menos inédito, chegou ao nosso conhecimento: os castelos que defendiam a cidade foram entregues aos Turcos por um oficial francês no qual o vizir Ali-Tebelin depositava toda a sua confiança e que se chamava Fernand." - Que vê nisto que o ofenda? - perguntou Monte-Cristo. - Como, que vejo?! - Sim. Que lhe interessa a você que os castelos de Janina tenham sido entregues por um oficial chamado Fernand? - Interessa-me porque o meu pai, o conde de Morcerf, se chama Fernand de seu nome de batismo. - E o seu pai esteve ao serviço de Ali-Pax ? - Bom, ele combatia pela independência dos Gregos. É aí que reside a calúnia. - Ah, sim! Sejamos razoáveis, meu caro visconde... - Não pretendo outra coisa. - Diga-me: quem diabo sabe na França que o oficial Fernand é o mesmo homem que o conde de Morcerf? E quem se ocupa agora de Janina, que, segundo creio, foi tomada em 1822 ou 1823? - É precisamente ai que reside a perfídia: deixa-se o tempo passar, e um belo dia recordam-se acontecimentos esquecidos para armar um escândalo que pode manchar uma alta posição. Pois bem, eu, herdeiro do nome do meu pai, não quero sequer que sobre esse nome paire a sombra de uma dúvida. Vou enviar a Beauchamp, em cujo jornal foi publicada esta notícia, duas testemunhas, para que a corrija. - Beauchamp não corrigirá nada. - Então, nos bateremos. - Não, não se baterão porque ele lhe responderá que havia no Exército grego talvez cinquenta oficiais chamados Fernand. - Nos bateremos apesar dessa resposta. Oh, quero que corrija a notícia!... Meu pai, um soldado tão nobre, com tão ilustre carreira... - Ou então escrever : “Somos levados a crer que tal Fernand nada tem de comum com o Sr. Conde de Morcerf, cujo nome de batismo é também Fernand." - Exijo uma retratação plena e completa; não me contentarei de modo algum com isso! - E vai mandar-lhe as suas testemunhas? - Vou. - Faz mal. - Isso quer dizer que me recusa o favor que lhe vinha pedir? - Conhece a minha teoria a respeito do duelo; fiz-lhe a minha profissão de fé em Roma, lembra-se? - Contudo, meu caro conde, encontrei-o esta manhã, ainda há pouco, entregue a uma ocupação pouco de harmonia com essa teoria. - Porque, meu caro amigo, nunca devemos, como deve compreender nos alhear do meio em que vivemos. Quando vivemos com loucos, devemos aprender a ser também insensatos. De um momento para o outro, qualquer temperamento irascível poderá, sem mais motivo do que querer implicar comigo como o senhor quer implicar com Beauchamp, aproveitar a primeira ninharia para me mandar as suas testemunhas ou insultar-me em público. Nesse caso, não terei outro remédio senão matar o indivíduo dotado desse temperamento irascível... - Admite, portanto, que o senhor mesmo se bateria? - Ora essa! -Sendo assim, porque quer que eu não me bata? - Não disse, de modo algum, que se não devia bater; digo apenas que um duelo é coisa grave e em que é preciso pensar. - E ele pensou antes de insultar o meu pai? - Se não pensou e lhe confessar, não deverá querer-lhe mal por isso. - Meu caro conde, o senhor é demasiado indulgente! - E o senhor demasiado rigoroso. Vejamos, supondo... Escute bem isto: supondo... Não se zangará com o que vou dizer? - Escuto-o. - Supondo que o caso noticiado era verdadeiro. - Um filho não deve admitir semelhante suposição sobre a honra do seu pai. - Meu Deus, estamos numa época em que se admitem tantas coisas! - Esse é precisamente o vício da época. - Tem porventura a pretensão de corrigi-la? - Tenho, naquilo que me diz respeito. - Meu Deus, que rigorista me saiu, meu caro amigo! - Sou assim. - É inacessível aos bons conselhos? - Não, quando vêm de um amigo. - Considera-me um deles? - Considero. - Então, antes de enviar as suas testemunhas a Beauchamp informe-se. - Junto de quem? - Ora essa! Junto de Haydée, por exemplo. - Meter uma mulher em tudo isto... Que pode ela dizer? - Lhe declarará que o seu pai nada teve a ver com a derrota ou a morte do dela, por exemplo, ou o esclarecerá a tal respeito, se por acaso o seu pai tivesse tido a infelicidade... - Já lhe disse, meu caro conde, que não podia admitir semelhante suposição. - Recusa portanto este meio? - Recuso. - Absolutamente? - Absolutamente. - Então, um último conselho. - Seja, mas o último. - Não o quer? - Pelo contrário, peço-lho. - Não mande testemunhas a Beauchamp. - Como? - Vá procurá-lo pessoalmente. - É contra todos os hábitos. - O seu caso está fora do que é corrente. - E porque hei-de ir procurá-lo pessoalmente, não me diz? - Porque assim o assunto ficará entre o senhor e Beauchamp. - Explique-se. - Sem dúvida. Se Beauchamp estiver disposto a retratar-se, deve-se-lhe deixar o mérito da boa vontade: a retratação nem por isso será menos completa. Se, pelo contrário, ele recusar, será então momento de meter dois estranhos no vosso segredo. - Não serão dois estranhos, serão dois amigos! - Os amigos de hoje serão os inimigos de amanhã. - Essa agora! - Prova: Beauchamp. - Assim. - Assim, recomendo-lhe a prudência. - Assim, acha que devo ir procurar Beauchamp pessoalmente? - Acho. - Sozinho? - Sozinho. Quando se quer obter qualquer coisa do amor-próprio de um homem, deve-se salvaguardar o amor-próprio desse homem até da aparência do sofrimento. - Creio que tem razão. - Ora ainda bem! - Irei sozinho. - Vá. Mas faria ainda melhor se não fosse de todo. - Impossível. - Faça portanto assim; sempre será melhor do que o que ia fazer. - Mas nesse caso, vejamos... se, apesar de todas as minhas precauções, de todos os seus conselhos, tiver um duelo, me servirá de testemunha? - Meu caro visconde - respondeu Monte-Cristo com suprema gravidade --, já teve oportunidade de ver que em outras circunstâncias estive inteiramente à sua disposição; mas o favor que me pede agora sai fora do circulo daqueles que lhe posso prestar. - Porquê? - Talvez o saiba um dia... - Mas entretanto? - Peço a sua indulgência para o meu segredo. - Está bem. Recorrerei a Franz e Château-Renaud. - Sim, peça a Franz e a Château-Renaud. É uma excelente idéia. - Mas enfim, se me bater, me dará uma liçãozinha de espada ou de pistola? - Não, é também uma coisa impossível. - Sempre me saiu um homem deveras singular! Portanto, não quer se meter em nada? - Absolutamente em nada. - Nesse caso, nada mais temos a dizer. Adeus, conde. - Adeus, visconde. Morcerf pegou no chapéu e saiu. Encontrou à porta o seu cabriolé e, contendo o melhor possível a sua cólera, fez-se conduzir a casa de Beauchamp. Este estava no jornal. Albert fez-se conduzir ao jornal. Beauchamp encontrava-se num gabinete escuro e poeirento, como são habitualmente os gabinetes dos jornais. Anunciaram-lhe Albert de Morcerf. Fez repetir duas vezes o anúncio. Depois, ainda mal convencido, gritou: - Entre! Albert apareceu. Beauchamp soltou uma exclamação ao ver o amigo transpor os montes de papéis e pisar com pé mal exercitado os jornais de todos os formatos que juncavam. Não o parque, mas sim o lajedo avermelhado do gabinete. - Por aqui, por aqui, meu caro Albert - disse, estendendo a mão ao jovem. - Que diabo o traz aqui? Perdeu-se, como o Polegarzinho, ou vem muito simplesmente pedir-me almoço? Veja se descobre uma cadeira. Olhe, ali, ao pé daquele gerânio, que, sozinho aqui, me lembra que há no mundo folhas que não são folhas de papel. - Beauchamp, é do seu jornal que lhe venho falar - disse Albert. - Você, Morcerf? Que deseja? - Desejo uma retificação. - Você, uma retificação?... A propósito de quê. Albert? Mas sente-se! - Obrigado - respondeu Albert pela segunda vez e com um ligeiro aceno de cabeça. - Explique-se. - Uma retificação a respeito de um fato que atinge a honra de um membro da minha família. - Que me diz.? - perguntou Beauchamp, surpreendido. - Qual fato? É impossível. - O fato de que lhes deram notícia de Janina. - De Janina? - Sim, de Janina. Realmente, você tem o ar de ignorar o que aqui me trouxe... - Pela minha honra. Baptiste! Um jornal de ontem! - gritou Beauchamp. - É inútil, trago-lhe o meu. Beauchamp leu entre dentes: - “Escrevem-nos de Janina ", etc. - Como deve compreender, o caso é grave -- disse Morcerf; quando Beauchamp terminou. - Este oficial é seu parente? - perguntou o jornalista. - É - respondeu Albert, corando. - Que quer que faça para lhe ser agradável? -- inquiriu Beauchamp delicadamente. - Gostaria, meu caro Beauchamp, que corrigissem essa notícia. Beauchamp olhou Albert com uma atenção que denotava, sem dúvida nenhuma, indulgência. - Vejamos - disse por fim --, isto é caso para nos embrenharmos numa longa conversa. Porque uma retratação é sempre uma coisa grave. Sente-se. Vou reler estas três ou quatro linhas. Albert sentou-se e Beauchamp releu as linhas incriminadas pelo amigo com mais atenção do que da primeira vez - Como vê - disse Albert com firmeza, com rudeza mesmo -, insultaram no seu jornal alguém da minha família e eu quero uma retratação. - O senhor... quer... - Sim, quero! - Permita-me que lhe diga que não está com meias medidas, meu caro visconde... - Nem quero estar - replicou o jovem, levantando-se. - Pretendo a retratação de um fato que o seu jornal publicou ontem e a obterei. O senhor é suficientemente meu amigo - continuou Albert, com os lábios apertados, vendo que, pelo seu lado, Beauchamp começava a levantar a cabeça desdenhosa --, o senhor é suficientemente meu amigo e, como tal, conhece-me o suficiente, suponho, para compreender a minha tenacidade em tais circunstâncias. - Se sou seu amigo, Morcerf, acabará por me fazer esquecer com palavras idênticas às de há pouco... Mas vejamos, não nos zanguemos, ou pelo menos não nos zanguemos ainda... Você está inquieto, irritado, furioso... Vejamos, qual é esse parente que se chama Fernand? - É o meu pai, muito simplesmente - respondeu Albert. - O Sr. Fernand Mondego, conde de Morcerf; um velho militar que viu vinte campos de batalha e a quem querem cobrir as nobres cicatrizes com a lama nojenta apanhada da valeta. - É o seu pai? - repetiu Beauchamp. - Então, é outra coisa. Compreendo a sua indignação, meu caro Albert... Mas tornemos a ler... E releu a notícia, desta vez vincando bem cada palavra. - Mas onde vê você que o Fernand do jornal é o seu pai? - perguntou Beauchamp. - Em parte alguma, bem sei. Mas outros o verão. É por isso que quero que a notícia seja desmentida. Ao ouvir a palavra quero. Beauchamp ergueu os olhos para Morcerf; baixou-os quase imediatamente e ficou um instante pensativo. - Desmentirá essa notícia. não é verdade, Beauchamp? - repetiu Morcerf; com uma cólera crescente, embora sempre concentrada. - Desmentirei - respondeu Beauchamp. - Até que enfim! - exclamou Albert. - Mas quando me tiver assegurado de que é falsa. - Como?! - Sim, o caso vale a pena ser esclarecido e o esclarecerei. - Mas que vê o senhor a esclarecer em tudo isto? - perguntou Albert, fora de si. - Se não acredita que seja o meu pai, diga-o imediatamente; se acredita que seja ele, diga-me em que baseia essa opnião. Beauchamp olhou Albert com o sorriso que lhe era peculiar e que sabia tomar o cambiante de todas as paixões. - Senhor - perguntou --, já que prefere nos tratemos assim, se foi para me pedir justificações que veio, é melhor começar por aí e não me vir falar de amizade e de outras coisas ociosas como as que tenho a paciência de ouvir há meia hora. É este, a partir de agora, o terreno que vamos pisar, garanto-lhe! Ora não querem lá ver!... - Juro-lhe que se arrependerá se não desmentir a infame calúnia! - Um momento! Nada de ameaças, por favor, Sr. Albert Mondego, visconde de Morcerf. Não as tolero aos meus inimigos e com mais forte razão aos meus amigos. Portanto, quer que desminta a notícia sobre o coronel Fernand, notícia em que não tive, pela minha honra, qualquer interferência? - Sim, senhor, é o que quero! - replicou Albert, que já não sabia onde tinha a cabeça. - Sem o que nos bateremos? - continuou Beauchamp com a mesma calma. - Exato - respondeu Albert, erguendo a voz. - Pois então, meu caro senhor, aqui tem a minha resposta - disse Beauchamp. - Essa notícia não foi publicada por mim, nem sequer a conhecia. Mas o senhor, com a sua diligência junto de mim, chamou-me a atenção para ela e não a largarei. E a notícia subsistirá até que seja desmentida ou confirmada por quem de direito. - Senhor - disse Albert, levantando-se --, vou portanto ter a honra de lhe enviar as minhas testemunhas. Discutirá com elas o local e as armas. - Perfeitamente, meu caro senhor. - E esta tarde, se fizer favor, ou amanhã, o mais tardar, nos bateremos. - Não, isso não! Estarei no terreno no momento próprio, e na minha opinião(tenho o direito de a ter, pois sou o provocado), e na minha opinião, repito, esse momento ainda não chegou. Sei que maneja muito bem a espada e que eu a manejo sofrivelmente; sei que acerta três vezes no alvo em seis tiros, o mesmo que consigo, pouco mais ou menos, e sei que um duelo entre nós será um duelo sério, porque o senhor é valente e eu... também o sou. Não quero portanto me arriscar a matá-lo ou a ser eu próprio morto pelo senhor sem um motivo. Agora sou eu que vou lhe fazer uma pergunta e ca-te-go-ri-ca-men-te: exige essa retratação a ponto de me matar se a não fizer, embora lhe tenha dito, e repita, embora lhe afirme sob a minha palavra de honra que não conhecia a notícia, e embora lhe declare finalmente que é impossível a qualquer outro que não possua, como o senhor, o dom de adivinhar de Jafeth descobrir o Sr. Conde de Morcerf sob esse nome de Fernand? - Exijo-a absolutamente. - Muito bem, meu caro senhor, consinto em cortar o pescoço consigo, mas quero três semanas; daqui a três semanas irei procurá-lo para lhe dizer: “Sim, a notícia é falsa e a desmintirei": ou: “Sim, a notícia é verdadeira", e tiro as espadas da bainha ou as pistolas da caixa, à sua escolha. - Três semanas! - exclamou Albert. - Mas três semanas são três séculos durante os quais estarei desonrado! - Se o senhor continuasse a ser meu amigo, dir-lhe-ia: “Paciência, amigo." Mas como prefere ser meu inimigo, digo-lhe: “Que me interessa isso a mim senhor?!" - Está bem, seja daqui a três semanas - concordou Morcerf. - Mas não se esqueça: daqui a três semanas não haverá mais adiamentos, nem subterfúgio que o possa dispensar... - Sr. Albert de Morcerf - atalhou Beauchamp, levantando-se por sua vez -, só o posso atirar pela janela daqui a três semanas, isto é, dentro de vinte e quatro dias, portanto em 21 do mês de Setembro. Até lá, acredite, e é um conselho de gentil-homem que lhe dou, poupemo-nos os ladridos de dois cães presos à distância. E Beauchamp cumprimentou gravemente o jovem, virou-lhe as costas e dirigiu-se para a tipografia. Albert vingou-se numa pilha de jornais, que espalhou, fustigando-os raivosamente com a badine. Em seguida retirou-se, não sem se virar duas ou três vezes para a porta da tipografia. Enquanto Albert fustigava a dianteira do seu cabriolé, depois de fustigar os inocentes papéis enegrecidos que não tinham culpa do seu desaire, viu, atravessando o bulevar, o capitão Morrel, que, de cabeça erguida, olhos brilhantes e braços a dar, passava diante dos banhos chineses vindo das bandas da Porta Saint-Martin e indo para os lados da Madalena. - Ah, ali vai um homem feliz! - disse, suspirando. E por acaso Albert não se enganava. Capítulo LXXIX A limonada Com efeito Morrel estava felicíssimo. O Sr. Noirtier acabava de mandar chama-lo, e tinha tanta pressa de saber o que lhe queria que não tomara nenhum cabriolé, fiara-se muito mais nas pernas do que nas de um cavalo de praça. Partira portanto a correr da Rua Meslay e dirigia-se para o Arrabalde de Saint-Honoré. Morrel caminhava a passo de gin stica é o pobre Barrois seguia-o conforme podia. Morrel tinha trinta e um anos, Barrois contava sessenta, Morrel estava ‚brio de amor, Barrois suava por todos os poros devido ao calor. Os dois homens, assim separados por interesses e pela idade, pareciam as duas linhas que formam um triângulo: afastadas pela base, juntam-se no vértice. O vértice era Noirtier, o qual mandara chamar Morrel, com a recomendação de vir depressa, recomendação que Morrel seguia à letra, com grande desespero de Barrois. Quando chegaram. Morrel nem sequer estava ofegante: o amor da asas; mas Barrois, que havia muito tempo se não apaixonava, estava banhado em suor. O velho criado fez entrar Morrel pela porta particular, fechou a porta do gabinete e Em breve um “frutru" de vestido no parque anunciou a visita de Valentine. Valentine estava encantadora no seu vestido de luto. O sonho tornava-se tão delicioso que Morrel quase se esqueceu de que estava ali para conversar com Noirtier. Mas a cadeira do velho não tardou a rodar no parque e ele entrou. Noirtier acolheu com um olhar indulgente os agradecimentos que Morrel lhe prodigalizava pela maravilhosa intervenção que os salvara, a Valentine e a ele, do desespero. Depois o olhar de Morrel foi pousar, utilizando o novo privilégio que lhe era concedido, na jovem, que, tímida e sentada longe dele, esperava que a obrigassem a falar. Noirtier olhou-a por sua vez. - Tenho mesmo de dizer aquilo de que me encarregou? - perguntou ela. - Sim - respondeu Noirtier. - Sr. Morrel - disse então Valentine ao jovem, que a devorava com a vista -, o meu avô Noirtier tinha mil coisas a lhe dizer e me disse nos últimos três dias. Hoje mandou-o chamar para eu as repetisse. Farei o que ele deseja, portanto, uma vez que ele me escolheu para sua intérprete, sem alterar uma palavra às suas intenções. - Oh, não imagina com que impaciência a escuto! - respondeu o rapaz. - Fale, menina, fale. Valentine baixou os olhos; foi um presságio que pareceu favorável a Morrel: Valentine só era fraca quando era feliz. - O meu avô quer deixar esta casa - prosseguiu a jovem. - Barrois está procurando um apartamento conveniente. - Mas menina - atalhou Morrel --, a menina que é tão querida e necessária ao Sr. Noirtier? - Eu - respondeu Valentine - não deixarei o meu avô. É ponto assente entre nós. O meu quarto será junto do seu. Ou terei o consentimento do Sr. de Villefort para ir morar com o avô Noirtier ou não terei. No primeiro caso, sairei daqui em qualquer momento a partir de agora; no segundo, esperarei pela minha maioridade, que será daqui a dezoito meses. Então serei livre, terei uma fortuna independente e... - E?... - perguntou Morrel. - E, com a autorização do meu avô, cumprirei a promessa que lhe fiz, Sr. Morrel. Valentine pronunciou as últimas palavras tão baixo que Morrel as não teria ouvido sem o interesse que tinha em as devorar. - Exprimi o seu pensamento, avô? - acrescentou Valentine, dirigindo-se a Noirtier. - Sim - respondeu o velho. - Uma vez em casa do meu avô - prosseguiu Valentine --, o Sr. Morrel poderá me ver na presença deste bom e digno protetor. Se os laços que os nossos corações, talvez ignorantes ou caprichosos, começaram a dar parecerem convenientes e oferecerem garantias de felicidade futura à nossa experiência (infelizmente, diz-se, os corações estimulados pelos obstáculos estriam na segurança!... ), então o Sr. Morrel poderá pedir-me a mim mesma e eu o esperarei. - Oh! - exclamou Morrel, tentado a ajoelhar diante do velho como diante de Deus, diante de Valentine como diante de um anjo. - Oh, que fiz eu de bem na minha vida para merecer tanta felicidade?! - Até lá - continuou a jovem, na sua voz pura e severa - respeitaremos as conveniências e a própria vontade das nossas famílias, desde que essa vontade não queira separar-nos para sempre. Numa palavra, e repito esta palavra porque ela diz tudo: esperaremos. - E os sacrifícios que essa palavra impõe, senhor - disse Morrel --, juro-lhe que os cumprirei, não com resignação, mas sim com felicidade. - Assim - continuou Valentine com um olhar muito doce ao coração de Maximilien --, nada de imprudências, meu amigo; não comprometa aquela que, a partir de hoje, se considera destinada a usar pura e dignamente o seu nome. Morrel pôs a mão no coração. Entretanto, Noirtier olhava ambos com ternura. Barrois, que ficara ao fundo como um homem a quem nada se oculta, sorria limpando as grossas gotas de suor que lhe molhavam a calva. - Oh, meu Deus, como está com calor o nosso bom Barrois! - exclamou Valentine. - Se soubesse o que corri, menina... - perguntou Barrois. - Mas o Sr. Morrel, devo fazer-lhe essa justiça, corria ainda mais do que eu. Noirtier indicou com a vista uma bandeja em que estavam uma garrafa de limonada e um copo. O que faltava na garrafa fora bebido meia hora antes por Noirtier. - Vamos, meu bom Barrois, beba, pois bem vejo que não tira os olhos da garrafa - disse a jovem. - De fato - confessou Barrois --, morro de sede e beberei de boa vontade um copo de limonada à sua saúde... - Bebe então e volta depressa - disse Valentine. Barrois levou a bandeja e mal chegou ao corredor, viram-no, através da porta que se esquecera de fechar, inclinar a cabeça para trás e despejar o copo que Valentine enchera. Valentine e Morrel despediam-se na presença de Noirtier quando ouviram a campainha tocar na escada de Villefort. Era o sinal de uma visita. Valentine olhou para o relógio. - É meio-dia e hoje é sábado - disse. - É sem dúvida o médico. Noirtier fez sinal de que, de fato, devia ser ele. - Como vem aqui, é melhor que o Sr. Morrel saia, não é verdade, avô? - Sim - respondeu o velho. - Barrois! - chamou Valentine. - Barrois, venha cá! Ouviu-se a voz do velho criado responder. - Vou já, menina. - Barrois vai acompanhá-lo até à porta - disse Valentine a Morrel. - E agora lembre-se de uma coisa, senhor oficial: que o meu avô lhe recomenda que não arrisque nenhum passo capaz de comprometer a nossa felicidade. - Prometi esperar e esperarei - respondeu Morrel. Neste momento, Barrois entrou. - Quem tocou? - perguntou Valentine. - O Sr. Dr. de Avrigny - respondeu Barrois, cambaleando. - O que você tem, Barrois? - perguntou Valentine. O velho não respondeu. Olhava o amo com olhos esgazeados, enquanto com a mão crispada procurava um apoio para permanecer de pé. - Ele vai cair! - gritou Morrel. Efetivamente, a tremura que se apoderara de Barrois aumentava de momento a momento, e o seu rosto, alterado pelos movimentos convulsivos dos músculos faciais, denotava um ataque nervoso dos mais intensos. Ao ver Barrois assim perturbado, Noirtier multiplicava os seus olhares, nos quais transpareciam, inteligíveis e palpitantes, todas as emoções que agitam o coração do homem. Barrois deu alguns passos para o amo. - Meu Deus, meu Deus! Senhor, que tenho eu?... - disse. - Sofro... não posso mais. Mil agulhas de fogo espicaçam-me o crânio... Oh, não me toquem, não me toquem! Com efeito, os olhos tornavam-se-lhe salientes e desvairados e a cabeça pendia-lhe para trás, enquanto o resto do corpo se retesava. Apavorada, Valentine soltou um grito. Morrel tomou-a nos braços como que para defende-la de qualquer perigo desconhecido - Sr. de Avrigny! Sr. de Avrigny! - gritou Valentine em voz sufocada. - Venha! Socorro! Barrois girou sobre si mesmo, deu três passos atrás, tropeçou e veio cair aos pés de Noirtier, no joelho do qual apoiou a mão, gritando: - Meu amo! Meu bom amo! Neste momento, atraído pelos gritos, o Sr. de Villefort apareceu no limiar do quarto. Morrel largou Valentine meio desfalecida, recuou para o canto do quarto e quase desapareceu atrás de um reposteiro. Pálido, como se tivesse visto uma serpente erguer-se diante de si, não tirava os olhos do pobre agonizante. Noirtier fervia de impaciência e terror. A sua alma corria em socorro do pobre velho, mais um amigo do que um criado. Via-se o combate terrível da vida e da morte transparecer-lhe na testa pela intumescência das veias e pela contração de alguns músculos ainda vivos à roda dos olhos. Barrois, com o rosto agitado, os olhos injetados de sangue e a cabeça inclinada para trás, jazia no chão batendo no parque com as mãos, enquanto, pelo contrário, as suas pernas rígidas pareciam que mais depressa se quebrariam do que dobrariam. Uma leve espuma vinha-lhe dos lábios e arquejava dolorosamente. Estupefato, Villefort ficou um instante de olhos postos naquele quadro, que lhe atraíra a atenção logo que entrara no quarto. Não vira Morrel. Depois de um instante de contemplação muda, durante o qual se pode ver o seu rosto empalidecer e os seus cabelos eriçarem-se-lhe na cabeça, gritou correndo para a porta: - Doutor! Doutor! Venha! Venha! - Senhora! Senhora! - gritava por seu turno Valentine, chamando a madrasta e indo de encontro às paredes da escada. - Venha! Venha depressa e traga o seu frasco de sais! - Que aconteceu? - perguntou a voz met lica e contida da Sra de Villefort. - Oh, venha, venha! - Mas onde está o doutor? - gritava Villefort. - Onde se meteu ele? A Sra de Villefort desceu lentamente; ouviu-se estalar o soalho debaixo dos seus pés. Numa das mãos segurava o lenço com o qual limpava o rosto e na outra um frasco de sais ingleses. O seu primeiro olhar quando chegou à porta foi para Noirtier, cujo rosto, excetuando a emoção naturalíssima em semelhantes circunstâncias, denotava que a sua saúde não sofrera alteração. O seu segundo olhar foi para o moribundo. Empalideceu e os seus olhos saltaram por assim dizer do criado para o amo. - Mas, em nome do céu, senhora, onde está o doutor? Ele entrou nos seus aposentos. Trata-se de uma apoplexia, como vê, e com uma sangria o salvaremos. - Ele comeu há pouco? - perguntou a Sra de Villefort, esquivando-se à pergunta do marido. - Senhora - respondeu Valentine --, não almoçou, mas correu muito esta manhã para ir fazer um recado de que o avô o encarregou. Só no regresso tomou um copo de limonada. - Ah! - exclamou a Sra de Villefort. - E porque não de vinho? A limonada faz muito mal. - A limonada estava ali, ao alcance da sua mão, na garrafa do avô. O pobre Barrois tinha sede e bebeu o que encontrou. A Sra de Villefort, estremeceu. Noirtier envolveu-a no seu olhar profundo. - Ele tem o pescoço tão curto!... - observou a Sra de Villefort. - Senhora - insistiu o marido --, perguntei-lhe onde estava o Sr. de Avrigny. Em nome do céu, responda! - Está no quarto de Edouard, que se encontra um pouco indispostorespondeu a Sra de Villefort, na impossibilidade de se esquivar mais tempo à resposta. Villefort correu para a escada, a fim de ir buscar o médico pessoalmente. - Toma - disse a jovem senhora, dando o frasco de sais a Valentine. - Com certeza que o vão sangrar. Vou para o meu quarto, porque não posso suportar ver sangue. E seguiu o marido. Morrel saiu do canto escuro onde se escondera e ninguém o vira, tão grande era a preocupação. - Vá embora depressa, Maximilien - disse-lhe Valentine --, e espere que o chame. Vá. Morrel consultou Noirtier por um gesto. Noirtier, que conservara todo o seu sangue-frio, fez-lhe sinal que sim. O rapaz apertou a mão de Valentine ao coração e saiu pelo corredor oculto. Ao mesmo tempo, Villefort e o médico entravam pela porta oposta. Barrois começava a voltar a si. A crise passara, as suas palavras voltavam a ser lamentosas e levantava-se apoiado num joelho. Avrigny e Villefort deitaram Barrois num canapé. - Que manda, doutor? - perguntou Villefort. - Tragam-me água e éter. Não o tem em casa? - Tenho. - Corram a buscar essência de terebentina e um vomitório. - Vão! - ordenou Villefort. - E agora saiam todos. - Eu também? - perguntou timidamente Valentine. - Sim, menina. Sobretudo a menina - respondeu rudemente o médico. Valentine olhou o Sr. de Avrigny com estranheza, beijou o Sr. Noirtier na fronte e saiu. Atrás dela, o médico fechou a porta com ar sombrio. - Veja, veja, doutor, ele está a voltando a si. Foi apenas um ataque sem importância. O Sr. de Avrigny sorriu, sem no entanto perder a sua expressão carrancuda. - Como se sente, Barrois? - perguntou o médico. - Um pouco melhor, senhor. - Pode beber este copo de água eterizada? - Vou tentar, mas não me toquem. - Porquê? - Porque me parece que se me tocassem, nem que fosse só com a ponta do dedo, o acesso se repetiria. - Beba. Barrois pegou no copo, aproximou-o dos lábios roxos e bebeu cerca de metade do líquido. - Onde lhe dói? - perguntou o médico. - Por toda a parte. Sinto umas cãibras insuport veis. - Passam-lhe coisas pela vista? - Passam. - Sente zumbidos nos ouvidos? - Horríveis. - Quando lhe deu isso? - Há pouco. - Rapidamente? - Como um raio. - Não sentiu nada ontem? Nem anteontem? - Nada. - Sonolência? Fadiga? - Não. - Que comeu hoje? - Não comi nada. Bebi apenas um copo da limonada do senhor. E Barrois fez com a cabeça um sinal para designar Noirtier, que, imóvel na sua cadeira, contemplava aquela cena terrível sem perder um gesto, sem deixar escapar uma palavra. - Onde está essa limonada? - perguntou vivamente o médico. - Na garrafa, lá em baixo. - Lá em baixo, onde? - Na cozinha. - Quer que a vá buscar, doutor? - perguntou Villefort. - Não, fique aqui e procure que o doente beba o resto desse copo de água. - Mas a limonada... - Eu mesmo vou buscá-la. Avrigny abriu a porta de um salto, correu para a escada de serviço e quase derrubou a Sra de Villefort, que também descia para a cozinha. Ela deu um grito. Avrigny nem sequer lhe prestou atenção. Levado por uma única idéia, saltou os três ou quatro últimos degraus, precipitou-se na cozinha e viu a garrafa, três quartos vazia, numa bandeja. Caiu sobre ela como uma águia sobre a presa. Subiu arquejante ao térreo e reentrou no quarto. A Sra de Villefort subia lentamente a escada que levava aos seus aposentos. - Era esta a garrafa que estava aqui? - perguntou Avrigny. - Era, sim, Sr. Doutor. - Esta limonada é a mesma que bebeu? - Creio que sim. - Que gosto lhe achou? - Um gosto amargo. O médico deitou algumas gotas de limonada no côncavo da mão, aspirouas com os lábios e, depois de bochechar como se faz com o vinho quando se quer provar, cuspiu o líquido para a chaminé. - E de fato a mesma - disse. - Também bebeu, Sr. Noirtier? - Bebi - respondeu o velho. - E encontrou-lhe o mesmo gosto amargo? - Encontrei. - Ah, Sr. Doutor! - gritou Barrois. - Isto está voltando! Meu Deus, Senhor, tende piedade de mim! O médico correu para o doente. - O vomitório, Villefort. Veja se ele vem. Villefort correu para fora, gritando: - O vomitório! O vomitório! Já foram buscá-lo? Ninguém respondeu. Reinava na casa o terror mais profundo. - Se tivesse maneira de lhe insuflar ar nos pulmões - disse Avrigny olhando à sua volta --, talvez tivesse possibilidade de evitar a asfixia. Mas não, nada, nada! - Oh, senhor, vai deixar-me morrer assim sem socorro?! - gritava Barrois. - Oh, eu morro, meu Deus! Eu morro! - Uma pena! Uma pena! - pediu o médico. Viu uma em cima da mesa. Procurou introduzir a pena na boca do doente, que fazia, no meio das suas convulsões, esforços inúteis para vomitar. Mas os maxilares estavam de tal forma apertados que a pena não pôde passar. Barrois passava por um ataque nervoso ainda mais intenso do que o primeiro. Escorregara do canapé para o chão e retesava-se no chão. O médico deixou-o entregue ao novo acesso, para o qual não dispunha de qualquer alívio, e aproximou-se de Noirtier. - Como se sente? - perguntou-lhe precipitadamente e em voz baixa. - Bem? - Sim. - Leve de estômago ou pesado? Leve? - Sim. - Como quando toma a pílula que lhe mando dar todos os domingos? - Sim. - Foi Barrois quem fez a sua limonada? - Foi. - Foi o senhor que o convidou a bebê-la? - Não. - Foi o Sr. de Villefort? - Não. - A senhora? - Não. - Então foi Valentine? - Foi. Um suspiro de Barrois, um bocejo que lhe fez estalar os ossos do maxilar, chamaram a atenção de Avrigny, que deixou o Sr. Noirtier e correu para junto do doente. - Barrois, pode falar? - perguntou-lhe o médico. Barrois balbuciou algumas palavras ininteligíveis. - Faça um esforço, meu amigo. Barrois abriu os olhos injetados de sangue. - Quem fez a limonada? - Eu. - Trouxe-a ao seu patrão assim que a fez? - Não. - Deixou-a em algum lugar, então? - Na copa. Chamavam-me. - Quem a trouxe para aqui? - Mademoiselle Valentine. Avrigny bateu na testa. - Oh, meu Deus, meu Deus! - murmurou. - Doutor! Doutor! - gritou Barrois, que sentia vir terceiro acesso. - Mas nunca mais trazem esse vomitório?! - gritou o médico. - Aqui está um copo preparado - disse Villefort entrando. - Por quem? - Pelo ajudante de farmacêutico, que veio comigo. - Beba. - Impossível, doutor, é demasiado tarde! Sinto a garganta apertada sufoco! Ai o meu coração! Ai a minha cabeça! Oh, que inferno! Ainda terei de sofrer muito tempo assim? - Não, não, meu amigo - tranquilizou-o o médico. - Em breve deixará de sofrer. - Ah, compreendo! - gritou o infeliz. - Meu Deus, tende piedade de mim. E, soltando um grito, caiu para trás como que fulminado. Avrigny pôs-lhe a mão no coração e aproximou-lhe um espelho dos lábios. - Então? - perguntou Villefort. - Vá dizer na cozinha que me tragam sem demora xarope de violetas. Villefort desceu imediatamente. - Não se assuste, Sr. Noirtier - disse Avrigny. - Vou levar o doente para outro quarto a fim de sangrá-lo. Na verdade, este tipo de ataques são um espetáculo horrível de ver. E segurando Barrois por baixo dos braços, arrastou-o para um quarto contíguo. Mas quase imediatamente regressou ao de Noirtier para se apoderar do resto da limonada. Noirtier fechava o olho direito. - Valentine, não é? Quer Valentine? Vou dizer que a mandem. Villefort subiu. Avrigny encontrou-o no corredor. - Então? - perguntou o magistrado. - Venha - convidou-o Avrigny. E levou-o para o quarto. - Continua sem sentidos? - perguntou o procurador régio. - Está morto. Villefort recuou três passos e juntou as mãos mais altas do que a cabeça, numa inequívoca prova de comiseração. - Morreu tão rapidamente... - disse, olhando o cadáver. - Sim, demasiado rapidamente, não é verdade? - confirmou Avrigny. - Mas isso não o deve surpreender: o Sr. e a Sra de Saint-Méran também morreram rapidamente. Oh, morre-se depressa na sua casa, Sr. de Villefort!... - Que diz?! - exclamou o magistrado, com horror e consternação. - Volta outra vez a essa idéia terrível? - Sempre, senhor, sempre! - respondeu Avrigny solenemente. - Porque ela não me deixa um instante. E para que fique bem convencido de que desta vez não me engano, escute com atenção, Sr. de Villefort. Villefort, tremia convulsivamente. - Há um veneno que mata quase sem deixar vestígios. Conheço bem esse veneno: estudei-o em todos os acidentes que ocasiona, em todos os fenômenos que produz. Esse veneno reconheci-o há pouco no pobre Barrois, como já o reconhecera na Sra de Saint-Méran. Há uma maneira de reconhecer a presença desse veneno: restabelece a cor azul do papel-de-tornassol avermelhado por um ácido e tinge de verde o xarope de violetas. Não temos papel-de-tornassol, mas veja, trazem-me ai o xarope de violetas que pedi. Com efeito, ouviam-se passos no corredor. O médico entreabriu a porta, pegou das mãos da criada de quarto um recipiente no fundo do qual havia duas ou três colheres de xarope e voltou a fechar a porta. - Veja - disse ao procurador régio, cujo coração batia com tanta força que quase se podia ouvir --, temos nesta taça xarope de violetas e nesta garrafa o resto da limonada de que o Sr. Noirtier e Barrois beberam uma parte. Se a limonada for pura e inofensiva, o xarope conservará a sua cor; se a limonada estiver envenenada, o xarope se tornará verde. Veja! O médico deitou lentamente algumas gotas de limonada da garrafa na taça, no fundo da qual se formou imediatamente uma nuvem. Essa nuvem tomou primeiro um tom azulado; depois, do safira passou à opala, e do opala ao esmeralda. Chegada a esta última cor, fixou-se nela, por assim dizer. A experiência não deixava nenhuma dúvida. - O infeliz Barrois foi envenenado com falsa-angustura e noz-de-santoinácio - declarou Avrigny. - Agora, o juraria perante os homens e perante Deus. Villefort não disse nada, mas ergueu os braços ao céu, abriu muito os olhos e caiu fulminado numa poltrona. Capítulo LXXX A acusação O Sr. de Avrigny não tardou a chamar a si o magistrado, que parecia um segundo cadáver naquele quarto fúnebre. - Oh, a morte instalou-se em minha casa! - exclamou Villefort. - Diga antes o crime - corrigiu o médico. - Sr. de Avrigny, não posso exprimir-lhe tudo o que se passa em mim neste momento - confessou Villefort. - É terror, é dor, é loucura. - Sim - respondeu o Sr. de Avrigny, com uma calma impressionante. - Mas creio ser tempo de agirmos, de opormos um dique a esta torrente de mortalidade. Quanto a mim, sinto-me incapaz de levar mais longe semelhantes segredos, sem esperança de proporcionarem em breve a vingança que a sociedade e as vítimas exigem. Villefort lançou à sua volta um olhar sombrio. - Na minha casa - murmurou. - Na minha casa! - Então, magistrado, seja homem - aconselhou Avrigny. - Interprete a lei, honre-se através de uma imolação completa. - Faz-me estremecer, doutor, uma imolação! - Foi o que disse. - Desconfia portanto de alguém? - Não desconfio de ninguém. A morte bate à sua porta, entra, sai, não cega, mas sim inteligentemente, vai de quarto em quarto... Bom, sigo os seus passos, reconheço a sua passagem, e adoto a sabedoria dos antigos: tateio. Porque a minha amizade pela sua família e o meu respeito pelo senhor são duas vendas aplicadas aos meus olhos. Pois bem... - Oh, fale, fale, doutor! Terei coragem. - Pois bem, senhor, tem em sua casa, no seio da sua casa, talvez da sua família, um desses horríveis fenômenos que só se nos deparam uma vez em cada século. Locusta e Agripina, que viveram na mesma época, são uma exceção que prova o furor da Providência em perder o Império Romano, conspurcado por tantos crimes. Brunilde e Fredegonda são os resultados do trabalho penoso de uma civilização na sua gênese, na qual o Homem aprendia a dominar o espírito, ainda que através do enviado das trevas. Bom, todas essas mulheres tinham sido ou eram ainda jovens e belas. Vira-se florir na fronte ou na sua fronte floria ainda essa mesma flor de inocência que se encontra também na fronte da culpada que se encontra nesta casa. Villefort soltou um grito, juntou as mãos e fitou o médico com ar suplicante. Mas este prosseguiu sem piedade: - Procure a quem o crime aproveita, diz um axioma de jurisprudência... - Doutor! - gritou Villefort. - Infelizmente, doutor, quantas vezes a justiça dos homens se não tem enganado com essas palavras funestas! Não sei, mas pareceme que esse crime ... - Ah, confessa portanto, finalmente, que existe crime? ... - Sim, reconheço. Que quer, não tenho outro remédio... Mas deixe-me continuar. Parece-me, repito, que esse crime cai apenas sobre mim e não sobre as vítimas. Suspeito de qualquer calamidade para mim debaixo de todos esses crimes estranhos... - Oh, o Homem!... - murmurou Avrigny. - O mais egoísta de todos os animais, a mais pessoal de todas as criaturas, que julga sempre que a Terra gira, que o Sol brilha e que a morte ceifa apenas para ele, formiga que amaldiçoa Deus do cimo de uma ervinha! E os que perderam a vida, não perderam nada? O Sr. de Saint-Méran, a Sra de Saint-Méran, o Sr. Noirtier... - Como, o Sr. Noirtier? - Sim, sim! Julga porventura que era o pobre criado que se pretendia envenenar? Não, não. Como o polaco de Shakespeare, morreu por outro. Era Noirtier quem devia beber a limonada; foi Noirtier quem a bebeu, segundo a ordem lógica das coisas. O outro só a bebeu por acidente. E embora tenha sido Barrois quem morreu, era Noirtier quem devia morrer. - Mas então por que motivo não sucumbiu o meu pai? - Disse uma noite no jardim, depois da morte da Sra de Saint-Méran: porque o seu corpo está habituado a absorver esse mesmo veneno; porque a dose, insignificante para ele, era mortal para qualquer outro; porque, finalmente, ninguém sabe, nem mesmo o assassino, que há um ano trato com brucina a paralisia do Sr. Noirtier, embora o assassino não ignore, e disso se tenha assegurado por experiência própria, que a brucina é um veneno violento. - Meu Deus! Meu Deus! - murmurou Villefort, torcendo as mãos. - Siga os passos do criminoso: mata o Sr. de Saint-Méran. - Oh, doutor! - Eu juraria. O que me disseram dos sintomas adapta-se muitíssimo bem ao que vi com os meus olhos. Villefort deixou de resistir e gemeu. - Mata o Sr. de Saint-Méran - repetiu o médico -- e mata a Sra de Saint- Méran: dupla herança a receber. Villefort limpou o suor que lhe escorria da testa. - Escute bem. - Infelizmente, não perco uma palavra do que diz, uma só - balbuciou Villefort. - O Sr. Noirtier - prosseguiu implacavelmente o Sr. de Avrigny --, o Sr. Noirtier testara recentemente contra o senhor, contra a sua família, a favor dos pobres, enfim. O Sr. Noirtier é poupado porque se não espera nada dele. Mas assim que destrói o primeiro testamento, assim que faz o segundo, com medo, sem dúvida, de que faça um terceiro, atacam-no. O testamento é de anteontem, se não me engano. Como vê, não há tempo perdido. - Misericórdia, Sr. de Avrigny! - Qual misericórdia, senhor! O médico tem uma missão sagrada na Terra e é para a desempenhar que remonta às origens da vida e desce às trevas misteriosas da morte. Quando se comete um crime e Deus, sem dúvida horrorizado, desvia o olhar do criminoso, é ao médico que compete dizer: ei-lo! - Piedade para a minha filha, senhor! - murmurou Villefort. - Como vê, foi o senhor mesmo que a citou; o senhor, seu pai! - Piedade para Valentine! Escute, é impossível. Preferiria acusar a mim mesmo! Valentine, um coração de diamante, um lírio inocente! - Deixemos de piedade, Sr. Procurador régio. O crime é flagrante. Mademoiselle de Villefort acondicionou pessoalmente os medicamentos enviados ao Sr. de Saint-Méran, e o Sr. de Saint-Méran. morreu. "Mademoiselle de Villefort preparou o suco da Sra de Saint-Méran , e a Sra de Saint-Méran morreu. "Mademoiselle de Villefort tomou as mãos de Barrois, a quem mandaram fazer um recado, a garrafa de limonada que o velho bebe habitualmente de manhã, e o velho só escapou por milagre. "Mademoiselle de Villefort é a culpada! É a envenenadora! Sr. Procurador régio, denuncio-lhe Mademoiselle de Villefort, cumpra o seu dever! - Doutor, já não resisto, já não me defendo, acredito-o. Mas, por piedade, poupe-me a vida, a minha honra! - Sr. de Villefort - perguntou o médico, com crescente energia -, há circunstâncias em que transponho todos os limites da estúpida circunspecção humana. Se a sua filha tivesse cometido apenas um crime e a visse projetar segundo, lhe diria: “Previna-a, castigue-a, que passe o resto da vida em qualquer convento, a chorando e a rezando." Se tivesse cometido segundo crime, lhe diria: “Tome, Sr. de Villefort, aqui tem um veneno sem antídoto conhecido, rápido como o pensamento, súbito como o relâmpago, mortal como o raio; dê-lhe, encomendelhe a alma a Deus e salve a sua honra e os seus dias, porque é ao senhor que ela quer mal. E vejo-a aproximar-se da sua cabeceira com os seus sorrisos hipócritas e as suas meigas exortações! Ai de si, Sr. de Villefort, se não se apressar a ferir primeiro!" Seria isto que lhe diria se ela só tivesse matado duas pessoas. Mas ela assistiu a três agonias, contemplou três moribundos, ajoelhou-se junto de três cadáveres. Ao carrasco a envenenadora! Ao carrasco! Fala da sua honra; faça o que lhe digo e esperará a imortalidade! Villefort caiu de joelhos. - Ouça - pediu --, não possuo a força que o senhor tem, ou antes, que não teria, se em vez da minha filha Valentine, se tratasse da sua filha Madeleine. O médico empalideceu. - Doutor, todo o homem, filho da mulher, nasceu para sofrer e morrer. Doutor, sofrerei e esperarei a morte. - Acautele-se - disse o Sr. de Avrigny. - Ela será lenta essa morte; a vera aproximar-se, depois de ferir o seu pai, a sua mulher, talvez o seu filho. Sufocado, Villefort apertou o braço do médico. - Ouça-me! - gritou. - Tenha compaixão de mim, ajude-me!... Não, a minha filha não é culpada... Se me levarem perante um tribunal, continuarei a dizer - “Não, a minha filha não é culpada... não existe crime em minha casa..." Não quero, ouviu? Não quero que haja crime em minha casa. Porque quando o crime entra em qualquer parte, é como a morte, não entra sozinho. Ouça, que lhe interessa que eu morra assassinado?... É meu amigo? ... É um homem? Tem um oração?... Não, é um médico! ... Pois bem, digo-lhe que a minha filha não será arrastada por mim para as mãos do carrasco!... Ah, uma idéia que me devora, que me leva, como um insensato, a arranhar o peito com as unhas!... E se estivesse enganado, doutor? Se fosse outra pessoa e não a minha filha? Se um dia eu lhe aparecesse, pálido como um fantasma, e lhe dissesse: “Assassino! Mataste a minha filha!... " Olhe, se isso acontecesse, sou cristão, Sr. de Avrigny, mas mesmo assim me mataria. - Está bem, esperarei - cedeu o médico, após um instante de silêncio. Villefort olhou-o como se duvidasse ainda das suas palavras. - Simplesmente - continuou o Sr. de Avrigny em voz lenta e solene -, se alguma pessoa da sua casa adoecer, se o senhor mesmo se sentir mal, não me chame porque não voltarei. Estou disposto a compartilhar consigo esse segredo terrível, mas não quero que a vergonha e o remorso entrem em minha casa, frutifiquem e cresçam na minha consciência, tal como o crime e a infelicidade vão crescer e frutificar na sua casa. - Me abandona, portanto, doutor? - Abandono porque não o posso acompanhar mais longe e só me detenho ao pé do cadafalso. Surgirá qualquer outra revelação que porá termo a essa horrível tragédia. Adeus. - Doutor, suplico-lhe! - Todos os horrores que conspurcam o meu pensamento tornam-me a sua casa odiosa e fatal. Adeus, senhor. - Uma palavra, só mais uma palavra, doutor! O senhor retira-se deixandome todo o horror da situação, horror que aumentou com o que me revelou. Mas que se dirá da morte instantânea, súbita, daquele pobre velho servidor? - É justo - disse o Sr. de Avrigny. - Acompanhe-me. O médico saiu adiante e o Sr. de Villefort seguiu-o. Os criados, inquietos, estavam nos corredores e nas escadas por onde devia passar o médico. - Senhor - disse Avrigny a Villefort, falando em voz alta, de forma que toda a gente o ouvisse --, o pobre Barrois há anos que levava urna vida demasiado sedentária. Ele, que tanto gostava de, com o amo, percorrer a cavalo ou de carruagem os quatro cantos da Europa, matou-se naquele serviço monótono à volta de uma cadeira de rodas. O sangue engrossou-lhe. Estava repleto, tinha o pescoço grosso e curto, foi atingido por uma apoplexia fulminante e chamaram-me demasiado tarde. A propósito - acrescentou baixinho -, não se esqueça de deitar a taça de violetas nas cinzas... E o médico, sem tocar na mão de Villefort e sem voltar atrás um só instante no que dissera, saiu escoltado pelas lágrimas e pelos lamentos de todo o pessoal da casa. Naquela mesma tarde, todos os criados de Villefort, que se tinham reunido na cozinha e haviam conversado demoradamente entre si, vieram pedir à Sra de Villefort licença para se irem embora. Nenhuma insistência, nenhuma proposta de aumento de salários conseguiu retê-los. A todas as palavras respondiam: “Queremos ir-nos embora porque a morte está nesta casa." Partiram, portanto, apesar de todos os pedidos que lhes fizeram, declarando que tinham muita pena de deixar tão bons patrões e sobretudo Mademoiselle Valentine, tão boa, tão generosa e tão meiga. Ao ouvir estas palavras, Villefort olhou para Valentine. Ela chorava. Coisa estranha! Através da emoção que lhe fizeram experimentar aquelas lágrimas, olhou também para a Sra de Villefort e pareceu-lhe que um sorriso fugaz e sombrio lhe passara pelos lábios delgados, como esses meteoros que vemos deslizar, sinistros, entre duas nuvens, no fundo de um céu tempestuoso.

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